O comandante do avião discutia com o co-piloto a falta de comissários de bordo que se vinha a sentir nos últimos tempos. Era necessári...


O comandante do avião discutia com o co-piloto a falta de comissários de bordo que se vinha a sentir nos últimos tempos. Era necessário proceder a novas contratações.

Rafael caminhava distraidamente, enquanto sonhava com um emprego numa companhia aérea. Ele adorava viajar, mas todos lhe diziam, “se estás à espera que o emprego te caia do céu, podes esperar sentado”. Rafael sentou- se a descansar e a reflectir na sua vida.

Entretido com a conversa, o comandante perdeu o controlo do avião e este foi-se despenhar sobre o local onde Rafael estava. Moral da história: Cuidado com os empregos caídos do céu.

Texto: Emanuel R. Marques
Capa/Colagem: Emanuel R. Marques

A partir de duas imagens de Robert Johnson  é construída a narrativa visual do documentário expositivo  Devil at the Crossroads , re...


A partir de duas imagens de Robert Johnson é construída a narrativa visual do documentário expositivo Devil at the Crossroads, realizado por Brian Oaks, para contar a história, um pouco especulativa - parte de várias suposições sem se basear em grandes registos -, da vida do mestre do Delta Blues. Na realidade, ao contrário do que se pensa, de que o Blues teve, na sua génese, influência nos hinos das igrejas evangélicas de toda aquela região do Mississippi, este género de música (tão natural da alma), teve origem nos campos de algodão lavrados pelos escravos negros. Talvez tenha sido a música a grande catarse libertadora do sofrimento causado pelo jugo dos patrões brancos com mente de senhores feudais. Cantar era o escape terapêutico que os escravos precisavam para esquecer a dor gritante que interiormente ansiava uma por revolução. 


Apesar das obrigações que o delta ditava, Robert Johnson contrariou o destino e fez da sua guitarra o campo que teria que lavrar para tocar e cantar o Blues. Na primeira oportunidade que encontrou para apresentar as suas canções, foi vexado pelo público "experiente em Blues" que o assistia a tocar na sua guitarra de 4 cordas, muito mediocremente, apesar de, na altura, ser um bom tocador de harmónica. A partir daí, desapareceu da sua região durante um ano e meio. Ao longo do documentário alguns testemunhos são prestados, inclusivamente do seu neto Steven Johnson, que só aos 50 anos descobre que é descendente do músico. Johnson influenciou vários músicos, Bob DylanKeith Richards, Eric Clapton e Robert Plant fazem parte dessa lista. 

Poderia pensar-se que no filme O Brother, Where Art Thou?, escrito pelos Irmãos Coen e realizado por Joel Coen, a referência a Robert Johnson é feita com o personagem Tommy Johnson, mas, de facto, trata-se de outro músico. Na verdade, Robert Johnson não foi o primeiro músico de Blues que supostamente aprimorou as suas habilidades com a ajuda do "Príncipe das trevas". Um ex-guitarrista chamado Tommy Johnson - que não é parente de Robert Johnson, mas cresceu no mesmo estado do Mississippi - teve a sua guitarra afinada pelo próprio diabo, quando o encontrou na encruzilhada. O diabo pergunta por que Tommy trocou a sua alma eterna, Tommy responde que não a estava a usar para nada. (Uma biografia de Tommy Johnson inclui uma entrevista com o seu irmão, que diz que Tommy contou pessoalmente a história desse encontro.) Dos 29 temas que R. Johnson gravou, antes da sua morte prematura, constam Terraplane Blues, Cross road Blues, Come on in my Kitchen, Walking Blues


A vida de Johnson não foi fácil. Viveu com a sua mãe e com o seu padrasto numa casa muito humilde na estado do Arkansas. Aos 18 anos apaixonou-se por Virginia, cuja família era muito religiosa, com quem viria a ter um filho. Quando Virgina deu à luz, Johnson estava ausente em digressão, e assim que foi ao seu encalço, Johnson encontrou a sua mulher já enterrada a 7 palmos de terra, momento que nunca mais superou.

Após o desaparecimento de Johnson, surgiram muitos mitos criados pela comunidade. Depois de um ano e meio, o incógnito Johnson reapareceu com a sua guitarra transformada com 7 cordas para tocar frente ao público que outrora o tinha vexado. Este novo Johnson dominava a guitarra como ninguém, baixos e solos eram tocados simultaneamente ao ritmo da mesma mão, enquanto as bocas do público espalhavam que o músico teria feito um pacto com o diabo, por tocar com tanta mestria num tão curto espaço de tempo. Diziam que teria vendido a alma ao diabo em troca de talento e fama. Mas... quando se faz um contrato com o diabo, há um preço a pagar. E assim aconteceu... Mito ou não, Robert pagou o preço e morreu envenenado aos 27 anos, juntando-se ao clube dos 27. 


Texto: Priscilla Fontoura
Imagens: Frames do doc. Devil at the Crossroads, Brian Oaks

Independência de Cabo Verde (DR) O psicadelismo dos padrões de uma capulana ajusta-se à figura de uma rapariga jovem africana que, ao ...

Independência de Cabo Verde (DR)

O psicadelismo dos padrões de uma capulana ajusta-se à figura de uma rapariga jovem africana que, ao caminhar, parece que dança levemente, levando o ritmo no seu corpo formoso e bem constituído. O seu corpo torna-se ágil e quase elástico, assim que a música se começa a ouvir. Isto é uma tela, um batique, uma imagem que se aloja no nosso imaginário assim que é vista. A música pode passar pelo funaná, uns blues mais atrevidos ou música com timbres psicadélicos, funk e electrónicos imiscuídos com ritmos tradicionais africanos. A jovem dança consumindo os ritmos por completo. 

