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A identidade de um lugar é transmitida pelo toque singular dos guardiães da tradição oral. De há uns tempos para cá, assiste-se ao ressurgim...


A identidade de um lugar é transmitida pelo toque singular dos guardiães da tradição oral. De há uns tempos para cá, assiste-se ao ressurgimento do folclore brasileiro na cultura brasileira pós-moderna. Os Papangu, formados em 2012, são estafetas dessa missão. Passaram sete anos até "Holoceno" ser lançado. O primeiro disco da banda inspira-se na escatologia ecológica e no movimento modernista nordestino do Brasil, região árida historicamente marcada pela desigualdade social e pela violência. O disco cantado na língua nativa da banda, o português, narra a história de um cangaceiro - um bandido do sertão do Brasil - que, após ter uma visão do seu destino, tenta mudá-lo por meio de um ritual de sacrifício. A tentativa não muda o curso do destino, mas acentua-o para uma reacção em cadeia, impelindo o protagonista a fazer o pacto de Fausto para impedir o próximo desastre ambiental.

A preservação e disseminação do folclore brasileiro por meio da ficção e da música de artistas brasileiros têm se revelado, nos últimos tempos, uma consciência que se afirma por manter a história da região viva. Apesar das influências directas de prog, stoner rock, post rock, sludge, zeuhl e os ritmos do Nordeste do Brasil, a soar a Mastodon e King Crimson de meados dos anos 70, dir-se-ia que "Holoceno" poderia ser a alegoria de uma nave espacial que abduziu os Oranssi Pazuzu para a realidade brasileira. O disco é permeado por riffs lentos aumentados por estruturas musicais incomuns e ritmos sincopados - cortesia de Torstein Lofthus, lenda de Elephant9 e SHINING - com participações de Uaná Barreto no teclado, Luis Souto Maior no sintetizador monofónico analógico e Prophet-6, e o saxofonista Benjamin Mekki Widerøe de Seven Impale. O tema bónus inclui uma remistura de Bacia das Almas de Toby Driver (Kayo Dot e Maudlin of the Well), exclusivo para compras feitas no Bandcamp. A compra de Holoceno no formato digital via Bandcamp ajudará a produção e lançamento do próximo disco dos Pagangu.

Como correu a digressão e por que caminhos andaram?
Papangu: Correu muitíssimo bem e superou todas as nossas expectativas. Tocámos no sudeste do Brasil, onde se fixa a maior parte do público brasileiro de metal e rock vive (graças às áreas metropolitanas do Rio de Janeiro e São Paulo). A digressão incluiu quatro datas na capital paulista, uma na capital carioca, e outras no interior de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Nunca havíamos tocado fora do nosso estado natal, mas a repercussão de Holoceno e os convites feitos pelo duo de grindcore experimental TEST e pelo festival Kool Metal Fest nos tiraram do conforto de casa. Foi, de fato, nossa primeira digressão de verdade, e gostaríamos muito de fazer isso com mais frequência – quiçá na Europa em 2024, se algum booking agent ou organizador de shows europeu nos convidar. Vendemos todos os CDs e fitas cassete, além de quase todo o estoque de camisetas e discos de vinil. Não acreditávamos que isso seria possível.

As revoluções que ocorreram aqui no tempo do Brasil colonial. As criaturas fantásticas do imaginário popular. Tudo isso fez parte do nosso crescimento e nós temos orgulho disso.


Por que levaram tanto tempo para lançar o disco?
Papangu: Quando iniciamos a banda, éramos basicamente crianças. Hector (guitarra e vocal) devia ter por volta dos 17 anos, que no Brasil ainda é tido por adolescente. Nós éramos estudantes universitários e não tínhamos nem dinheiro e nem estrutura alguma para gravar nosso som. Lentamente nós conseguimos algum dinheiro através dos nossos empregos com o passar do tempo, bem como montando, aos poucos, uma estrutura apta para polir nossas composições de maneira mais profissional, através da aquisição de mais instrumentos, mais equipamentos, interfaces de som que permitiam a gravação de demos… Esse processo de amadurecimento como músicos e como pessoas fez com que o resultado demorasse a ser concretizado. Mas as sementes estavam plantadas desde cedo. A música “Terra Arrasada”, por exemplo, foi a primeira composição da banda.

Têm algum vínculo afectivo com o nordeste ou a região serviu apenas de inspiração para produzir Holoceno?
Papangu: Todos nós da banda somos nascidos e/ou criados no nordeste do Brasil. O vínculo que temos com as histórias, tradições e falas presentes no nosso disco está no nosso sangue. Nós crescemos ouvindo histórias dos cangaceiros e do bando de Lampião em suas viagens pelo sertão nordestino. As revoluções que ocorreram aqui no tempo do Brasil colonial. As criaturas fantásticas do imaginário popular. Tudo isso fez parte do nosso crescimento e nós temos orgulho disso.


Fizeram muita pesquisa com recurso a livros de inspiração ao movimento modernista nordestino?
Papangu: Algumas letras e conceitos são directamente inspirados por obras como “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, além de “Morte e Vida Severina” de João Cabral de Melo Neto, além de obras diversas de Ariano Suassuna e Augusto dos Anjos.

Quem foi o responsável pelas líricas e como se dá o processo de composição?
Papangu: Depende da canção. Existem canções que possuem a letra integralmente construída por um ou outro membro. As letras de “Água Branca”, por exemplo, foram escritas por Marco (baixo e voz). Já “Lobisomem” foi escrita por Hector. Terra Arrasada, contudo, é um esforço colaborativo. Não há uma regra definida, portanto, e estamos sempre abertos a sugestões e colaborações dos membros da banda.

São histórias que eram contadas por nossos pais e mães, avôs e avós enquanto crescíamos. A cultura popular do nordeste brasileiro é riquíssima e merece ser cada vez mais estudada, apreciada e protegida. 


"Água Branca" encontra-se incluída tanto no disco como no EP. Por que optaram por esta escolha?
Papangu: O principal motivo de lançamento do EP foi apresentar ao nosso público uma versão alternativa da faixa “Água Branca” que antes só podia ser ouvida em uma compilação chamada “Milim Kashot Vol. 4”, de curadoria do blog Machine Music e realizada como forma de campanha beneficente em prol de um colega da cena da música extrema. A versão alternativa da compilação possui vocais diferentes, backing vocals diferentes, bateria diferente, um solo diferente (de guitarra e não de sintetizador, como em Holoceno) e uma mixagem diferente. Achámos que seria legal mostrar a versão alternativa também para os nossos fãs. Além disso, incluímos uma faixa experimental chamada “São Lourenço” para apimentar o lançamento.

O folclore brasileiro nordestino, os contos e mitos, são também muito estimulantes. Consideram que o vosso mundo entra também nesse imaginário? E quais são os contos que mais gostam?
Papangu: São a maior inspiração para os conceitos e letras que fazemos, sem dúvida. São histórias que eram contadas por nossos pais e mães, avôs e avós enquanto crescíamos. A cultura popular do nordeste brasileiro é riquíssima e merece ser cada vez mais estudada, apreciada e protegida. Acreditamos que as histórias mais fascinantes são as que envolvem criaturas místicas como as carrancas e os espíritos que habitam o grande Rio São Francisco, bestas vorazes como o lobisomem, a serpente feita de fumaça chamada de Boitatá. Além disso, as histórias reais e fantasiosas dos cangaceiros e do bando de Lampião estão entre as mais fascinantes.

O contacto inicial foi o de admirador. Marco (baixo e voz) é fã dos elephant9, banda de Torstein, e dos Kayo Dot, grupo de Toby, desde a pré-adolescência, e eventualmente fez amizade com os dois músicos ao vê-los em concertos. Como surgiu a necessidade de colaborar esteticamente em condições distintas – a pandemia nos forçou a gravar baterias fora do Brasil; precisávamos remixar “Bacia das Almas” –, contactámos os músicos e sugerimos a colaboração. 


Como foi o contacto com o Torstein Lofthus e Toby Driver?
Papangu: O contacto inicial foi o de admirador. Marco (baixo e voz) é fã dos elephant9, banda de Torstein, e dos Kayo Dot, grupo de Toby, desde a pré-adolescência, e eventualmente fez amizade com os dois músicos ao vê-los em concertos. Como surgiu a necessidade de colaborar esteticamente em condições distintas – a pandemia nos forçou a gravar baterias fora do Brasil; precisávamos remixar “Bacia das Almas” –, contactámos os músicos e sugerimos a colaboração. O resultado foi excelente e pretendemos continuar a trabalhar juntos em algum momento.


