Os espectáculos ao vivo são uma boa forma de conhecer novas bandas e de aferir a qualidade de outras já conhecidas apenas em registo est...


Os espectáculos ao vivo são uma boa forma de conhecer novas bandas e de aferir a qualidade de outras já conhecidas apenas em registo estúdio. Ao vivo é mais difícil de camuflar a falta de qualidade. Na minha juventude, há muitos anos atrás, a divulgação passava por leitura de jornais e revistas estrangeiras, o boca-a-boca de amigos mais velhos e viajados, os reduzidos programas de autor na rádio que se dedicavam à música que se ia fazendo no mundo. Radialistas como António Sérgio, onde Saturnia se estreou ao vivo no “A hora do lobo”, escasseiam. Talvez Nuno Calado na Antena 3 continue a resistir, mas de resto pouco mais sobrevive. Ouço cada vez menos e quase sempre a mesma estação, mas até esta parece estar a perder gás quando se ouve o mesmo tema (de qualidade mais do que duvidosa) duas e três vezes por dia. Quanto a bandas novas e portuguesas em particular, são quase sempre as mesmas, dando a impressão que só os que pertencem ao círculo de amigos e / ou têm a sorte de ter uma editora influente têm direito a ser divulgados. Felizmente agora temos a Internet e com ela uma plataforma de acesso ao que vem sendo produzido. Infelizmente essa produção é tão vasta que, sem as pistas certas, não conseguimos abarcar tudo e corremos o risco de ignorar projectos interessantes. Do “too less” passámos ao “too much”.


Os Solar Corona, que fizeram a primeira parte do concerto, são um destes casos de bandas que conheci pela Internet no seguimento da sua participação no Sonic Blast Moledo 2018. Escutados os temas no seu Bandcamp, fiquei agradavelmente surpreendido e curioso quanto à sua actuação ao vivo. O (com muito) power trio de Barcelos não me desiludiu. Tocando um rock psicadélico com toques de stoner rock e mesmo de speed metal, Rodrigo Carvalho (guitarra e teclados), José Roberto Gomes (baixo) e Peter Carvalho (bateria), fizeram um set quase sem interrupção, batido e tocado, muitas vezes, a 200 km/h. Muito bom e uma banda a rever mais vezes.


Depois dos Solar Corona chegou o cabeça de cartaz Saturnia. É redutor classificar o trabalho de Luís Simões a.k.a Saturnia como de alguém ex-qualquer coisa. Seja de ex-elemento de uma banda de culto ou de outra com mais impacto mediático e de aceitação pública mais generalista. O som de Saturnia não renega as influências do rock progressivo e psicadélico, mas re-make e re-model fazem parte da criação musical. Neste concerto Luís Simões (guitarra eléctrica, sitar e gongo) esteve acompanhado na bateria pelo, já quase inevitável, André Silva e por Rui Guerra nos teclados. A setlist foi idêntica à de maio passado no Musicbox, aquando da apresentação do seu mais recente disco The Seance Tapes. Oportunidade para ouvir, entre outros temas, Chrysalis, I am Utopia, The real high, Mindrama, The Twilight bong e Cosmonication, onde não faltou uma dedicatória em memória ao grande guitarrista Filipe Mendes, falecido no passado mês de Agosto. Uma actuação certinha e de grande qualidade como já é hábito em Saturnia. Os seus concertos são escassos e é pena. Esperamos, ansiosos, por novos temas que possam impulsionar mais aparições ao vivo.

Durante um par de horas o Titanic deixou de estar “sur mer” e ficou “dans l’espace". Uma viagem que deverá ter continuado com os DJ’s Deus do Psicadélico e Candy Diaz, mas da qual eu já tinha desembarcado.


TEXTO: JOSÉ MARQUES 
IMAGENS e VÍDEO: JOSÉ MARQUES
LOCAL: TITANIC SUR MER, Lisboa
DATA: 16 de Novembro, 2018
CONCERTOS: Saturnia e Solar Corona

Quem já não esteve numa clareira no meio da floresta? Teias de aranha gigantescas e o som, sim, implacável da natureza. E se surgir um lo...

