Resumo Rezam os relatos históricos que o filósofo estóico grego Chrysippus morreu de riso depois de ver um burro a comer figos, não sem ...

HUMOR E MÚSICA: Os trovadores do absurdo e da comédia

Resumo
Rezam os relatos históricos que o filósofo estóico grego Chrysippus morreu de riso depois de ver um burro a comer figos, não sem antes ter dito ao seu escravo (sim, infelizmente, havia disso) para dar vinho ao burro para os figos escorregarem melhor. Este relato histórico é tingido de algum absurdo e apesar de trágico, não deixa de ilustrar o quanto o humor pode ser corrosivo, intenso e no caso do pobre Chrysippus, letal. Deixando de parte a tragédia e concentrando apenas no humor, temos vários exemplos de bandas que uniram de forma perfeita a arte de fazer rir com a de fazer boa música. Não sei se é totalmente verdade mas há quem diga que é mais fácil fazer chorar do que rir.  

Palavras-chave - humor, comédia, contestação

1 - Introdução ao universo Ena Pá


Ena Pá 2000 é uma banda que conta com mais de trinta anos de existência e que já faz parte do imaginário português mais boémio, brincalhão, por vezes sarcástico mas sempre hilariante. A música de Ena Pá sempre esteve presente nos mais diversos e distintos círculos. Em festas de faculdade, arraiais, bares depois das duas da manhã, aparelhagens de cidadãos aparentemente respeitáveis e em tertúlias filosóficas com malta ansiosa para discutir um dos livros de Proust ou Sartre que acabaram a semana passada (okay, nestas talvez não). Apesar da aparente descontracção que a banda exala, as músicas são sempre arranjadas ao detalhe e as letras, por vezes, misturam o trágico com o cómico como é o caso de “Joana Banana” do disco “2001: Odisseiano Chaço” que conta uma bela história de amor ou desamor, ou simplesmente, amor não correspondido que é narrado pelo intérprete que sofre e que dirige súplicas à sua amada: 

Tu nunca resistes a uma tentação, 
E os teus olhos tristes partem-me o coração. 
A uma tentação partem-me o coração. 
És como a cadela que está com o cio. 
E eu choro à janela do meu quarto vazio. 
Que está com cio. Deste quarto vazio.

Quem já não amou, quem simplesmente ama demasiado ou tem um grande coração? Há sons de acordeão que acompanham esta balada triste e as letras agridoce recordam-nos talvez daquela altura em que estávamos no pátio da escola e vimos a nossa paixão da altura a trocar um beijo por uma passa num charro que um pintas qualquer orientou. É assim no amor, uma mistura de tragédia com comédia. Inevitável.


Há também espaço para alguma contestação social, como é o caso de “Dia de Cão” em que há alguma crítica ao conformismo que abunda e que nos faz beijar as botas ao patrão. No entanto, nenhuma rosa é só espinhos e em “Um Belo Dia” há espaço para optimismo e joie de vivre, como é cantado:

Que belo dia para andar pelo Rossio de Cú para o ar
que belo dia para namorar com a criada do Salazar…
Tomo compota de hortelã, debaixo da manta de lã uma turista alemã.

Numa das músicas mais bem conseguidas e com arranjos de inspiração oriental, é nos transmitida uma das letras mais corrosivas, hilariantes e pouco aconselhável para quem anda a ler tratados de ética. Chama-se e com toda a razão “Politicamente Incorrecto”.

E acho maravilhoso Ser um cachalote viscoso
Um bêbado, um vicioso Um putanheiro seboso
Mas há gente tão saudável
Que espalha a morte e a doença
Que com um ar muito amável
Te come sem pedir licença
Mais vale bater a bota
Do que chegar a ser cota
Antes de ir para o paraíso
Vou vos lixar o juízo

Efectivamente uma boa música para uma esforçada sessão de yoga.

