13 -   Educação da mente Valete nasceu em 1981 em Lisboa e em 2003 lançou um disco que causou um grande  impacto na cena do hip-ho...

COM HIP-HOP NA CONSCIÊNCIA: Os ritmos interventivos e existencialistas (PARTE 2)

13 - Educação da mente


Valete nasceu em 1981 em Lisboa e em 2003 lançou um disco que causou um grande impacto na cena do hip-hop nacional. Foi com EDUCAÇÃO VISUAL que apresentou um hip-hop puro e duro mas também bastante consciente. O disco reúne 14 registos. Em A Noite narra-se num flow confiante, como a vida e sociedade se transfigura quando a noite cai. Os vícios, violência e crime amplificam-se. É um quadro social, tingido em versos que se tornam imagéticos pela qualidade da narração.
Liricistas tem a colaboração de Adamastor. É uma colaboração forte em que o flow de cada um respeita o espaço um do outro. Os beats são eficazes e há uma camada de guitarra que ocupa o espaço e que podia muito bem ser o início de uma canção blues. Fala-se e discorre-se sem papas na língua sobre a verdade do rap. Um que não necessita de fotógrafos desesperados por tirar fotos para registar uma pseudo imagem de celebridade. Celebridade e fama são postos de lado. O importante é a palavra que rodeada de contextos sociais e disposta em rimas transmite verdades.

A tua mente cega
Não percebe esta mente aberta
Tu és rapper de ginásio
Eu sou rapper de biblioteca

Em Beleza Artificial, assim como o nome indica, é feita uma crítica aberta e rimada à predominância da aparência física sob o intelecto. Cabeças vazias assentes em corpos esbeltos. É como abrir um presente bonito e ansiar por algo que desejas mas afinal deparas-te com um par de meias.
Nada a Perder é um retrato dos bairros sociais que tenta consciencializar o ouvinte acerca da segregação social que, naturalmente, gera violência e crime. Há que analisar as causas antes de ceder aos preconceitos dos efeitos.
Há outra vez uma crítica ao estado do rap que muitas vezes cede à artificialidade do mainstream. É uma mensagem do underground, onde muitas vezes, se encontra a verdade.

A voz é uma arma
Vocês nunca vão ter cadastro
Rimador de rastos, musicólogo nefasto
És pai dos teus beats, mas eles chamam-te padrasto

Há espaço para algum soul atmosférico em Mulher que Deus Amou que deixa que o flow de Valete flutue numa viagem de rimas. É uma música de amor. Uma mulher que não precisa de estar disposta num pedestal para ser deusa ou diva. É talvez uma musa, figura formosa mas envolta em mistério e inteligência que seduziu e inspirou poetas, músicos e todos aqueles e aquelas que ousam amar de forma perigosa. Como a mulher ideal de Petrarca, Laura, com quem teve pouco contacto pessoal mas que imortalizou em poemas. Era modesta e digna mas capaz de suscitar e canalizar inspiração para versos de amor. Há em cada artista a sombra de uma musa.
Chegou a Hora é um tema que eleva a cultura hip-hop que contém um refrão cativante.
Ser ou Não Ser é uma música que sublinha o pensamento e identidade própria.


SERVIÇO PÚBLICO é editado em 2006 e chega com líricas mais demarcadas politicamente. O tema que dá nome ao disco é carregado de mensagens políticas e sociais.

Vocês ultrajam gays
É de serem machos que se gabam
Mas de quatro em quatro anos
Votam naqueles que vos enrabam

Em Revelação, temos uma mensagem directa ao divino. Ao criador. Alguma revolta persiste na procura de respostas. E faz lembrar o tema Dear God dos XTC, não pela melodia (claro) mas pela tentativa de comunicação e diálogo com um ente criador.
O tema Pela Música é constituído por duas partes. A primeira uma crítica à falta de exigência musical e de ouvido da maior parte do público. É essencialmente na segunda parte que se faz uma crítica acérrima à falta de qualidade dos critérios das editoras.
Subúrbios é uma tema que toca na ferida. É uma letra que invoca a desesperança que reina em certos bairros dos subúrbios. Uma suburbia dominada pelas drogas, crime e doença.

Subúrbios
Onde Deus nunca passou
Onde a policia espancou e assassinou
Onde o meu povo lagrimou e ripostou
Onde o meu flow escureceu e congelou

É uma música que merece ser escutada mais do que uma vez. É em Monogamia que se faz um verdadeiro elogio e canção de amor à Liberdade.
E em Anti-herói é discorrido em flow a menção de inúmeras personalidades políticas e culturais da resistência.

Esse é o grito
Desse mundo que chora e implora pela justiça dos homens
Porque já viram
Que Deus não acorda

É assim que termina um disco rico em retratos sociais, mensagens politizadas e de consciência social. Valete com as suas rimas e flow transmitiu imagens em que vale a pena reflectir.

