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Uma vez, em 1980, já estava eu nos GNR, fui passear com o meu amigo Rui Branco; entrámos – fumadíssimos – no Centro Comercial Brasília; ao p...


Uma vez, em 1980, já estava eu nos GNR, fui passear com o meu amigo Rui Branco; entrámos – fumadíssimos – no Centro Comercial Brasília; ao passarmos numa loja de brincos e jóias, resolvi – tal era a pedra – furar a orelha esquerda; entrei, e as empregadas e todas as mulheres presentes, ficaram a olhar para mim; umas, só por eu ser homem e outras por me reconhecerem dos GNR; foi um burburinho; veio uma empregada e perguntou-me o que eu queria; eu disse que queria furar a orelha; e se demorava muito; ela respondeu que era um instantinho. Imaginava-me eu a entrar numa sala, a deitar-me e a vir uma enfermeira com luvas, a darem-me uma anestesia, para eu não sentir o alfinete que me furaria as orelhas; quando ela – afinal –, me aparece com uma caneta de feltro e um agrafador (ou tinha aspecto disso); pergunta-me qual a orelha, eu digo-lhe que quero na esquerda; ela marca-me na orelha um "X" no sítio onde iria ser feito o furo; mete a minha orelha no meio do suposto agrafador e... PIMBA!!! Só senti uma picadita, nada de grave; o pior veio a seguir; o agrafador ficou preso à minha orelha; e ela dizia: "Nunca me aconteceu isto" ou "Tenha calma"; e, de repente, tenho um agrafador na orelha, o meu amigo a cagar-se a rir, todas as clientes a olhar para mim, e as empregadas todas à minha volta; aí, a ganza começa a bater, e começa a dar-me uma queda de tensão; vejo-as todas à minha volta a falar ao mesmo tempo "blá, blá, blá", e eu começo a escorregar pela parede a baixo, até ficar sentado no chão, ainda com o agrafador na orelha, e com uma das empregadas, de alicate e chave de fendas nas mãos; elas perguntam-me se eu me estou a sentir mal, e eu digo ao meu amigo: "Vai-me comprar um sumol de laranja"...


Texto e Imagem: Vítor Rua

Um dia, eu e o Jorge Lima Barreto, tínhamos uma reunião na Gulbenkian-ACARTE, com a Drª Madalena Azeredo Perdigão, uma grande senhora, de um...


Um dia, eu e o Jorge Lima Barreto, tínhamos uma reunião na Gulbenkian-ACARTE, com a Drª Madalena Azeredo Perdigão, uma grande senhora, de uma vasta cultura; fomos levados ao seu escritório, cumprimentou-nos e perguntou se queríamos algo; respondemos que não (o JLB tinha estado a comer rissóis, chamuças e bolos de bacalhau, com um copo de vinho tinto, logo ao pequeno almoço); fomos falando sobre uma proposta de um Festival de Música Improvisada e ela diz: "Esperem aí que vou buscar a minha agenda, para marcarmos as datas do Festival"; nesse momento, logo que percebeu que ela tinha saído de vista, o JLB mandou um grande peido; de repente, ela volta para trás: "Afinal, a agenda está aqui, na secretária" e senta-se de novo; um cheiro nauseabundo invadia toda a sala; e o Jorge: "Está aqui um cheiro estranho, não acha Srª Drª?"; e ela: "Muito estranho mesmo, nunca vi nada assim"; e o Jorge: "Creio que deve ter a ver com o cheiro a mofo destes quadros antigos"; e ela: "Mas esses quadros estão aí há décadas"; e diz o Jorge: "Mas hoje está muita humidade"...


Texto e Imagem: Vítor Rua

Fomos dar um concerto no Anfiteatro da Cidade Olímpica de Moscovo, com mais dois grupos: um belga e outro alemão de Leste; o concerto ia ser...


Fomos dar um concerto no Anfiteatro da Cidade Olímpica de Moscovo, com mais dois grupos: um belga e outro alemão de Leste; o concerto ia ser transmitido em directo para toda a URSS e era numa sala do género da Gulbenkian mas com o dobro do tamanho; depois do nosso check sound surge uma intérprete e o director de palco, que parecia o Lenine, vira-se para a tradutora e diz qualquer coisa em russo que ela traduz: "O director pergunta se podem emprestar os vossos sintetizadores ao grupo belga"; e o Jorge diz-lhe: "É impossível, porque os nossos sintetizadores estão programados por nós"; e ela transmite isso ao director; o director volta a dizer algo em russo, e ela insiste se podemos emprestar os nossos sintetizadores; e o Jorge volta a responder a mesma coisa; aí, o director diz qualquer coisa em tom duro e breve, e ela traduz: "Então, o director diz que não vos empresta o piano"; aí, o Jorge levanta-se da cadeira e desloca-se até ao director e diz-lhe em português: "Ouve lá, ó palhaço, eu sou Doutor, e sou músico, há mais de 20 anos, e se voltas a dizer isso, fodo-te todo, e parto-te as trombas, estás a ouvir, meu grande filho-da-puta?"; a tradutora ficou sem saber o que fazer e disse qualquer coisa baixinho, em tom calmo; o director, olhou para nós, disse apenas duas palavras e retirou-se; e ela diz-nos: "Podem usar o piano"...