Quem já não esteve numa clareira no meio da floresta? Teias de aranha gigantescas e o som, sim, implacável da natureza. E se surgir um lobo ou uma alcateia, reclamam o seu território porque lhes está na natureza. Não há lugar para relapsos medrosos. Meltdown é uma banda do país basco de metalcore puro que nos respondeu a algumas perguntas.

Who has never been in a glade in a forest? Gigantic spider webs and the sound, yes, the relentless sound of nature.   And if a wolf appears or a pack of them they will claim their territory because it's in their nature. There is no place for fearful relapses. Meltdown is a band from the Basque country of pure metalcore that answered some of our questions. 


First of all, I would like you to know that we really enjoyed your debut LP FROM THIS DAY TO THE GRAVE released by Art Gates Records and we reviewed it on our website acordesdequinta.com

- Hi mate, Mikel here. Thanks a lot for the kind words! We worked really hard to make this album happen, so it's always good to get this kind of feedback, big up! 


Q: Even though your style is cleary on the post-hardcore spectrum of music, it would be interesting to know if you all share the same musical tastes and if there are other bands (of other genres), that have influenced you in some way or another.
- We all have a common ground where we listen to the same bands and styles, but we all have our own musical tastes. Some of us might be more into djent, others more into hip hop, melodic hardcore... we listen to loads of different music, and I think that's a really positive thing for the band.
We are influenced by post hardcore bands as you said, but we are also influenced by metalcore, melodic hardcore, maybe nu metal... Would be really hard to pick a band or a specific genre, diversity is one of our keys I guess.

Q: How did the band start? Where did you meet?
- We started around middle 2013. We knew each other from high school and from attending local hardcore and metal shows; we were not really best friends when the band started as we did not know each other before, the project made us much closer.
I guess the first place where we all met was on a local post-hardcore show hosted by Cohen, that was the place where the idea was born. The first proper meeting was in our hometown, exactly at Bittor's brother's rehersal room. We played a cover from Berri Txarrak as a first hit; it went horrible, but that's how band's start I guess!

Q: What venue did you enjoy playing the most and why?
- I think we all have our own favorite place, so it would be really difficult to answer this question. Our performance at Download Festival Madrid 2018 was a really special show definitely, and our hometown shows are always awesome for us. The release show we had at Nevers in France was also amazing, we will never forget that.

Q: Could you describe how your composition process works?
- We have changed it for this new record. First, we record the main ideas and riffs for the songs, and then we work on them all together. Main riffs normally come from the guitarists, and then each one works on his instrument in order to evolve the song. Final production is made all together.

Q: What are the topics or themes that influence the most the writing of your lyrics? 
- This has also changed with this album. Before we recorded “From This Day to the Grave”, we used to focus into existential and some social topics; we used to talk about the way we saw the society and the humankind in general. With this record, we have focused on topics that are relevant for us in a personal way, things that we feel our listeners will feel identified with. This is our most personal work so far, no doubts. 

Q: Do the politics of the Basque Country in constrast with the central powers of Madrid influence your music in any way? Do you have a stance on that matter? 
- This is a good question. We don't feel like Meltdown is a strictly political band, although we all have our personal opinions regarding to this topic. To be honest, there are different thoughts inside the band about the politicial situation in the Basque Country and the possible solutions, so we do not have a clear stance. However, in a musical level, we have been influenced by many basque bands that have talked about this topic, and the social movements that happened here in the 80s and 90s created some structures, like the Gaztetxeak (squats related to left-wing political groups that host and hosted music shows and other cultural and political activities), that allowed us to tour and develop as a band. So, we can say that we have been influenced by the whole issue, one way or another.

Q: How is the current music scene in Basque country?
- I think that the basque scene is one of the strongest scenes in the whole spanish state. There are loads of opportunities for bands to play around, many studios to record songs... However, I think we are in a transition period, as some older bands have quit and some young new band's have started. But we definitely have some sick bands and there are many more coming, it is just a matter of time. 

Q: What was your favorite concert while growing up and the one that gave you the final encouragement to become a musician?
- As I said before, the show by Cohen was a great deal for us, and it encouraged us to start the band. That happened in Donostia-San Sebastian in early 2013; they proved us that it's not necessary to be american or british to have a heavy band and nail it, it's just a matter of work, motivation and dedication.
In a personal level, I can't really remember about a specific show that was incredibly relevant for me in order to become a musician. It was a normal and natural process. Maybe the first Resurrection Fest I attended back in 2014 boosted my desire to follow this lifestyle; next year we will play this festival, dreams come true.