A música electrónica é tida, na história da música, como um fenómeno essencialmente ocidental, do mundo, supostamente, evoluído e não em desenvolvimento. Contudo, em África, há muito tempo que se desenvolvem sons electrónicos de formas mais artesanais e menos convencionais. Do que daí resulta são ritmos extremamente dançáveis, hipnóticos e sem a desvirtuação das melodias tradicionais africanas, das quais Cabo Verde em particular se orgulha bastante.

A editora nova-iorquina Ostinato Records lançou, em 2017, uma compilação fantástica e interessante, cujo enfoque é a música feita por emigrantes cabo-verdianos que conseguiram transcrever sonicamente o exotismo, unicidade e beleza da ilha. 


Foi a Março de 1968 que aconteceu o impensável, um navio que carregava muitos órgãos, moog’s, hammond’s e korgs, cujo destino era o Rio de Janeiro, acabou por nunca chegar ao Brasil. Mas chegou sim, a Cabo Verde. O navio estava aparentemente abandonado, não havendo sinais da sua tripulação. O recheio do barco foi imediatamente retirado e inúmeros jovens cabo-verdianos tiveram acesso a novas formas de fazer e pensar música. A decisão de distribuir os órgãos pelas várias escolas e sistemas de educação coube ao general Amílcar Cabral. Esta e outras histórias estão disponíveis num artigo muito completo no jornal The Guardian (cujo link colocarei em baixo). 

A ilha viu-se então assolada por sons diferentes, exóticos e únicos que realizaram uma boa simbiose entre música tradicional africana e a vanguarda da música que era feita na Europa.

Essa fusão histórica foi capturada na compilação: Synthesize the Soul: Astro-Atlantic Hypnotica from the Cape Verde Islands, editada em 2017, pela Ostinato Records. Reúne 18 temas distintos entre si, mas que, ouvidos na íntegra, oferecem sonicamente toda uma ilha. 

Após a independência da ilha, do regime colonial Português, foram inúmeras as bandas e colectivos que floresceram adaptando-se aos tempos. Essa adaptação levou também à criação de música ecléctica e dinâmica, que se arma de várias influências para ajudar à transformação e assumir de uma identidade, depois de anos sob a égide de uma força colonial. 

Há funk, dança, reggae, salsa, r’n’b e outras tendências misturadas com o som inconfundível da música tradicional de Cabo Verde. Há espaço para alguns experimentalismos de disco sound, como por exemplo, no tema Djozinho Cabral de José Casimiro. Há toda uma mistura saudável de géneros musicais que fazem desta compilação uma das mais cativantes da dita música do mundo. 

Para escutar o disco na íntegra, aqui: 

Com um panorama musical tão rico, a editora Ostinato Records lançará no próximo 14 de Junho o álbum Leite Quente Funaná de Cabo Verde do Grupo Pilon


Este grupo formou-se em 1985 no Luxemburgo, sendo um colectivo de jovens entre os 14 e os 20 anos, que, em vez de copiarem as músicas que ouviam, criaram os seus próprios originais. A formação ficou eventualmente reduzida a 5 elementos. Nas suas músicas decidiram relatar os problemas da emigração, trabalhos precários e o quotidiano de viver na Europa. 

Este colectivo recebeu a devida atenção da editora norte-americana que este ano lança um registo de seis temas (retirados de três discos de originais do grupo). Sem formação profissional ou grande experiência musical, o Grupo Pilon conseguiu, através da perseverança e inclinação musical inata, criar temas de cerne consciencioso que reflectem problemas sociais da altura, como a libertação de Nelson Mandela e a queda do muro de Berlim. A música é deliciosamente dançável, mas existe todo um subtexto de luta pela liberdade e justiça social que a banda continua a conservar. 


A origem do nome Pilon é também uma homenagem às raízes, sendo que é o nome do instrumento que se usa para tratar o milho usado num dos pratos mais tradicionais e conhecidos da gastronomia de Cabo Verde, a cachupa. Este respeito pelas raízes reflecte-se nas guitarras gingonas, bateria e percussão bem ritmadas e o uso de sintetizadores que elevam o som e o tornam, de certa forma, inconfundível, especialmente no tema Txada Liton


Este disco faz assim a segunda parte dos lançamentos da diáspora crioula, lançada pela editora americana, após o sucesso da compilação Synthesize the Soul

Grupo Pilon reinventou o funaná, tornando-o mais eléctrico, cativante e aberto a influências exteriores, sem nunca esquecer ou perder as suas verdadeiras raízes. Um disco que estará disponível a partir de Junho pela Ostinato Records

Fontes: 

- TRANSLATION - 

The psychedelism in the patterns of a capulana that fits the body of a young african woman that while walking, seems like she is dancing lightly, carrying the rhythm in her beautiful and well built body. The body becomes agile and almost elastic when the music starts to play. This is a painting, a batik, an image that finds its place on our imaginary as soon as it is seen. The music can be funaná, some cheeky kind of blues or music with psychedelic, funk and electronic tones mixed with traditional african music. The young woman dances consuming the rhythms in its fullness. 

Electronic music is generally thought of as an essentially western phenomenon, of the supposedly developed world and not of the underdeveloped, however in Africa there has been development of electronic music by other unusual methods. What results from that are extremely danceable, hypnotic rhythms that do not stray too far from the traditional african melodies of which Cabo Verde is extremely proud of. 