14 - Parábolas em rima


Allen Halloween nasceu em 1980 na Guiné-Bissau. E foi em 2011 que editou ÁRVORE KRIMINAL, um disco que reúne 13 temas fortes, tanto liricamente quanto melodicamente. O primeiro tema, O Convite, espraia-se em guitarras relaxadas que acompanham o flow de Allen Halloween, que ora canta, ora discursa. É uma mistura interessante de rock e batidas. Aleluia a ressurreição do Kriminal tem um flow que combina o mundo espiritual com o secular. Há preocupação com as armas dos inimigos. Mas a verdade já foi escrita há muito tempo.

A ti, Senhor, Elevo a minha alma.
Em ti confio, ó meu Deus. 
Não deixes que eu seja humilhado
nem que os meus inimigos triunfem sobre mim! 
Nenhum dos que esperam em ti ficará decepcionado;
Decepcionados ficarão aqueles que, sem motivo, agem traiçoeiramente. 
Salmos 25:1-3

Drunfos é um dos temas mais fortes do disco. Beats que se combinam com uma atmosfera soturna que se ilumina por breves momentos. O Grande Gentio é um tema que denuncia várias hipocrisias e os seus agentes, tais como infiltrados fascistas que sobreviveram a fase da pós-revolução e que como verdadeiros troca-tintas debitaram ideias democráticos em que nunca acreditaram. Um bom exemplo deste tipo de espécie foi descrito em Coca-Cola Killer pelo Maestro Vitorino De Almeida.

Histórias de embalar, de anos a navegar,
mas as águas não lavaram as mãos dos heróis do mar.
Fuck quem me fez, foi o estado português,
Sanhá é o nome do escravo que fugiu de vez.
O olho que tudo vê, não me viu,
rasguei a carta da alforria e atravessei o rio.

É um flow desembaraçado e enérgico em que brotam críticas ferozes a várias instituições, como por exemplo, a Igreja Católica. Esta ferocidade dá lugar a uma certa melancolia que com carácter introspectivo em parte confessional Allen Halloween descreve a vida nas ruas do bairro. É em Ódio que vemos essas mesmas ruas minadas pelo desespero, apatia e a agressividade daqueles que optaram pelo dinheiro fácil através da venda de drogas e outras coisas mais.
Esta toada melancólica progride a atinge ponto alto em Debaixo da Ponte em que acompanhado pelos acordes dedilhados de uma guitarra, Allen Halloween amaina o flow e opta por um registo de quase recitação cantada de um poema.
Em Redenção (outro), o tema que fecha o disco, há samples de western spaghetti que acompanham o debitar de versos de Allen Halloween em jeito de súplica activa.

Pai nosso que estas no céu
Santificado seja o teu nome
Deus perdoa-me
Eu sei que tenho feito muita merda
Todo o homem erra
Na terra da miséria e da inveja
O mundo não tem sido bom para mim
Nem o pão que o diabo amassou eu comi
Tenho ando triste e encurvado
Maioria dos dias anestesiado
Mas nada me fará te renunciar
Eu te seguirei até me chamares
Os meu inimigos tornaram-se fortes e muitos
Conspirando e esperando o meu descuido
Dá-me forças para eu não vacilar
Quando a minha hora chegar


Em 2015 seguiu-se HÍBRIDO. Arranca de forma melancólica com Bandido Velho que contém interlúdios muito interessantes de instrumental que conferem ao tema uma certa ambiência onírica, amplificada de certa forma, pelo refrão.

Ninguém ouve,
Ninguém ouve, irmão

Rap de rua, tem uma certa atmosfera do sub-género Horrorcore, mas as palavras debitadas são para legitimizar o hip-hop e coloca-lo onde ele pertence, nas ruas.
Há espaço para uma auto-biografia em verso no tema Youth. Revitaliza-se a crença e a ligação com o divino, com o que não é terreno nem carnal. Posso estar no mundo mas não sou do mundo como já foi escrito.

Eu lhes tenho transmitido a tua Palavra, e o mundo os odiou, porque eles não pertencem ao mundo, como Eu não sou do mundo.
João 17:14

Existe uma procura pelo “caminho”. E a dificuldade de por vezes continuar nele. Esta necessidade de aclarar as ideias, alimentar a alma e rejeitar o que é material, carnal e frívolo continua em Zé Maluco. Uma letra que foi inspirada na parábola dos dois caminhos de Jesus aquando do sermão do monte.

Em Zé Maluco o narrador encontra uma figura de um velho que carrega em si a sabedoria dos anos e das experiências. Avisa o narrador para não seguir pelo caminho largo mas este segue-o na mesma. É um caminho largo, aparentemente mais prazenteiro que o caminho estreito. Mas ao contrário do caminho estreito, este caminho largo não leva a lado algum. Leva apenas à perdição, a distracções materiais que em nada acrescentam à alma ou à mente.