Q: This is the final question and somewhat a very random one but I think it’s amusing. If you could choose a spirit animal for your band, what would it be?
- Maybe a wolf, always working as a herd and following our goals all together <3

Thank you and we’ll be glad to hear from you soon.
-Thanks a lot for your interest and time, see you on the road.

INTERVIEWER: CLÁUDIA ZAFRE
INTERVIEWEE: MIKEL
BAND: MELTDOWN

Tudo o que vem com esforço é muito mais valioso.   Neste mundo onde predominam várias injustiças, o mérito é muitas vezes posto de part...


Tudo o que vem com esforço é muito mais valioso. Neste mundo onde predominam várias injustiças, o mérito é muitas vezes posto de parte e muitos dos que alcançam projecção conseguem-na por outras razões. Felizmente, não é o que acontece com os Elder. A técnica que flui daquelas guitarras, força motriz da banda, não é aleatória, mas reflexo de muito tempo dedicado a explorar acordes, escalas e contratempos.

Estradas, estúdios, palcos, a vontade de quem quer fazer disto vida, são certamente os grandes desafios que esta banda tem enfrentado para que mais pessoas possam imergir neste mar, ora brando, ora tempestuoso. A identidade desta banda oriunda de uma pequena cidade da costa de Massachusetts caracteriza-se, essencialmente, por ambientes atmosféricos e progressivos. O som destes anciãos encaixa que nem luva numa noite de Verão, mas nesta a atmosfera é diferente, há neblina no exterior que não é impedimento para que a chama se acenda, assim que Nick DiSalvo calca o Bif Muff.


Nick DiSalvo é já por si uma figura carismática. Chamam a atenção os cabelos cor pérola que exprimem liberdade assim que solta riffs pujantes. Pouco ou nada se iguala a um corpo que se liberta pelo embate das ondas sonoras. O líder da banda domina escalas com os seus dedos longos e não é novidade que dedos longos facilitam o domínio das escalas. Não é por isso que o jovem bem parecido se deixa levar facilmente pelo abuso de virtuosismos bacocos para mostrar o quanto sabe tocar, apresenta, também, o outro lado, o do punk/hardcore que toca na emoção, causando boa disposição, essa panaceia de todos os males. Afinal de contas não é de uma masterclass que se trata este concerto...



Reflections of a Floating World não se ouve a decibéis além limite nas roadtrips com amigos, desta vez é ouvido no centro do rock do Porto, no HardClub. Nick solta o riff de Sanctuary e canta-se em uníssono:

Deception is the book of faith
Silence is the only embrace
We walk the land without a choice
Screaming as though we have a voice
Sanctuary, Sanctuary

Sem dúvida uma canção com sentido de pertença que quebrou a saudade vivida naquela noite de Verão no SonicBlast Moledo, no ano passado, naquele concerto em que não se sentiu o tempo a passar e perpetuou o desejo do regresso.



Vêem-se mãos no ar. O público declara saudades do stoner/doom/rock mais presente em Dead Roots Stirring, assumidamente influência directa de Colour Haze - banda que marcou presença ainda este ano neste mesmo espaço. A bateria bem marcada de Matt Couto, que lembra o jeito Robby Staebler, abre caminho para guitarras que se movem nas camadas harmoniosas. Sente-se a catarse que faz esquecer uma vida cheia de problemas.



Com mais de 10 anos de experiência, confirmam-se uns Elder mais coesos, com identidade firmada num género que outrora se via pouco definido. Com a presença de Mike Risberg nos palcos, sente-se a força das guitarras que de outra forma poderiam ficar aquém se ficasse apenas pela mão de Nick. A voz, enquanto elemento secundário, não serve de base para a composição, é apenas um detalhe importante que marca a diferença na identidade sónica da banda, tal como o órgão tocado por Mike Risberg.



Mais cedo, os portugueses Vircator, preencheram a primeira parte e encontram-se a preparar o sucessor de Sar-i-Sang. Fecharam o concerto com o novo tema Lady Fern que será incluído no próximo trabalho.