The music label from New York, Ostinato Records, released in 2017, is an interesting and fascinating compilation of music, made by emigrants from Cabo Verde that were able to sonically transcribe the exoticism, uniqueness and beauty of the Island. 

It was in March of 1968 that the unthinkable happened. A ship that carried a lot of music organs and synths, moog’s, hammond’s and Korgs whose final destination was Rio de Janeiro never did arrive in Brazil but it shipwrecked in Cabo Verde. The contents of the boat were taken and a lot of youngsters had access to new ways of thinking and playing music. The decision to distribute the musical instruments at schools was made by General Amílcar Cabral. This and other stories are available in a very good article by the newspaper, The guardian (I’ll post the link below). 

The Island was then filled by different sounds, exotic and unique with a perfect symbiose between traditional african music and the music vanguard of Europe. 


That historical and beautiful fusion was captured in the compilation: Synthesize the Soul: Astro-Atlantic Hypnitica from the Cape Verde Islands released in 2017, by Ostinato Records. It gathers 18 songs very different from one another but that listened in a whole gives us the sonic portrait of the islands. 

After the Island’s Independence from the portuguese colonial regime there were a lot of music collectives and bands that blossomed and adapted to the times by creating eclectic and dynamic music that arms itself of various influences to help the Island’s transformation and identity after years under the colonial forces. 

There is funk, disco, reggae, salsa, r’n’b and other tendencies mixed with the unmistakable sound of Cape Verde’s traditional music. There is space to some experimentalisms of disco sound, such as in the song Djozinho Cabral by José Casimiro. There is a wide variety of mixing of musical genres that make this compilation one of the more captivating of the so called world music. 

You can listen to the whole record here: 

With such a rich and natural musical landscape and with the necessity of it being brought to wider audiences, Ostinato Records releases this year, 14th June, Leite Quente Funaná de Cabo Verde, by Grupo Pilon

This group formed in 1985 in Luxembourg, being a very youthful band with its members being between 14 and 20 years old. They created their own original songs instead of copying or covering songs. The group was shortened to 5 elements that in their songs talked about the problems of the emigrants, precarious jobs and the daily life in Europe. 


Grupo Pilon received the deserved attention by the north-american label that this year releases an album of six songs (taken from three previous records of the band). Without professional training or experience in music, Grupo Pilon managed through perseverance and innate musical ability to create songs of conscientious core that reflect social problems of the time like the release from prison of Nelson Mandela and the fall of the Berlin Wall. The music is extremely danceable but there is a constant subtext of fight from freedom and social justice that the band expressed and still expresses. 



The origin of the name Pilon is also an hommage to the roots, since that Pilo is the instrument used to pound the corn used in one of the most traditional and well known dishes of Cape Verde’s gastronomy, the cachupa. This respect for the roots reflects itself on the playful guitars, drums and percussion that are very rhythmic and the use of synths that elevate the sound and make it memorable, especially in the song Txada Liton

This record is the second part of the releases of the creole diaspora released by the north-american label, after the success of the compilation, Synthesize the Soul.

Grupo Pilon reinvented the funaná, making it more electric, vibrant and open to external influences without forgetting or losing its own roots. A record that will be available in June by Ostinato Records

Texto | Text: Cláudia Zafre
Tradução | Translation: Cláudia Zafre

IDEIA ORIGINAL: CLÁUDIA ZAFRE & PRISCILLA FONTOUR A


IDEIA ORIGINAL: CLÁUDIA ZAFRE & PRISCILLA FONTOURA






Género: rock, blues Álbum:  Certaine Ruines Data de lançamento: 12 de Setembro, 2018 Editora: Bongo Joe records https:// cyrilcyrilband.ba...

Género: rock, blues
Álbum: Certaine Ruines
Data de lançamento: 12 de Setembro, 2018
Editora: Bongo Joe records

https://cyrilcyrilband.bandcamp.com

Artwork: Mâra Krastina & David Mamie 

A propriedade do mistério, do que é misterioso e intrigante, está muitas vezes associado ao que achamos belo. Tanto pela curiosidade que nos desperta, como pelo magnetismo que em nós exerce. Estas particularidades encontram-se em várias facetas da arte e em especial na música. Esta forma de arte é intangível, não a podemos possuir no sentido de lhe podermos tocar, mas sim possuí-la na medida em que a sua essência nos invade e em certos casos, pode até transmutar essências, experiências e perspectivas de vida.

É o misterioso que nos impele a procurar novas expressões de arte, de transmitir os nossos sentimentos de forma diferente, mas inspirada nos nossos antepassados que serviram de inspiração e influência. A música quebra barreiras constantemente e recria o nosso quotidiano de forma apelativa e inspiradora. Cria cenários na sala de cinema do nosso imaginário como se estivéssemos envolvidos por uma banda-sonora permanente.