Têm uma preocupação moral com a sustentabilidade e o estado do nosso planeta. Lançaram a versão em vinil de "Holoceno" cuja finalização se deu com material amigo do ambiente e livre de toxicidade, à base de cera aquecida transferida para o papel. Como tem sido em termos de encomendas, as pessoas têm denotado mais consciência ecológica e ambiental, ou continuam a preferir a outra versão?
Papangu: Temos uma grande preocupação com o cataclisma ambiental que vem se assomando sobre o nosso planeta e isso está presente no conceito de “Holoceno”. É interessante e importante que uma grande quantidade de produtos, inclusive de bandas, possa ser confeccionada com materiais mais sustentáveis. Mas não temos ilusão de que isso vai salvar o mundo ou adiar o apocalipse. Apenas mudanças no cenário político e económico terão esse condão. Há uma falácia, criada pelas grandes corporações e efetivamente culpadas pela devastação, de que a culpa do cenário que vivemos é do pequeno cidadão que toma um banho longo ou que deixa de consumir produtos “eco”, quando na verdade o meio de produção capitalista e exploratório em que vivemos é um tiro certeiro em direção ao fim do mundo como conhecemos. O lobby feito pelos setores agropecuário e petrolífero para subsidiar o gado emissor de metano e os combustíveis fósseis ultra poluentes é um exemplo desse descaminho. Então é importante sim que produtos, e nossos produtos, sejam confeccionados em embalagens e materiais sustentáveis, mas nós precisamos de muito mais do que isso para impedir as mudanças climáticas e a devastação ecológica global.

...é difícil enxergar esse tipo de mudança dentro de um cenário de capitalismo predatório como o que nós vivemos. Mas isso não significa que nós vamos assumir uma postura pessimista e entreguista. Continuaremos lutando, pois nossas vidas e as das futuras gerações estão em jogo.


Agora que a Amazónia está entregue a um presidente que defende a sua protecção ambiental, encontram-se mais descansados ou desconfiam das suas promessas?
Papangu: Nós participámos ativamente da campanha para eleger Lula como o novo presidente do Brasil e ficámos imensamente felizes com sua vitória. Foi um passo determinante para remover o criminoso fascista chamado Jair Bolsonaro da presidência do nosso país. Contudo, precisamos continuar com os olhos bem abertos para tudo que precisa ser feito no que diz respeito à proteção do meio ambiente nas terras brasileiras. É esperado que o governo Lula retome a proteção merecida e esperada por nós brasileiros e pela comunidade internacional e nós vamos torcer para que isso ocorra. Ainda é cedo para tomar qualquer tipo de julgamento, temos apenas 3 meses incompletos de governo sob dificuldades de negociação com o Congresso, mas estamos desde já acompanhando os passos necessários para uma reversão no cenário em sentido positivo.

Quanto à reversão do cenário, é válido retomar o que afirmamos no questionamento anterior: apenas uma mudança drástica nos paradigmas políticos, sociais e econámicos será capaz de estancar ou ao menos atrasar o cenário de devastação ambiental em que vivemos. Pesquisas recentes demonstram que para manter o aquecimento global em apenas 1,5 grau Celsius exigiria que as nações reduzissem coletivamente suas emissões em cerca de 43% até 2030, além de que parassem de emitir dióxido de carbono para na atmosfera no início dos anos 2050. Infelizmente, é difícil enxergar esse tipo de mudança dentro de um cenário de capitalismo predatório como o que nós vivemos. Mas isso não significa que nós vamos assumir uma postura pessimista e entreguista. Continuaremos lutando, pois nossas vidas e as das futuras gerações estão em jogo.

Além da gravação do próximo disco, quais são os próximos objectivos?
Além de novas composições, é claro, pretendemos continuar levando a nossa música para lugares que ainda não tocamos dentro do Brasil e também ao redor do mundo. Seria fantástico conhecer e tocar em Portugal, inclusive!

Holoceno foi misturado por Jorgen Smädal Larsen, do estúdio Paradiso, em Oslo, masterizado por James Plotkin e produzido por Marco Mayer e a produção executiva ao cargo dos Papangu. A arte final esteve ao comando de Ars Moriendee, o logo por Salomão Montenegro e fotografia de Malu de Castro.

Texto e entrevista: Priscilla Fontoura
Capa: Ars Moriendee
Logo: Salomão Montenegro
Fotografia: Malu de Castro

Os géneros musicais chegam ao desgaste quando explorados em demasia. Deve acontecer com quase todos, quando a repetição começa a prevalecer ...

Os géneros musicais chegam ao desgaste quando explorados em demasia. Deve acontecer com quase todos, quando a repetição começa a prevalecer em detrimento da novidade. E fica difícil superar os pioneiros e todas as bandas que representam esses modelos. No entanto, há sempre uma variável opositora a tudo isto: o vento capaz de alterar a altura das ondas do mar.

Distribuído em seis temas, o álbum dos portugueses Heavy Ocean "H/O", lançado em Agosto de 2021, é um cartão de visita impactante que visualmente poderia ser ilustrado com o mar furioso da Nazaré e uma onda da dimensão de Kanagawa, pintada por Hokusai. O trio composto por Ricardo Vasconcelos, a quem se deve a autoria do design, Tiago "JAYMZ" Oliveira (Lhabya) e Hakän Säs Hipolitür tanto cabe no ambiente heavy-metal mais cerrado como no mais ecléctico.


Heavy Ocean

- Os Heavy Ocean não são recentes nisto de ter bandas, pois não? Como se dá a reunião? Sei que por alguns anos eram um duo e depois juntou-se o baixista num encontro acidental no Stop.
Hakän - Não é a nossa primeira experiência com bandas, mas tirando o Tiago que já tem uns anos disto, para os restantes, Heavy Ocean é o seu primeiro projecto a sair da sala de ensaio de forma mais séria.

O projecto nasceu em 2016 quando o Tiago propôs a ideia ao Ricardo de comporem algo diferente do que até então tinham feito em outras bandas. Inicialmente a ideia seria serem apenas os dois, só guitarra e bateria, mas à medida que iam compondo, foram sentindo falta de algo mais para complementar. Paralelamente a isto, eu ensaiava perto da primeira sala de ensaio de Heavy Ocean e gostava de ficar por perto a ouvir o som que “fugia” das paredes. Quando soube que o Tiago (que já conhecia de outras guerras) era um dos membros do projecto, e que ainda não tinham baixista, propus-me a uma audição. Foi já com os três que surgiu o nome Heavy Ocean.

- Lembro-me do Tiago, mas não na bateria. Olá Tiago, já não nos falamos há muito e, já agora, parabéns, noto que colocas um dedo criativo na bateria, por exemplo, a “Pale Horse” tem detalhes interessantes, e não a utilizas apenas como instrumento de acompanhamento. Davas voz aos Lhabya nos idos anos 2000, e sei que tiveste um problema nas cordas vocais, o que acabou por fragilizar a tua continuidade na banda. Já tocavas bateria desde aí ou foi um instrumento que foste tendo interesse mais tarde?
Tiago - Olá Priscilla! Antes de mais obrigado pela entrevista e pelas palavras. É verdade, já nos conhecemos há tantos anos e voltamos a encontrar-nos novamente graças à primeira arte. A bateria foi a primeira paixão, desde que tinha malta da terrinha com bandas de baile que ficava vidrado a olhar para aquele "monstro" e cheio de vontade de lhe dar porrada. Até que um dia o guitarrista dessa mesma banda me deu essa oportunidade na sala de ensaio deles e, assim que me sentei, fiquei agarrado de tal forma, que a hora que lá estive passou em 8 segundos, como acontece agora nos concertos. Ahahah! Pode-se dizer que foi amor à primeira pancada. Curiosamente tenho uma composição escrita por mim em '91, antes desse episódio, em que me pediram para dizer o que queria ser quando fosse grande, na qual afirmei, com toda a convicção de um puto de 9 anos, que queria ser músico e que o instrumento que queria tocar era a bateria. Pois bem, passados 33 anos, esse sentimento está bem vivo e neste momento já não dá para suportar as agruras da vida adulta sem música, tocada, ouvida e principalmente sentida. E, na realidade, ainda sou esse puto, que toca com o coração na boca, com a intensidade que sente a música, e se calhar isso é que te fez perceber que sim, a bateria em Heavy Ocean nunca será só acompanhamento, mas sim uma terceira "voz", que se tiver que sair da forma tradicional de seguir o baixo sai, se for isso que a música pede. Porque no final, se lhe fizermos a vontade, ela indica-nos o caminho e depois é, como referi, seguir o coração, pois existe um motivo para ele ser o nosso único orgão ritmado e percussivo.