Sente-se a antecipação no ar. Vêem-se vinis de Reflections of a Floating World no chão da sala. Os técnicos organizam o palco para o concerto tão aguardado. Acompanhado pela banda entra Scott Heller AKA Dr. Space, com a sua caixa de sintetizadores analógicos. A meio do concerto, Dr. Space leva-nos para lá do planeta Terra, acompanhando o tema III e, num momento em que o ambiente fica mais agitado, eis que chega a hora para a meditação cósmica. Quebrado o momento de introspecção, Conpendium desperta no público a agitação dos que aguardavam pelo tema. Lá fora há neblina que humedece a cidade, mas estes Elder moveram uma sala que jamais se fez fria.










TEXTO: PRISCILLA FONTOURA
IMAGENS: PRISCILLA FONTOURA, SOPHIA PETRA
LOCAL: HARDCLUB, Porto
DATA: 11 de Novembro, 2018
CONCERTOS: VIRCATORELDER

IMAGENS: RUI MOTA PINTO LOCAL: Fora de Rebanho - Associação Cultural, Viseu DATA: 10 de Novembro, 2018 CONCERTOS: Mythic Sunshi...


IMAGENS: RUI MOTA PINTO
LOCAL: Fora de Rebanho - Associação Cultural, Viseu
DATA: 10 de Novembro, 2018
CONCERTOS: Mythic Sunship

Terapias... CRIAÇÃO E AUTORIA:   EMANUEL R. MARQUES

Terapias...

CRIAÇÃO E AUTORIA: EMANUEL R. MARQUES

The days are just packed! ou Mas que dias tão cheios! é o que Calvin diz a Hobbes ,   numa das tiras famosas da comic. Calvin refere-s...


The days are just packed! ou Mas que dias tão cheios! é o que Calvin diz a Hobbes, numa das tiras famosas da comic. Calvin refere-se a mais um dia de verão na companhia do seu melhor amigo. São os dias de verão cheios e longos que nos fazem querer estar na companhia dos amigos a fazer travessuras, ou com a idade já no nosso encalço num serão mais tranquilo. As noites de verão são igualmente mágicas e cheias de bons momentos. Um deles passou-se no Sabotage que se encheu para uma festa vibrante de Indie rock do qual fizeram parte duas bandas de Lisboa e uma de Coimbra. Foi num ambiente descontraído, alegre e relaxado que a primeira banda fez as honras da casa. Them Flying Monkeys, nascidos em Sintra, tocam um indie rock despretensioso e extremamente criativo, fazendo lembrar em certas partes uns Real Estate se tivessem existido na década de 70. É um indie rock soalheiro e bastante progressivo, firmado pelas passagens instrumentais e mudanças de ritmo constantes e imprevisíveis. O set escolhido provocou o público do Sabotage que correspondeu com igual dose de entusiasmo, especialmente quando a banda tocou o single Molly, um tema de uma pop delicada e cujo bálsamo teenager é a metáfora sonora do mítico elixir da juventude. A banda prepara-se para editar o seu primeiro LP e é com grandes expectativas que o aguardamos.



Para continuar a festa chegaram de Coimbra os Flying Cages. Tocaram uma mão cheia de temas do seu repertório que tem vindo a crescer. A banda conseguiu gerar bastante entusiasmo na audiência que vibrou com o seu indie rock enérgico e que muito tira proveito da conjugação das guitarras para a criação do seu som. A banda tocou alguns temas do seu LP Woolgather editado no ano passado.


Quem entrasse no Sabotage durante a actuação dos Ditch Days, julgar-se-ia em mais uma noite reconfortante de Verão, apesar de estarmos já no mês frio de Novembro. A festa fez jus ao seu nome de It’s always Sunny, porque a música gerada pelas três bandas criou um micro-clima no Sabotage que nos transportou até aos meses quentes, felizes e cheios de possibilidades. A banda tocou temas novos pela primeira vez ao vivo, assim como temas mais conhecidos e antigos como Melbourne (o primeiro single) e Back in the City do LP Liquid Springs.  Conseguiram envolver a audiência com o seu som característico de indie rock bem disposto que recria toda a atmosfera encantadora e apaixonada da adolescência e juventude. 

