Imagem por Rogerio Watanabe  Carne Doce é uma banda de Goiânia, no Brasil, que explora as várias vertentes das relações humanas, al...

Imagem por Rogerio Watanabe 

Carne Doce é uma banda de Goiânia, no Brasil, que explora as várias vertentes das relações humanas, alinhando num indie rock com laivos de psicadelismo e uma componente pop bastante forte. O disco editado em 2018, Tônus, garantiu-lhes ainda mais popularidade, sendo considerado pela revista Rolling Stone o terceiro melhor disco brasileiro do ano de 2018. Realizaram também uma digressão pelos palcos portugueses para promover Tônus, passando por algumas cidades portuguesas como Lisboa, Porto, Aveiro, Coimbra e Torres Vedras.

2020 marca o início de uma nova etapa para Carne Doce com o lançamento do primeiro single e teledisco intitulado Temporal que prenuncia o lançamento do próximo disco previsto para este ano. 

- Carne Doce sempre se destacou pela lírica intimista no sentido de expressar e sentir as relações afectivas de uma forma poética, mas descomplexada e livre. Que linha temática podemos esperar no disco sucessor de Tônus? 
- Exactamente isso, mas de forma ainda mais simples e directa, e talvez mais pop. 

- O vosso primeiro single, Temporal, que antecipa o novo disco, centra-se no conceito de apocalipse ambiental, o que é que mais vos atraiu nesse conceito e o - que pretendem transmitir com ele? 
- Já havíamos tratado esse assunto na música "Sertão Urbano", no nosso primeiro disco. Eu sinto que sempre vimos essa questão ambiental de forma mais explícita por sermos de um estado de economia agropecuária, e pela nossa cidade ser tão jovem e ter crescido tão rapidamente. Estamos apenas reflectindo sobre uma questão quotidiana. 


- O documentário “Paulistas” realizado por Daniel Nolasco, possui um subtexto forte que se centra na desertificação do interior e de certa forma, êxodo rural que se agravou com a monocultura agrícola e a exploração de recursos hídricos. Para o vosso teledisco da música Temporal, utilizaram e editaram cenas desse documentário para emular um mundo que termina em ruínas. Como é que vocês sentem os ataques ao ambiente que acontecem nos nossos dias e que formas ou maneiras é que encontram para combater essa tendência? 
- Sentimos que somos como as pessoas daquela festa, de certa forma seguimos ignorando e sendo complacentes com os riscos ambientais. Não acho que o ser humano pense que está atacando alguma coisa, mas apenas usufruindo. Por aqui, fazemos a separação do lixo para reciclagem, reaproveitamos água para lavar coisas, e só. 

Imagem por Gabriel Mendes

- Voltando um pouco ao passado recente, como é que recordam a vossa passagem pelos palcos portugueses e que memórias é que mais vos marcaram? 
- Foi tudo maravilhoso, uma viagem muito alegre, com comida deliciosa e abundante, muita gente gentil, lugares lindos e carregados de história, tudo foi muito rico e emocionante para gente. Os shows de Lisboa, Porto e Aveiro foram os mais marcantes, lotaram, foi uma energia muito boa, de sucesso, felicidade e de perspectiva de voltar. 

- Algumas letras dos discos anteriores contêm um cerne poético muito marcado pelas emoções, as relações e o que delas pode advir. Existe algum/a escritor/a passado ou contemporâneo que possam ou queiram citar como inspirador/a ou que tenha afinidade com esse universo? 
- Ando lendo Dostoievski. Li "Uma Anedota Infame", "Memórias do Subsolo" e agora "Os Irmãos Karamázov", e ele está o tempo todo explorando personagens que agem contra a própria vantagem, contra o próprio bem, e que por falta de auto-estima se tornam ressentidos, invejosos, violentos e etc, eu adoro isso. 

- O que é que podem adiantar sobre o novo álbum e para quando estará previsto o seu lançamento? 
- Estamos muito empolgados com a qualidade das músicas novas, canções mais simples, directas e talvez mais pop. Será um grande álbum que lançaremos em Junho ou Julho deste ano.

Texto & entrevista: Cláudia Zafre
Entrevistada: Salma Jô (Carne Doce)

Para os que não são muito nostálgicos e precisam de novas actualizações, tal como um computador precisa de um sistema operativo para ...