Jesus alerta-nos para a necessidade de entrar pela porta estreita, pois é a única maneira de alcançar a justiça superior, uma que não depende dos fariseus. Uma porta que faz renascer e é só através desse novo nascimento que se alcança a salvação. Uma que nos liberta da semente corruptível que Adão nos legou.
Em Jesus Loves me existe a continuação da crença. É feito um paralelismo entre a vida difícil do gueto que vitimiza muitos, tanto através do uso de drogas como do crime e a escolha de um caminho justo e espiritual que abdica do crime.

Um dia um velho do gueto
disse-me uma cena
Jovem o crime não compensa
Ya eu ouvi e respondi
Mas o nigga faz o nigga tenta
Corre atrás do problema ou morre escravo do sistema
Queres seguir um homem segue Jesus Christ
Puto não me sigas a mim
Só os estúpidos sonham com a sorte de crescer na street
No meio de thugs G's

Marmita Boy é um tema que com acompanhamento melódico de piano e instrumentais atmosféricos dão o mote para as esperanças ou falta delas de um jovem africano em Portugal. A falta de escolhas. As escolhas entre voltar ao gang ou como a mãe do jovem aconselha, encontrar o seu lugar, afastado do crime. Mas mesmo esse lugar é frio e gelado como a marmita que segura nas mãos.

Jovem africano d'um bairro social
Quais são as suas chances,
mano em Portugal
Um emprego da merda, já era fixe
Pegar numa prima e ser feliz
Passar toda a tua vida ouvindo engolindo
Apanhar bebedeiras de segunda a domingo
Apanhar o autocarro a caminho do trabalho
Meio a dormir meio acordado
Marmita gelada no saco, os dedos congelados

A revolta retorna em Bairro Black com participações de General D e Buts Mc. Usa metáforas e rimas para descrever a opressão que reina nos bairros sociais, operados pela polícia e pelo Estado português. A injustiça e abuso de poder de que são vítimas algumas pessoas, inocentes e trabalhadoras.

Há espaço para o experimentalismo em Gangsta Junkie com o uso de beats e de melodias que destoam um pouco das anteriores, denotando algum interesse pela exploração e de testar os limites de outro tipo de sonoridade.
Esta inclinação é expressa em O Rei da Ala que inicia com riffs reminiscentes de grunge e que acompanha a música até ao seu final. É uma música que explora melodicamente as fronteiras impostas pelo género musical, transpondo-as com genialidade.

Fronteiras atravessadas e genialidade exposta, chega-se ao ponto alto do disco em Mr. Bullying. Expõe em camadas sonoras, narrativa certeira em rima e momentos atmosféricos brilhantes, a realidade dupla de quem padece de esquizofrenia. É um registo magnífico e um dos temas mais fortes do disco que merece bastantes audições. A narrativa de uma vida tecida na escuridão.

Passamos da escuridão para uma paisagem com algumas brechas de luz em Livre-arbítrio. Apesar de como nos temas anteriores retratar uma realidade dura e difícil, são nos dados alguns vislumbres de esperança e de confiança no livre-arbítrio humano.
O disco encerra com o tema bónus O Último Mundo que conta com muitas colaborações tais como de Kapataz, Krazye Loko, Kosmikilla, Bottle, Landin, J.Cap, Prophecy, Kinous. É um tema pesado em que o flow dos vários músicos é posto à prova e em que são desfloradas imagens, motes e rimas que empoderam o underground do hip-hop.
É um disco variado em termos melódicos e que assenta em rimas que retratam histórias de vida difíceis. Havendo sempre uma boa dose de consciência e crítica social.

15 - Império rimado

Fotografia por Joana R. Gomes & Rafael Correia

Russa é uma das vozes mais recentes do hip-hop português. Depois de ter editado uma demo de cariz bastante DIY, pisou o terreno com pé firme com o seu disco de estreia, CATARSE , editado este ano (2018) pela Kimahera. O flow de consciência brota límpido, claro e sincero através dos treze temas do disco. É uma consciência introspectiva, ciente dos sentimentos que habitam num coração ainda jovem mas capaz de reconhecer os caminhos e paixões que se revelam desilusões. Há também uma raiva que se tenta conter mas que é libertada em Eu só Segui em Frente. Uma música cuja letra expurga os demónios de uma relação ou amor que acabou falhado. Um desamor que é transmutado numa carta aberta rimada para quem deixou a traição plantada no caminho.