O país precisa de mais festas como estas, em que bandas se sentem felizes a tocar ao vivo para amigos e com amigos, sendo acolhidos por uma audiência interessada e cativada pelo que de melhor se faz no panorama do indie nacional.


TEXTO: CLÁUDIA ZAFRE
IMAGENS e VÍDEO: JOSÉ MARQUES
LOCAL: SABOTAGE, Lisboa
DATA: 3 de Novembro, 2018
CONCERTOS: Them Flying Monkeys, Flying Cages, Ditch Days

PUZZLE: DENNIS WILSON  e  SCOTT SPEEDMAN IDEIA e MONTAGEM:  PRISCILLA FONTOURA PUZZLE:  CLÁUDIA ZAFRE

PUZZLE: DENNIS WILSON e SCOTT SPEEDMAN

IDEIA e MONTAGEM: PRISCILLA FONTOURA
PUZZLE: CLÁUDIA ZAFRE

TOO MANY SUNS Género:   alternativo, dream pop, indie, pop, rock Single: Garden Data de lançamento:   8 de Outubro, 2018 O ...

TOO MANY SUNS
Género: alternativo, dream pop, indie, pop, rock
Single: Garden
Data de lançamento: 8 de Outubro, 2018


O verão é uma estação do ano, mas pode muito bem ser um estado de espírito. Verão interior é o que se sente ao ouvir Garden, o single de estreia de Too Many Suns, uma banda de Lisboa formada por Hugo Pereira (guitarra e vocais) e João Cardoso (back up vocals e bateria). Garden segue uma estética sonora de guitarras mellow e vocais em coro bastante melódicos. É um single de estreia bastante soalheiro com algumas reminiscências de Real Estate, mas que firma o seu próprio carácter no pop sunny com laivos de indie rock. O outro tema que acompanha o single, Trainwreck, segue uma linha de rock alternativo mais despojado que combina na perfeição passagens mais calmas e atmosféricas com a toada de rock despretensioso e frontal que permeia o resto do tema. É com estes dois temas e um teledisco que Too Many Suns se apresenta da melhor forma e que nos deixa em expectativa para o seu primeiro EP.

teledisco
toomanysuns.bandcamp

TEXTO: CLÁUDIA ZAFRE

Os Palmers que subiram ao palco para abrir para a banda dinamarquesa Iceage , não vieram do Black Lodge nem de Twin Peaks mas s...


Os Palmers que subiram ao palco para abrir para a banda dinamarquesa Iceage, não vieram do Black Lodge nem de Twin Peaks mas sim das Caldas da Rainha e foi com muito estilo e entrega que tocaram um set recheado de temas criativos, enérgicos e surpreendentes. A formação pouco usual da banda com Raquel Custódio a cargo da bateria e vocais, Cláudia Sofia com o baixo e backup vocals e Vasco Cavalheiro na guitarra pode fazer lembrar uns yeah yeah yeahs nos seus primórdios se Karen O seguisse a linha vocal de um dos seus temas mais bombásticos e conhecidos Art Star, mas é apenas uma pequena semelhança porque o carisma e identidade são obra e graça desta banda jovem que está em fase de lançamento do seu primeiro EP. 
Um destaque especial para o tema Laura Palmer com uma boa junção de vocais entre vocalista/baterista e baixista. A voz “limpa” de timbre mais grave com arremessos de punk de Raquel Custódio aliada às vocalizações cristalinas de Cláudia Sofia foram um dos pontos altos do tema que melodicamente se demonstrou bastante complexo com passagens instrumentais bastante delicadas. Disseram no final do concerto que tinha sido uma honra pisar aquele palco e para nós, audiência foi também uma honra ouvir uma banda portuguesa jovem, cheia de garra que ofereceu uma mão cheia de temas refrescantes. Esperamos que pisem muitos mais palcos daqui em diante. 