Texto e Imagem: Vítor Rua

Um dia, o Jorge Lima Barreto ia dar um concerto com o seu Anar Band com o Rui Reininho; era numa antiga igreja; o camarim improvisado era na...


Um dia, o Jorge Lima Barreto ia dar um concerto com o seu Anar Band com o Rui Reininho; era numa antiga igreja; o camarim improvisado era na sacristia; a determinada altura, o Jorge disse: "Vou só ali ver uma coisa" e saiu; o Reininho, entretanto viu um laço de seda rosa com o feitio de uma pequenina cruz e prendeu-o com um alfinete na manga do casaco com que ia actuar; a determinada altura, o Jorge entra, vestido com uma toga de padre, encarnada e dourada, e com um chapéu branco enorme, de bispo, na cabeça; o Jorge olha para o Reininho, e diz-lhe zangado: "Não vais actuar neste concerto importante nessa figura, pois não?"...

Texto e Imagem: Vítor Rua

Um dia, eu e o Nuno Rebelo, íamos tocar a Faro com a Companhia de Dança do Paulo Ribeiro; e o Nuno é que me dava boleia de carro; combinou-s...


Um dia, eu e o Nuno Rebelo, íamos tocar a Faro com a Companhia de Dança do Paulo Ribeiro; e o Nuno é que me dava boleia de carro; combinou-se às 09 horas, ele apareceu e partimos; mal partimos, um segundo depois, lembrei-me que me tinha esquecido da erva e pedi-lhe para voltarmos para trás; já estávamos quase na ponte 25 de Abril; e ele: "Ó Rua, és um drogado do caraças, pá... Caga lá nisso uns dias..."; e eu: "Nem penses, voltamos para trás"; e ele: "Depois esqueces-te das coisas, tu"; e lá regressámos a minha casa, apanhei a erva, entrei no carro, fiz logo uma ganza e fumei; e o Nuno: "De caminho já nem te lembras das músicas que temos de tocar"; e eu fumava outro; e ele: "Agora é que já nem te vais lembrar das deixas, estás fodido"; e eu fumava outro... e ele sempre a gozar comigo, que eu era um esquecido do caraças, e que só não me esquecia da cabeça porque a tinha agarrada ao corpo; chegámos a Faro, e fomos directamente para o auditório descarregar a aparelhagem; nesse concerto eu tocava guitarra e electrónica, mas o Nuno era só guitarra, uma Gibson que ele tinha comprado em Viena, quando fomos lá tocar com o Mark Tompkins; eu começo a descarregar e só vejo o Nuno a meter as mãos à cabeça e a dizer: "Esqueci-me da guitarra, f#!"...

Texto e Imagem: Vítor Rua

Em 1984, os Telectu foram tocar ao Centro Pompidou, integrado na semana portuguesa de performance; vários performers portugueses estiveram p...


Em 1984, os Telectu foram tocar ao Centro Pompidou, integrado na semana portuguesa de performance; vários performers portugueses estiveram presentes; os melhores; recordo-me que o Gerardo Burmester, foi uma semana antes – como nós –, para se preparar para o seu show, que tinha a duração de 50 segundos apenas, e que consistia em entrar vestido de smoking preto, com uma mala preta na mão, enquanto a luz é a de um strawb em rotação rápida; ele entra em palco, abre a mala e deixa cair centenas de bolas de ping-pong no chão que se encontra amplificado por microfones. Nós, Telectu, estávamos ali para fazer música para o performer Manoel Barbosa; e o Barbosa pediu-nos para fazermos o som mais alto e mais estridente que pudéssemos, enquanto as luzes, eram holofotes de aeroporto brancos, apontados para o público, mais todas as luzes brancas do Grande Auditório do Centro Pompidou. Mal dá início o show, o público nem sabe se há-de tapar os olhos (por causa da intensidade das luzes), ou os ouvidos (pela intensidade sónica); por sua vez a performance de Barbosa, consistia na existência de um monte de areia branca em palco, no centro; ele tinha duas varas uma em cada mão, como se fossem as varas dos esquiadores; e estava uma lagosta cozida com casca, pousada no cimo do monte de areia; a performance era então o Barbosa de costas para o público a atirar areia para o público (que começou de imediato a levantar-se, porque estava a ficar cheio de areia),e de vez em quando ele parava, para ir dar uma dentada na lagosta; mastigava e engolia e depois lambia e comia areia misturado com a lagosta; e depois – claro –, vomitava; e retomava tudo de novo; esqui na areia; lagosta; vómito; e assim esteve durante 60 minutos; não esquecer que, além da performance, o som continuava sempre no máximo e estridente, e as luzes brancas e intensas; como ele não terminava a performance, entra em palco o organizador, o Egídio Álvaro (especialista em performance portuguesa), e diz virado para o público em francês; "Terminou o concerto de Manoel Barbosa"; o Barbosa olha para ele, mete as mãos nas ancas e diz em português muito alto: "Ainda não terminei"...