As rimas assumem uma postura combativa em Bully. O sentimento de resistência é encorajado, face aos que tentam rebaixar e oprimir, aqueles que na sua visão distorcida consideram ser mais fracos. Oferece um grito de emancipação para todos aqueles que sofreram e sofrem nas mãos de bullies. Mas a vida dá muitas voltas e quem está em baixo, pode dar por si no topo da montanha.
Sufoco é um potente stream of consciouness que abre as portas da alma, revelando o negrume dos momentos em que não se vê ou sente esperança no presente e que o próprio conceito de futuro é inimaginável.

Fotografia por Katia Shipulina

Entre Lisboa e Londres, foi uma das primeiras músicas que Russa lançou e do qual foi feito um teledisco. Narra uma história de amor de génese supostamente proibida e que é tornado ainda mais inalcançável pela distância geográfica. No entanto, quando há vontade, há sempre maneira.

Imperatriz é um autêntico hino que reflecte esse mesmo mote, de que quando há vontade, podem alcançar-se coisas que pensávamos ser apenas fruto da nossa imaginação mas que com persistência e trabalho podemos tornar realidade. O teledisco realizado para esta música, demonstra bem essa mesma vontade, a capacidade de luta e resiliência.
Rude e Fria é o tema que encerra o disco. Os beats são gélidos mas complementam o debitar acalorado, consistente e forte de rimas que traçam um retrato de personalidade forte que constrói o seu caminho, imune a haters e opiniões ausentes de construtivismo.
É um disco de estreia que se revela ora gélido, ora muito quente mas que não tem medo de expor sentimentos transpostos em rimas. Há terreno explorado nos campos das memórias afectivas e, é dessa forma, que o nome do disco, CATARSE, aplica-se totalmente.

16 - Mensageiro de rimas

ESTRACA X MADKUTZ

Estraca nasceu em 1997 no Lumiar. Iniciou-se bem cedo no hip-hop e foi crescendo como liricista e músico. A sua primeira mixtape, intitulada HISTÓRIAS, foi lançada em 2014 e foi uma prova dada que a partir daí, só poderia evoluir ainda mais. A mixtape é composta por seis temas, demarcados pela habilidade que Estraca possui de contar histórias em rimas fluídas. 

Em Alma conta-se a história de uma mulher envolvida nas teias da violência doméstica. É usado o fado como interlúdio musical que ajuda a construir a atmosfera de desolação e angústia do que é narrado. É com Perdido que se envereda por um caminho mais experimental melodicamente mas onde também é usado o fado para pintar o retrato de uma desolação soturna de uma vida consumida pelo abuso de drogas. Realidades que a sociedade tenta muitas vezes escamotear ou encobrir. Há nas rimas uma forte dose de consciência social e de uma realidade trágica de quem não consegue livrar-se de uma dependência. Em Juntos narra-se uma história de amor na primeira pessoa. Um amor que resiste e se fortifica, face à doença. Esta apetência para contar histórias que transmitem sempre uma mensagem, uniu-se a uma forte capacidade de crítica social, por vezes, politizada.

Em Sociedade descreve uma realidade social marcada pelo comodismo, ignorância e corrupção através de uma rima sempre fluente e eloquente. 
É um tema assumidamente interventivo que se inicia com parte de um poema de Almada Negreiros, A Cena do ÓdioO tema vive de rimas bem conseguidas e tinge-se de significado no refrão.

É a sociedade da mentira e da corrupção
É a sociedade formatada pela televisão
É a sociedade numa constante degradação
Portugal, meu Portugal 
A terra da assombração 

É um retrato cinzento de uma sociedade e de um país que se revela legitimo ao escutar o tema Subúrbios. É uma música que reflecte a realidade de quem tem poucas escolhas.

Isto é rotina nos subúrbios
Onde o rico nunca pisa
Onde o pobre tem pouca escolha
Isto é rotina nos subúrbios
Onde o diabo vive
E passa para fazer recolha

Um dos manifestos mais politizados e com uma mensagem forte é expresso em Suicídio Político. São tacados temas como a influência política e económica da maçonaria, a corrupção flagrante de alguns políticos e a reafirmação da necessidade de consciência e cultura.

Esta consciência política de inclinação interventiva continua em Planeta Novo onde é feito um apelo para que o povo lute, deixe de ser apático e participe na construção de um mundo novo.
É feito mais um apelo à consciencialização na música e da propagação do rap com mensagem e conteúdo. Em Perspectiva soma-se mais um manifesto.

Tu querias e merecias
sentias o que fazias
Mas rap com conteúdo só abrange as minorias
Ontem eram terapias, rimas e melodias
Hoje é música vazia feita para mentes vazias
Só rimas pouco originais, todos com cara de mau e com vidas ilegais
No rap a competir para ver quem vende mais
Iludindo a pitalhada para tocar em festivais

Estraca tem apenas vinte anos de idade mas demonstra uma clara capacidade para transmitir mensagens conscientes e maduras. É uma voz activa e que traz frescura ao mundo do hip-hop consciencioso português.