Em “És muita Linda” (que prima por ter uma capa que não convém estar à mostra quando a tal pessoa especial vai a tua casa pela primeira vez e insiste para ver a tua colecção de discos. Claro está que se for a pessoa certa, conhecerá o disco e tê-lo-á certamente.), encontramos o tema “Fim-de-semana em Vizela” que é dotado de uma espécie de rockabilly viciante com letras em rima e que oferecem uma panóplia de personagens (muitas delas bastante conhecidas da sociedade portuguesa) em situações pouco recomendáveis.

A filha da Teresa Bragança a fumar uma grande ganza.
A neta do bispo de Beja a roer as unhas de inveja.
A tia avó do Júlio Isidro tinha um nariz tão comprido… O major Valentim loureiro comeu um javali inteiro.
A sogra do Mário Soares tem um dentes nos maxilares.

Viajando outra vez para adiante, em "2001 Odisseia no Chaço", encontramos um tema de inspiração mexicana e cantado em portunhol que conta a história de Manolito, Teresita e o despontar do seu amor que inevitavelmente acaba em tragédia. É também o despontar e o despertar de mais um dia neste mundo aparentemente cinzento mas com um centro talvez cor-de-rosa que se traduz em “Amanhã” que com um solo interessante de órgão psicadélico pelo meio, nos informa das inúmeras perspectivas que se avizinham mal o sol raia.

Amanhã vou comer abacate.
Amanhã comprar um alicate.
Amanhã matar um alfaiate.

Apesar de algumas das letras serem abertamente de teor sexual, por vezes, até um pouco desviante, há espaço para romantismo, optimismo e contestação.

No entanto, o lado mais romântico é explorado num projecto paralelo de Ena pá, chamado Corações de Atum. Especialmente no tema “Gosto de ti (realmente)” em que a letra ressalva que “gosto de ti, és tão bonita”. A música tem arranjos delicados e divertidos que dão vontade de dançar com a pessoa certa (claro está.)

A veia hilariante continua a pulsar forte em mais um projecto, desta feita, Irmãos Catita. Num dos seus discos mais conhecidos, “Mundo Catita”, cuja capa de inspiração tropical nos alerta que o disco é cantado em português, somos presenteados com “Drogado”, o primeiro tema do disco que nos alerta sobre os perigos da droga e as suas duras repercussões. Num disco de inspiração tropical como a capa prenuncia, há vinte e cinco temas para explorar, ouvir, rinse and repeat.
Muito mais pode ser dito sobre o universo Ena Pá e as bandas satélite e planeta que por lá orbitam, mas felizmente as letras e músicas dizem quase tudo o que precisamos saber.

2 - Sindicato do Humor
Da cidade invicta brotaram os Trabalhadores do Comércio, mais especificamente em 1979. Em 1981 editaram o disco “TRIPAS À MODA DO PÔRTO” que se revelou um sucesso, principalmente pelo seu primeiro tema “Chamem a Polícia” que se viu transportado para pistas de dança, discotecas, festas privadas ou outros espaços de lazer e delírio. Quando surgiu o boom do rock português, os Trabalhadores estiveram na linha da frente, participando em várias compilações e dando um cunho cómico a letras cantadas em português – uma marca importante das bandas da altura. O som do disco é uma mistura divertida de influências que vão desde o ska, ao funk, o inevitável rock e até algum new wave. Mas as letras, bem dispostas mas com uma marca indubitavelmente sarcástica, expressam em português (com sotaque e léxico cerrado do Porto) um tradicionalismo bem típico de Portugal – os garrafões de vinho, as sardinhas assadas e só falta mesmo o queijo e o chouriço porque pão e vinho sobre a mesa já há. Uma das inovações desta banda experiente e que se tornou de certa forma, a imagem da marca, foi a inclusão de um garoto esperto e desembaraçado para cantar algumas canções. De seu nome, João Luís Medicis, este garoto cantou algumas das músicas que se tornaram autênticos hit singles, tais como “Tá Quietinho ou Lebas no Focinho” e “De manhã eu bou ò pão”, deixando as melodias a cargo de Álvaro Azevedo e Sérgio Castro, músicos experientes que haviam feito parte da banda Arte & Ofício. Os trabalhadores, trabalharam bem e deixaram-nos temas recheados de bom humor, sarcasmo e boa disposição.