Texto e Imagem: Vítor Rua

Em 1980, chegaram dois amigos brasileiros do Alexandre e encontramo-nos antes de um concerto dos GNR no Algarve; eles perguntaram-nos: ...


Em 1980, chegaram dois amigos brasileiros do Alexandre e encontramo-nos antes de um concerto dos GNR no Algarve; eles perguntaram-nos: "Aqui há Popper´s?"... e nós não faziamos ideia do que falavam; e eles disseram: "Pode ser substituído por aquele líquido que se usa para tirar nódoas; aí eu sugiro: "Vamos à drogaria do Sr. Manuel"... e fomos.

Chegados lá perguntei: "Ó Sr. Manuel, como se chama aquele líquido para tirar nódoas?"... e ele: "Depende... há a benzina, o benzovac e a droximina”; olhamos para os amigos brasileiros e eles nada... Então eu disse: "Sabe Sr. Manuel, estes dois amigos são brasileiros e não sabem o nome do produto em português... Mas reconhecem pelo cheiro"... e o Sr. Manuel: "Reconhecem pelo cheiro?... Nem eu reconheço pelo cheiro!"; e eu disse: "Mas eles sim, quer ver?"... e estavam três bidões, cada um com uma coisa diferente; um deles abre o primeiro bidão e começa a snifar "SNIFFFFFFFF" e diz: "Não é este!"... abre outro, sob o olhar espantado do Sr. Manuel, e snifa "SNIFFFFF" e diz: "É esteeeeeeeeeeee!"... e o Sr. Manuel pega num frasco dos de álcool e pergunta: "Querem levar quanto?"... E nós olhamos para aquele frasco pequenino e para o bidão e eu disse: "Levamos o bidão"... Aí, o Sr. Manuel olha para mim e pergunta: "Que nódoa é que vocês querem tirar?"... 

Metemos o bidão na mala do carro, fomos todos para a Taberna 2000 no Foco/ Porto e dissemos a todos que tínhamos uma droga fantástica; era tudo a sair do clube e a ir ao nosso carro e a meterem lenços no bidão e tudo a snifar e a cair na relva; passamos assim a noite toda; às 06:00 fomos pôr os instrumentos na carrinha e partimos para o Algarve – em directa e todos f# de benzovac; o meu corpo era todo ele benzina: cheirava, sabia e parecia que o que corria no meu sangue era… benzina ! Mal partimos começámos a sentir-nos horrivelmente e a pensar que íamos morrer todos e que nunca mais me drogaria na vida se me salvasse daquela; até que começámos a vomitar, e riamo-nos, porque eu vomitei na janela da frente ao mesmo tempo que o Megre vomitava na de trás e apanhou com o meu vómito; ao chegar a Coimbra tive uma ideia: beber leite !!!! estávamos intoxicados e bebendo leite passaria; fomos a uma tasca e devemos ter pedido uns 200 copos de leite para os quatro; aí, sentimo-nos cada vez melhor; tinha sido uma boa ideia que, provavelmente, nos salvou a vida: Chegados ao concerto, que ia decorrer numa praça de touros – e o camarim era na relva ao lado da praça – fui à carrinha e pedi ao nosso roadie para me preparar uma linha de coca para antes do concerto; antes do concerto lá fui: "Fizeste a linha?"...e ele: "Está aí em cima do tablier"... eu vou e snifo, e diz o gajo: "ISSO ERA PARA NÓS OS CINCO! A TUA ERA SÓ A DE BAIXO!"... já era tarde, já nem o ouvia, era só ecos! eles anunciam: "E agora, os GNR!!!" e o Tóli começa a tocar e ninguém sabia onde eu estava; até que olham e topam um gajo a subir e a descer as escadas da praça... era eu, a gastar energias! Depois, dei o concerto a speedar e quando acabou e ia a mijar, pareceu-me ter mijado verde fluorescente; ao chegar a casa fui ao médico de família; ele pergunta: "Então, que o traz aqui?", e eu nada; e ele: "Tudo bem com os intestinos?" e eu dizia que sim; e ele "E o estômago?" e eu: “Ok”; e ele: "Dores de cabeça?" e eu "Não!"; e ele: "Falta de apetite?" e eu "Não!"; até que olha para mim e pergunta: "Então, que se passa?"; e eu digo: "Sr. Doutor: eu urinei verde fluorescente!"; o gajo olha para mim, tira os óculos e diz-me: "Ouça, amigo, isso não existe!"... e já nem me deixou sair da clínica: fiquei lá internado uma semana, a fazer dieta...