17 - O peso do intelecto

Fotografia por João Varela

Nerve iniciou-se em 2006 com o lançamento EP/Mixtape, PROMOÇÃO BARATA que reúne sete temas. A entrega de versos é feita a um ritmo preciso e certeiro. Persiste variedade e imprevisibilidade nas melodias. Em Autocarro do Inferno é narrada uma jornada interminável dentro de um autocarro. É descrito um imaginário visual com alguns toques humorísticos. Humor esse que é tingido de sarcasmo e ironia em À conversa com… Foi em 2008 que editou o disco de estreia EU NÃO DAS PALAVRAS TROCO A ORDEM.

O primeiro tema é bastante variado em termos de melodia que acompanha os altos e baixos do discorrer de palavras. Há uma enorme expressividade contida nos versos e há laivos de surrealismo, fazendo lembrar um pouco a escrita automática, só que mantém-se um contexto e passa-se uma mensagem, ou várias.

Sacana Nervoso é um tema que se inicia com um sample de blues e que carrega a atmosfera de uma história, ou character study, de um auto-proclamado sacana nervoso que se vê envolvido numa trama que tem traços de film-noir.
São descritas relações familiares em Semente do Mal e outras de ordem mais romântica como em Pedragelo. É em Alter Ego que a criatividade é explorada de forma acesa e com grande riqueza narrativa.

É um disco que trouxe novas cores e frescura ao espectro do hip-hop mais alternativo. Em 2015 foi editado TRABALHO & CONHAQUE ou A VIDA NÃO PRESTA E NINGUÉM MERECE A TUA CONFIANÇA  que foi recebido calorosamente pelos especialistas.  Se o disco que o precedeu já tinha levantado a fasquia bem alto, este é um disco que partiu a escala (se é que ela ainda se aplicava).

Foto por Fotos de Palco

O tom satírico e irónico continua bem fresco reavivado por uma escrita desenvolta, fluída e inventiva. Criam-se paisagens visuais e dão-se corpo a personagens através de diálogos e desembaraçadas (muito bem humoradas) interpretações vocais.

Viver para trabalhar ou trabalhar para viver, vai quase tudo dar ao mesmo, quando o patrão escraviza e te trata como um número. Tu atinas e deixas que te comam as papas na cabeça, trabalhando mais umas horas extra sem receberes mais trocados ou revoltas-te. É o eterno dilema que surge no tema Trabalho.

Em Monstro Social desenha-se o esqueleto básico e por vezes frágil ou frívolo da socialização. Existe exposição de neuroses, complexos paranóicos que assentam e fazem base de uma alma criativa mas nervosa.
É com sofisticação que se cria a paisagem por vezes rica, por vezes árida de uma relação. Estas paisagens visuais alimentadas pelas palavras, surgem em Nós e Laços. E na qual a metáfora de Pedragelo volta a irromper.
O amor volta a ser tema em Gainsbourg.

Não é propriamente um cisne de mulher mas torna-se progressivamente interessante e eu gosto de boas surpresas. Então, tento a minha sorte, com base na velha crença de que a verdadeira beleza ainda está no descortinar do detalhe. Não estou perto de me lembrar ao certo se a conheço, mas aqui estamos os dois. Eu aplico aquela abordagem clássica do Sr. Mistério, cliché-zóide, persuasivo no palavreado, com o meu trejeito de pseudo-galã desajustado.

As palavras voltam a ganhar altura e densidade. Traçando com criatividade e peso os mecanismos da conquista. Voltamos ao verdadeiro nervo da questão em Subtítulo que conta com trocadilhos e motes poderosos que substanciam a segunda parte do nome do disco.

Nerve, tu não estás em ti. Anda, tem calma, tenta. – Nada faz sentido, nada vale a pena. Eu esclareço esta como se esclarece a uma criança: a vida não presta, ninguém merece a tua confiança. A vida não presta e ninguém merece a tua confiança. A vida não presta e ninguém merece a tua confiança. – Sorri. – Nada faz sentido, nada vale a pena. Nada vale a pena.

Conhaque inicia-se com um sample de uma entrevista a Alfredo Marceneiro.

Porque as letras agora o público
As letras que se cantam
Não interessa
Não interessa porque não sabem apreciar o trabalho do poeta
Até dizem
Ai isto é tão grande!

São com estas palavras que se inicia Conhaque. O Desassossego sentiu-se nas palavras escritas e impressas de Pessoa mas torna-se ainda mais palpável através das palavras de Nerve.