- Assisto a algumas bandas que foram bastante enérgicas nessa altura e, por força de várias razões, descontinuaram essa actividade. Mas agora sentem uma tremenda vontade em reaparecer. Qual a razão que apontam?
Tiago - Penso que na altura era muito mais amor à camisola, um sentimento de paixão genuína pela arte, sempre numa tentativa de imitar os nosso ídolos, mas tudo de uma forma muito rudimentar. Recordo que era a altura ainda muito inicial da internet, não havia todos estes meios de comunicação na net, não havia redes sociais, ou pelo menos nos moldes actuais, em que num segundo conseguimos falar com um músico ou produtor do outro lado do mundo. Era muito mais ir a concertos, conhecer a malta, como te conheci a ti, quando foste tocar aqui perto da minha terra, e depois tentar tocar juntos, onde nos deixassem, muitas vezes quase a pagar para tocar. Hoje em dia as bandas começam logo com condições para chegar rapidamente a um ponto que a nós levava anos. Basta comparares as nossas gravações em K7, ou quem tinha mais posses em Mini Disk, onde ouvíamos mais tudo o resto que a música propriamente dita. Hoje, um computador mais uma placa de som e fazes um álbum inteiro sozinho, no quarto. E se calhar, essa facilidade está a atrair a malta antiga para a música outra vez. Espero que estejas incluída nessa malta e a pensar na reunião daquela tua banda incrível que eu tanto gostava e que nos levou a conhecer-nos e a manter esta amizade até aos dias de hoje.


Tiago "JAYMZ" Oliveira

Gostamos da liberdade de interpretação que não ter voz dá às nossas músicas e até mesmo liberdade artística. Começa a acontecer várias vezes vermos as pessoas a vocalizar as nossas músicas durante os concertos, tem sido um efeito secundário interessante e com o qual não contávamos.


- Parece-me que, apesar de não serem mais uns miúdos, há uma certa ingenuidade que perdura. O que pretendem com esta reunião a três? Ainda acreditam que é possível em Portugal, para quem já andou nestas lides, sabe perfeitamente que é um percurso ingrato... 
Hakän - A música em todas as suas formas sempre foi algo importante na nossa vida, de uma forma ou outra, com mais ou menos força, sempre fomos alimentando este desejo de, acima de tudo, fazer música. O percurso é ingrato e difícil, mas o prazer de pisar um palco e ver as pessoas a dançarem e a sentirem música feita por ti, é um sentimento arrebatador, capaz de dar ânimo para continuar a lutar.


 

- Embora não estejam presentes cordas vocais em H/O, não sinto que haja necessidade. Mas não têm medo de cair no cliché do género, uma vez que o post-rock e o post metal pendem, em grande parte, para o instrumental?
Hakän - Não temos esse medo, até porque existem muitas bandas do género que optam por ter voz. Gostamos da liberdade de interpretação que não ter voz dá às nossas músicas e até mesmo liberdade artística. Começa a acontecer várias vezes vermos as pessoas a vocalizar as nossas músicas durante os concertos, tem sido um “efeito secundário” interessante e com o qual não contávamos.

- Como foi desenhado o conceito para este trabalho e como se deu o processo de composição?
Hakän - Actualmente o processo de composição parte, na sua grande maioria, de ideias que o Ricardo nos traz e depois vamos trabalhando os três. No álbum, exceptuando a Numb que já foi composta com a formação completa, este processo foi feito entre o Tiago e o Ricardo. Quando se juntou o baixo foi preciso encontrar espaço para este fazer sentido de forma orgânica em músicas que foram pensadas para apenas dois instrumentos.


Ricardo Vasconcelos

Sim, há muito que voltámos as costas ao mar, mais facilmente procuramos atenção, apoio e validação da Europa, do que arriscamos ser grandes atirando-nos para um mar desconhecido. Apesar desta realidade, cremos haver uma nova geração pronta a arriscar, inovar mas tendo em conta a nossa cultura e portugalidade.


- Como tem sido a resposta ao vosso trabalho?
Hakän - A aceitação do álbum tem sido bastante positiva, principalmente no Spotify, onde temos números bastante interessantes para uma banda da nossa dimensão. Em termos domésticos o feedback também é muito positivo, felizmente quem decide dar uns minutos do seu tempo para nos ouvir acaba por dar o tempo por bem gasto.

- Eu vejo o álbum como uma representação das fases do mar. O tema introdutório: a maré que se vai enchendo, os quatro temas: o mar turbulento acompanhado de ventos fortes e “Solace” a maré baixa. Portugal tem uma forte ligação ao mar, mas cada vez mais parece que lhe vira costas para centrar-se nas tendências europeias. Wim Wenders, em entrevista à Antena 1, declara, em 2019, no âmbito da relação que tem com Lisboa: “Lisboa era uma cidade tão diferente, julgo que captámos o último vislumbre de uma cidade que, entretanto, desapareceu. Foi uma sorte ter feito o filme em ’94, e não em ‘96, ou ‘97, porque acho que já não apanhávamos esse vislumbre - o vislumbre de uma cidade antiga que começa a contactar com a modernidade do séc. XX. Agora, a cidade está claramente no séc. XXI, aberta à Europa e de diferentes maneiras, é semelhante a outras cidades do continente, mas na altura não era assim.”. Acrescenta que “a Lisboa que encontrávamos em ‘94 foi a cidade que viveu a Revolução, que ainda guardava traços colonialistas dentro de si, ainda vivia separada do resto da Europa, por esse grande país chamado Espanha, e Lisboa, sentia eu de uma forma muito marcada na altura, era uma cidade que se derramava para o mar, estava virada para o mar, mais do que para as fronteiras terrestres. E agora, quando regresso, sinto o contrário, é uma cidade que contempla a Europa, é como se tivesse virado as costas ao mar, essa mudança aconteceu, entretanto, e é algo de muito significativo, uma cidade virar-se para o outro lado.”. A cidade aqui, pode representar o país. Concordam com a opinião do realizador? 
Hakän - Sim, há muito que voltámos as costas ao mar, mais facilmente procuramos atenção, apoio e validação da Europa, do que arriscamos ser grandes atirando-nos para um mar desconhecido. Apesar desta realidade, cremos haver uma nova geração pronta a arriscar, inovar mas tendo em conta a nossa cultura e portugalidade.

- Se falarmos de mar furioso, Nazaré surge de imediato. Nunca pensaram filmar um vídeo que possa ilustrar o vosso som? E por que não vídeos para acompanharem os vossos concertos?
Hakän - Actualmente temos um videoclip para a Numb e um visualizer para a Ten Ton Heart, temos ideias para mais vídeos, mas a dimensão das músicas e a nossa exigência guiam-nos para um tipo de trabalho que até ao momento não pudemos fazer (é preciso priorizar os investimentos). O aspecto visual e cénico nos concertos também é algo em que estamos a trabalhar, mas temos de ser práticos, agora a prioridade passa por dar a conhecer Heavy Ocean ao maior número de pessoas possíveis, para que nos queiram ver ao vivo.

- Como olham para o cenário de bandas do tipo em Portugal? Vêem união? 
Hakän - Temos tentado encontrar bandas do género para tocarmos juntos, e já temos alguns nomes apontados. No final do ano passado tivemos um experiência muito bonita com os Icosandria, em que nos juntámos para um evento intimista promovido pela duas bandas e que resultou muito bem.


Hakän Säs Hipolitür


- Sei que tu, Hakän, estás envolvido em "conservar" alguns nomes associados ao Stop, uma vez que o seu legado tem sido negligenciado. Como tem sido a resposta das bandas quando pedes para participarem nesse levantamento? E como os Heavy Ocean, uma vez que lá ensaiam, olham para o futuro do Stop?
Hakän - Sim, tenho andado, na medida que o meu tempo me permite, a recolher testemunhos de pessoas que vivem ou viveram o C.C.Stop, não só músicos. A resposta das pessoas é sempre positiva, se bem que a proactividade já é mais reduzida, em grande parte motivada por anos e anos de total ausência de resultados. Enquanto banda, olhamos para esta situação com muitas reservas, o Stop é muito importante para nós e para a comunidade aqui ali se formou, esperamos que tudo se resolva da melhor forma e que possamos continuar a fazer música lá.

- Não acham que está a faltar aos H/O mais visibilidade noutros circuitos aqui deste país?
Hakän - Claro que sim, é a parte mais frustrante disto tudo, temos sempre um bom feedback sobre o nosso trabalho, mas é difícil chegar aos “sítios”. É claro que em grande medida a culpa é nossa, uma vez que a “vida de adulto” nos condiciona muito o tempo para dedicar a contactos e divulgação.

- O que têm planeado para o futuro?
Hakän - O plano é simples, divulgar a banda, dar concertos e compor novas músicas.

Entrevista: Priscilla Fontoura
Imagens: H/O
Créditos das Imagens: Seven Concept Media
Esta entrevista não foi escrita ao abrigo do novo acordo ortográfico.

A sentimentalidade presente no shoegaze aflora esta condição de isolamento físico que todos estamos a viver. Há também quem tenha aprove...