Estendido o tapete vermelho da melhor maneira, foi a vez dos dinamarqueses Iceage subirem ao palco. Com quatro discos de originais lançados, a banda tocou um set pejado de temas do seu último disco de originais lançado este ano intitulado Beyondless. Desbravando caminho pelo post-punk, lançando aqui e ali esgares ao punk mais artístico, com momentos tanto melódicos como mais dissonantes, havendo ainda espaço para influências jazz e blues, é assim que Iceage fazem do seu som um dos mais distintos e carismáticos das bandas alternativas da contemporaneidade. Muito desse encanto surge também da postura e vocais do seu front-man, Elias Bender Rønnenfelt que tem tanto charme a bebericar um pouco da sua cerveja como a cantar ou a puxar de um cigarro.

A banda ofereceu ao público do Musicbox um punhado de canções memoráveis que gerou um pequeno moshpit na zona central aquando dos momentos mais punkish dos temas. A simbiose entre banda e público foi imensa. Os apontamentos de saxofone e violino aliados à formação mais tradicional providenciaram uma atmosfera diversa, tanto melancólica, quanto romântica, introspectiva, violenta mas terna. Foi nessa atmosfera especial e única que apesar do seu nome, os Iceage trouxeram fogo ao invés de gelo numa noite que lá fora se revelava fria e chuvosa.  Apesar do tempo lá fora, dentro da sala, Palmers e Iceage uniram-se para criar uma noite de juventude apaixonada e de lirismo sofisticado.  


TEXTO: CLÁUDIA ZAFRE
IMAGENS e VÍDEO: JOSÉ MARQUES 
LOCAL: MUSICBOX, Lisboa
DATA: 27 de Outubro, 2018
CONCERTOS: Palmers + Iceage

A experimentação por vezes anda de mãos dadas com a fusão de género musicais e é o que se encontra em Odd Bounds , um duo musical form...


A experimentação por vezes anda de mãos dadas com a fusão de género musicais e é o que se encontra em Odd Bounds, um duo musical formado por Pedro Adelino e Pedro Lopes em 2017 e que lançou o EP LIVE R DEMO. O trabalho é composto por oito temas coesos, melódicos e introspectivos, onde são notórias as influências dos dois músicos, especialmente de post-rock, mathcore e experimental.
A banda prepara-se agora para começar a pisar os palcos e dar a conhecer o seu trabalho. Enquanto isso, aqui ficam as suas recomendações dos 5 livros, 5 discos, 5 filmes/séries.

Livros: 
- Oyasumi punpun, Isio Asano 
- The Stranger, Albert Camus
- Instalação do medo, Rui Zink
- Intermitências da morte, José Saramago 
- Brave new world, Aldous Huxley 

Discos: 
- Spiderland, Slint
- Money Store, Death Grips
- A blaze in the Northern Sky, Darkthrone
- From the Ages, Earthless
- God is War, All pigs must die 

Filmes/Séries: 
- Akira, Katsuhiro Otomo
- Wild Tales, Damian Szifron
- Holy Mountain, Alejandro Jodorowski
- Utopia, Dennis Kelly
- True Detective, Nic Pizzolatto 

TEXTO: CLÁUDIA ZAFRE 
ESCOLHAS: ODD BOUNDS

Adaptações...  CRIAÇÃO E AUTORIA:   EMANUEL R. MARQUES

Adaptações... 

CRIAÇÃO E AUTORIA: EMANUEL R. MARQUES

Palavras-chave: Activismo, LGBT, DIY Resumo: O mundo da música mainstream sempre se restringiu muito à heteronormatividade, except...

Palavras-chave: Activismo, LGBT, DIY

Resumo:
O mundo da música mainstream sempre se restringiu muito à heteronormatividade, excepto algumas bandas da década de 80 e 90. Essa tendência tem vindo a desvanecer, havendo cada vez mais artistas a exprimir as suas preferências e ideologias ligadas ao movimento LGBT. Tem havido mais liberdade e as mentalidades têm mudado em prol de uma maior liberdade quanto ao assumir as orientações sexuais alternativas. No underground, este caminho de liberdade foi cimentado, em parte, pelo movimento Queercore que surgiu em meados dos anos 80 e que se propagou através de zines, música, artes plásticas e cinema, sempre numa estética ideológica DIY (do it yourself). 

Foram inúmeras as bandas que influenciadas e inspiradas pela ideologia e sonoridade punk criaram o movimento Queercore, que ganhou bastante força durante a década de 90. Este movimento abarcou também outros géneros musicais. No entanto, as letras focavam-se nos direitos civis individuais, identidade de género e identidade sexual firmando a sua personalidade e dando voz aos que tiveram de permanecer escondidos durante muito tempo.