Acendo o próximo cigarro com a ponta deste cigarro e o seguinte com a ponta do próximo. Se tudo correr como planeado, depois disso estou sedado o suficiente para voltar para o ócio. Eu sou o ópio em Pessoa. Isto aqui é fixe e não fatela. Compensa o mal que diz pelo bem que soa. Tão bem que soa. Eu e todos, quem destoa? Sei que estou a morder o isco mas chego à tona vitorioso, como um peixe que voa. A sério, eu ando a desperdiçar papéis de boa qualidade quando devia era estar a escrever na carne aquilo que eu sei de coisas. Oiçam só o Verne que existe em Nerve, o verme do verbo, mero servo. Corvo no meu ombro diz-me: “escreve”. Por detrás da expressão facial drunfada, demência ferve. – Ouve, este gajo deve perder noites nesta merda. – Achas que transparece? Esplêndido.

É um disco que evidencia as neuroses e pensamentos de uma mente criativa. São criadas imagens, paisagens e atmosferas através dos beats, samples mas também do fluxo de palavras. São feitas referências a poetas e comediantes. Traz-se à luz um equilíbrio perfeito entre intelectualidade e introspecção. Foi e continua a ser um dos discos mais marcantes de hip-hop português, tingido por flexões de uma mente curiosa e sequiosa por conhecimento.

18 - Jazz e consciência



Alcool Club nasceu em Sines por volta de 2004. Foi em 2014 que editaram o seu primeiro registo, CLUB 120º . É um trabalho que mistura instrumentais jazz e hip-hop, criando uma atmosfera requintada e sofisticada. Toda a gente se Vendia inicia-se com acordes de piano jazz e depois entra a batida. Com rimas certeiras descrevem a hipocrisia e frivolidade que domina muito do movimento musical português. A classe jazzística continua em Enquanto há quem quer que se desdobra em rimas bem conseguidas.

O dinheiro não é tudo
Mas sem ele estás só
E em casa de traficante
Mulher não limpa o pó

Com pinceladas mordazes, ilustra-se um retrato em rimas de um país dominado por negócios obscuros. São nos temas Quando a minha voz, Poeira de Estrelas e Os meus Direitos que se traçam rimas de enriquecer consciências denunciando a exaltação da mediocridade. Em 2016 lançam RAP PROIBIDO. Em Honesto há mais rimas que apelam à consciencialização. A atmosfera continua com muito chill e jazz mas desprendem-se rimas que tanto tem de intropecção quanto de mentalização social. Se Fugimos à Realidade expressa uma busca incessante pela criação e recriar a realidade tendo por base a imaginação. Mas a imaginação não basta. Há que lutar pelo que queremos e talvez ignorar as barreiras impostas pela mediocridade que é estimulada pela sociedade. Chega-nos O que realmente importa.

Ser real e verdadeiro não interessa
Numa sociedade que idolatra aquilo que não presta
Será que é melhor, transformar água em ouro
Ou vice-versa, consoante a necessidade peça
Eu acho que é pior, por uma vida sem cor não tem sabor
Não conhecerias o amor sem dor
Não há glória na vitória sem suor 

O tema que fecha o disco, Loucos somos todos, traz beats sólidos acompanhados por uma guitarra que se desflora em solos, como se de uma jam se tratasse mas segue sempre as batidas e a lírica. É um disco que volta a representar Alcool Club como um dos colectivos mais interessantes e dinâmicos do hip-hop alternativo do underground português.

19 - Narradora de rimas

Foto de Miguel Refresco

Capicua nasce no Porto em 1982. Em 2012 editou o seu disco homónimo de estreia que causou mossa no meio do hip-hop português. Para além de usar bons beats e samples, dotou os seus temas de poesia que provém de uma caneta que nas suas mãos se torna inspirada. Um dos temas que mais se destaca, Medo do Medo, apresenta uma construção de rimas que não se limita a versos soltos rimados mas que denotam um esquema, uma montagem que foi bastante pensada e bem articulada para criar um contexto forte, pleno de significado social. Talvez fruto dos seus estudos de Sociologia que unidos à arte poética, deram fruto a uma das músicas mais significativas cantadas em português.

Em Sagitário explora-se a narrativa e conta-se uma história. É com traços ternos e suaves que a lírica se desenvolve. A introspecção domina em Hora Certa. O estilo de escrita, corrida, fluída mas que transmite emoções pode muito bem aliar-se ao imaginário escrito de Clarice Lispector. Os Heróis é um autêntico hino de uma geração à rasca com licenciatura mas que tem de se sujeitar a trabalhos fora da sua área e extremamente precários. Tece-se um retrato social certeiro com rimas inteligentes e que oferecem um sentimento de resistência e empoderamento face ao que a sociedade dita.