A sentimentalidade presente no shoegaze aflora esta condição de isolamento físico que todos estamos a viver. Há também quem tenha aproveitado este estado para criar temas que reflectem sentimentos mais nostálgicos que desembocam na incerteza e provocam receio do futuro. Os Personas divulgam o EP “Das Luzes Que Se Fundem Com a Manhã” com um repertório que inclui os singles Frio da Madrugada, Brado e E Eu Me Desespero Facilmente, além das faixas Talvez, Entrelaços e Mar de Problemas. O lançamento chega às plataformas de streaming através do selo Bangue Records. As sessões de gravação ocorreram no Estúdio Wasabi, em São José dos Campos/São Paulo. A produção e a mixagem ficaram a cargo de Diego Xavier (BIKE). Já a masterização foi realizada por Cássio Zambotto.

- Como se encontram e como têm vivido face à condição séria e ainda tão presente no Brasil?
João: Estamos todos bem dentro do possível, nos protegendo ao máximo e tentando proteger todos os mais próximos de nós, mas, claro, sem nos reunirmos ou nos vermos, e fazendo de tudo pra não perder completamente as esperanças na volta de “dias normais”.

Fernando: Em função da gravidade da pandemia em nosso país, suspendemos todos os encontros presenciais até tudo melhorar.

Pablo: Estamos bem, nossas famílias também estão bem. Tentando manter a saúde mental no meio de tantas notícias ruins e incertezas.

Rodrigo: Como todos no início da pandemia da Covid-19, abdicámos dos nossos encontros presenciais e partimos a fazer reuniões por vídeo chamada, e na época em que gravamos o nosso EP ainda havia casos mais isolados de contaminação, visto isso tomamos todas as medidas de protecção para podermos realizar as gravações.

- "Das Luzes Que Se Fundem com a Manhã" mostra um lado da moeda diferente de "Nunca Foi Para Dar Certo". O que mudou para passarem de um trabalho mais Pop para um mais nostálgico?
João: Sempre buscámos fazer um tipo de som no qual acreditamos e que ouvimos no nosso dia a dia, e acho que dessa vez conseguimos nos desprender do medo de abordar os nossos gostos mais barulhentos e mais sujos para compor o Das Luzes, mesmo sabendo que talvez fosse ser menos “acessível” àqueles que gostam do nosso lado mais Pop.

Fernando: Sempre compusemos este tipo de trabalho, mas aguardámos para publicá-lo, tanto que algumas músicas, como E Eu Me Desespero Facilmente e Talvez já estão "guardadas" há um certo tempo.

Pablo: Acredito que os sons que estávamos ouvindo no período de composição trouxeram essa personalidade ácida do EP.

Rodrigo: Quando gravámos "Nunca Foi Pra Dar Certo" sentimos a necessidade de mostrar um lado mais visceral e melancólico das situações vividas por nós. Pra mim, o EP “Das Luzes Que Se Fundem com a Manhã”, sonoramente, representa muito bem esses sentimentos como a ansiedade, angústia e até mesmo um pouco do conformismo ao qual nos sujeitámos.

- Como começou Personas e o que vos levou a juntarem-se para fazerem canções?
Fernando: Personas começou com João e Rodrigo, após a diluição de um antigo conjunto chamado "Rolê Errado". Após, eu (Fernando) integrei o grupo e passámos a ser "Personas". Depois de um tempo de grupo, sentimos que havia a necessidade de mais uma guitarra no grupo e foi aí que o Pablo Hanzo se juntou a nós.

Rodrigo: Personas começou comigo e com o João num outro projeto que felizmente não era pra acontecer hahaha. Porém, como as influências de nós os dois estavam bem próximas, nos juntámos para fazer músicas autorais, o Fernando entrou no meio desse processo pois precisávamos de um baterista, e por ser meu irmão e sempre tocámos juntos, acreditei que seria uma ótima formação pra dar início ao que seria o primeiro trabalho da banda. Assim, até o final de 2019 seguimos como power-trio, mas devido ao que queríamos realizar como banda sentimos falta de mais um guitarrista e sem muita procura entrei em contato com o Pablo para somar nas guitarras e desde a primeira vez que nós quatro tocámos juntos tive a sensação de que ele estava na banda desde o começo.

- Não há ansiedade mais presente para uma banda do que o retorno aos palcos. De que forma o vislumbram?
João: Antes da pandemia, a gente conseguia fazer pelos menos uns 2 shows por mês, então estar mais de 1 ano sem subir ao palco tem sido de partir o coração, mas, assim que for possível, vamos juntar todas as bandas amigas pra fazer um rolezão gostoso com todo o mundo.

Fernando: A saudade das apresentações é enorme. Tanto de tocar, quanto de assistir as demais bandas dos eventos. A expectativa para quando a pandemia acabar é de muitos shows o quanto antes.

Pablo: É o que mais queremos, poder tocar as músicas do EP novo pelo mundo todo. Com certeza vai ser bem enérgico e caloroso! Nos chamem para tocar em Portugal.

Rodrigo: Como todos os outros artistas, sentimos muita falta de nos apresentar em palcos estrada afora, mas sinto que temos que seguir e nos reinventar e continuar produzindo, ficar parado não faz bem pra nossa mente, e seria incrível esse reencontro com os palcos realizando a primeira tour fora do país!

- O vosso som remete para bandas como I Break the Horses, será o shoegaze o subgénero mais envolto do amor – esse forte sentimento que une duas pessoas romanticamente falando?
João: Eu acho que a densidade e barulho do shoegaze é perfeito para podemos tocar num assunto tão delicado e complexo quanto o amor romântico. As músicas Pop de amor que tocam nas rádios são bonitinhas, mas acho que músicas românticas precisam ser muito mais só “bonitinho” pra poder tocar honestamente em todas as nuances que se enquadram nesse tema, e o shoegaze engloba todo esse caos.

Rodrigo: Com certeza sim! Toda a atmosfera do género remete ao "clima" do amor, como por exemplo as guitarras suaves e envoltas pela reverberação, até a sujeira intensa e às vezes caóticas combinados com vocais como se fossem declarações de amor sussurradas em seu ouvido.

- Gostei mesmo muito do EP, principalmente do tema "Eu Me Desespero Facilmente". Como foi a construção e quanto tempo demorou. Foi um acto colectivo ou pessoal?
João: Muito obrigado! Desde o começo da primeira composição até o fim das gravações, acho que foram um ano e meio de trabalho. Normalmente eu ou o Rodrigo sempre chegamos com a base da música e a letra prontas, e aí levamos pro ensaio pra trabalharmos coletivamente em cima, com todos os membros dando ideias e palpites, o que sempre leva o resultado final a ser completamente diferente da ideia inicial, de uma forma bem positiva.

Fernando: Foi cerca de um ano e um ano e meio de trabalho que culminou no lançamento. As letras foram compostas pelo Rodrigo (baixo e voz) e João (Guitarra e voz).

Pablo: O João nos apresentou a composição e nos ensaios trabalhámos nos arranjos e elementos, alguns detalhes foram adicionados no ato da gravação da música.

Arte da capa por Vitória Nogueira

- O Presidente brasileiro tem mantido estratégias governamentais pouco inteligentes no que concerne às premissas de conduta do país: ordem e progresso; como também tem tomado decisões que têm provocado um efeito dominó no povo que, por consequência, não tem sentido grande protecção. O que têm a acrescentar sobre esta reflexão?
João: É revoltante ver o negacionismo de Bolsonaro sendo seguido tão cegamente pelo povo brasileiro. Ele já mostrou por diversas vezes, quase que diariamente, que é incompetente pra estar lá e pra comandar o país durante uma pandemia. Com certeza uma grande parcela das mortes que aconteceram no Brasil são diretamente culpa dessa política negacionista que ele prega.

Fernando: Infelizmente as condutas de nosso Presidente, menosprezando a gravidade da pandemia, vêm contribuindo para que o povo se sinta legitimado a fazer o mesmo, desrespeitando as medidas de prevenção, o que gera um alastramento no pico de contaminação que vem crescendo e crescendo.

Pablo: Realmente a reflexão é bastante coerente com relação ao descaso governamental em que temos vivido. Sou totalmente desesperançoso quanto às medidas desse governo, sinto que a cada dia nos afundamos num buraco mais difícil de sair. Muitas medidas negligentes e a população pagando caro por isso.

Rodrigo: O desgoverno do presidente é marcado principalmente pelo pensamento negacionista, com fortes bases na religião, suas decisões vão em contramão ao que a ciência comprova como o certo para minimizar a transmissão do vírus, tratando a Covid-19 como uma gripe comum, promoveu e promove aglomerações, e isso é só um reflexo da grande parte da população brasileira.

- Neste cenário negro têm sentido apoio dos vossos colegas das bandas e da cultura ou nem por isso?
João: Aqui na nossa cidade e na nossa região tem rolado um apoio bem massa por parte dos artistas e bandas, todos se apoiando da forma como podem, seja compartilhando as obras uns dos outros, ajudando em vaquinhas coletivas ou fazendo eventos online. E também rolaram alguns editais públicos para ajudar os artistas a arrecadarem um pouco de grana e dar uma leve aliviada no lado financeiro.