Texto e Imagem: Vítor Rua

Um dos primeiros grandes concertos dos GNR, foi no Clube da Granja; ainda era uma cantora, que tínhamos arranjado: a Quina; pusemos um anúnc...


Um dos primeiros grandes concertos dos GNR, foi no Clube da Granja; ainda era uma cantora, que tínhamos arranjado: a Quina; pusemos um anúncio: "Precisamos vocalista; pouco importa que cante bem; o que interessa é ser boa"; e foi exactamente o que tivemos: era bonita e cantava exoticamente mal; o Clube estava a abarrotar; pessoas tentavam entrar pelas janelas; vidros a partirem-se; pessoas a ficarem feridas; e o organizador diz-nos: "Ó pá, comecem a tocar, senão ainda morrem pessoas"; e eu, que tinha acabado de fumar uma erva opípara, caio redondo no chão; estou caído no chão e vejo todos a olhar para mim: o Alexandre Soares, o Tóli, o Mano Zé, o organizador e a nossa vocalista; o organizador passa-se e mete as mãos na cabeça "Agora é que está tudo fodido"; e eu, digo-lhe do chão, onde estava, caído "Tenha calma que fico bom num minuto"; eles olham todos para mim, e eu, calmamente, deito uma das mãos ao bolso das calças e tiro para fora um supositório (eu andava sempre com um Torekan para as tonturas), baixo as calças e meto o supositório no cu, com o Tóli a dizer "Este é que é maluco!"; um minuto depois estava de pé e entramos para o concerto; o público em delírio; estamos a tocar o segundo tema, e eu vejo que o Mano Zé está com o baixo desafinado; ele estava muito fumado, mas de haxixe; eu chego-me perto dele, disfarçadamente, e digo-lhe: "Mano Zé, tens o baixo desafinado"; e ele, de olhos fechados e a rir-se responde-me: "Eu seeeeeeeeeeeeei"...

Texto e Imagem: Vítor Rua

Eu, o Jorge Lima Barreto, e o trompetista Jac Berrocal, íamos gravar um cd para a editora Numérica, do nosso amigo Fernando Rocha; chegámos ...


Eu, o Jorge Lima Barreto, e o trompetista Jac Berrocal, íamos gravar um cd para a editora Numérica, do nosso amigo Fernando Rocha; chegámos pela manhã, montámos os instrumentos; o Jorge no piano de cauda; eu, em duas guitarras acústicas (uma de 6 e outra de 12 cordas); também guitarra eléctrica processada e electrónica; e o Jac Berrocal tocava trompete; depois de tudo montado, o Fernando Rocha decidiu isolar o som do trompete do Jac, metendo uma espécie de biombo a separar-nos – a mim e ao Jorge –, dele; começou-se a gravar, depois de um opíparo almoço regado, no final, por uma erva de excelente gabarito; as gravações decorriam maravilhosamente; pausa para jantar, e o Jorge, que tinha visto uma bateria no estúdio, resolve dizer que ainda se vai fazer mais um tema em que ele tocaria bateria; o Jac ouve aquilo e diz: "Então faz um swing", e explica com a boca o tempo; o Jorge nem lhe dá atenção; chegamos ao estúdio já estourados; eu e o Jorge de um lado, e o Jac do outro lado, do tal biombo (e portanto, não nos via); mal o técnico diz: "Está a gravar", o Jorge dá uma pancada tal num prato, que este tomba com o tripé; eu começo a bater com uma guitarra acústica na outra, com a distorção ligada no máximo; e o Jac – que não via nada do que estávamos a fazer –, também fazia frases típicas do free jazz; a determinada altura, o Jorge e eu já estávamos numa loucura total, eu tinha o cabelo todo electrizado no ar, e o Jorge a tocar e a ir deitando partes da bateria ao chão e tripés a cairem; de repente, eu bato de costas no biombo que nos separava do Jac, e este, que costuma tocar de olhos fechados, de repente sente algo, e quando abre os olhos, vê o biombo a cair sobre ele, e eu com o cabelo tipo Dona Summer, a bater com as guitarras, bem à frente dos olhos dele; aí, ele manda um grito enorme de susto; depois vê o que se estava a passar, e tenta disfarçar, dando outros gritos de seguida, para que parecesse na gravação, que aqueles gritos eram de propósito; esta faixa deste cd que se chama "À Lagardère", ficou com o nome de : "Berro & Cal"...

