© Joni Mitchell Ai, como as décadas de '60 e '70 foram prolíficas artisticamente com as suas canções intemporais. Um dos ál...

© Joni Mitchell

Ai, como as décadas de '60 e '70 foram prolíficas artisticamente com as suas canções intemporais. Um dos álbuns mais emblemáticos da história da música folk norte-americana é o Blue de Roberta Joan aka Joni Mitchell. Um legado mais valioso que uma mansão de cinco assoalhadas, que pela sua dimensão não concede tempo para a conhecer com familiaridade; o mesmo acontece com o sucesso de artistas cuja vida é escrutinada pela arte que dão a conhecer, em detrimento de outras que ficam mais à sombra. Pois bem, Joni Mitchell, apelido que herdou do seu primeiro casamento com Chuck Mitchell, é conhecida pela sua voz sublime que se estende em duas oitavas e meia. Apesar de ter passado por contrariedades antes de alcançar fama, nomeadamente por falta de dinheiro e habitação, acabou - em desespero - por casar com Chuck Mitchell.

Joni Mitchell é exemplo de um músico que guarda na manga outros talentos. As paredes de sua casa estão preenchidas por quadros da sua autoria e escreve poemas desde tenra idade. Na entrevista à CBC Music, conduzida por Jian Ghomeshi, a canadiana confessa:
JG - Joni, és conhecida como a reclusa, concordas?
JM - Não. Como o David Geffen referenciou, Joni tu és a única pessoa que conheço que não almeja ser famosa. E eu realmente não queria isso. Eu sabia que a fama seria uma experiência horrível e é até te habituares a isso. Porque esse meio é um lugar mentalmente doente, cheio de celebridades. (...) Eu amo o processo criativo, mas não a ambição, nem promoção, nem entrevistas.


O poema de Joni Mitchell, escrito quando tinha 16 anos, "The Fish Bowl" aborda essa ideia:

The fish bowl is a world reversed
Where fishermen with hooks that
Dangle from the bottom up
Reel down their catch without a fight on gilded bait
Pike, pickerel, bass, the common fish
Ogle through distorting glass
See only glitter, glamour, gaiety
Fog up the bowl with lusty breath
Lunge towards the bait and miss and weep for fortunes lost
Oh, envy not the goldfish, my friends,
Though he be decked in golden garb and
Labors not for next repast but earns his keep by
Being merely beautiful
A pet to all the oglers
Who come and say "Look there! I do believe he winked his
Eye at me! "Eye at me!"

As líricas de Joni são construídas por temáticas mais pessoais e autobiográficas (romantismo, confusão, desilusões e alegrias) e mais globais como a  industrialização e a destruição da natureza. O trabalho visual de Joni é também muito respeitado pelos críticos. Ao longo das décadas a artista desenhou as capas dos seus álbuns. Auto-descreve-se como pintora descarrilada pelas circunstâncias. Os motivos perambulam por auto-retratos, retratos de outros músicos, tais como Bob Dylan (realizado na casa de Johnny Cash) e natureza. Apesar das técnicas se alterarem desde a década de 40 até aos dias de hoje, os traços livres naïf são a marca do seu trabalho. Pode-se também observar a referência à pintura Over the Town de Marc Chagall

Dog eat Dog, © Joni Mitchell

Texto: Priscilla Fontoura
Pinturas: © Joni Mitchell 

Género: alternative, experimental hip-hop, art pop, indie pop, math rock  Álbum: BRAT Data de Lançamento: 3 de Abril, 2020 Editora...

Género: alternative, experimental hip-hop, art pop, indie pop, math rock 
Álbum: BRAT
Data de Lançamento: 3 de Abril, 2020

© Nnamdï

Nnamdi Ogbonnaya é um músico prolífico e extremamente inventivo. Faz parte de inúmeras bandas e projectos, tais como Nervous Passager, Pisces at The animal fair, Ittō, Richard Def and The Mos Pryors, The Sooper Swag Project, Water House e Monobody

É a solo que editou BRAT, um disco surpreendente e uma lufada de ar fresco no campo da música alternativa. 

A capa não pode deixar de chamar a atenção mostrando Nnamdï sentado numa pose que evoca infantilidade, coroado por uma tiara que nada mais diz do que BRAT, um balão na mão e uma expressão contrafeita sublinhada por uma lágrima subtil colada na bochecha. É uma sátira e uma expressão de bonomia que caracteriza um disco dificilmente catalogável, havendo vislumbres de hip-hop experimental, art pop, math rock e R&B do mais alternativo possível. 

O improvável e imprevisto começa automaticamente no primeiro tema, Flowers to my Demons, acompanhado numa rapsódia de guitarras acústicas, Nnamdï demonstra a versatilidade da sua voz suave e melódica. Liricamente, temos matéria críptica e fascinante que se alia à voz grave de Nnamdï e apontamentos vocais mais agudos que incorrem nalgum experimentalismo. O tema logo se desdobra em andamentos reminiscentes de um trip-hop subtil. 

Gimme Gimme, além de estar carregado de uma crítica talvez social e sempre cáustica, é uma vertente mais pop e dançável do universo musical do músico. Refrães contagiantes com versos de um flow descontraído e com elevado senso musical dirigem o tema. 

A toada Pop e R&B alternativo segue em grande compasso até ao tema Perfect In My Mind com devaneios de guitarra de inspiração jazzística que despontam num clima descontraído. O experimentalismo continua ao rubro. 

Esta tendência é alimentada no seu expoente máximo no último tema do disco, Salut. Um tema harmonioso que se divide entre os ritmos saltitantes e descontraídos das guitarras e a voz de timbre delicado e grave de Nnamdï. A lírica aborda a transição de uma saudação para uma oração que clama pela possível visitação do Espírito Santo.