1 - Introdução a TEAM DRESCH

por: Neilson Abeel

Banda formada em Washington em 1993. Foi uma das bandas mais importantes e influentes do movimento Queercore lideradas por Donna Dresch e companhia: Kaia, Jody Bleyle, Marci Martinez, Melissa York, Scott Plouf e Amanda Kelly. Lançaram dois discos de longa duração e uma quantidade respeitável de singles. O disco de estreia, PERSONAL BEST, foi lançado em 1995 e captura a energia intensa, carisma, frontalidade e vivacidade de uma banda que deu voz aos seus ideais. Aliados à tag da riotgrrrl e do punk hardcore, PERSONAL BEST é um disco vivaz com uma produção bastante DIY e sem grandes artifícios, porque o importante são as melodias, as canções e as mensagens de tolerância e resiliência que são expressas nas letras. Foi logo no ano seguinte que foi lançado CAPTAIN MY CAPTAIN. É um disco que captura a vivacidade e energia do disco anterior e que perpetua o legado de música in-your-face, melodias cortantes e algum sentido de humor de carácter irónico. Há alguma influência grunge e punk que embeleza este bouquet de diversidade. Alguns dos membros da banda fundaram duas editoras especializadas em música feita por mulheres, Chainsaw Records e Candy-ass records, dedicando-se a fortalecer a presença feminina no mundo musical. 

2 - ANTI SCRUNTI FACTION


Banda formada no Colorado, EUA no início dos anos 80 com elementos da banda Tribe 8 e que em 1985 lançaram o disco DAMSELS IN DISTRESS recheado de músicas de curta duração com uma abordagem frontal e estrutura melódica de power chords e composição com três, quatro acordes. Bastante simples à superfície, mas imersa numa energia contagiante que agarra o/a ouvinte do princípio ao fim. Para quem gosta de punk mais puro com estrutura simples de power chords e vozes berradas com mensagens que conquistam tanto pelo imediatismo da mensagem como pela sua ironia, é um disco imprescindível e charneira para um movimento que continuou a crescer durante a década de 90. 

Além do disco de estreia (e único de longa-duração) a banda editou também um single, A SURE FUCK com uma capa provocatória, irónica e contestatária nas suas entrelinhas. As músicas são também de cariz confrontacional com um toque forte de garage rock mantendo a ferocidade do seu disco de longa duração. É um EP que reafirma o valor do empowerment feminino através da música. 

3 - PYKA

Pyka, Too Femme Too Furious

Durante os anos 2000 surgiu PYKA, uma banda formada em Middletown nos EUA que editou em 2014, TOO FEMME TOO FURIOUS, uma mistura de powerviolence com grindcore que serve de veículo para as mensagens contestatárias e de afirmação dos direitos civis de quem rejeita os valores por vezes, dogmáticos da heteronormatividade. São músicas muito curtas, típicas do género grindcore e com um puxão assertivo de powerviolence. O disco é cru, puro e directo, extremamente curto, estando abaixo dos 10 minutos e com músicas que são um autêntico soco no estômago. 

4 - GOD is my CO-PILOT

Primeiro lançamento de GimCP

Formada em 1991 em NYC nos EUA, esta banda esteve activa durante a década de 90, editando 11 discos de originais e mantendo-se na frente do punk experimental com um cheirinho artsy. Foi em 1992 que lançou I AM NOT THIS BODY com 34 músicas e com duração sempre abaixo dos dois minutos. O lado experimental está sempre presente e há também uma certa influência no wave. As malhas de guitarra são aparentemente dissonantes e os vocais ora berrados, ora falados, ora cantados de Sharon Topper dominam este registo que foi instrumental para o desenvolvimento e continuação do movimento. 

Foi no mesmo ano que a banda lançou SPEED YR TRIP que também conta com arranjos e estruturas muito pouco convencionais. Assim como o seu predecessor, as músicas são muitas, mas de curta duração. Há a inclusão de saxofone e alguma influência jazzística em certos temas. É um disco feroz, confrontativo e completamente inconformado. A banda continuou a seguir a sua estética sonora até ao ano de 1998 quando editou GET BUSY, o último disco de originais. 