Texto e Imagem: Vítor Rua

Um dia, o Teatro Carlos Alberto, no Porto, ia reabrir as suas portas e o espectáculo da estreia chamava-se "Rua!", e eram músicas ...


Um dia, o Teatro Carlos Alberto, no Porto, ia reabrir as suas portas e o espectáculo da estreia chamava-se "Rua!", e eram músicas minhas para cena (músicas que eu fiz para o Ricardo Pais ao longo de anos); criei uma banda para o efeito, constituída pelo Nuno Rebelo, Luis San Payo, Manuel Guimarães e Alexandre Soares; logo nos primeiros ensaios, o Luís tinha de ir tocar ao Algarve e tivemos, à pressa, de mandar vir o Marco Franco, de Lisboa, para nos safar no ensaio; estávamos todos a falar do sucedido, e de como iríamos ter de resolver à tangente aquele sarilho do baterista, quando diz o Alexandre: "É pá, já parecemos mesmo uma banda rock... Ainda nem três dias o grupo tem, e já temos problemas com o baterista!". 

Mais tarde, no ensaio, surge o costureiro que nos ia fazer as roupas de cena e eram umas camisas azuis bebés, e parecíamos empregados de hotel; ficámos todos com uma cachola dos diabos; ainda por cima, o Ricardo pedia-nos para metermos a camisa por dentro das calças, para se ver o cinto; diz o Nuno Rebelo: "Eu não meto a camisa dentro das calças"; e logo o Alexandre concorda com ele; e todos me dizem: "Rua, vai lá dentro e diz aos gajos que não tocamos com as camisas dentro das calças"; e eu fui. 

No palco estavam a experimentar luzes; eu não via ninguém sentado nas cadeiras do público mas eles viam-me a mim; e ouço a voz do Ricardo: "Vítor, pode meter as bainhas da camisa para dentro das calças?"; e eu, contrariado lá meti; e diz o Ricardo: "Fica muito melhor assim, obrigado Vítor”; e lá regressei eu ao camarim; chegado lá, todos me perguntam: "Então, conseguiste?"; e eu disse que não; e eles todos: "Mas porquê?"; e eu respondo: "Porque sou um hipócrita cobarde!"... todos se riram e acabámos por tocar com as bainhas por fora. No dia do evento, havia dois concertos: um para convidados vip´s, presidentes de câmaras de várias cidades; estava o Rui Rio, etc., e outro, para o público em geral; o Ricardo antes do concerto começar vem dizer-nos: "Vocês podem fazer o que quiserem mas, no final do primeiro tema, eu vou fazer um pequeno discurso, nessa altura, toquem mais baixo”; e eu digo: "Sem problemas Ricardo, nós fazemos música ambiental”; chega o momento do Ricardo falar e este começa a agradecer a presença de todos: "Em especial ao Presidente Rui..." e, quando ia a dizer "Rio", o Alexandre deixa cair a guitarra, produzindo um estrondo gigantesco, que não deixou que se ouvisse o nome do Rui Rio completo; terminado o concerto, estamos todos a ir para o camarim para nos prepararmos para o concerto seguinte, diz o Ricardo ao Alexandre: "A ver se desta vez consigo dizer o nome do homem"; e todos nos rimos; chega o outro concerto e a altura do Ricardo fazer o seu discurso, e eu olho para o Alexandre, que está nervoso, a segurar com as duas mãos na guitarra, para que desta vez ela não caia; e lá começa o Ricardo o seu discurso; e eu, sempre a olhar para o Alexandre, e vejo que este, está a recuar, para trás, para um sítio onde estava um tripé com um microfone; e quando o Ricardo vai de novo dizer "Rui...", o Alexandre bate com as costas no tripé, vê que este vai cair, solta as mãos da guitarra para agarrar no microfone, e a guitarra volta a cair com alto estrondo, e mais uma vez não se ouviu o nome do gajo...

Texto e Imagem: Vítor Rua

Um dia, eu e o Jorge Lima Barreto, fomos ter uma reunião com o Secretário de Estado da Cultura; quando chegámos, disseram-nos que esperássem...