BRAT é o antónimo de previsível e contido. Floresce em ambiências variadas e aparentemente contrastantes. É pleno de melodias refrescantes e inusitadas, no melhor dos sentidos.

Texto: Cláudia Zafre
Álbum: BRAT

Palavras chave: realizadoras, subversivo, cinema, subversão  Introdução Dotadas de visões singulares sobre a sociedade, sexualidad...

Palavras chave: realizadoras, subversivo, cinema, subversão 

Introdução
Dotadas de visões singulares sobre a sociedade, sexualidade, espiritualidade e política, certas mulheres realizadoras fincaram pé na sétima arte, realizando filmes ou peças vídeo que revolucionaram o status quo e abriram as fileiras para gerações seguintes de mulheres realizadoras. 

Seja através de metáforas ou alegorias de cariz político, retratos psicossexuais ora directos, ora simbólicos, a feminilidade no cinema começou a sentir-se cada vez mais presente durante os anos 70 e 80, antecipando a emergência de um olhar e sentir femininos que se tornaram cada vez mais marcados na nossa contemporaneidade. 

Liliana Cavani 

Liliana Cavani e Mio Takaki na rodagem de Berlin Affair, © Liliana Cavani

Nascida em Itália nos anos 30, Liliana Cavani tornou-se mundialmente reconhecida após a sua longa-metragem, Il Portiere di Notte (The Night Porter) lançada em 1974. O filme gerou alguma controvérsia e teve reacções mistas por parte da crítica, devido à maneira como abordou as temáticas da sexualidade e a vertente do sadomasoquismo. O filme acabou por ser considerado um clássico de culto e um exemplo do género obscuro de cinema denominado naziplostation

A realizadora nunca teve medo de abordar certas temáticas mais delicadas e/ou densas, assim como, de realizar alegorias políticas, como é o caso no filme I Cannibali (The Cannibals) realizado em 1969, que se serve do mito grego de Antígona para pintar o cenário político italiano da altura. 

O seu interesse pela história reflecte-se na sua cinematografia, que se divide entre documentários, longas e curtas de ficção e até à realização de óperas. 

Věra Chytilová

Vera Chytilová na rodagem do filme Zlatá sedesátá, © Vera Chytilová

Humor absurdo alia-se a situações bizarras protagonizadas por duas personagens femininas que juntas compõem um duo bastante irreverente no clássico Sedmikrásky (Daisies). Um filme surrealista, colorido e provocador que elegeu Chytilová como uma forte voz feminina na nova vaga do cinema Checo. Daisies, lançado em 1966, continua a magnetizar ainda nos dias de hoje e pode ser lido de várias formas, como uma crítica ao consumismo, um manifesto feminista ou até uma afronta à ideologia comunista, são inúmeras as suas leituras e interpretações que cabem aos espectadores identificar. 

O filme foi banido na República Checa, após o seu lançamento, por conter demasiadas cenas de desperdício de comida, mas no ano seguinte, ganhou um prémio em Itália. Foi Daisies que ajudou a cimentar a carreira de Chytilóva na sétima arte, mas apenas a nível internacional, tendo sido continuamente pressionada pelo governo do seu país que dificultou cada vez mais a sua vontade de realizar filmes. Foi através da pressão internacional que Chytilová voltou a realizar. A sua longa-metragem Hra o jablko (The Apple Game) realizada em 1976 garantiu-lhe dois prémios, sendo um deles o Silver Hugo do Festival internacional de Chicago. 

Apesar dos prémios, a realizadora continuou a ser alvo de pressões e controvérsias por parte do governo checo. Chytilová afirmou-se com um olhar vibrante, surrealista e irreverente e imprimiu o seu cunho à new wave checa. A realizadora faleceu em 2014 com a idade de 85 anos. 

Marguerite Duras 

© Marguerite Duras

Multifacetada e uma das mais importantes e influentes autoras, Duras nasceu a Abril de 1914 na então Indochina Francesa (Vietname). Provida de uma grande cultura literária, Duras escreveu romances, peças de teatro, ensaios e realizou filmes com um cunho experimental bastante demarcado. 

Hiroshima Mon Amour de 1959 realizado por Alain Resnais, foi talvez um dos seus argumentos mais acessíveis e que lhe auferiu uma nomeação para melhor argumento original da academia. 

Como realizadora, Duras foi mestre de filmes ora contemplativos, tempestuosos, melancólicos e profundamente reflexivos. Détruire, Dit-Elle (Destroy, She Said) lançado em 1969 e um dos seus primeiros filmes adaptado do seu livro com o mesmo nome, recheia-se de simbolismo que permeia a identidade das personagens, fazendo com que se nos tornem familiares e próximas. 

Nathalie Granger, realizado em 1972, é um exercício de cinema com um cariz algo minimalista que se divide entre o quotidiano de duas mulheres francesas no início dos anos 70. Um slice of life que aparentemente descreve o mero quotidiano de duas mulheres que é subvertido por um subtexto subtil de mistério e ameaça. 

India Song, realizado em 1975, tem um andamento lento que convida à reflexão e é um dos exemplos de cinema contemplativo. A narrativa não é totalmente clara ou linear, mas centra-se no imaginário e vida amorosa da protagonista, casada com um diplomata francês em meados dos anos 30 na Índia. É um filme que evoca a linguagem cinematográfica e estética própria de uma realizadora que nunca optou pelo imediato e acessível. 