Cyril Cyril é um projecto oriundo da Suiça e fruto da colaboração de dois músicos, Cyril Yeterian (banjo, guitarra e voz) e Cyril Bondy (bateria e voz). Lançaram o LP Certaine Ruines no ano passado (2018) sendo o trabalho de estreia. A delicadeza e intimismo que se sente ao longo das dez músicas é inspirador e convida o ouvinte a recostar-se tranquilamente no conforto agradável de um escapismo saudável. A propriedade do mistério também se encontra presente, impelindo-nos a recriar imagens mentais, fazendo a nossa própria longa-metragem. É um folk ecléctico muito particular que se materializa nas secções de cordas hipnóticas e crípticas, vocalizações por vezes solitárias ou em duo, mas que podem recriar em nós telas exóticas e belas de xamãs numa floresta. O ritual alia-se à harmonia musical com rapsódias francesas, cantos libaneses que nos atraem pela sua musicalidade e efeito hipnótico. É um disco de estreia intrigante e mágico, criando uma ponte etérea, mas sólida entre músicos e melómanos.

links:
https://cyrilcyrilband.bandcamp.com

- TRANSLATION -

Genre: rock, blues
Album: Certaine ruines
Release: September, 2018
Label: Bongo Joe records
https://cyrilcyrilband.bandcamp.com


The quality of mistery, that which is mysterious and intriguing is often associated to what we find beautiful because of the curiosity that arises in us and the magnetism that acts upon us. These peculiarities can be found in several art forms and specially in music. Music is an intagible art form, we can't not possess it by means of touch but in terms of spirit, her essence conquers us and in some cases, it can transform experiences and life's perspectives.

It is what is mysterious that impels us to find new art expressions, to transmit our feelings in a different way but inspired our influenced by our ancestors. Music breaks boundaries constantly and recreates our daily life in an appealing and inspiring way. It creates scenarios in our mind's theater as if we were engaged in a permanent soundtrack.

Cyril Cyril is a project from Switzerland and the result of the collaboration of two musicians, Cyril Yeterian (banjo, guitar, vocals) and Cyril Bondy (drums and voice). They released their first LP, Certain Ruines last year (2018). The sensitivy and intimacy that can be felt all along the ten songs of the record is indeed inspiring and invites the listener to just sit back peacefully in the comfort of a healthy kind of escapism. It's a sort of eclectic folk that is quite particular and that takes shape in the cryptic and hypnotic layers of the string sections, solo or duo type of vocals that can form in our minds exotic paintings of shamans in a forest. The ritual takes its side along the musical harmony with french rapsodies and lebaneses chants that attract us for their musical and hypnotic quality. It's an intriguing and magical debut that creates an ethereal but solid bridge between musicians and music lovers.  

links:
https://cyrilcyrilband.bandcamp.com

text | texto: Cláudia Zafre
tradução | translation: Cláudia Zafre

Glassjaw envelheceu ao lado da geração que a ouviu.  No contexto mais generalista da música, os nomes Daryl Palumbo e Justin Beck não sã...

Glassjaw envelheceu ao lado da geração que a ouviu. No contexto mais generalista da música, os nomes Daryl Palumbo e Justin Beck não são assim tão sonantes. Para quem viveu nos anos noventa, e tinha como uma das referências musicais o hardcore, já deve ter ouvido pelo menos falar da banda nova-iorquina Glassjaw


Em Long Island surgiram bandas como Silent Majority (1990 – 2000) e Sons of Abraham (1994–1998), das quais faziam parte elementos da banda que viriam a formar posteriormente: os Glassjaw, banda que trouxe inovação e uma ruptura com o hardcore tradicional que se fazia por aqueles lados. Mesmo saindo da caixa do hardcore clássico, o percurso de Glassjaw não foi fácil, tampouco tiveram a vida facilitada. 

Ao longo da carreira, a banda sofreu várias alterações na formação. Em 2000, lançam o Everything you need to Know about Silence pela editora americana Roadrunner Records (editora com a qual tiveram uma cisão pouco amistosa). Apesar do álbum ter sido produzido pelo produtor Ross Robinson (associado a bandas como Korn, Slipknot, Machine Head, etc), Glassjaw distingue-se das demais. Todos os membros introduzem as suas particularidades, Daryl Palumbo o seu jeito passivo-agressivo, costuma citar outros artistas em tom de homenagem, entre eles Frank Zappa, Tori Amos, Gravediggaz; Justin Beck riffs frenéticos e delirantes (além de Palumbo, é o único membro que se mantém desde a formação da banda); Manuel Carrero não se limita a seguir as tonalidades da guitarra, mas desprende-se para conferir personalidade e muito groove; Durijah Lang não se prende ao groove e a ritmos base, orientados pela precisão e resistência, o baterista aplica também muito swing

Escrever sobre Glassjaw não é tarefa fácil. Acaba-se, quase sempre, por entrar no campo pessoal, porque, tal como as gerações, eu também envelheci a ouvir Glassjaw. Mas não será assim quando se fala da música que ouvimos, que fez e faz parte da nossa existência e que contribuiu para o nosso crescimento? Não será a música das poucas e especiais presenças nos momentos mais sombrios e desesperantes, que nos transporta para outros lugares? Uma das inúmeras capacidades da música é esta, acrescentar e evidenciar algo. Um verdadeiro bálsamo. 

Do Everything you need to Know about Silence

Álbum que consumi bastante na altura e que revisito por vezes, quando sinto necessidade de regressar à adolescência. Estamos em 2000. A quantidade de malta que gostaria de tê-los em Portugal contava-se pelos dedos das mãos e dos pés, e no #glassjaw (canal do IRC) éramos sempre os mesmos, não estou a contar com quem ainda não tinha acesso à internet; no entanto, havia revistas, zines à venda, provenientes sempre do estrangeiro e a Virgin megastore, entre outras.


A verdade é que o tempo não volta atrás e a nostalgia é sentida. A voz melódica e gritada de Palumbo é inconfundível, assim como toda a agressividade inerente ao sentimento de dor e revolta que carrega nas letras que escreve (não fossem elas baseadas muitas vezes na sua experiência com ex-namoradas). Everything you need to Know about Silence é um álbum histórico. Um hino à juventude e a todas as intempéries a que podemos estar sujeitos. É um diário aberto num dia de sol, que digerido rasga como lâminas. Basicamente, ou se tem empatia ou não; e quando atravessamos a adolescência para uma juventude presa a dúvidas existenciais, tudo é sentido a dobrar. 