Esta atmosfera de resistência persiste no tema seguinte, Maria Capaz. Um autêntico manifesto escrito na primeira pessoa mas que se aplica a todas as mulheres que tentam ocupar o seu espaço com consciência e intelecto.
Judas & Dalilas apresenta a fusão perfeita das escritas de Capicua e Nerve que confluem para criar um tema rico, interessante e estimulante. Não só pela crítica sofisticada que faz, criando metáforas bastante visuais assente em algum vocabulário que pisca ao olho ao popular.

O tema A Volta apresenta um beat algo colorido mas que suporta uma lírica intimista de cariz resistente para suportar e ultrapassar as vicissitudes internas e externas. É uma análise madura e um retrato emocional.

Em Terapia de Grupo analisa-se a génese de um país com recurso a referências históricas e que ao mesmo tempo expõe as fragilidades, culpas e neuroses de um povo. É um retrato fiel e inteligente.

Casa no Campo foi um dos temas que teve mais destaque. Solta-se a escrita sonhadora e a tentativa de atingir uma utopia que se torna realidade nas palavras escritas e cantadas.
Mas é na música que conclui o disco, A Última, que Capicua reforça a sua atitude proactiva e critica o panorama da música portuguesa. Havendo um elogio para quem continua a fazer música de qualidade e a fazer uso inteligente da língua portuguesa. Deixa-nos com os versos

A minha religião é auto-superação
Não façam comparação, brilho no escuro
Sou uma num milhão e tenho a ambição
A missão de servir de inspiração para o futuro!

Foto de Miguel Refresco

Promessa feita e cumprida porque depois lançou SEREIA LOUCA em 2014. Assim como o seu antecessor apoia-se numa escrita articulada, consciente, bem pensada assim como sentida, tacando temas importantes da sociedade e revitalizando o papel da mulher na mesma. Não abdica novamente da poesia, escrita e depois falada. Essa poesia sente-se imediatamente no tema de abertura, Lenga.

Já sei de cor os nomes das cores
Mas tenho de aprender mais uns pormenores
Para poder pintar um colar de flores
À volta dos poetas e dos sonhadores
Amor de mim, esse amor nos braços
Não tem um fim esse amor do espaço
Amor de mim, este amor nos braços
Não tem um fim esse amor do espaço

O segundo tema, Sereia Louca, valeu muita rotação. Existe uma interessante ambiguidade entre o título e personagem Sereia Louca com a forma verbal Serei a louca. Existe um hook que predomina e domina o tema que tem o seu quê de hipnotizante e misterioso.

Eu tenho um búzio que me diz coisas estranhas ao ouvido

A toada torna-se mais melancólica em Soldadinho, que inclui o poema de Reinaldo Ferreira, enriquecendo ainda mais uma letra tocante e bem pensada.
A garra retorna no tema, Mão Pesada, tecendo um retrato fiel, talvez com traços autobiográficos mas que descreve e reflecte a força da mulher consciente, brava e autêntica.

Em Líquida traça-se também um auto-retrato, iluminado por alguns laivos poéticos que talvez façam recordar ou relembrar Sophia De Mello Breyner.
Mas é com força visual e uma sensibilidade comovente que se pinta o cenário e quotidiano de uma mulher. Trabalhadora e emigrante. É A mulher do Cacilheiro. Mais um rosto que poderia ser anónimo mas que é trazido à luz em palavras e versos, ganhando vida.

Alfazema é mais um manifesto em verso de uma mulher que abdica da passividade e tacanhez, que constrói ao longo dos anos uma identidade sólida e genuína na conquista dos seus sonhos.

Vayorken é talvez o tema mais divertido do disco e que teve mais rotação. Pinta uma infância de uma miúda irrequieta mas já bem senhora de si. O trocadilho sonoro que dá nome à música, ficará certamente para a história.
A veia poética extravasa no último tema do disco, Lupa que inicia com um excerto de um poema de José Gomes Ferreira.

Sentindo que olhar para a frente é voltar a andar para trás
Tatuado a ferro quente, queimo a mata, lupa ao sol 
O passado à minha frente e um fantasma no meu colo
Tatuado a ferro quente, queimo a mata, lupa ao sol

São palavras escritas, sentidas e cantadas que fazem sonhar e resistir. Capicua permanece como uma das melhores autoras de rimas, tendo a sensibilidade de se analisar a si mesma e ao mundo que a rodeia.

20 - Trips visuais


Kate Tempest nasceu em 1985 em UK. Iniciou-se de forma fulgurante com spoken word e em 2014 editou EVERYBODY DOWN . Compõe-se de 12 temas com beats agressivos a roçar algum futurismo. A poesia debitada é forte e de texturas narrativas. Abordam-se temas variados e através de uma lírica arrojada chega-se ao coração de uma juventude desesperançada e rebelde mas com causas. Em Lonely Daze ilustra-se um díptico narrativo, o quotidiano de duas personagens, ele e ela. Ambos com licenciatura, desgastados por amores e paixões que se desvaneceram em desilusões. Ainda assim, lutam, vão a entrevistas de trabalho e talvez encontrem um no outro um rasgo de luz que retire a monotonia dos dias cinzentos. É uma história de amor possível e urbana.