Doris Wishman 

© Doris Whishman

Se houvesse um prémio de cinema para os melhores títulos de filme, Doris Wishman seria uma séria candidata. Títulos como Satan was a Lady, Bad Girls go to Hell e A Night To Dismember pertencem ao catálogo cinematográfico extenso e surpreendente de Wishman. 

Nascida em Junho de 1912 em Nova Iorque, Wishman começou a sua carreira na sétima arte a realizar filmes com a temática do nudismo, tendo pedido dinheiro emprestado à sua irmã para realizar Hideout in the Sun, filmado em 1958. 

Mais tarde, enveredou por filmes com a possível bolinha vermelha no canto superior direito do écran, dedicando-se a temáticas sexuais e fazendo parte do género de sexploistation, normalmente filmes de orçamento muito reduzidos que contêm situações sexuais e nudez algo gratuita. Um desses exemplos foi o seu filme, Bad Girls go to Hell, que contém uma sequência de sonho bastante interessante. 

Em meados dos anos 70 realizou o original Deadly Weapons, detentor de uma premissa inusitada que ilustra uma mulher de seios avantajados que os usa como arma para se vingar dos homens que mataram o seu marido. 

O seu trabalho no final dos anos 70 e início de anos 80 resvalou para a realização de filmes pornográficos e eróticos e aflorou depois o género do slasher (revitalizado e popularizado por clássicos como Halloween de John Carpenter), realizando o bizarro mas fascinante A Night to Dismember com a duração curta de apenas 69 minutos. 

Doris Wishman uma vez disse: “When I die I’ll make films in hell.”, uma citação audaz e que personifica de certa forma, uma realizadora que navegou vários mares do cinema com um barco movida ao leme da perseverança e resistência, características próprias de realizadores de exploitation

Barbara Hammer 

© Barbara Hammer

Barbara Jean Hammer filmou e retratou em grande-plano as relações afectivas e sexuais de mulheres. O envolvimento lésbico e as problemáticas de género, fizeram parte da cinematografia de Hammer

Licenciada em psicologia, Hammer sentiu-se inclinada a fazer filmes de cariz experimental sobre as suas experiências pessoais. Foi nos anos 70 que se assumiu como lésbica e começou a realizar filmes em super 8, realizando Dyketactis, considerado um dos primeiros filmes de temática lésbica. Dyketactis, uma curta filmada em 1974, é um retrato de vários casais lésbicos, construído a partir de imagens explicitas de relações sexuais. Nas primeiras exibições da curta foram também interditas as entradas de homens nas salas. 

Radical na sua abordagem e uma voz activa do mundo lésbico, Hammer realizou um sem número de curtas e o influente documentário Nitrate Kisses, realizado nos anos 90, que aborda a vida e testemunhos de mulheres que contam como era ser lésbica nos anos 30, 40 e 50. 

Hammer faleceu recentemente em 2019 com 79 anos, mas deixou um legado importante para e no cinema queer

Chantal Ackerman 

Chantal Akerman e Babette Mangolte na rodagem News from Home© Chantal Akerman

Autora de curtas, documentários e longas e ficção, Ackerman nasceu na Bélgica, em Junho, em 1950. A sua mãe - com quem sempre manteve uma relação próxima - foi uma sobrevivente do holocausto, tendo sido encarcerada em Auschwitz durante vários anos. 

Ackerman decidiu que queria realizar filmes em idade muito tenra e cedo começou a realizar curtas, documentários e ficções com a sua estética e visão únicas. Um dos seus trabalhos mais reconhecidos e aclamados foi a longa de duração titânica, Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles que narra realisticamente o quotidiano de uma dona de casa em Bruxelas que, além de cuidar do filho, recebe também alguns homens em casa com intuito monetário para a subsistência do seu filho e dela mesma. O filme é considerado hoje em dia como um filme de culto e um dos exemplos basilares de cinema arthouse

Apesar desse filme ser considerado um exemplo de cinema feminista, Ackerman sempre rejeitou e quis distanciar-se desse rótulo, afirmando certa vez que existe multiplicidade na expressão, e que quando se diz que certo filme tem uma linguagem feminista, parece que estamos a dizer que há apenas uma forma de uma mulher exprimir-se. 

Ackerman ofereceu a sua visão e filosofia próprias (segundo a realizadora inspirada nos escritos de Gilles Deleuze e Felix Guattari) a vários documentários e longas de ficção. Faleceu em 2015 com apenas 65 anos, vítima de suicídio, deixando um legado imenso a cineastas e cinéfilos.

Texto: Cláudia Zafre 

© Pedro Medeiros Ouve-se a contagem de números aleatórios de um possível andróide por cima da camada midi que lembra o ambiente sono...


© Pedro Medeiros

Ouve-se a contagem de números aleatórios de um possível andróide por cima da camada midi que lembra o ambiente sonoro de Twin Peaks. Assim se inicia o segundo disco de originais II, do duo de electrónica Ghost Hunt, constituído por Pedro Chau (The Parkinsons) e Pedro Oliveira (ex-membro de Monomoy), que se assombra apenas pelo fantasma que os impulsiona a criar música. Abre-se o portal para uma série acompanhada por uma banda-sonora que mescla mistério com ficção científica, um certo tom näif com krautrock e indie. 

Ghost Hunt apresentou-se ao mundo por intermédio da conimbricense Lux Records e agora lançam II, editado a 28 de Maio via Lovers & Lollypops em formato digital. Com Pedro Chau no baixo e Pedro Oliveira a operar a maquinaria formada por sintetizadores e drum machines, o duo voltou aos estúdios Blue House, em Coimbra, para gravar o segundo LP, com João Rui, responsável pela mistura e masterização e Joana Monteiro pela autoria da capa.