Do Worship and Tribute


Em 2002, lançam o Worship and Tribute, desta vez pela mão da Warner Bross e produzido novamente por Ross Robinson. Podemos afirmar que, se compararmos com o primeiro álbum, é um registo mais optimista, uma homenagem às pessoas que os influenciaram musicalmente. Palumbo, em The Gillette Cavalcade of Sports (secção rítmica do camandro), cita Frank Zappa Life's a ball / I run the world from city hall, um momento exploratório de ritmo e groove, cujo ouvinte é levado para uma viagem a passar pela alucinogénicaSer original também implica ter referências, somos moldados por aquilo que escolhemos artisticamente, quer queiramos quer não. Encontramos um álbum mais coeso liricamente, que aborda questões tão actuais, como por exemplo, a da gentrificação; sente-se, por isso, uma maturidade em relação ao passado. Especula-se sobre o tema Ape dos Mil, será uma resposta ao que escreveu em Everything you need to Know about Silence? Não passam apenas de especulações, mas sabe-se, pelo menos, que Worship and Tribute foi fortemente influenciado pelos acontecimentos do trágico 11 de Setembro (9/11) ocorrido em 2001. 

Do Material Control e do regresso


Os hiatos foram muitos e muitas vezes são necessários (hiatos não significa ficar parado artistica, nem pessoalmente). Todos sabemos da doença de Palumbo desde o EYNTKAS, e todas as implicações que uma doença (séria e incapacitante) acarreta na vida de alguém, levando também a vários cancelamentos de concertos. Em 2017, Material Control é lançado, após 15 anos sem produzirem trabalhos de longa duração, sendo que também é o primeiro álbum sem a participação de Todd Weinstock. Lançar discos todos os anos que nada trazem de novo é uma perda de tempo para quem ouve, e raras são as bandas, nos dias de hoje, que realmente transmitem algo que importe, que tenha conteúdo, que seja real e genuíno. O disco foi produzido pelos Glassjaw, numa filosofia que sempre os caracterizou, a DIY. O tema Shira devolve aqueles Glassjaw que nos habituaram a refrães catchy e gritados em uníssono. Palumbo e Beck referem que a temática e a emoção escolhidas para Material Control seria a de um ambiente pós-apocalíptico, excepto o tema Golgotha que aborda uma fase de transição na vida de Palumbo porque tornara-se um homem de família.

Se mais nenhum disco tivesse sido lançado, o sentimento de agradecimento e partilha seria o mesmo. No entanto, a ilusão de voltar a ter 19 anos vai ser sentida novamente no dia 22 de Junho deste ano, no Hardclub. Dois concertos que serão uma estreia em Portugal, no dia 22 de Junho no Porto e no dia posterior no Lisboa ao Vivo, na capital, pela mão da promotora Amazing Events. Glassjaw nunca agradou a gregos e troianos. Graças a essa atitude que o público que os verá será reciproco nessa verdade. É preciso ter fé, Glassjaw finalmente em Portugal.

Texto: SP
Concerto: Glassjaw
Datas: 22 e 23 de Junho de 2019
Locais: Hardclub, Lisboa ao vivo, respectivamente
Promotora: Amazing Events

CRIAÇÃO E AUTORIA:   EMANUEL R. MARQUES

CRIAÇÃO E AUTORIA: EMANUEL R. MARQUES

Resumo No universo musical há, também, uma arca de Noé enterrada no monte Ararat. Nessa arca encontram-se bandas que escolhem nomes de an...

Resumo
No universo musical há, também, uma arca de Noé enterrada no monte Ararat. Nessa arca encontram-se bandas que escolhem nomes de animais que personificam todo um imaginário que pretendem dar à luz. Diz a história, que Noé tentou salvar o maior número de animais transportando-os na arca, para sobreviverem ao dilúvio universal que dizimaria qualquer espécie. A verdade é que sem reino animal o mundo... kaput. 

Palavras-chave: animais, bandas, música

THE LOCUST


A banda de San Diego, cujo trabalho sonoro corta (qual espada de dois gumes) os tímpanos de qualquer um/a, é visceral, se quisermos encontrar a melhor palavra para a definir. Os temas destes gafanhotos são acelerados, os gritos são como se as sete pragas do Egipto surgissem todas ao mesmo tempo a partir do mesmo lugar. 

A banda formada em 1994, comandada inicialmente por Justin Pearson e Dylan Scharf, tentou, com alguma dificuldade, criar todo o imaginário caótico que tinha concebido, mas, para a máquina complexa Locust existir, seria necessário recrutar mais músicos para empoderar o grande gafanhoto. Assim Justin e Dylan convidam Dave Astor, Bobby Bray e Dave Warshaw para se juntarem à dupla; no entanto, a mudança na formação só acontece quando Joseph Karam e Gabe Serbian são incluídos. E eis que, a partir deste momento, todo um mundo novo surge no horizonte. 

Em 1996, os Locust lançam o split com Man is the Bastard, e pouco tempo depois com Jenny Piccolo. Em 1998, lançam o álbum homónimo com temas rápidos, movidos a todo o gás. As guitarras e bateria são como uma fábrica que produz a ritmo nonstop cápsulas de metal num cenário sci-fi. O death-grind, que caracteriza o primeiro álbum, está presente em todo o cataclismo ressonante que dura ao longo de 16 minutos. Na realidade, assim que o primeiro disco foi lançado, não foram necessários muitos dias para que a primeira edição esgotasse. Com 4 lançamentos de longa duração, marcados, essencialmente, pela mistura peculiar de rapidez com agressividade, complexidade com estranheza vanguardista, pode-se afirmar que Locust é uma das bandas que impactou e influenciou a cena punk de San Diego. Enquanto se encontrava no activo, a banda apresentava-se em palco vestida com fatos de insectos, dando a ilusão que uma nave com seres alienígenas tinha aterrado minutos antes. 