Para os que não são muito nostálgicos e precisam de novas actualizações, tal como um computador precisa de um sistema operativo para correr programas que se adaptam às exigências vigentes, assim também é o mundo dos criativos mais destemidos, sempre em constante rotação à procura de saciar as vontades. No caso dos melómanos mais insaciáveis é recorrente irem à procura de uma lufada de ar fresco para satisfazerem os ouvidos que se deixam levar pelas novidades musicais. Não se procura o que é mainstream ou underground, busca-se novas propostas, o objectivo não se prende em atingir uma multidão mas em arriscar.



Os Heisa chegam até nós a partir das nossas pesquisas. São belgas, tal como os Brutus, e não estão com meias medidas para nos dar a conhecer o som directo que fazem. Jogam com melodias e ritmos que convidam o corpo a mexer-se de forma imprevisível. Ao mesmo passo, aliciam-nos com os seus telediscos. Vemo-los em cima de uma caixa aberta de uma carrinha em que nos convidam a fazer a viagem numa Bélgica chuvosa, têm algo de Beak>, sentimo-lo especialmente no encontro entre os temas Brean Down e Let Go. Auto-descrevem-se por dicotomias, ora frenéticos ora comedidos, inquietantes e subtis, desorientados e cativantes, Heisa é tudo e de preferência ao mesmo tempo.

Têm como influências sonoras Tool, Bon Iver, Shellac, Warpaint, Nick Cave and The Bad Seeds, Madensuyu, Nirvana, Sonic Youth, Modest Mouse, Casse Brique, Puscifer, BRNS e Raketkanon. Os belgas exploram ritmos, atmosferas e teclados, quebram a tensão pacientemente construída com riffs pujantes e ondas de distorção em momentos aleatórios. 


Eles dizem que nos amam, e nós amamo-los pelo facto de termos uma aparelhagem ou um computador para os ouvirmos. Reserva-nos agora o direito de os termos em Portugal e assim dar por cumprida a missão de os ter por cá.

Heisa são Jacques Nomdefamille (vocais, baixo, teclado), Koen Castermans (guitarra, segunda voz), Jonathan Frederix (bateria, segunda voz). Aqui ficam as suas sugestões para 5 livros, 5 discos, 5 filmes/séries.

Livros:
- Der Steppenwolf, Hermann Hesse
- The Death of Bunny Monroe, Nick Cave
- The Picture of Dorian Gray, Oscar Wilde
- Our Band Could be your Life, Michael Azerrad
- Astrophysics for People in a Hurry, Neil DeGrasse Tyson 

Discos:
- Wounded, BRNS
- The Fool, Warpaint
- Bon Iver, Bon Iver
- Aenima, Tool
- The Moon and Antarctica, Modest Mouse

Filmes / Séries:
- Terminator 2 Judgement Day, James Cameron
- Jurassic Park, Steven Spielberg
- Twin Peaks, David Lynch
- Breaking Bad, Vince Gilligan
- The Office UK, Ricky Gervais

- TRANSLATION - 

For those who are not completely stuck in the past and need constant updates, just like a computer needs an operating system to run programs that fits some needs, so is the world of the most fearless creators, that are always spinning with new ideas. In the case of more insatiable music lovers there is a constant need to find a breath of fresh air for their ears. They don't search for what is mainstream or underground but by new bands that get a hold of them and live in their memory. 
We discovered Heisa in our constant music searches. They are Belgian, like Brutus, and are not shy about showing us their straightforward kind of sound. They play with melodies and rhythms that entice the body to move in unpredictable ways. At the same time, they are exploratory in their videoclips, we see them on top of an open box van inviting us to a trip through a rainy Belgium, there is a similarity with the band Beak> and we can feel that while listening to the themes, Brean Down and Let Go. They describe themselves by dichotomies, they are frantic as they are contained, unsettling yet subtle, disoriented but captivating. Heisa is everything and preferably at the same time. 

Their sonic influences are Tool, Bon Iver, Shellac, Warpaint, Nick Cave and The Bad Seeds, Madensuyu, Nirvana, Sonic Youth, Modest Mouse, Casse Brique, Puscifer, BRNS and Raketkanon. These belgians explore rhythms, atmospheres and keyboards, breaking the tension that is patiently built with strong riffs and waves of distortion that appear at random moments.


They say they loves us and we love them because we have a stereo or computer to listen to their music. We are now hoping that they come to Portugal fulfilling a mission that is deeply awaited. 