O disco será apresentado ao vivo em streaming, a 5 de Junho, no âmbito da parceria que a Lovers & Lollypops estabeleceu com o Circulo Católico de Operários do Porto. O disco sai digitalmente a 2 de Junho no bandcamp.


© Pedro Medeiros


"Nunca tivemos pressa em fazer as coisas, cada música surge no momento que tem de surgir, não há aquela coisa de lançar música só porque te dizem que tens que lançar. Na minha opinião acho este álbum mais versátil e maduro que o anterior, revelando melhor alguns caminhos que poderemos vir a seguir ou desenvolver no futuro."


Esperamos que estejam de plena saúde. Como se encontram e como estão a responder à pandemia?
P. Chau - Com a excepção da ameaça da covid-19 e da paragem de concertos e suas consequências, considero que tenho estado bem. Gosto de estar em casa. Fui pai pela primeira vez a 19 de Fevereiro e estou como nunca a viver uma experiência que me está a trazer uma enorme alegria. Estar tanto tempo sem sair de casa também me está a fazer prestar mais atenção à música em geral. Ouvir discos que há muito não ouvia e descobrir também alguns novos. Mas voltando à pandemia, tento ter os cuidados recomendados para não colocar a minha saúde e a dos outros em risco. 


Como se deu a construção de II? Aconteceu antes desta fase distópica? 
P. Chau - A maior parte dos temas surgiram no verão passado e foram de seguida gravados em Outubro. Lembro-me em Setembro de ir a Lisboa ensaiar e o Pedro Oliveira me mostrar as músicas novas. Este foi o momento que achámos que o álbum já estava quase completo. Da minha parte foi só acrescentar o baixo. No entanto, foram feitas em 2018 algumas gravações que ficaram para trás por não estarem ao nível desejado. Nunca tivemos pressa em fazer as coisas, cada música surge no momento que tem de surgir, não há aquela coisa de lançar música só porque te dizem que tens que lançar. Na minha opinião acho este álbum mais versátil e maduro que o anterior, revelando melhor alguns caminhos que poderemos vir a seguir ou desenvolver no futuro.
© Pedro Madeiros

"Falar de rock e música electrónica como se fossem duas entidades distantes já não faz grande sentido. A música é o que mais importa. Seja tocada com bateria e guitarras ou drum machines e sintetizadores, o que vale mais é se tem o efeito desejado, que tenha qualidade, que nos cative ou provoque. Há quem tenha dito, até mais que uma vez, que fazemos uma electrónica bastante orgânica, mas se isso é verdade ou não, não sei dizer!"


O vosso disco poderia servir na íntegra como banda-sonora para uma série tipo Stranger Things, existe uma espécie de homenagem à sonoridade e ambiência dos anos 80.
P. Chau - Entrar numa banda sonora de um filme é algo que um dia gostaríamos muito de ver acontecer, mas não pretendemos soar aos anos 80 ou fazer qualquer tipo de homenagem, pelo menos de forma consciente. Há sim grupos e filmes dessa época que nos marcaram enquanto crianças ou adolescentes e que, por vezes, nos podem servir de referência. 


Apesar da tendência fortemente electrónica, há sem dúvida um laivo (kraut)rock assumido, principalmente no tema New Ceremony. Será esse casamento a resposta perfeita para as preferências que os dois partilham? O rock e agora a electrónica? Ou será que poderão criar um disco mais orgânico e pesado depois deste II? 
P. Chau - Não diria a resposta perfeita, mas talvez uma das respostas. Desde o início que partilhamos esse gosto por algumas bandas alemãs que fizeram parte daquilo que é o krautrock (terminologia até bastante contestada). Género ou subgénero onde podemos encontrar bandas com estilos bastante diferentes. Há até uma vertente bastante electrónica dentro do krautrock. Harmonia, Cluster ou Tangerine Dream, por exemplo. Falar de rock e música electrónica como se fossem duas entidades distantes já não faz grande sentido. A música é o que mais importa. Seja tocada com bateria e guitarras ou drum machines e sintetizadores, o que vale mais é se tem o efeito desejado, que tenha qualidade, que nos cative ou provoque. Há quem tenha dito, até mais que uma vez, que fazemos uma electrónica bastante orgânica, mas se isso é verdade ou não, não sei dizer!

Integram e integraram outras bandas. A idade passa e as experiências de estrada e estúdio vão-se adquirindo. Por mais que seja difícil tentar viver da música, acham que a premissa “quem corre por gosto não cansa” eleva-se ao desgaste e à desistência? Será a constante vontade de criar música o fantasma que vos persegue? 
P. Chau - Até agora parece que sim!

Conforme vamos crescendo e ficando mais velhos as curiosidades mudam e os gostos também. Se em pequeno alguém não se interessava por história, muito provavelmente o oposto poderá acontecer em idade adulta. Tu - que antes nem gostavas de sintetizadores - viraste-te para sons mais electrónicos. Tem a ver com o facto de teres vivido em Londres que se deu esse despertar?
P. Chau - Pode ter a ver com esse facto, mas não só. Londres foi sem dúvida uma experiência crucial na relação e abertura que hoje tenho com a música. Mas não só, mais tarde apercebi-me que também na minha adolescência estive próximo de gente que escutava grupos como os Kraftwerk, Cabaret Voltaire ou Nitzer Ebb. Locais como a discoteca States ou o bar Abismo em Coimbra foram também importantes. E uma das minhas irmãs, claro, através de cassetes que me ia passando. A primeira vez que ouvi Suicide numa das suas cassetes pensei para mim, - "mas que raio de música é esta!!!!". Isso de dizer que não gostava de sintetizadores era mais por desconhecimento ou por ser ainda muito novo.