Um dia, eu e o Jorge Lima Barreto, fomos ter uma reunião com o Secretário de Estado da Cultura; quando chegámos, disseram-nos que esperássemos um pouco; passados uns minutos, mandam-nos entrar para o escritório e lá dentro, estava um gajo com os seus 20 anos; e diz o puto: "Então que vos trás por cá?"; e diz o Jorge: "O que nos trás por aqui, é uma reunião com o Secretário de Estado da Cultura"; e diz o puto: "Pois, infelizmente o Secretário não vos pode receber hoje"; e diz o Jorge: "É pena, pois vínhamos aqui fazer uma doação de 100 mil contos para a cultura portuguesa, a mando do representante da cultura de São Tomé e Príncipe, mas sendo assim vamos embora"; claro que não era verdade, o Jorge estava furioso por estar a ser recebido por um puto; e diz o gajo: "Então, nesse caso, esperem aqui um minuto que vou ver se o Secretário vos pode receber"; mal ele saiu, o Jorge levanta-se, pega num bloco de papel de carta que estava em cima da secretária e nuns envelopes, e saímos do escritório. Por essa altura, um nosso amigo performer, o Manoel Barbosa, tinha enviado uma proposta de um Festival de Performance, para ser avaliado, e esperava uma resposta; era um enorme projecto que envolvia os maiores nomes da performance mundial; então, o Jorge lembra-se do papel e do envelope que tinha trazido a dizer "SEC-Secretaria de Estado da Cultura", e resolve escrever uma carta, em nome da SEC, para o Manoel Barbosa; a carta era mais ou menos isto: "Senhor performer Barbosa: a SEC não pode, neste momento, aceder ao seu projecto apresentado, mas gostaria de lhe propor, ao senhor e aos seus colegas, actuarem na Rua Augusta, juntamente com palhaços e alunos do Chapitô, numa acção de circo de rua, e o vosso cachet, seria uma comissão sobre as esmolas que o público vos der"; o Barbosa nem queria acreditar no que estava a ler; ficou revoltado e ligou-nos a contar; e o Jorge dizia-lhe: "Eu, se fosse a ti, ia lá à SEC e fazia um estrilho do caraças"; e nunca mais se falou no caso; ora, o Barbosa resolveu seguir o conselho do Jorge e dirigiu-se à SEC, e chegado lá, começou a insultar toda a gente, e a dizer que era uma pouca vergonha a falta de respeito demonstrada aos artistas; o funcionário, estranhando tudo aquilo, pediu-lhe para ver a dita carta e repara que a carta está assinada por um nome de uma pessoa que não trabalha lá; e diz ao Barbosa: "Esta carta é uma falsificação e isto é um crime, e o senhor vai ter de nos dar o seu bilhete de identidade, e esperar aqui, pois isto é caso de polícia”; o Barbosa fica espantadíssimo, mas imediatamente lhe vem à cabeça que isto poderia ser uma piada do Jorge; resolve ligar-nos a dizer: "Olhem, estou aqui na SEC: foram vocês que escreveram aquela carta? É que estou aqui retido e querem apurar quem é o autor da carta, e foram chamar a polícia"; e diz-lhe o Jorge: "És mesmo um camelo! Então não vias logo que aquilo era falso? Agora, não podes dizer que fui eu! Diz-lhes que foi o teu filho, na brincadeira"; e o Barbosa lá esteve, quase três horas retido, a ser ouvido por várias pessoas, até que, finalmente, o deixaram vir embora, alertando-o que nunca mais iria receber apoio do Estado Português...

Texto e Imagem: Vítor Rua

Thelonious Monk Uma vez, pouco depois do 25 de Abril, o Jorge Lima Barreto, foi convidado a participar num colóquio sobre Jazz; estavam lá t...

Thelonious Monk

Uma vez, pouco depois do 25 de Abril, o Jorge Lima Barreto, foi convidado a participar num colóquio sobre Jazz; estavam lá todos os do Jazz: o José Duarte, o Jorge Curvelo, o Raúl Bernardo, etc.; o Jorge queria falar de Free Jazz e das novas tendências do Jazz; enquanto os outros ainda estavam todos no BeBop; a determinada altura, eles começam todos a dizer ao Jorge que o Free Jazz não era música; e o Jorge diz-lhes: "Então ouçam isto e digam-me o que pensam"; e mete um disco a tocar; no final, começam todos a dizer que aquilo é só gritos, e barulheira e que, portanto, se comprovava que o Free Jazz era "ruído"; então, o Jorge pega no disco que meteu a tocar, mostra-o ao público e diz: "A obra que eles estão a criticar e a dizer mal, é um disco do Thelonious Monk, só que o meti em 45 rotações quando é um LP de 33 rotações; ora, estes imbecis, nem sequer foram capazes de reparar nisso. Nem distinguiram que os instrumentos, estavam a ser tocados a uma velocidade diferente; agora, querem continuar este colóquio comigo, ou com estes tipos?"; e o público em uníssono disse o nome do Jorge e os outros tiveram de abandonar a sala...

Crónica de Vítor Rua

Num workshop para crianças, do compositor Helmut Lachenmann, este mostrou dois slides do rosto de duas mulheres: de uma modelo e uma idosa. ...