Heisa are Jacques Nomdefamille (vocals, bass, keyboards), Koen Castermans (guitar, backing vocals), Jonathan Frederix (drums, backing vocals). Here are their suggestions for 5 books, 5 records, 5 films/TV shows.

Livros:
Der Steppenwolf, Hermann Hesse
The Death of Bunny Monroe, Nick Cave
The Picture of Dorian Gray, Oscar Wilde
Our Band Could be your Life, Michael Azerrad
Astrophysics for People in a Hurry, Neil DeGrasse Tyson 

Discos:
Wounded, BRNS
The Fool, Warpaint
Bon Iver, Bon Iver
Aenima, Tool
The Moon and Antarctica, Modest Mouse

Filmes / Séries:
Terminator 2 Judgement Day, James Cameron
Jurassic Park, Steven Spielberg
Twin Peaks, David Lynch
Breaking Bad, Vince Gilligan
The Office UK, Ricky Gervais

Escolhas | Choices: Heisa
Imagens | Pics: Heisa
Texto | Text: Priscilla Fontoura
Tradução | Translation: Cláudia Zafre
heisalovesyou.bandcamp.com

ANTARCTICA – Beheaded By Voltron Fusing several extreme and highly versatile genres, Antarctica creates a sound that is both a...

ANTARCTICA – Beheaded By Voltron


Fusing several extreme and highly versatile genres, Antarctica creates a sound that is both aggressive and playful with the song titles being as peculiar as the sonic style of the band itself. Filled with pop culture references or amusing quotes, the song titles permeate a bunch of songs that can captivate by their unpredictable structure and roots on a mathcore that is easily melded into something entirely different. 

Originally released in 2009, Beheaded By Voltron is now being reissued in cassette format. Even though the unpredictability and experimentation, the songs can be quite catchy and feature some interesting sound effects such as in the theme, Tennis Grunts

Heavy and fast riffing with a profound sense of melody give a new edge to the sonic identify of the songs that with a deep commitment to exploration offer brief and good-humored medleys into blues, for example, the moment may be brief, but it's essential and can be listened in the second track, It’s like tomato city in here

The album is now available on cassettes and it can be a great experience for those who like extreme but unpredictable music with a good humor vibe.

CROSSED – Barely Buried Love


With a deep-rooted commitment to hardcore punk and a strong punch of screamo, Crossed comes from Spain to shatter any rigid or austere shell that guard us from our most primal emotions. Packing feral emotions that revel in complex and fast riffing that can be reminiscent of Converge’s line of sound, the band also gains in intensity by slowing down the riffing a bit and making it noise-rock heavy like in the track, Ghost

Salivate is perhaps the most straightforward song that blends beautifully the sincere frontality of hardcore punk with the technical and aggressive flourishes of screamo. The trilogy of songs, No love, Barely Buried Love and Saudade create a somewhat painful but real painting of amorous relationships. The bizarre intermingle between desire and repression, that characterizes phases of a relationship, can be felt in the solo riffing of Barely Buried Love when it feels like the heavily distorted guitar is crying. That trilogy or tryptic culminates with the final brushes of Saudade, that combines melancholy and fierceness resulting in a feeling of longing being accentuated by the screamed vocals and the ensemble of guitars that almost touch the cinematic romantic mood of post-rock. 

Barely Buried Love can be appreciated by those that like extreme but moody music that can trigger emotions, be they in full, broken or shattered hearts.


4-Way – LYTIC / CHIVALÀ / AMITIÈ / PIQUE 



This 4-Way record joins bands from Italy and the U.S.A. Starting off with Lytic, a duo from New York that play highly inclined experimental screamo that sometimes blossoms into jazz inspired passages. Then follows, Amitiè’s debut with 3 songs that show their unrelenting and free-spirited emo that relies both on melody as in emotion with a powerful convergence of different styles of vocals. The other half of the 4-Way is divided by Chivalà and Pique. Chivàla’s two songs are a smooth blend of post-hardcore meditative passages and straightforward screamo that consistently pull out your heart strings. Pique from NYC offer the closing 4 songs that can be as calm and introspective as disquieting and aggressive. 

A solid 4-Way from bands with different and unique identities that together give rise to sonic emotional coherence.

Talvez se possa aplicar literalmente a Michael Jackson (MJ)  o famoso verso do tema icónico de T-REX , Cosmic Dancer que diz “I danced...