"Nós somos um projecto que nunca usou computadores/laptops e não leva nada de casa pré-gravado para os concertos. Tanto a drum machine como os vários sintetizadores que o Pedro Oliveira usa são manipulados em tempo real, o que exige uma grande concentração, memória e bons reflexos. Ou seja, é tocar vários instrumentos em simultâneo. Penso que isso é de um grande esforço performativo. Claro que a bateria é instrumento mais primitivo que se aborda de uma forma mais corporal que as máquinas, que precisam de electricidade para funcionar. Cada instrumento é um desafio, tem o seu próprio som e particularidade."

© Pedro Medeiros

Há uma grande diferença entre tocar para um público que se deixa aquecer pelo ambiente punk rock directo e para um mais ambiental electrónico e mais contido... A carga energética é diferente entre um baterista que faz do seu corpo a vibração, em comparação com um que toca drum machine que não requer grande esforço performático. Não sentem falta de um público agitado nos vossos concertos? Não sentem falta dessa energia? 

P. Chau - Depende, já tivemos concertos com o público bastante agitado. Nós não fazemos música electrónica "ambiental". Temos até alguns temas bastante dançáveis. Às vezes depende em que contexto estamos ou a hora a que tocamos. Podemos ser versáteis nesse sentido. Tocar ao vivo dá-nos essa liberdade. Eu entendo o que queres dizer mas discordo um pouco quando dizes que uma drum machine não requer esforço performático. Nós somos um projecto que nunca usou computadores/laptops e não leva nada de casa pré-gravado para os concertos. Tanto a drum machine como os vários sintetizadores que o Pedro Oliveira usa são manipulados em tempo real, o que exige uma grande concentração, memória e bons reflexos. Ou seja, é tocar vários instrumentos em simultâneo. Penso que isso é de um grande esforço performativo. Claro que a bateria é instrumento mais primitivo que se aborda de uma forma mais corporal que as máquinas, que precisam de electricidade para funcionar. Cada instrumento é um desafio, tem o seu próprio som e particularidade. 

Certamente que o lado visual está presente neste vosso trabalho. John Carpenter tem despertado curiosidade a uma nova vaga de artistas, parece que os oitenta deixaram a nostalgia consumir as crianças e adolescentes que viveram nessa década. Como recriam a partir dessa influência para pensar um cenário mais futurista?
P. Chau - Apesar de haver nessas referências um imaginário ou estética que nos possa atrair, não acho que sejamos um projecto retro 80's ou synthwave com essas características. Pensar a música só a partir disso não nos pode definir nem ser o motivo da nossa existência como projecto. Penso que a música que tocamos é resultado das nossas experiências. Para mim não deixa de ser uma forma de evasão e de prazer, mas que requer trabalho e dedicação. Não há nenhum conceito nesse sentido. Não sei se interpretei bem a questão!!!

© capa disco Ghost Hunt

Não deixa de ser inevitável fazer referência a esta fase que estamos todos a viver, mas a cultura não deixa de ser um dos sectores mais afectados, porque é dos últimos a entrar em actividade no que respeita a concertos e é o que precisa de apoio público para que a máquina continue a funcionar. Acham que várias lições serão aprendidas e a partir daqui novas alternativas serão repensadas ou ficará tudo igual?
P. Chau - Penso que é difícil responder a isso. Não sei o que vai acontecer no futuro, estamos rodeados de incertezas e dúvidas. Mas espero que sim, que se aprendam algumas lições. Uma delas é a importância do SNS, que merece maior investimento e sustentabilidade de forma a responder melhor a crises como esta. De qualquer maneira penso que a prestação dos profissionais de saúde tem sido positiva.

Que boas descobertas têm feito de novas bandas que mesclam electrónica que partem de máquinas analógicas com rock psicadélico? 
P. Chau - Gosto do álbum "Stars Are The Light" dos Moon Duo. Do novo do Sonic Boom já ouvi dois temas bons. Não sou muito virado para discos só de covers, mas o "Songs of Consumption" dos ingleses Toy surpreendeu-me. Fazem umas covers muito boas da Nico, dos Stooges, do Serge Gainsbourg e até dos Pet Shop Boys. Estou-me a lembrar também de um projecto chamado C.Y.M, que lançou um ep homónimo de 3 músicas pela Phantasy Records. 

Gostariam de deixar alguma mensagem?
P. Chau - Que voltem os concertos com público e as pistas de dança. Pensem nos espaços mais intimistas, nos clubes e salas mais pequenas. É esse o circuito que devemos ajudar e não deixar morrer. E já agora, se quiserem dar alguma ajuda nesta fase difícil e sem concertos, vão à nossa página do Bandcamp e comprem o nosso single que só custa 1 euro. Muito Obrigado!

Texto e Entrevista: Priscilla Fontoura
Entrevistado: Pedro Chau
Imagens: Pedro Medeiros

Género: black metal, death metal, avant-garde metal Álbum: Eternity of Shaog  Data de Lançamento: 22 de Maio, 2020 Editora: I, Void...

Género: black metal, death metal, avant-garde metal
Álbum: Eternity of Shaog 
Data de Lançamento: 22 de Maio, 2020
Editora: I, Voidhanger Records 

Pintura por Alan E. Brown / Fotografia por Aylowenn Aëla

O nosso lado sombra, se for alimentado, torna-se uma força demolidora ou construtiva se utilizada de formas criativas. Jogando com o nosso subconsciente, as energias que nos impelem a criar seja através da música, cinema, literatura ou outras artes, encontram-se materializadas nesta realidade através de fios condutores invisíveis que ligam o nosso império racional com o emocional. Existe uma multiplicidade de músicos que utilizam o seu lado mais negro para criar, partindo de um imaginário único e muito próprio, expondo a sua intimidade artística. 