Fernando: Tem ocorrido bastante apoio entre os artistas na divulgação de trabalhos lançados e lives. Inclusive, recentemente houve uma mobilização para arrecadação de fundos para uma casa de show de São José dos Campos/SP (lar da Personas). Por isso, acredito que sim, há um apoio entre os artistas.

Pablo: De certo modo, sim! A rede de apoio não é tão forte e sólida, mas tem acontecido.

Rodrigo: O cenário demandou o isolamento social, porém o apoio de colegas artistas foi visto como uma grande forma de se manter ativo, o consumo de artes em geral tem sido uma grande forma de se ocupar a mente e também como forma de se manifestar!

- Temos uma rubrica intitulada Bagagem, onde pedimos os 5 livros, 5 discos, 5 filmes/séries de referência para cada criativo, poderiam dizer quais são as vossas?
Livros:
- Bíblia
- Guia do Mochileiro das Galáxias, Douglas Adams
- Se houver Amanhã, Sidney Sheldon
- 1984, George Orwell
- O Iluminado, Stephen King

Discos:
- Skylight, Pinegrove
- O Ransomed Son, Ascend The Hill
- Racional, Tim Maia
- The Things We Think We're Missing, Balance and Composure
- Rather Ripped, Sonic Youth

Filmes/Séries:
- Forest Gump, Robert Zemeckis
- Donnie Darko, Richard Kelly
- A Noite dos Mortos Vivos, George Romero
- Twin Peaks, David Lynch
- Toy Story, John Lasseter

Rodrigo:
Livros:
- This is a call: A vida e a música de Dave Grohl, Paul Brannigan
- 12 horas de terror, Marcos Rey
- Sh*t My Dad Says, Justin Halpern
- Eu, Robô, Alex Proyas
- O Senhor dos Anéis, J. R. R. Tolkien

Discos:
- Recortes do Diego Xavier,
- Do Que Somos Capazes da Um Quarto (¼),
- Ensaio Pra Destruir do Fernando Motta,
- Saúde do Raça,
- Boas Pessoas São Feitas de Promessas Incompletas do Marchioretto

5 Filmes/Séries:
- Alice in Borderland, Shinsuke Sato
- Vikings, Michael Hirst
- Ragnarok, Taika Waititi
- The End of the F***ing World, Charles S. Forsman 
- O Poço, Galder Gaztelu-Urrutia

- O que têm preparado para um futuro próximo?
João: Por enquanto estamos trabalhando materiais para a divulgação do EP, e também já começámos o processo de composição do nosso próximo álbum.

Fernando: Já temos um álbum encabeçado. Logo haverá novidades.

Pablo: Estamos trabalhando em novos visualizers das faixas do EP, clipe e trabalhando nas composições de um próximo álbum.

Rodrigo: Estamos trabalhando em composições novas pra lançar um segundo álbum com 11 temas onde o dream-pop está sendo bem influente, são canções mais pop do que fizemos em "Das Luzes Que Se Fundem Com A Manhã".

Texto e Entrevista: Priscilla Fontoura
Entrevistado: Personas

Foto © Daphne Daniela Nunes é artista visual e apresenta o seu trabalho artístico sob o pseudónimo Daphne. Na etimologia grega Dafne sig...

Foto © Daphne

Daniela Nunes
é artista visual e apresenta o seu trabalho artístico sob o pseudónimo Daphne. Na etimologia grega Dafne significa loureiro, pois, enquanto musa, foi perseguida por Apolo que se apaixonou por ela quando atingido por uma flecha de Eros, que também acertou Dafne, só que com uma flecha de chumbo, cuja “inoculação” tinha como efeito a rejeição do amor do deus. Dafne, já desesperada, pediu ao pai que a livrasse da perseguição. Consequentemente, Apolo transformou-a num loureiro: "Se não podes ser minha mulher, serás minha árvore sagrada". Desde então, o deus sempre trazia consigo um ramo de louros.

Nascida em 1993 e natural de Tomar, Daphne mudou-se aos 18 anos para a capital. Licenciou-se em Design de Moda, momento em que desenvolveu o gosto pelas várias texturas; até então a sua técnica era apenas materializada a grafite ou tinta da china. Após o curso, e decidida de que não queria trabalhar no mundo da moda, começou a nutrir interesse pela pintura abstracta. Escolheu, portanto, concentrar as suas forças para explorar o seu fascínio pela cor e reencontrar a expressão artística pessoal. Desde então, tem se dedicado ao trabalho mais experimental, explorando a infinitude da possibilidade cromática, aliada à forma orgânica que, no fundo, representa o seu reencontro com o mundo natural.

Olá, Daphne, como tens passado este tempo pandémico?
Olá! A pandemia apanhou-me a meio de um fase de mudanças pessoais grandes e acabou por fazer com que esse momento se arrastasse por tempo indefinido. É quase como se estivesse em transição há mais de um ano. Se isso me levou para um caminho que não era o que planeava, e me colocou numa situação que não considero ideal, ao mesmo tempo permitiu-me chegar a algumas conclusões acerca de mim própria, e acerca do meu trabalho enquanto artista, por isso diria que têm sido tempos bastante interessantes. 

O Acordes serve também de espaço para dar a conhecer o trabalho de artistas emergentes. Como tem sido a tua relação com a arte, tens conseguido subsistir através da tua?
A minha relação com a arte tem vindo a evoluir de forma muito positiva, especialmente durante este último ano. Sinto que tenho vindo a tornar-me cada vez mais próxima do meu trabalho, quase de uma forma simbiótica. A minha vontade / necessidade de fazer arte vai aumentando, ao mesmo tempo, essa mesma arte vai-me dando segurança para me expandir enquanto pessoa e artista.
 
Como olhas para a união ou desunião da comunidade de artistas plásticos em Portugal, cada vez mais ou menos individualizada?
Penso que união ou desunião dependerá de para onde olhamos. Por exemplo, eu vejo uma comunidade crescente de artistas independentes, com backgrounds diferentes, que se afastam da arte mais elitista, e nessa comunidade, aparenta existir alguma união. É para ela que me interessa mais olhar. Relativamente a outros círculos, não sei se o mesmo acontecerá, mas honestamente também não me parece que eu esteja em posição de o comentar. 

Interlude no10”, acrílico em papel. © Daphne

“Sukha III - Focus”, acrílico em tela. © Daphne

Assiste-se, paulatinamente, à vontade, de alguns criativos mais experimentais, de retornar aos materiais orgânicos como forma de exploração e entendimento “alquímico” para trabalhar-se a partir do que a natureza oferece. Tem sido essa a tua exploração? Se sim, como exploras o valor cromático?
A minha exploração tem sido mais baseada na relação entre a cor e forma orgânica e nos processos que lhes dão origem, do que propriamente nos materiais.
Mas existe dentro de mim a vontade de vir a trabalhar com materiais exclusivamente orgânicos, especialmente a nível cromático. Trabalho sempre com cores que me remetem para a Natureza, e seria interessante para mim explorar formas de trazer essas cores directamente para o meu trabalho. Por exemplo, através do uso de pigmentos naturais, feitos por mim, a partir de solo ou de plantas. Mas é algo a que ainda não dediquei tempo e estudo suficientes. 

A definição de como a estética orgânica é vista e alcançada na arte contemporânea aponta para as práticas composicionais especificamente orgânicas; acreditas ser a melhor estratégia para o futuro da construção plástica, ir às origens para trabalhar a partir das mesmas só que aplicando o olhar contemporâneo?
Claro que sim, até penso que será a única forma de manter a sustentabilidade do trabalho artístico. Explorar seja que estética for, sem ir às suas origens, sejam elas formais ou conceptuais, acho que acaba por ser um exercício com muitas limitações do ponto de vista criativo e algo superficial. 

Exploras essa intenção apenas pela motivação técnica ou também moral?
Honestamente, pelas duas. Mas sinto que a motivação moral pesa mais e é o que me faz continuar. O que me atrai no tipo de pintura que faço é o facto de trabalhar com uma técnica que não me permite controlo total. Eu apenas posso controlar o que está a acontecer até certo ponto, porque na verdade, as formas e a multiplicação de cores surgem por elas próprias, como resultado dos processos que estão a acontecer na tela. Isto é algo que me remete para o mundo natural e me faz reflectir na minha condição enquanto um ser que faz parte da Natureza e colabora com ela, e não um que lhe é superior e a tenta controlar / contrariar.
Esta mensagem é muito importante para mim e dedicar-me a algo que me relembra constantemente dela vem sem dúvida de uma necessidade moral. 

“Superterrestrial 4”, acrílico em papel. © Daphne

“Integration I”, acrílico em papel. © Daphne

O teu trabalho mais abstracto parte da realidade com vista à construção abstracta, como se processa essa construção; apenas numa base prática ou também reflexiva?
Do ponto de vista cromático, a base sempre foi reflexiva. Talvez porque a cor é uma componente tão grande no meu trabalho, desde o início senti a necessidade de a pensar muito bem e de a utilizar para representar ambientes muito específicos.