É possível que depois de um concerto de Locust vá tudo parar às urgências. É a descarga total de uma central eléctrica, principalmente se a viagem sónica terminar com o tema AOTKPTA (New Erections, 2007). Recomendável para ouvir na hora dilacerante do crepúsculo. O Apocalipse veio para ficar e ninguém deu por ele. 

Curiosidade: Quando cantam, os gafanhotos de antenas compridas produzem som através do toque de uma asa na outra. 

RATOS DE PORÃO

Ratos de Porão, Alchetron

A banda liderada por Jão (João Carlos Molina Esteves) é capaz de criar três rodas-punk (mosh-pit) ao mesmo tempo num só concerto. Não é uma suposição, tive o prazer de assistir a tal fenómeno no festival Sudoeste em 1998 (agora tão descaracterizado). O punk dos Ratos de Porão é capaz de juntar os inadaptados do subúrbio dentro da mesma "perua", para viajar por ruas esburacadas, enquanto se grita, em uníssono, refrães de punk rápido e esfomeado a pender muitas vezes para o hardcore, tão característicos em RdP. Com a saída de Betinho (Roberto Massetti) em 1983, Jão lidera a bateria e João Gordo passa a ser vocalista da banda. Não se pode falar de punk brasileiro sem fazer referência a estes ratos, que ao longo de quase 40 anos de carreira têm ensinado como se faz punk rápido sem se perder tempo. 

Apesar dos ratos serem animais dos quais muitas pessoas sentem repulsa, porque são também transmissores de doenças tais como: leptospirose, peste bubónica, tifo murinho, raiva, sarna e triquinose, possuem uma extraordinária habilidade para se localizar, aprender caminhos novos e criar atalhos em localidades já conhecidas. Além do mais, apresentam semelhanças com o homem e também apresentam emoções como remorso e stress. Os ratos não vomitam, e sem eles o descarte do lixo seria um processo ainda mais difícil. 

THEM CROOKED VULTURES

Them Crooked Vultures, Metal Injection

O projecto formado em 2009 por Josh Homme é quase uma extensão de Queens of the Stone Age. Esta banda não vem acrescentar nada de novo ao género desert rock; o baixo tem groove, a voz é também orientada pelas cadências à la QOTSA e as guitarras são marcadamente bluesy/desert rock. Basicamente é um projecto que junta nomes sonantes do rock para se divertirem em palco. O álbum homónimo, editado em 2009, ouve-se no calor da noite entre viagens feitas em estradas desérticas, com paragens em estações de serviço para se beber uma gasosa fresca. 

The Vulture and the little girl, Kevin Carter 

A imagem tão polémica The Vulture and the little girl, publicada em 1993, cujo escrutínio acabou por levar ao suicídio de Kevin Carter (pensava-se no início que era uma menina em vez de um menino), alertou o mundo para a tragédia conhecida por "triangle famine" que ocorreu no Sudão. Nesta imagem vê-se um abutre à espera que a criança faminta sucumba para lhe servir de alimento.

Os abutres não são, normalmente, animais que os humanos queiram ter em casa como animais de estimação. Comem carcaças de animais em decomposição e ajudam a limpar o ambiente, prevenindo a disseminação de doenças. Neste momento, é uma espécie em extinção porque caçadores ilegais envenenam as carcaças para matar os abutres, e a droga veterinária diclofenac foi responsável pela morte de 99% abutres na índia, Paquistão e Nepal. 

PORCUPINE TREE

Porcupine Tree, Metal Wani

Progressivo, psicadélico, ambiental, atmosférico, no que ao género musical diz respeito; fresca e vanguardista, assim que a banda britânica foi avaliada pelos especialistas. O projecto levado a cabo por Steven Wilson conta com duas mãos de álbuns, e é, sem dúvida, o projecto musical com mais projecção do produtor. Formada em 1987 em Hempstead, a maior característica desta banda é a de conseguir misturar vários géneros musicais sem cair no poço do mau gosto. Os ritmos hipnóticos, muitas vezes em contratempo, os sintetizadores espaciais, a voz doce e as guitarras, que têm tão de rock progressivo quanto de heavy-metal, coloca esta banda no lugar de destaque em oposição a tantas outras bandas de rock progressivo. PT combina um grande sentido musical com composições não convencionais, sem esquecer que o trabalho de produção é excepcional. Em 2010, a banda suspendeu a sua actividade para que Steven Wilson pudesse focar a tempo inteiro no seu projecto a solo. 

O disco Deadwing foi lançado em 2005 pela Lava Records / Warner Music e teve uma direcção menos rock que o anterior In Absentia. O propósito para Deadwing seria realizar um filme que abordasse a temática fantasmas numa lógica surreal. Enquanto Wilson fazia contactos com o seu amigo cineasta para vender a ideia, foi, paralelamente, escrevendo os temas que iriam constar na banda-sonora desse filme. Por essa razão, Deadwing apresenta uma ambiência mais cinematográfica comparativamente a todos os outros discos de PT.