Asthâgul é um multi-instrumentista que cria cenários devastadores, mas sobrenaturais. Inspirado pelas visões fantásticas de H. P. Lovecraft, o músico de origem francesa compõe música de negritude avassaladora. O seu percurso em longas-durações iniciou-se em 2017 com Mystic Echo From a Funeral Dimension (também editado pela I, Voidhanger Records). Um álbum de black metal atmosférico com bastantes intromissões de elementos pouco comuns no metal tradicional e purista, como passagens ambientais e acústicas. Cedo se percebia então que Asthâgul não jogava por fórmulas e tradições, mas procurava o seu próprio caminho e sonoridade dentro do metal. 

Eternity of Shaog é o seu quinto álbum e o mais recente que chama imediatamente a atenção pela capa com uma pintura de Alan E. Brown que também foi responsável pela capa do disco anterior, The Telluric Ashes of the Ö Vrth Immemorial Gods. Ambas as pinturas mostram-nos criaturas fantásticas que parecem existir fora de noções orientadoras e estruturalistas como a de tempo, perpetuadas pela espécie humana. A pintura para Eternity Of Shaog, intitula-se The Dracula Of Mars, unindo o misticismo de um ser popularizado pelo género de terror gótico com o universo da ficção científica, uma fusão lovecraftiana que tanto inspira horror como profunda atracção e magnetismo. 

O vampiro de Marte tem uns olhos aparentemente inexpressivos, mas que parecem infinitos ao olhá-lo e contem todas as vertigens de um caos ordenado e sistemático em provocar tonturas existenciais. A pintura converge com a música, construindo um imaginário de terror cósmico e abrindo a caixa para que dela possam sair criaturas fantásticas. Uma delas é Shaog Og Magthoth, uma entidade criada por Asthâgul e que já tinha sido apresentada num álbum anterior intitulado Pandemorthium

Em Eternity of Shaog, entramos num universo único onde o terror e a negritude são uma evidência. A confluência de elementos black com death é ornamentada por passagens inventivas onde abundam violinos, sintetizadores, efeitos sonoros e o kantele, sublinhados pelos vocais viscerais de Asthâgul. Existe um clima de ameaça constante que por vezes, é amenizado com passagens mais serenas e contemplativas que se tornam como cúpulas no templo da melancolia que é erigido ao longo dos dez temas do álbum. 

Extremo, inventivo e ausente de fórmulas previsíveis e/ou genéricas, Eternity of Shaog é uma viagem a um universo negro e intenso que cria magnetismo pela sua constante renovação sonora e experimentalismo.

- TRANSLATION - 

Genre: black metal, death metal, avant-garde metal
Album: Eternity of Shaog 
Release Date: May 22, 2020
Label: I, Voidhanger Records 


If our dark or shadow self is well fed, it can become a demolishing or constructive force when used in creative ways. Toying with our subconscious, the energies that impel us to create be it through music, film, literature or other arts, find themselves materialized in this reality by means of invisible connecting strings that unite our rational with the emotional empire. There is a myriad of musicians who use their darkest side to create, originating from a unique imaginary and exposing their artistic intimacy. 

Asthâgul is a multi-instrumentistalist who creates devastating yet supernatural scenarios. Inspired by the fantastic visions of author H. P. Lovecraft, the French musician composes music of devastating darkness. His first LP was released in 2017 (also by I, Voidhanger Records) and titled Mystic Echo from a Funeral Dimension. An atmospheric black metal album with intrusions of elements that are uncommon in most traditional and purist metal, like ambient and acoustic passages. We soon realized that Asthâgul didn’t play by formulas or traditions but instead was looking for his own sonic path within metal music. 

Eternity of Shaog his is fifth LP and the latest one. The album instantly captures our attention by its cover art, a painting by Alan E. Brown who was also responsible for the cover of the previous album titled The Telluric Ashes of the Ö Vrth Immemorial Gods. Both paintings depict fantastic creatures that seem to exist beyond the guiding and structural notions like time, perpetuated by humankind. The painting for Eternity of Shaog is called The Dracula Of Mars, mixing the mysticism of a creature popularized by the genre of gothic terror with the universe of sci-fi, a Lovecraftian kind of fusion that both inspires horror as well as attraction and magnetism. 

The Martian vampire has seemingly inexpressive eyes that however seem infinite while we gaze at them and contain all the vertigo of an ordinate and systematic chaos that causes existential dizziness. The painting converges with the music, constructing an ambience of cosmic horror and opening a box so that from it, several fantastic creatures can come to life. One of them is Shaog Og Magthoth, an entity created by Asthâgul and who was already presented in a previous album titled Pandemorthium

In Eternity Of Shaog we enter a unique universe where horror and darkness are evident. The confluence of black and death elements is garnished by inventive passages where violins, synths, sound effects and kantele are abundant, and all is highlighted by the visceral vocals. There is an overpowering omnious climate that is sometimes softened by serene and contemplative passages that become like domes in the temple of melancholy that is erected along the ten themes of the album. 

Extreme, inventive and without predictable or generic formulas, Eternity of Shaog is a voyage through a dark and intense universe that creates magnetism by its constant sonic renewal and experimentalism.

Texto | Text: Cláudia Zafre
Tradução | Translation: Cláudia Zafre

Michael Hanneke:  cineasta e argumentista austríaco nascido em 1942. O seu trabalho é marcado pela análise de problemas sociais e pela tr...