Num workshop para crianças, do compositor Helmut Lachenmann, este mostrou dois slides do rosto de duas mulheres: de uma modelo e uma idosa. A cara da modelo era aquilo que se espera: lábios e olhos pintados e cara de photoshop. A cara da idosa era um rosto de rugas (como se de camadas numa montanha ou numa árvore se tratasse).
Depois perguntou às crianças presentes qual achavam mais bonita e uma menina respondeu: “Para mim a mais bonita é a mais feia”…
Existe actualmente um vídeo viral que passou em todos os telejornais do mundo de uma gata que salva uma criança de um cão.
Quando vi o vídeo não sabia que era uma gata, mas disse logo: “Aposto que é uma gata!” e era.
Também existem vídeos de mulheres em diferentes partes do mundo a amamentarem animais não-humanos (javali, vitelo) e vários vídeos de gatas adoptando patos ou cadelas adoptando gatinhos.
Na actualidade sempre que existe uma causa qualquer em defesa de algo nobre está sempre uma mulher por detrás.
São as mulheres que dão a cara em defesa da Mãe Terra e dos animais.
São as mulheres que protegem e tratam das crianças e idosos.
São as mulheres que tratam dos doentes e famintos.
Finalmente, ao fim de milénios de opressão, as mulheres começam a ser livres e a terem os mesmos direitos que os homens.
Como resultado disso, em apenas um século, as mulheres ultrapassaram os homens nas Academias, nas Artes, na Ciência e em muitas outras áreas.
Cada vez há menos - felizmente! - “Histórias do Homem”, para termos “Histórias da Humanidade”, começa-se a dizer nas Escolas que “o Humano descobriu o fogo e a roda”, em vez de “o Homem descobriu o fogo e a roda”, até porque, sabe-se agora, foram as mulheres a desenvolverem a linguagem humana.
Em contrapartida, nestes milénios de domínio dos homens, temos destruído o planeta com poluição e guerras.
Em nome de religiões os homens matam.
Em nome do poder os homens matam.
Pelo dinheiro os homens matam.
Matam por ganância, lucro, vingança.
Sejamos honestos: os homens são uma praga!
O meu argumento é muito simples:
“A salvação do Planeta e da Humanidade está em que o "poder" seja assumido pelas mulheres”.
Mas que “tipo" de mulheres?
Eu não quero, nem admiro, as "mulheres-homens” que por aí andam a “infiltrarem-se” em meios que dantes não tinham acesso (política, empresas, academias).
Que me interessa a mim que tenha existido uma Tatcher ou que exista uma Merkle se pensam e agem exactamente como os homens?
Aliás - e este é o meu argumento - é por isso que elas sao aceites nesses meios: por pensarem e agirem como os homens!
Eu não quero mais “mulheres-homens”!
Eu quero “mulheres-mulheres”!
Quero mulheres que pensem e ajam como mulheres!
Quero as mulheres que amamentam javalis e veados.
Quero as mulheres que salvam bebés e idosos.
Quero mulheres que defendam a Natureza e os direitos dos animais.
Quero mulheres que defendam as outras mulheres.
Quero mulheres que defendam todos os seres.
Quero Pachamamas!
A salvação do Planeta e da Humanidade está nas mãos das Mulheres.

Um dia, ainda o Jorge vivia no Porto – tinha um apartamento em frente à Cooperativa Árvore –, quando pela noite, estava ele a escutar música...


Um dia, ainda o Jorge vivia no Porto – tinha um apartamento em frente à Cooperativa Árvore –, quando pela noite, estava ele a escutar música com o António Pinho Vargas e tocaram à campainha, eram umas 21 horas; ele foi espreitar quem era e viu um músico português a quem não queria mesmo abrir a porta; então deixou tocar; a pessoa voltou a tocar pelas 22 horas, e às 23 horas, voltou a tocar insistentemente; o Jorge volta a não abrir; depois voltou a tocar pelas 24h e até o António se ir embora e o Jorge se ir deitar às 02h da manhã...; pelas 08h da manhã, a campainha voltou a tocar com insistência e o Jorge pensou "Eu ainda fodo este gajo!"; pelas 13 horas, o Jorge foi ao Piolho tomar café e encontrou o nosso amigo performer Silvestre Pestana, que lhe perguntou: "Então, Jorge, não estavas em casa hoje de manhã?... Fui lá com o John Cage, que te queria conhecer, e tu não abriste a porta"...

Texto e Imagem: Vítor Rua

Um dia, o Nuno Rebelo , convidou-me para ir assistir a um concerto dos MLER IFE DADA , a Coimbra; eu já me tinha afastado do rock, e portant...