Pensa-se que o porco-espinho solta espinhos quando se sente ameaçado, mas, na realidade, o que parecem ser espinhos são pêlos. Pêlos mais duros que podem chegar até oito centímetros. Em fase adulta, o porco-espinho, pode ter até 30 mil pêlos que, ao contrário do que muitos pensam, não servem para disparar contra os inimigos. De facto, estes animais quando agitam o corpo, batem as patas traseiras no chão e os pêlos soltam-se da pele com grande velocidade. Nalguns casos, os pêlos ganham tanta velocidade que até podem matar outros bichos. 

LOBSTER


Os oceanos são um mundo inteiro ainda por descobrir. Tantos animais com características e defesas diferentes coabitam nesse mesmo mundo multicolor. Apesar do interregno dos Lobster, o trabalho desta banda portuguesa de noise-rock físico ficará nas memórias dos aficcionados da música underground. Riffs frenéticos de guitarra (Guilherme Canhão) servem de trampolim para a desgraça ritmada movida pela bateria de Ricardo Martins. Com um álbum editado pela Bor Land, em 2007, Sexually Transmitted Electricity, os Lobster são um dos melhores exemplos da música portuguesa e da exploração criativa sem grandes tretas. Para muitos, as lagostas são um belo petisco, principalmente em dias soalheiros. Para outros, as lagostas são um animal curioso. Os órgãos deste animal localizam-se em lugares improváveis. O cérebro situa-se na garganta, o sistema nervoso no abdómen, os dentes no estômago e os rins na cabeça. As lagostas padecem também do mesmo problema dos vampiros, são funcionalmente imortais. Não mostram sinais mensuráveis de envelhecimento (sem perda de apetite, sem alterações no metabolismo, sem perda de desejo reprodutivo ou habilidade, sem declínio na força ou saúde) e apenas morrem devido a causas externas. 

Conclusão:
Existe uma lista de nomes de animais adoptados por bandas que podem não só servir de mascote ou bandeira, mas também de fio condutor para o imaginário estético de cada banda. Desde Turtles a Eagles, Scorpians a Beatles, Löbo a Hawkwind, são muitas as que escolhem nomes de animais. O interesse por certa banda, pode, eventualmente, estimular a curiosidade para outros tipo de conhecimento, como por exemplo, tentar perceber como determinado animal se comporta. 
Do mesmo modo, é importante saber que além do ser humano, existem outros animais que coabitam no mesmo planeta. Muitos animais encontram-se em vias de extinção e não encontram neste habitat o melhor lugar para viverem com qualidade de vida. Por causa da negligência e inércia constantes do ser humano, muitos animais estão já extintos e outros em vias de extinção. O futuro não se revela muito promissor, é por isso urgente agir. Parece que mais Noé's serão necessários.

Texto: Priscilla Fontoura
(não foi utilizado novo acordo ortográfico)

Género: folk Álbum: V/A Fragments du Monde Flottant (curated by Devendra Banhart) Data de lançamento: 1 de Março, 2019 Editora: Bongo Joe r...

Género: folk
Álbum: V/A Fragments du Monde Flottant (curated by Devendra Banhart)
Data de lançamento: 1 de Março, 2019
Editora: Bongo Joe records
lesdisquesbongojoe.bandcamp.com/album/fragments-du-monde-flottant

capa, desenhos de Devendra

Uma noite sonhei que estava num parque temático folclórico e muito colorido. Um bocado na veia da Eurodisney ou Disneylândia, e que havia uma parada de nuvens com variadas formas e feitos. Adultos e crianças maravilhavam-se com as nuvens coloridas e frondosas que assumiam formas de animais, pessoas e até objectos. Infelizmente, apesar da maravilha que era esse espectáculo, o processo para ver a forma de nuvem desejada envolvia uma solução capitalista de ganho imediato, ou seja, pagava-se à empresa do parque para ver a nuvem na forma desejada. Não me lembro se no sonho paguei ou não para ter a visão que queria, se paguei não me lembro de ter visto uma nuvem em forma de amazona atraente, seja como for, era um espectáculo digno de ser visto.

capa, desenhos de Devendra

As nuvens são muitas vezes associadas a estados oníricos ou veículos apropriados para a contemplação (metafísica ou não). Goethe escreveu um tratado sobre elas, muitos outros artistas nelas se inspiraram e inspiram. Depois há adultos que sonham com elas em forma de rato Mickey. De qualquer das formas, observar nuvens para algumas pessoas pode ter um efeito apaziguador. Flutuam levemente. Imponentes no céu, dão ao observador uma sensação de leveza e onirismo. A música consegue fazê-lo também de outras formas, dando a quem a ouve uma sensação de transcendentalismo natural.

capa, desenhos de Devendra

Fragments du Monde Flottant é uma compilação com curadoria de Devendra Banhart, músico que já se apresentou algumas vezes em palco em Portugal. Com Fragments podemos contar com algumas baladas folk, peças instrumentais bucólicas que constroem paisagens amenas e músicas sofisticadas, tranquilas como o pop maduro e carismático de Arthur Russell. A compilação abre com um tema instrumental e bastante introspectivo do compositor Nihl Frahm e vai florescendo com o tema If I Were de Vashti Bunyan onde a melancolia e o sentimento de longing ocupam o seu espaço. Estes sentimentos transitam para o tema Fo Barro, interpretado por Josiah Steinbrick, um tema que não precisa de letra/poesia ou vocalizações para transmitir as emoções “choradas” pelas várias camadas de guitarras acústicas. 

Tim Presley com Aura Aura volta a toada para o folk mais tradicional com alguns toques psicadélicos que se insurgem timidamente ao longo da melodia. O folk continua vivo e bem presente com Livin on a Star de King Tuff com o seu timbre e melodia de voz muito característico e andrógino. 