É uma banda que desafia convenções tanto liricamente quanto sonoramente. Durante a década de 90 o grupo demonstrou que o punk pode aliar-se ao experimental e que o fruto dessa união pode revelar-se bastante interessante. 

5 – TRIBE 8


Esta banda formou-se em São Francisco nos EUA e durante meados dos anos 90 editou dois discos de originais. O primeiro foi FIST CITY em 1995 com vocais femininos bastante distintos com um timbre grave. As letras são confrontacionais, activistas e extremamente pró-feminismo. Há uma maior influência grunge do que punk rock nas melodias e no estilo de entrega vocal. Os títulos das músicas também ilustram a ironia que está presente nas letras, como é o caso de Romeo & Julio, Neanderthal dyke e Frat Pig

Em 1998 foi a vez de SNARKISM com uma abordagem punk mais directa e rápida do que o seu antecessor. As letras oferecem versos que subvertem géneros e as normas da heretonormatividade. No mesmo ano, saiu ROLE MODELS FOR AMERIKA que segue a mesma fórmula de música rápida, melódica com letras irónicas e com um sentido de humor refinado que revolucionam as ideias standard de sexualidade da sociedade. Uma banda que pode ser uma delícia para fãs de punk rock directo e cheeky e também para quem tem saudades do som grunge mais autêntico. 

6 – PANSY DIVISION


Formaram-se em São Francisco nos EUA em 1991 e editaram o primeiro disco, UNDRESSED em 1993. É uma colecção de músicas ao género pop punk em que se dá primazia às letras que com bom humor dão bastantes bailes e bailaricos a preconceitos e estereótipos que abundavam na sociedade da altura e que infelizmente, ainda estão presentes hoje em dia. Por vezes, a melhor maneira de combater certos preconceitos como a homofobia é através do bom humor e de melodias simples, mas certeiras. Uma autêntica colecção de hits que diverte e faz reflectir, independentemente da orientação sexual de cada um. 

O disco que se seguiu no ano seguinte, DEFLOWERED, é uma continuação agradável do seu antecessor, mas, para quem se quer iniciar na banda, é melhor ouvir UNDRESSED primeiro e depois DEFLOWERED. No pun intended. Seguiu-se WISH I’D TAKEN PICTURES em que o sentido de humor continua bem presente, mas há a inclusão de temas um pouco mais sentimentais na sua natureza. 

A banda continuou o seu trabalho, entrando nos anos 2000 com a sua fórmula divertida de pop punk e o seu último registo foi editado em 2016 intitulado QUITE CONTRARY

7 – G.L.O.S.S


Esta banda cujo nome é acrónimo para Girls Living Outside of Society’s shit formou-se em 2015 em Washington nos EUA. Editou dois EP’S, GIRLS LIVING OUTSIDEOF SOCIETY’S SHIT e TRANS DAY OF REVENGE. Ambos são bastante curtos, sendo que estão abaixo dos 10 minutos de duração. A música é melódica, mas feroz, punk hardcore sem pretensão e bastante puro na sua abordagem rápida e frontal. As letras têm o seu quê de sarcástico e de activista.

Esse carácter de activismo é ainda mais acentuado em TRANS DAY OF REVENGE que é ainda mais curto de duração que o disco anterior, são autênticos hinos de rebelião, incentivo à anarquia e à subversão das regras rígidas da sociedade contemporânea. 

Conclusão:
O movimento queercore nasceu em meados dos anos 80 e continua bem vivo nos dias de hoje. Foram e são inúmeras as bandas que através da frontalidade ou da ironia mais sofisticada conseguem ilustrar e trazer à luz, sem medos, nem reservas, um amor que agora tem a audácia de dizer o seu nome. Pelo engenho musical e criatividade lírica, as bandas deste movimento apelam a qualquer indivíduo melómano seja qual for a sua orientação sexual. 

TEXTO: CLÁUDIA ZAFRE 
Fontes utilizadas:
NET:
https://www.sfgate.com/bayarea/article/Word-Is-Out-on-Gay-Punk-Scene-The-defiant-3039542.php
LIVROS: 
Spewing Out of the Closet: Musicology on Queer Punk, Jodie Taylor