Michael Hanneke: cineasta e argumentista austríaco nascido em 1942. O seu trabalho é marcado pela análise de problemas sociais e pela transmissão de sentimentos existenciais por indivíduos da sociedade moderna. O realizador distingue-se pelo olhar puro, contemplativo e profundo sobre a realidade, talvez devido à sua curiosidade por disciplinas como psicologia, filosofia e teatro, mais tarde estudadas na Universidade de Viena. Da sua lista de filmes constam co-produções com França, Alemanha e Reino Unido. Hanneke iniciou a sua carreira em televisão e teatro. Lecciona direcção de filmes na Universidade de Cinema de Viena. Os filmes que mais se destacam da sua filmografia são A Pianista, O Laço Branco, Funny Games e Amour. É tido como um realizador contracorrente perante o cinema mainstream americano, é, também, defensor acérrimo da identidade europeia. Aquando da recepção do prémio no festival de Malta, em Valeta, em 2012, com o seu filme Amour, o realizador manifestou a importância da preservação de uma identidade que não deve ser engolida pelo efeito da globalização. 

Lembit Ulfsak: nascido pouco tempo depois de Hanneke, em 1947, foi um actor proeminente de palco e de filmes. Um dos filmes mais célebres da sua trajectória é o brilhante Tangerines, nomeado para o globo de ouro na categoria de melhor filme Estrangeiro (Estónia), durante a 87ª celebração dos Prémios da Academia. Tangerines acontece em pleno cenário de guerra, em 1992, entre as tensões étnicas entre abecásios e os georgianos que reclamavam pela independência da República da Geórgia. Margus e Ivo são as personagens principais, Margus decide ficar para cuidar da sua plantação de tangerinas, Ivo resolve perdurar no único lar que conhece. O resto da história fica reservado à curiosidade de quem o quiser visualizar.

"Os meus filmes insurgem-se contra o cinema fast-food norte-americano e a descapacitação do espectador. Eles são um apelo para um cinema de perguntas insistentes em vez de respostas falsas (falsas por serem rápidas demais), um apelo a um cinema que clarifica a distância ao invés de violar a proximidade, por um cinema da provocação e do diálogo ao invés do consumo e do consenso." - Michael Hanneke, "Film als Katharsis".

Michael Hanneke e Lembit Ulfsak

Texto, ideia e puzzle: Priscilla Fontoura

© Juan Cavia - Instagram Ficamos embevecidos a olhar os desenhos de Juan Cavia , um argentino que tem firmado o seu caminho na ind...

© Juan Cavia - Instagram

Ficamos embevecidos a olhar os desenhos de Juan Cavia, um argentino que tem firmado o seu caminho na indústria do cinema e na publicidade com o seu colega, o produtor Walter Cornás. Conhecemo-lo pelo trabalho que tem vindo a desenvolver com Filipe Melo, músico, realizador e criador de banda desenhada. No seu tempo livre Juan Cavia é ilustrador e criador de banda desenhada. De momento vive e trabalha em Buenos Aires, mas tem viajado pontualmente para Portugal para apresentar as suas bandas-desenhadas ao lado do seu colega e amigo Filipe Melo.

 (...) "Importa-me muito mais que a BD tenha qualidade narrativa do que seja bela, isso eu deixo em segundo plano."


Juan conhecemos-te pelo trabalho que tens vindo a desenvolver com o Filipe Melo. Como tem sido esta colaboração?
Conheci o Filipe aquando d'As Aventuras de Dog Mendonça & Pizzaboy que naquele momento era um guião para longa-metragem, escrita pelo Filipe e um argentino chamado Pablo Parés (também um realizador de cinema aqui na Argentina). O Filipe entrou em contacto comigo para fazer os desenhos conceptuais do filme. O projecto não avançou por causa de algumas condicionantes, e isso foi em 2004 (eu tinha 20 anos). Quatro anos mais tarde, o Filipe voltou a contactar-me e propôs-me adaptar esse mesmo guião para BD, o que foi um sonho para mim, apesar de nunca ter feito esse tipo de trabalho, estudei desenho por muitos anos e quando era pequeno sonhava em fazer as minhas próprias BD’s, apesar de o considerar um sonho algo frustrado. 

Como é a vossa lógica de trabalho? Costumam conversar muito sobre o processo, ou foi apenas um processo que ficou isolado ao primeiro trabalho, por se tratar de uma primeira colaboração?
Naquele primeiro trabalho, fizemos todo o processo à distância através do Skype. Foram quase 2 anos de conversas muito prolongadas (por vezes de 4 horas) para organizar todo o trabalho. Livro atrás de livros, fomos aperfeiçoando o nosso próprio método de trabalho. Hoje depois de sete livros (contando aqueles que ainda temos de lançar) há mais de 10 anos de colaboração, acredito que podemos dizer que temos um método muito mais profissional e optimizado.
© Juan Cavia (exemplo do sétimo livro a ser apresentado em 2020 pela dupla Juan Cavia e Filipe Melo)

O Filipe é músico e também, sempre que possível, aplica a sua criatividade a outras artes como ao cinema, e tu tens como hobby a banda desenhada e trabalhas em cinema e publicidade. Todas essas áreas compreendem-se, mas de que forma é que o teu trabalho - enquanto ilustrador - se liga ao cinema quando estás a criar uma história e a imaginar personagens, uma vez que os meios são diferentes.
É verdade que são meios diferentes mas em termos de origem são similares. Podemos dizer que a BD é mais limitada em relação aos meios audiovisuais, mas é muito mais prática em termos de produção. São muitos os que disseram “as comics são o cinema dos pobres” e, apesar de ter as minhas diferenças em relação a essa afirmação, estou de acordo que para fazer uma comic, são necessários muito menos recursos. No entanto, a essência de narrar através de imagens tem uma origem muito similar com o cinema. Em cinema, trabalho como designer de produção, o meu trabalho é desenhar todos os ambientes do filme, seja ele comercial ou uma série. Na BD, preocupo-me mais pela narração do que pelo desenho e parte visual, para que a narração ocupe o primeiro plano. Importa-me muito mais que a BD tenha qualidade narrativa do que seja bela, isso eu deixo em segundo plano.