Segue-se algum experimentalismo e aventura sonora à laia de alguma inspiração Ry Cooder com o tema Meridian Hawk de Adam Tullie. Já se avistam as pradarias e os pastos que dão a entrada subtil, mas majestosa, para a música sofisticada, complexa e celestial de Arthur Russel com a composição Not Checking Up. Esta tendência segue para Helado Negro com o tema Lentamente que brota da simplicidade para atingir várias camadas e melodias imprevisíveis ao longo da sua duração. É um tema cantado inteiramente em espanhol assim como a canção seguinte, Senora Diana La Ví por Diane Denoir & Eduardo Matteo com a voz aliada a acordes de inspiração jazzística e bossa nova. Passamos um portal para o som melodioso de Rodrigo Amarante, o multi-instrumentalista brasileiro que interpreta o tema That Old Dream of Ours acompanhado a piano cuja voz indica a necessidade do sonho e dos estados de espírito mais harmoniosos que continua com o tema Blossom de Matteah Baihm, por esta altura a flor já brotou e floresceu. Podemos contemplá-la no último tema, Raising the Dead por Jana Hunter, um tema que se destaca de todos os outros pelo uso de uma batida sintética que acompanha de forma competente as variações delicadas da guitarra e a voz melodiosa e fantasmagórica de Jana Hunter

Como Devendra Banhart afirmou no processo de curadoria do disco, ele reúne temas de demos de vários músicos amigos que admira, sendo que as demos são uma das suas expressões artísticas preferidas, muito mais do que a canção finalizada em si. O que disso resulta é uma comunicação muito pessoal de Devendra Banhart num disco que é intimista, ecléctico e sensível. Ouve-se bem na segurança de um quarto, sala ou em comunhão com a natureza, talvez observando umas quantas nuvens.

links:
lesdisquesbongojoe.bandcamp.com
bongojoe.ch

- TRANSLATION - 

Genre: folk
Record: V/A Fragments du Monde Flottant (curated by Devendra Banhart)
Release: March 1, 2019
Label: Bongo Joe records
One night I dreamed I was in a colorful and vibrant theme park like in the vein of Eurodisney or Disneyland and there was a cloud parade. Clouds that had several shapes and forms. Adults and children were mesmerized with the fluffy and colorful clouds that took the shape of animals, people and even objects. Unfortunately, even though it was a wonderful parade it relied on the capitalist trading system of immediate gain, that means, once you pay you get to see the cloud of your choosing. I can't remember if I payed for my cloud but I don't remember seeing a cloud in the shape of a luscious amazon woman, however it was a wonderful show. 

Clouds are often associated with oniric states of mind or vessels for contemplation (metaphysical ones or not). Goethe wrote a book about them and they have inspired and still inspire artists and then of course, there are adults that dream about clouds shaped like Mickey The Mouse; anyway, cloud watching can have a calming effect on people. They float without effort and look majestic in the sky, they give their watchers a sense of onirism and tranquility. That effect can also be achieved through music that gives the listener a sense of natural transcendentalism. 

handprinted cover, Devendra's drawing

Fragments du Monde Flottant is a compilation curated by Devendra Banhart and as such we can expect folk ballads, instrumental bucolic pieces that build peaceful landscapes and sophisticated yet tranquil songs like the mature and charismatic kind of pop by Arthur Russell. 

The record begins with an instrumental and instrospective song by Nils Frahm and the feelings start to blossom with If I Were by Vashti Bunyan, when the sense of melancholy and longing first starts to arise. They pass unto the song Fo Barro played by Josiah Steinbrick, a song that does not need lyrics/poetry or vocals to convey the emotions that are carried and "cried" by the several layers of acoustic guitars. 

Tim Presley with the song Aura Aura brings us back the more traditional folk with some psychadelic touches that appear timid like during the song. Folk remains alive and present in Livin on a Star by King Tuff with its timber and melody of a somewhat androgynous nature. Next we are offered some experimentalism and sonic adventure a bit inspired by Ry Cooder in the song Meridian Hawk by Adam Tullie, we can see the prairies and the pastures already that give a majestic entrance to Arthur Russell's complex and almost celestial music with the song Not Checking Up. This trend continues with Lentamente by Helado Negro, a song that is born from apparent simplicity but attains several unpredictable and complex layers and melodies. It's a song sung in spanish much like the song that follows, Señora Diana La Ví by Diane Denoir & Eduardo Matteo that is sung over jazz inspired chords and bossa nova. Then we pass a portal to the melodious sound of Rodrigo Amarante, the brasilian multi-instrumentalist sings the song That Old Dream of Ours accompanied by piano and evoking the need for dreaming and more harmonious states of mind. That need flows in the song, Blossom by Matteah Baihm and by now the flower has sprouted and bloomed. We can contemplate her in the last song of the record, Raising the Dead by Jana Hunter. A song that is a bit different from the others since it relies on an artificial beat that accompanies the delicate guitar variations and the melodic yet dreamlike vocals.

As Devendra Banhart as stated during the process of assembling this record, he compiles songs from musicians he admires even though the songs are demos. He claims demos are his favourite means of musical expression, much more than the completed song per se. What comes from this is a very personal communication from him to the listeners in a record that is intimate, eclectic and sensitive. It can be listened in the comfort of the bedroom, livingroom or in communion with nature, perhaps, doing some cloud watching. 

Texto/Text: Cláudia Zafre
Tradução/Translation: Cláudia Zafre
Label: Bongo Joe
Record: V/A Fragments du Monde Flottant (curated by Devendra Banhart)