segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Breaking the Fourth Wall: «The Woodmans» (2010)

"Acho que é difícil dizer que Francesca era provocadora por escolha. 'Vou provocar', simplesmente ser provocadora porque sou assim. Acho que ela tinha uma noção viva de ser uma actriz num drama e essa noção de ser uma actriz num drama deu-lhe uma capacidade de organizar o drama e fazê-lo funcionar. Representamos uma família que não possui apenas dois artistas: eu e a minha esposa, Betty. Mas a Betty e eu compartilhamos uma incrível atitude estética da vida. Tudo o que vemos é muito importante para nós. E acho que isso causou um grande impacto nos nossos filhos." — George Woodman, pai de Francesca Woodman, no documentário The Woodmans, 2010, realizado por Scott Willis. 

(Cartaz do documentário The Woodmans)

O corpo de Francesca Woodman é o protagonista das suas histórias visuais. Coloca-se como centro do que pode ser tido como belo, lindo e adornado — no sentido que Kant atribuiu à sensibilidade feminina para o ornamento e a forma —, mas coexiste sempre com o outro lado: o visceral e agressivo que poderia, muito bem, ilustrar os poemas de Sylvia Plath. A paz e o caos encontram-se na mesma imagem. O corpo de Francesca funde-se no próprio espaço sem se desvincular dele, como se o lugar fosse uma extensão do próprio corpo. 


"Eu não poderia viver com alguém que não desse ao acto de fazer arte a importância que dou. Eu os odiaria." — Betty Woodman, mãe de Francesca. Na casa dos Woodman o lado artístico é prioridade. Não se respira se não se criar.

"Eu gostaria de mudar de ideia com a mesma facilidade que troco de meias. Então, não troco de meias com tanta facilidade." Esta afirmação de Francesca leva-nos ao processo criativo do seu trabalho, tão singular no seu tempo. A singularidade criativa mexe com os cérebros dos que se sentem perdidos no tempo e no espaço, porque os padrões são desconstruídos. Nem sempre a diferença é aceite com facilidade — acaba por interferir na zona de conforto e causar medos desconhecidos. Há quem não os receie e há quem se deixe intimidar por eles. Francesca Woodman não se deixou intimidar: criava porque tinha que o fazer, sem pensar muito nos limites. Quando foi para o colégio, o seu pai ofereceu-lhe uma máquina fotográfica e, desde então, foi amor à primeira vista. Foi esse o seu suporte predilecto. A partir desse momento não parou de fotografar de forma quase obsessiva.


"Ela se despedaçou emocionalmente. Eu não sei o porquê, mas... Talvez eu tenha sido uma péssima mãe. Não... não posso voltar e refazer as coisas... E não acho que seja realmente verdade." Ao longo do documentário vamos sentindo as vulnerabilidades dos Woodman que, embora tenham vivido momentos preenchidos de liberdade de pensamento e de prática artística, não se desprendem das interrogações associadas à tragédia — motivada por uma forte depressão — que fragilizou a família. Ainda que os sinais tenham estado presentes, os pais de Francesca não conseguiram travar o desastre.

Quando o final da vida de alguém é trágico surge uma espécie de curiosidade mórbida que especula sobre o que terá acontecido, principalmente quando se trata de alguém cujo trabalho tem projecção global. No caso de Francesca, esse risco é real e concreto: a obra corre o perigo de ser lida apenas pelo prisma da morte, quando deveria ser lida pelo prisma da vida que a produziu. Não é o fim que interessa, é o entretanto. E irónica e injustamente, a chamada de atenção acontece depois dos autores porem termo às suas vidas. Consequentemente, as instituições de arte e a "indústria" que as representa pretendem tomar posse de um trabalho ao qual antes não prestaram atenção.


"A ideia de que a arte se expressa a si mesma, que se trata de si mesmo, estava muito distante de nós os dois, e, quando vemos o trabalho de alguém não perguntamos o que ela nos diz daquela pessoa. Falamos sobre o que aquela obra de arte diz. Esqueça o artista. (...) Há por parte do público um interesse por uma história trágica." Ao longo do documentário surgem pequenas notas do diário de Francesca, sobre as suas frustrações e memórias. Os detalhes sonoros, da autoria da organização Sō Percussion, não interferem com a narrativa e pintam com subtileza os momentos mais cruciais.


Francesca confessou que gostaria de ter tido uma relação amorosa semelhante à dos seus pais: harmoniosa e feliz. Sentiu, especialmente pelo seu pai, admiração e proximidade — um sentimento que revela, em contraponto, um vazio por colmatar nas suas relações passionais. Das misturas provêm as coisas mais interessantes, não da homogeneidade. Porque há espaço para as diferenças, para outras visões e ideias, para a progressão e para o crescimento conjunto.

"Betty e eu temos origens muito diferentes. Ela teve uma criação judaico-russa, perto de Boston, e eu tive uma criação ultra-protestante, em New Hampshire. As coisas que tínhamos em comum não tinham a ver com as nossas origens, mas com as coisas que descobrimos e dividimos juntos. (...) Quando conheci a Betty, eu tinha uma imagem minha, como artista, que era muito diferente da dela. Acho que ela tendia a rejeitar o contexto artístico, definindo-o como não sendo arte, não sendo uma artista. Em retrospectiva, acho que éramos pessoas muito isoladas. Não tínhamos muitos amigos. O mundo não estava em sincronia connosco. E acho que descobrimos que compartilhávamos um interesse pela arte. E isso era profundo. Eu tinha muito pouca experiência com mulheres. Estudei numa escola só para miúdos. Tinha tido pouco contacto com miúdas. E acho que a Betty maravilhou-me." — George Woodman.

Assim começa uma bonita história que, apesar de ter vivido momentos muito trágicos, não se desfaz das suas especificidades — sendo uma delas a obra tão particular que a filha dos Woodman criou, deixando-a como legado para os seus pais. Hoje, o pai George Woodman tenta recriar as fotografias da filha Francesca: talvez a forma mais directa que encontrou para a manter viva dentro de si.



Texto: Priscilla Fontoura 
Imagens de Francesca Woodman