Um dia, o Nuno Rebelo, convidou-me para ir assistir a um concerto dos MLER IFE DADA, a Coimbra; eu já me tinha afastado do rock, e portanto, já não estava habituado àquelas andanças: viagens de carrinha ou comboio; soundcheck chato; o jantar em grupo antes do concerto, etc. O concerto terminou muito tarde; depois seguiu-se o habitual convívio com os fãs; e, finalmente, lá pelas 4 a.m., resolvemos ir dormir; a pensão era horrorosa, víamos pulgas a saltar e resolvemos sair dali; fizemos as malas e fomos tomar o pequeno-almoço antes de regressarmos a Lisboa. Estávamos de rastos e ressacados; então veio o empregado e começamos todos a dizer o que queríamos; eu pedi um galão e uma torrada; e os outros variaram entre sumo de laranja, galão, croissant, torradas, copo de leite e queques; até que chegou a vez de perguntar à Anabela Duarte (a única mulher presente), o que queria; ela diz: "Queria um café duplo, um bagaço e um maço de SG filtro"...

Crónica e Imagem: Vítor Rua

Imagem: Vítor Rua Um dia eu e a Ilda fomos ao supermercado às Amoreiras e eu tinha estado a gravar em casa no meu estúdio na Rua de São Març...

Imagem: Vítor Rua

Um dia eu e a Ilda fomos ao supermercado às Amoreiras e eu tinha estado a gravar em casa no meu estúdio na Rua de São Marçal e cortei o volume do microfone, mas deixei a mesa de mistura ligada e fomos.

Devemos ter demorado aí uma meia-hora, quarenta e cinco minutos e regressamos de táxi. Quando saímos do táxi ouvi um som: um drone (som contínuo) grave e eu disse "Hey pá: hoje há vizinhos a ouvir música muito avançada". Quando abri a porta de baixo do apartamento (eu vivia num segundo andar), reparo que afinal a música vem de dentro da minha casa.

Ainda a pensar quais dos vizinhos poderia estar a ouvir uma música tão avançada (moravam lá dois velhos que viriam a morrer pouco tempo depois, e um casal com um filho que ouvia era Tony Carreira), quando cheguei ao meu andar e vi a velha com as mãos na cabeça e, percebia-se pela boca, que estaria a gritar mas nada se ouvia tal era a intensidade do volume do som.

Abri rapidamente a porta e entrei e reparei que o som vinha da minha aparelhagem: um dos gatos teria pisado no botão do micro e teria-o ligado e provocou um feedback.
Desliguei o botão e ficou um silêncio, só cortado por um grito angustiante da velha vizinha.
Ela não conseguia dizer nada além de gritar e ter as mãos na cabeça e eu ia a fechar a porta delicadamente, quando ela diz algo como: "Já chamei a polícia e os bombeiros”.
Fechei a porta, em total silêncio e ouço um carro da polícia lá fora; vou à janela e vejo saírem dois polícias e uma mulher polícia. Tocam à minha campainha e eu abro a porta, eles sobem, vão até ao meu andar e eu abro a porta.

Eles cumprimentam-me e dizem: "Cremos que terá havido aqui um problema com música alto" e eu, com a velha a olhar para mim com ar de torturada, digo: "Pois senhores polícias, o que se passou foi que eu e a minha companheira fomos ao supermercado, e um dos meus gatos pisou o botão do input, activando o microfone omnidireccional, fazendo causar um feedback que se transformou num drone de altura grave, e que provocou temporariamente, feedback”.

Eles, olham uns para os outros sem terem percebido patavina do que eu disse e a mulher polícia diz-me: "Foi então um gato?" e eu respondi “Sim”.
De repente desce as escadas o velho vizinho de cima e diz-me "O Senhor tem de dizer a verdade! Era um som horrível que fazia vibrar o prédio todo" e a mulher chorava e gritava a confirmar as palavras do marido e eu disse: "Mas foi o que eu acabei de dizer: o meu gato pisou inadvertidamente o botão do imput, activando o microfone omnidireccional, fazendo causar um feedback que se transformou num drone de altura grave, e que provocou temporariamente, este som”.

E o velho dizia "Mas qual drone qual carapuça! Aquilo era um som infernal!" e eu repetia a história do gato e do drone.
De repente um dos polícias, olha para os outros com um ar tipo: "Estes velhos são xonés, e deve ter havido um ruído qualquer e eles passaram-se e isto não é culpa deste senhor tão simpático e educado" e diz: "Bom, já está tudo resolvido e portanto vamos embora e tenha mais cuidado com o seu gato”.

Eu digo que sim e despeço-me sob o olhar espantado dos velhos que já nada conseguiam dizer; fecho a porta e vou para a janela da varanda e ouço os bófias a saírem a rir e a dizerem algo como "Percebeste alguma coisa do que o gajo dizia?".

Crónica e Imagem: Vítor Rua