Olhando para a componente formal, os meus trabalhos mais iniciais resultaram de uma base prática e experimentalista, em que estava apenas a familiarizar-me com os processos físicos e químicos que se dão neste tipo de pintura e são necessários à criação da forma orgânica, que é na sua essência abstracta.
Mas nos meus trabalho mais recentes já tem havido uma tendência maior para que a reflexão determine as minhas decisões a nível técnico, por exemplo desde a espessura da tinta, à temperatura a que o quadro vai secar. Tudo isso começa a ser mais bem pensado e feito de forma intencional. 

Os fundamentos da origem da mimesis, construídos pelos pioneiros Platão e Aristóteles, separam o acto de criar entre os imitadores da realidade e os experimentalistas que partem da desconstrução para a criação de outra realidade. Concordas que quanto mais o representante se distancia da realidade, mais perto está do acto da criação?
Faz-me mais sentido que seja o oposto. Ou seja, quanto mais nos aproximamos do acto da criação, mais próximos estamos de conhecer e realidade como ela é.
Eu acredito que o acto de criar é precisamente a desconstrução daquilo que consideramos ser real, mas não acho que isso crie uma realidade diferente. Parece-me mais que essa desconstrução apenas separa e coloca em perspectiva as várias camadas que compõem a realidade aparente, e permite-nos vê-la com outros olhos. É um processo analítico que nos pode abrir portas para descobrir uma realidade mais interior e profunda, e por consequência mais verdadeira, porque vai para além daquilo que observamos à primeira vista.
O que é realmente criado durante todo este processo é uma percepção real da realidade e uma linguagem capaz de a representar. 

Como sentes o interesse pelo teu tipo de arte em Portugal?
Parece-me que é um tipo de arte ainda um pouco desconhecido pelos portugueses, mas que tem vindo a ganhar alguma visibilidade nos últimos tempos. O número de artistas portugueses que se dedicam a este tipo específico de pintura tem vindo a aumentar e obviamente a contribuir muito para isso. Quando eu própria comecei a explorá-lo, de forma muito tímida há 4, 5 anos, não era tão fácil encontrar alguém a fazê-lo como é neste momento. 

Tens em perspectiva alguma série de quadros?
Sim. A maior parte dos trabalhos que tenho feito já têm sido quase sempre séries, embora pequenas e normalmente em papel, por uma questão de fluidez de trabalho e também de logística.
Mas tenho sentido necessidade de me dedicar a formatos maiores e, por isso, planeio lançar uma série de maiores dimensões ao longo dos próximos tempos.

Introdução e entrevista: Priscilla Fontoura
Entrevistada: Daphne

Vivemos uma altura frágil em que muitas vezes nos assalta a sensação de que podemos perder alguém querido a qualquer instante. Há poucos dia...


Vivemos uma altura frágil em que muitas vezes nos assalta a sensação de que podemos perder alguém querido a qualquer instante. Há poucos dias fui surpreendida com uma triste notícia. Uma das bandas que mais gostei de conhecer e entrevistar durante estes 15 anos de Acordes foi Warhammer, cuja formação consistia em 4 membros, dois alemães adultos e dois jovens rapazes cheios de vida. Das memórias que guardo, vive o sentido de humor incrível destes 4 bons rapazes. A estrutura base de Warhammer dividia-se entre os dois amigos Rolf Meyn (baterista), e o mentor Volker Frerich (vocalista) que muito infelizmente deixa o planeta Terra na sexta passada. 

Warhammer foi a banda tributo a Hellhammer. 4 membros nada prepotentes ou mascarados com atitude de superioridade. Durante os dois anos, em que os conheci e convivi com eles, encontrei-os no SWR Barroselas Metalfest tanto no parque de campismo a confraternizar com os "locais" como diziam, como no bar a partilhar imaginários surreais que faziam rir até a pessoa mais séria. O vocalista Volker tinha bom coração, ainda chegou a enviar-me uns DVDs para a caixa postal com filmes. Sempre recordarei o Volker pela sua maneira séria de contar piadas, pois a melhor memória que podemos guardar de alguém é o que essa pessoa deixou de positivo. Por mais delicado que seja este assunto, há que exaltar o papel do arquivo como documento que perdura e situa um tempo. 

É também desse arquivo de memórias do SWR Barroselas que vem a entrevista a Oranssi Pazuzu, realizada no âmbito do festival de 2018. Os Oranssi são finlandeses e tocam um black metal vanguardista que liquidifica o que qualificamos de bom. Qualquer outra banda a calhar no mesmo cartaz que OP morre na estrada, pois qualquer concerto dos nórdicos supera qualquer outro. As luzes de palco, a qualidade do som, a energia performática dos músicos é literalmente hipnótica e a descarga necessária para dias que se precisa de uma. Imagine-se a raiva de Mike Patton, com guitarras electrizantes, sintetizadores sinistros e motorik sempre a dar-lhe. Bem, que se nos cerrem as palavras e que as imagens falem por si. Gostaríamos de ter mais tempo para lançar o imenso arquivo que temos de muitas bandas que muito acarinhamos, mas só o poderemos lançar assim que o tempo permitir.


Texto e vídeo: Priscilla Fontoura

Ona Snop hail from Leeds (UK) and conjure the youthful energy of punk and the rawness of powerviolence, mixed with a brand of unique sense ...


Ona Snop hail from Leeds (UK) and conjure the youthful energy of punk and the rawness of powerviolence, mixed with a brand of unique sense of witty dark humor. The band cares a whole lot about having a positive yet aware attitude about societal issues without taking themselves way too seriously.

The band members also play in a variety of other music projects and there is a fresh approach in Ona Snop that results in a charismatic release, Intermittent Damnation, which packs 17 songs that are unrelenting in its frenzied and refreshing attack.


Ona Snop is an irreverent ensemble. How did the band start and what other bands did you play in or are still playing? 
Hello, thanks for getting in touch and asking us these questions! The band started in spring of 2015. George and Henry had too much free time on their hands so decided to start a ‘side project’ with the sole focus being to write some songs that were in worship of LA hardcore kings Lack Of Interest.. and to get stoned. We had no intention of ever even really playing a gig! Since then we have had a few minor line up changes but the current and final iteration of Ona Snop consists of George on drums, Joe on lead bass, Warren on vocal duties and Henry on guitar. 

At the minute we are all still busy playing in a number of different projects. George, Henry and Warren are currently part of the live ensemble of the one-man mangel experience Rat Cage. Joe plays in a new thrash outfit called ‘Pest Control’. George and Joe play in a death metal band called Mortuary Spawn (Demo soon?). George and Henry have just recently started an extreme metal band called "Vomitorium" (first tape also soon) and Henry also plays in noise rock band The Shits. We are all rocking fucking all the time and we absolutely love it. 

How did you come up with the band’s peculiar name? 
The answer to this question is attainable in some far reaches of the Internet, but I am not at liberty to tell you right now, please accept my deepest and most sincere apologies. 

Leeds seems to be a birthplace for powerviolence, grindcore bands that subvert the genre with a more quirky, adventurous and fun attitude. How is the scene in Leeds and how do you feel Ona Snop fits into it? 
Obviously at the minute it is quite hard to gage how "the scene" is doing as there are no shows and we aren’t allowed to hang out with each other. But over the last ten years or so Leeds has produced some good fastcore/grind/powerviolence. The Afternoon Gentlemen being the primary export. I also feel their take on the genre has inspired that more quirky sound that Leeds bands are known for and Ona Snop has definitely been inspired by that! As a band we have always tried to play all types of different shows not just grind etc. We have played raves, noise rock gigs, metal shows and so on. The only shows we aren’t allowed to play in Leeds are the ‘punk’ scene ones, as apparently our less than incredibly serious take on hardcore/punk is quite simply too much to bear for the local 80s cosplayer punk scene, their loss! 

In your debut record, Geezer, there is a playful take on aggression, mashed with a mind-blowing sense of humour. What themes were you most keen on exploring in the song’s lyrics? 
There are a range of themes explored on Geezer, from dreams about Black Sabbath melting, to attacking your boss with medieval weapons and as you have probably seen there are some mild references to times we may or may not have been experimenting with controlled substances. But yes as a band our main motive is to still sound intense, at times aggressive and always insane, but in a ‘we don’t take ourselves so seriously’ kind of way. We like having fun and don’t take ourselves too seriously as people so the band is a reflection of that. We are cross about all the things all the other punks claim to be cross about, but that doesn’t mean our songs need to be about that! Well at least not all the time! 