Em Chicken espelham-se mais mosaicos de personagens, trazidos à vida pela spoken word com algum flow de Kate Tempest. The Beigeness assalta-nos com uma batida mais frenética e esparsos delírios de guitarra mas mais uma vez o foco está na voz. É um tema carregado de humanismo e que serve de grito de esperança e revolta para quem sente que já não tem forças para lutar.

Volta em 2016 com LET THEM EAT CHAOS. Arranca forte sem suporte de melodia ou batidas no primeiro tema, Picture a Vacuum. O poema incita ao ouvinte a experienciar uma realidade recriada. Uma viagem psiconauta sem recurso a substâncias.
Em Ketamine for Breakfast sente-se toda a força da poesia de Kate Tempest, começa suave e depois é-se embalado por batidas arrojadas. A personagem principal do poema chama-se Gemma que com um monólogo por vezes críptico mas claro de sentimento nos convida a conhecer a sua psique.
Europe is Lost muda de personagem, desta vez é Esther. O seu monólogo escrito e trazido à vida por Kate Tempest reflecte as suas visões e pensamentos sobre uma sociedade que vira as costas a emigrantes e refugiados.

Stop crying, start buying, but what about the oil spill?
Shh, no one likes a party pooping spoil sport
Massacres, massacres, massacres/new shoes
Ghettoised children murdered in broad daylight
By those employed to protect them
Live porn streamed to your pre-teen's bedrooms
Glass ceiling, no headroom
Half a generation live beneath the breadline
Oh, but it's happy hour on the high street
Friday night at last lads, my treat!


As batidas roçam o experimental, muitas vezes, e não agem como propulsores para dançar ou abanar a cabeça, mas sim de suporte para a poesia. É um disco conceptual que explora a vivência de sete personagens que não se conhecem mas que ficam unidos pela teia narrativa que é construída à volta deles. São trips visuais criadas por palavras que descrevem bem as realidades do contemporâneo. Kate Tempest assume a função de narradora, plena de humanismo e com o seu sopro criativo gera personagens.

21 - Ruído consciente


dälek formou-se em 1997 em Nova Jérsia e editou sete discos de originais. Foi em 2004 com ABSENCE que gerou diferença e diversidade. Beats assumidamente experimentais e com traços industriais criam uma atmosfera de opressão cinzenta. É com poder que o disco arranca. Distorted Prose é o primeiro tema e é em segundos que se percebe que estamos na presença de um disco isento de fórmulas genéricas.

Reluctant poet speak prose
Incite our peoples
We got raked through those coals
Once the truth was divulged

Conscience calls thoughts subliminal
Actions all cyclical
Deplorable descendants of men depressed clinical
Answers seem visible when visionless

Em Culture for Dollars explora-se a dicotómica relação entre dinheiro e o cultivo de integridade artística. É com rimas inteligentes e, por vezes, abstractas que se explora esse conflito. Ilustrado no refrão

Who trades his culture for dollars?
The fool or the scholar?
Griot? Poet? Or White collared?


A Beast Caged é um tema extremamente rico em texturas e ambiências. Tem até um travozinho a dark ambient e uns scratchzinhos apetitosos. A letra é extremamente politizada com o uso de samples relevantes. Essa vertente de crítica política é acentuada em Eyes to form Shadows que abre com uma melodia viciante e corrosiva.

That pathetic premise of freedom is false 
Futility of earthly flesh answers death's solemn call 
Within these very words lie my ancestral tongue 
I kept breath within collapsed left lung 
As I witnessed modern tower of Babel come undone 
These bloodshot eyes surmise that most meaning is lost.


Em Ever Somber a melodia adopta uma atmosfera shoegaze. A atmosfera, apesar do título da música, torna-se algo mais luminosa contrastando com os temas que a antecederam. O tema que encerra o disco Opiate the Masses é uma critica às religiões organizadas.
dälek continuou o seu caminho, apostando na exploração do género e em fusões musicais interessantes. Construindo atmosferas densas e de várias camadas que contribuem para o carácter por vezes, soturno de algumas letras.  Explora-se a musicalidade mas não se perdem as raízes da consciência e das críticas política/social.


Conclusão
A construção de rimas exige voz e talento particulares. As mensagens desdobram-se em críticas sociais e políticas mordazes, narrativas do quotidiano de cidade ou dos subúrbios, auto-retratos de introspecção e delicadeza poética mas o conteúdo encontra-se sempre lá. Sempre a rimar sem pensar em facturar. É poesia em movimento que estimula o pensamento.


TEXTO: CLÁUDIA ZAFRE