"O cinema faz com que eu compartilhe o processo criativo com muitas pessoas e essa sinergia resulta em algo fundamental para mim na vida quotidiana. É algo que não poderia deixar apenas para fazer BD."

Asi Soy Así, Tita de Buenos Aires, realização Teresa Constantino; colaboração Juan Cavia

No cinema estudam-se os planos e enquadramentos para exprimirem a intenção da história ou das personagens, como aplicas esse exercício quando se trata de contar uma história em banda desenhada?
Exactamente da mesma maneira. A progressão dramática de uma BD (pelo menos as que eu gosto) regem-se pelas mesmas bases que a do cinema clássico. 

Tens vindo algumas vezes a Portugal apresentar os vossos trabalhos, no entanto, nem tu nem o Filipe têm a banda desenhada como meio de subsistência para viverem. Achas que alguma vez esse sonho possa vir a ser concretizado?
Na realidade, é um sonho cumprido à sua maneira. Quero dizer, naquele momento, quando era muito jovem e sonhava em fazer BD e viver apenas disso. Mas a vida levou-me até ao cinema e não foi algo assim tão casual. Gosto muito do trabalho de cartoonista mas também é uma profissão algo solitária, e eu sou uma pessoa bastante solitária. O cinema faz com que eu compartilhe o processo criativo com muitas pessoas e essa sinergia resulta em algo fundamental para mim na vida quotidiana. É algo que não poderia deixar apenas para fazer BD. Acho que ambas as coisas compensam uma à outra, o desafio está em cumprir com cada uma das partes. 

A música é uma arte que te diga respeito ou que valorizas muito? Qual a importância que dás ao teu trabalho?
Eu estudei piano clássico durante 6 anos com um professor russo de idade. Para mim, a música é a arte fundamental com a sua versatilidade e possibilidade de transcender barreiras rapidamente. 

Talvez seja uma das razões pelas quais, continuo a gostar de cinema, pela sua capacidade de fundir música com imagens de uma maneira única. 

O Segredo dos Seus Olhos é um filme que considero excepcional. Trabalhaste nesse filme e sei que na altura nem deste muito valor ao prémio por estares cansado pela imersão na produção de Dog Mendonça e Pizzaboy 2. És uma pessoa que trabalha muito a pensar em prémios, ou achas que, não obstante ser estimulador o reconhecimento, o mais relevante é sem dúvida o processo de criação?
Estávamos a trabalhar em Tondela e recordo-me que não pensavam que fossemos ganhar... Foi uma grata e muito inesperada surpresa, mas também não foi algo que mudou a minha vida, obviamente. 

Não sou uma pessoa que trabalha para os prémios, apesar de achar que o reconhecimento é melhor quando provém de pessoas directas. Obviamente, que os prémios e reconhecimento ajudam um pouco o artista contemporâneo e permitem que a sua arte não se torne demasiado críptica.

© Juan Cavia e Filipe Melo 

De todos os trabalhos que realizaste com o Filipe Melo, qual o que te deu mais prazer em termos de técnica e criatividade?
Vampiros foi o que mais esforço nos deu (a ambos) e talvez o que acabou a ter mais mérito. Mas o último livro, Balada para Sophie, foi sem dúvida, o trabalho do qual estou mais orgulhoso, não apenas porque foi um processo extremamente criativo e produtivo, mas também porque é uma história bela (e a história é sem dúvida o mais importante), e é um grande mérito do Filipe. 

Sei que agora estiveste a rodar um filme. Em termos de adrenalina trabalhar em cinema é muito diferente de trabalhar em banda desenhada. Essa dicotomia de ritmos é necessária para manteres o equilíbrio entre momentos de interacção com uma equipa e outros de solidão?
Absolutamente, eu considero esse equilíbrio fundamental na minha vida... ainda que não seja muito fácil de fazer e traz-me algumas dores de cabeça às vezes. 

Como olhas para o teu trabalho em diante com o Filipe? Planeiam produzir muito mais em conjunto?
Seguimos com calma, algo que fui aprendendo ao longo dos anos. 

Para terminar, gostaríamos que nos desses a conhecer 5 discos, 5 bandas desenhadas, 5 filmes/séries que consideras relevantes. 
É algo passível de mudar de acordo com as horas do dia, mas eu tentei.

Discos: sem ordem
- White Album, The Beatles
- Golberg Variations, Glenn Gould 
- Ok Computer, Radiohead  
- Adios Nonino, versão original de 1969, Astor Piazzolla 
- Blade Runner, Vangelis 

BD: sem ordem
- El Eternauta, Oesterheld – Lopez  
- Mort Cinder, Oesterheld – Breccia  
- The Arrival, Shaun Tan
- Akira, Otomo 
- That Yellow Bastard, Miller 

Filmes: sem ordem 
- Phantom Thread, P. T Anderson 
- Akira, Otomo  
- In the Mood for Love, Wong Kar Wai
- Mad MenMatthew Weiner
- Princess Mononoke, Hayao Miyazaki

Texto e Entrevista: Priscilla Fontoura
Entrevistado: Juan Cavia
Imagens: © Instagram Juan Cavia, Frames de Filmes que colaborou
Tradução: Cláudia Zafre