Your latest record, Intermittent Damnation, is almost like a surreal take on fast and extreme music. The cover art is mesmerizing. Did you already have an idea or concept for it? 
For the cover itself no, we just sent the title to the very talented ‘Ghastly Castle’ (Eddie Ramirez) and they came back with a few initial ideas and we worked out the finishing touches with them. The LP comes with a lyric zine where Eddie painstakingly wrote out all of the lyrics and added more illustrations. It looks amazing and we are very excited for people to get their hands on it. 

Please check out Eddies art here!! www.instagram.com/ghastlycastle/ 

How was the composition process for the latest record? What usually comes first, the lyrics, or the melodies? 
So the general way we compose Ona Snop songs is that George and Henry will either have some riffs or structural ideas and then they flesh out the bones of the song together. Joe will then triumphantly enter and add some insane lead bass lines onto the tunes. The lyrics are absolutely the last part of the process, the lion share being written by George with other members chipping in here and there if and when they muster up the courage. 

What themes did you wanted to explore in Intermittent Damnation? 
I think on Intermittent Damnation we wanted to maybe move away somewhat from heavily referencing our own "in jokes" we have as friends and as a band. How well we managed that remains to be seen though!! Some topics we covered this time were, beheading politicians, the feeling of sheer joy leaving work on a Friday, being driven by dangerous and sometimes drunk people on tour and how it fills us with regret, lambasting the self aggrandising UKHC scene, having a fear of flying and how we don’t like the Rozzers!! It is safe to assume the rest of the songs are somewhat referential to other mind-altering experiences we may or may not have had over the years. 

What plans do you have for 2021 that you can share. 
In 2021 we would like to believe that at the very least we will get to play a gig in our hometown Leeds. Whether that is an unattainable dream remains to be seen. Beyond that, not even a pandemic can stop us from jamming every week. We have already written another 7 inch and most the songs for a split with Victoria BC, Canada’s newest and finest export, CON ARTIST. You quite simply cannot stop Ona Snop!!

Text and Interview: Cláudia Zafre
Band: Ona Snop
onasnipsnop.bandcamp.com

© Vera Marmelo A inocência e alguma espécie de romantismo leva-nos cedo a insistir num caminho que se inicia como hobby. Mas quanto mais se ...

© Vera Marmelo

A inocência e alguma espécie de romantismo leva-nos cedo a insistir num caminho que se inicia como hobby. Mas quanto mais se emerge na paixão, mais difícil vai sendo voltar à superfície desse mergulho profundo, porque quando esse enamoramento acontece depois sucede o amor. 

Em Portugal, já devem ter encontrado na Web trabalhos da Vera Marmelo, a fotógrafa que tem dado destaque à cultura underground com as suas imagens. Ainda na flor da idade, foi mostrando curiosidade em sair do núcleo dos seus amigos da escola para habitar espaços culturais e ir ver concertos. 

A Música e a Fotografia são dois mediums que têm tido uma relação estreita, principalmente quando começaram a surgir publicações que mantiveram estes dois mediums essenciais para passar a informação. Vera Marmelo é, claramente, um nome cada vez mais associado à música porque, na verdade, a sua investida – pelo menos a mais exposta – tem sido não apenas o registo fotográfico de músicos, mas a forma como olha para cada um deles. 

Olá, Vera, como tens enfrentado este tempo de pandemia? 
Não a enfrento, aceito-a e respeito-a. 

Março passado, quando tudo começou a cair, a cancelar, a adiar, não havia previsão nenhuma sobre um fim, então vivi isto de uma forma moderadamente leve. Pensei que era uma boa oportunidade para ler, estudar, arrumar coisas, atualizar site, voltar a ter tempo para dormir. Tenho outro trabalho para além da fotografia e vim para casa em modo teletrabalho. Sobraram-me as muitas horas de concertos, de fotografia, de planos para fotografar, de amigos, de viagens então tentei aproveitar. Tive um primeiro confinamento muito privilegiado a trabalhar, segura e com companhia e energia mental e física para aproveitar o tempo que me sobrava. 

Com o aligeirar das regras voltei a fotografar. Houve uma capacidade de resistência e um querer fazer de muita gente que me chamou para voltar a fotografar. E entre Junho e início de Janeiro ainda fotografei muito. Agora, nesta segunda fase de regresso a casa, datas canceladas, notícias terríveis na televisão, testemunhos de amigos médicos e amigos atingidos de forma pessoal pela pandemia, da capacidade de adaptação a ser mais dolorosa que nunca e estarmos todos em desgaste, estou só a tentar manter-me sã e fazer o que posso, que é ficar em casa e continuar a escapar à doença. Continuo a pensar e a ver fotografias todos os dias. De vez em quando nos passeios levo a máquina, mas recolhi-me e nem consigo pensar no futuro. Continuo ocupada com o meu outro trabalho. Debaixo do meu privilégio. Acho que nunca valorizei esta vida dupla que tenho mantido nos últimos 14 anos como agora. 

Os concertos eram quase como a tua arena de trabalho, e agora, em que são tão escassos, achas que, quando isto começar a normalizar, vais voltar ao modus operandi de antigamente, ou achas que algo vai mudar na forma como vislumbras trabalhar? 
Entre Junho e Janeiro voltou tudo ao normal. Tinha esse receio quando parei. Nunca tinha estado mais do que uma semana sem fotografar um concerto. Então óbvio que estando parada mais de 3 meses comecei a pensar o que aconteceria no regresso. Como sempre fui arrastada para a arena e foi tudo muito normal, aparte das máscaras, termómetros à entrada de salas, afastamentos e limpeza de mãos. Demorei a habituar-me a salas meio cheias, por causa das restrições de limitação. Mas a felicidade da normalidade e as saudades que tínhamos de todos fez com que nem sentisse a necessidade de pensar em “como fazer isto”. Simplesmente fui. 

Tens o teu blogue há mais de 10 anos, o v - miopia, e dás-lhe relativa importância, porque o entendes como o teu arquivo online onde vais alojando as tuas fotografias. Os blogues foram as primeiras publicações mais democráticas em que cada um de nós podia publicar para qualquer internauta, e, na verdade, os blogues estavam no auge nos finais dos noventa e princípio do novo milénio. No entanto, ficaram um pouco obsoletos por causa da extrema alienação e distracção que as redes sociais provocaram. Como achas que se pode dirigir a camada mais jovem, que lida com os avanços mais recentes e rápidos, para estes lugares da Web mais “clássicos”? 
A reação que eu sinto é o “deixar de parte”. Estamos todos a gravitar em torno do instagram. O consumo de fotografias, notícias, até de música faz-se dentro daquela rede. Quem sou eu para navegar contra a maré? A verdade é que continuo a alimentar o blog, a fazer o meu exercício pós fotografar de selecionar um conjunto e o partilhar ali. Faço as pontes para as redes sociais. Escolho uma mini-amostra para as stories do instagram e uma imagem que me interesse mais para o feed do instagram. 

Começas a repensar melhor o teu processo de edição. Sabes que a forma como partilhas imagens nas diferentes plataformas são diferentes. O blog continua lá. É um bom arquivo para quem procura uma imagem em particular a encontrar. As visitas são muito menores. Mas, por exemplo, há pouco tempo pediram-me muitas imagens de um músico para entrarem numa entrevista grande. Limitei-me a enviar o link com o tag para o blog e a base de escolha estava ali. Poupou-me estar a cavar em arquivos enormes. A pré-seleção já ali está feita. Pode ser que num futuro qualquer as pessoas voltem a ter interesse em ver mais além de uma fotografia. É o meu álbum de fotografias. Vai continuar, mas sei que com um décimo do interesse que outrora gerou. 

És muito apologista das lentes fixas, entendes a fotografia como um acto que obriga o autor a andar e ir ao encontro de algo para captar aquele momento que foi procurado por quem está atrás da câmara. Achas que o significado da fotografia é uma espécie de flâneur em vez de voyeur? 
A ideia do flâneur agrada-me muito mais. O significado da fotografia que tu fazes é aquele que lhe queres atribuir. Revelar-se-á nas imagens que fazes. A mim interessa-me não interferir, ser “a fly on the wall”, mas sem manto de invisibilidade. A proximidade ao fotógrafo interessa-me. Física e também “humana”, no sentido de me interessar o que está a acontecer ao ponto de o achar relevante e merecedor do meu tempo. 

Fazes outro tipo de trabalho, mas o mais exposto é o contacto que tens tido ao longo de uma década com músicos. Essa paixão ainda se mantém acesa e voraz, ou foste, ao longo deste tempo, também motivada pelo cansaço e descoberta de outro mundo menos mágico mas relacionado à música, sentindo outros interesses para fotografar? 
Afasto-me de forma mais ou menos elegante de mundos menos interessantes. A minha constante tentativa de procurar universos musicais e gente mais nova que eu é na verdade uma tentativa de resgatar essa paixão. A fotografia de música tem-me feito as pontes com outros universos e outros tipos de fotografia. É uma relação feliz. Continuo a conseguir mantê-la saudável. Mas com a plena consciência de que não depender exclusivamente dela a nível monetário é uma ajuda preciosa. 