3 - Ironia sofisticada
Repórter Estrábico é uma banda formada em 1985 no Porto e que se auto-descreve como techno-pop irónico. Editaram o primeiro disco em 1991 intitulado “UNO DOS” que contém o tema “Pois, Pois” que adquiriu algum sucesso comercial e que nos relata os azedumes de pós-break up.

A minha namorada deixou-me
Estou completamente destroçado
O pior são as crianças
Não as quero deixar com a minha sogra
Que é um perfeito crocodilo.

Com um som inventivo e que mistura a crueza do techno com uma marca muito pop que entra no ouvido, cantam ora em inglês, francês ou português com uma certa dose de ironia sofisticada e mantendo uma sonoridade vanguardista que se torna presente pela imprevisibilidade das composições.
É em “1 BIGO”, lançado em 1994, que o sarcasmo latente é solto por completo sem filtros e sem constrangimentos. De destacar as rimas algo surrealistas de “Umbigo”, o deambular ritmado e livre das guitarras e a anunciação:

 O meu destino é ser um submarino mas sou só homem rã.

É assim quando falamos com o nosso umbigo e tendo ele cotão ou não, é sempre nosso amigo. Seguindo para “Malditos headphones” temos a confissão que:

Eu era normal até o metal dar cabo de mim, fez-me mesmo mal, todo aquele chinfrim.

Seguindo com o metal no coração ou deixando-o de parte, Repórter Estrábico editaram em 1999 o álbum intitulado “MOUSE MUSIC” que nos apresentou o single “MAMAPAPA” que se tornou emblemático e característico de uma sociedade consumista e sem muita capacidade de auto-análise. O sarcasmo e ironia são evidentes mas sofisticados e sempre actuais.


4 - “Fascismo? Quem inventou essa treta?”




Como diz o povo, não sei e tenho raiva de quem sabe mas felizmente, Artur Gonçalves elucida-nos em relação a essa questão e responde-nos com confiança:


Fascismo? Quem inventou essa treta?
Devia de ser forreta
Ou agiota com trela.    


Artur Gonçalves em “Ser Fascista”, editado em 1974, entrega-nos um manifesto simples e directo mas com rimas engraçadas contra o regime que durante anos aprisionou as mentes e barrigas da maior parte dos portugueses. Um disco essencial para quem anda no autocarro do Príncipe Real a dizer que “era preciso um novo Salazar” sempre que vê alguém que usa calças largas ou que tem piercings na face.

Em seguida, Artur Gonçalves continuou com o seu fado corridinho e contestatário no disco “VAMOS DAR CAÇA À PIDE”, semeando versos anti-PIDE e favoráveis à força e coração do povo. O Zé Povinho torna-se muito mais empoderado com os fados de Artur Gonçalves.

Nem tudo é contestação social, há espaço para sentimentalismo e declarações de amor como é o caso de “Não passes mais com ele na Musgueira” em que um fado de amor cedo resvala para confissões de sangue, faca e alguidar, como Artur canta:


Podia-me vingar quando te vi
Marcar-te esse focinho com uma faca.


É o que acontece quando o amor da nossa vida passa em frente da nossa barraca (na Musgueira) abraçada a um pintas qualquer. Mais decências, meninas.
Artur Gonçalves editou nove trabalhos todos eles com títulos hilariantes e capas bastante brincalhonas. É o povo a brincar, é o povo a contestar. Que esse espírito nunca se apague.



Conclusão:
O humor na música tanto serve para declarações de amor, reflexões e confissões de estados de espírito ou a pura e dura contestação social com laivos brincalhões e irónicos. A questão foi colocada por Frank Zappa em 1985 no disco ao vivo “Does Humor Belong in Music?” é uma questão de ouvir, reflectir e dar graças por haver músicos que colocaram certas tragédias de parte e nos ofereçam a dádiva do riso.


TEXTO: CLÁUDIA ZAFRE