Ano Novo, Jan. 2020 © Vera Marmelo

Podes relatar algum episódio que te tenha marcado de alguma fotografia que tenhas feito? 
Nunca há uma imagem x ou y. Estava a correr as entradas do blog para tentar encontrar uma resposta para isto. É também o meu auxiliar de memória. 
2020 tinha tudo para ser incrível. Comecei o ano a fotografar amigos super queridos a tocar. Detesto a cena da passagem do ano, mas lá me convenceram a passar a tarde, noite e madrugada num sítio cheio de estranhos, cerveja a voar e rock. O argumento foi “vai ser uma noite normal para ti, só acrescentas a contagem decrescente” e assim foi. 

Agora que olho para estas imagens penso no quão por garantido tomava este tipo de noites. 2020 começou assim e teve dois meses do que podiam ser estas histórias de fotografias que aqui vocês me pedem. Tive três concertos com a Angel Olsen, com acesso a tudo. 

Angel Olsen, à tarde, no Capitólio, Jan. 2020, © Vera Marmelo

Músico (que acompanha Angel Olsen), Capitólio, Jan. 2020, © Vera Marmelo

Convém o leitor perceber que sigo o Devendra enquanto fã séria desde 2004. Portanto há aqui uma camada de fangirl pesada nesta oportunidade. 

Devendra Banhart, no Capitólio © Vera Marmelo

Devendra Banhart, no Capitólio © Vera Marmelo

Devendra Banhart, no Capitólio © Vera Marmelo

Mas, a parte boa nisto tudo é que no mesmo dia em que estive com o
Devendra pela segunda noite, com o tal acesso a tudo e mais alguma coisa, ainda tive a vontade de ir fotografar na ZDB, durante a tarde, mais uma das matinés dos workshops do Peter Evans. 

Peter Evans "Som Crescente", na ZDB © Vera Marmelo

Marca-me sempre esta minha energia inesgotável de estar presente, que de vez em quando tem o brilhantismo de alguém muito conhecido que me deixa estar por perto, mas intercalada com banho de cerveja e matinés com estudantes do Peter Evans. 

As fotografias da Vivian Maier vão estar expostas em Cascais. Muito se poderia acrescentar sobre a fotógrafa que viveu uma vida tão imersa a registar as suas observações nos seus passeios. Muito arquivo dela ficou retido numa garagem e alguma polémica foi gerada por causa dos direitos, etc, imagina o tempo que Vivian deve ter passado a revelar. Para ti a fotografia passa ainda muito por este processo clássico, cujo verdadeiro significado também advém do processo de revelação, ou achas que há outras perspectivas legítimas também, como o processo que a fotografia digital tem implícito? 
Do que vi no documentário, a maior parte dos negativos até ainda estavam por revelar. O que a movia nem era bem o resultado das imagens… era sair e fotografar. E há tantos fotógrafos que mesmo usando o digital continuam a trabalhar desta forma. Fotografar, chegar a casa, descarregar imagens e só voltar a olhar para elas depois, afastando-se do dia, ganhando uma distância ao que fotografou para depois olhar de forma independente para as fotografias. 

O que faço já não tem muito tempo para esta magia da descoberta no pós. O que esperam de mim, e arrisco-me a dizer a razão pela qual também me chamam, é esta rapidez, o momento a ser partilhado no segundo seguinte a ter acontecido. 

Agora faço esse exercício do tempo depois, mensalmente. Tenho, ou tinha, esse compromisso mensal de olhar para todas as fotografias que fazia e compilar o meu best of no site (veramarmelo.pt). Este ano foi atípico mas ainda o fiz. Esse olhar para trás, com mais calma, o que fotografei, compilar menos imagens e as que me dizem mais a mim é um exercício muito útil. 

A minha cabeça em formato digital está no blog e no instagram. O meu processo analógico de seleção de imagens e espera está no site. 

Tu ainda vives a fotografia analógica, o prazer da revelação, todo esse processo que não sabe bem o que está no rolo e que é surpreendido na revelação. Achas que um fotógrafo profissional deveria ter sempre conhecimento sobre o processo mais primitivo, mesmo que não escolha esse caminho, ou achas legítimo que um fotógrafo profissional entenda somente o processo digital? 
To each their own! Não vamos obrigar a malta a ter uma máquina de escrever quando já há tanta alternativa de escrita. Aprende-se muito com a espera, com a contenção a fotografar. Mas podes fazer isso tudo até a fotografar com o teu telemóvel. 

Qual é a fotografia que tiraste e mais gostas e que é capa de um disco? 
A do Thurston Moore. 

Achas que o poder da fotografia, tal como a música e o cinema, é elevar uma possível magia, que à partida possa passar despercebida se não for mediada por um olho fotográfico? 
O poder de contar uma história, de te mostrar uma coisa ou sítio onde não podes estar, de tornar belo uma coisa para a qual nem olhas na corrida do dia. É o cinema dos que querem prazer imediato. Dos que não têm paciência para esperar. 

Acredito muito no poder de passar uma mensagem, de guardar momentos, de te ajudar na construção da tua história na tua memória. 

Tu não és fotojornalista, no entanto há sempre um lugar ético que qualquer pessoa em qualquer trabalho deveria ter, a imagem tão conhecida The Vulture and the Little Girl, tirada por Kevin Carter correu o mundo e foi premiado com um Pulitzer, mesmo assim, o fotógrafo teve um desfecho trágico, acabando com a sua vida, talvez por causa da consciência mórbida que não dissociou o acontecimento traumático daquela imagem com o clique do botão. Como vive a tua consciência nesta circunstância? 
No universo em que fotografo nunca me deparei com uma cena trágica. Mas prefiro mil vezes não carregar no botão a representar de forma injusta e indigna quem está à minha frente. É preciso ter uma fibra muito particular para seres fotojornalista, um dos bons. Não a tenho. 

Há muita gente a publicar inescrupulosamente imagens de autores sem aplicar os devidos créditos. Insurges-te em relação a essa prática ou já lidaste tanto com isso que agora já nem te aquece nem arrefece? 
Já lidei muito com isso. Tentei sempre ser cordial. Nunca deu chatices. E hoje em dia recebo é créditos por coisas que não fotografei. 

Há alguém a quem gostarias de fotografar (esteja morto ou vivo)? 
Neste momento quero fotografar um molho de gente todo colado num buraco qualquer mal ventilado, sem termos medo de morrer a seguir. 

Como tens sentido a representatividade de género desde que começaste até agora no papel de fotógrafa? 
Os tempos mudaram muito. Somos cada vez mais. No pit é realmente notável. Ou então sou eu que estou mais atenta às miúdas na tentativa de as “proteger”. 
Tenho estado, nestes tempos de pandemia, mais interessada em pesquisar o trabalho de outros e isso levou-me a fazer um curso que se foca na Fotografia feita por mulheres, no Atelier de Lisboa, surpreendeu-me sermos só alunas. Este olhar para o trabalho no feminino e a presença mais tardia das mulheres neste universo só me revela que há muito a fazer. Muito a aprender. E acima de tudo a necessidade de sermos mais, em diferentes mundos da fotografia, para que o ponto de vista se diversifique. É diferente, mesmo muito diferente. 

Estamos a viver tempos muito estranhos e a cultura tem sido a secção mais prejudicada, como olhas para o futuro da cultura? 
Nem o consigo olhar de frente pelo medo que isso me traz. Como sempre, será a última a ser ajudada a se levantar. Estamos, neste momento, mesmo na base da pirâmide. A tentar sobreviver. Que a resiliência não nos falhe. 

Temos uma rubrica intitulada Bagagem onde pedimos as referências para 5 livros, 5 discos, 5 filmes/séries, a acrescentar a estes pedidos podes também referir 5 fotógrafos que são para ti uma influência? 

Livros:
Just Kids, Patti Smith 
Kindred, Octavia E. Butler 
A tetralogia da Elena Ferrante, A amiga genial 
A triologia do Henry Miller, Sexus, Nexus e Plexus 
Girl Woman Other, de Bernardine Evaristo 

Discos:
Marked for Death, Emma Ruth Rundle 
Hiss Spun, Chelsea Wolfe 
Joy as an act of Resistance, Idles 
Titanic Rising, Weyes Blood
 All Mirrors, Angel Olsen

Filmes:
Thelma and Louise, Ridley Scott
Paris Texas, Wim Wenders
Parasite, Bong Joon-ho
Everybody Street, Cheryl Dunn
Small Axe, Steve McQueen

Fotógrafos:
Pooneh Ghana 
Alec Soth 
Magdalena Wosinska 
João Canziani 
Sacha Leca

Intro e entrevista: Priscilla Fontoura
Entrevistada: Vera Marmelo
Todas as Imagens: © Vera Marmelo