Talvez se possa aplicar literalmente a Michael Jackson (MJ) o famoso verso do tema icónico de T-REX, Cosmic Dancer que diz “I danced myself right out the womb”, porque com somente 3 anos, MJ já era uma criança cheia de ritmo com uma vontade insaciável de dançar. A sua ascensão no mundo da música foi precoce, iniciando com os seus irmãos, o grupo Jackson 5, com vários singles a atingir o topo das tabelas de vendas. A sua popularidade levou também à criação de uma série de desenhos animados sobre a banda. 


Debaixo da alçada da famosa editora Motown Records, os irmãos Jackson sentiram uma necessidade urgente de começar a ter mais liberdade criativa em relação aos seus temas, unindo-se a uma outra editora e sendo obrigados a mudar o nome para The Jacksons. A popularidade do grupo permaneceu incólume, continuando a compor hits e a fazer digressões. 

MJ eventualmente trilhou o seu caminho como um artista a solo e trabalhando também como actor na reconstrução do clássico The Wizard Of Oz, chamado The Wiz e realizado por Sidney Lumet. MJ encarnou o papel de Scarecrow, uma personagem pela qual sentia um grande fascínio desde criança. 

Apesar de se assumir como perfeccionista, MJ adoptou desde cedo uma postura de humildade sincera e inata, sendo que pelas suas próprias palavras, a melhor maneira de nos aperfeiçoarmos é através da escuta e da observação. E foi nesse sentido que construiu a sua carreira e lançou o lendário Off The Wall


Este documentário realizado por Spike Lee, constrói-se através de imagens de arquivo, footage de concertos, clips de áudio de vários discursos de MJ, assim como entrevistas a músicos, produtores, actores e também o jogador da NBA, Kobe Bryant que define MJ como parte de uma geração que promovia acima de tudo o amor pela sua arte em contraste com gerações recentes que dão primazia à fama acima da devoção ao ofício artístico. 

A parte final do documentário centra-se numa análise de tema por tema das músicas de Off The Wall, cada uma com as suas narrativas de fundo. É um retrato de um artista antes da sua mediatização selvática e dissecação sem limites da sua vida pessoal que originou um sem número de polémicas. 

Michael Jackson's journey from Motown to Off the Wall é, sobretudo, um retrato fiel da música de um artista multifacetado cujas canções acompanharam a infância e adolescência de muitas pessoas e que ainda hoje permanecem intemporais.

Texto: Cláudia Zafre 
Imagens: Frames do doc. Michael Jackson's journey from Motown to Off the Wall 

Género: punk, noise rock, punk rock Álbum:  Eye 18 Data de lançamento: 16 de Janeiro, 2020 Editoras: Lovers & Lollypops e Chil...

Género: punk, noise rock, punk rock
Álbum: Eye 18
Data de lançamento: 16 de Janeiro, 2020
Editoras: Lovers & Lollypops e Chili com Carne


Artwork: Rui Moura

É no esconderijo, ou melhor, no refúgio que se preparam as melhores ideias. O volume no máximo (mesmo que seja impossível quantificá-lo) agita as paredes de pedra da cripta, ouvem-se os gritos de desespero de Ruizinho, o conhecido frontman dos Zen, que detém um timbre inigualável. Os anos passam, mas a natureza não muda, a verdade é que é frustrante abandonar, seja que por motivo, o acto de criação, seja bebendo do lado mais claro ou obscuro que se possa ter. O nome Krypto poderia estar associado ao cão de Super-Homem, mas talvez, neste caso, a etimologia de cripta refira-se a um lugar escondido. Será mesmo Krypto o cão que salva a humanidade dos malfeitores, ou será o lugar escondido dentro de nós que se tem medo de revelar?

O tema Spitwazer conduz-nos a toda a velocidade para uma estrada sem fim e não apela a qualquer consciência. É o lado animal que toma conta de cada um que lá está, a frequência de um baixo distorcido converte-se em erupção vulcânica, dali saltam gritos com palavras não elaboradas. É visceral, sintomático, e não assombra ninguém, limpa a raiva que corrói e ficou presa durante muito tempo, chegou por isso a hora de correr e suar e sentir o coração na boca prestes a explodir. Agora, lavados em suor, não se interrompe o que era suposto terminar, é uma montanha-russa prestes a rebentar, só não se sabe quando. O coração sente-se no estômago, o estômago sente-se na boca, e o cérebro estoura para todos os cantos possíveis. É uma viagem a toda a velocidade em oito temas. Estas hormonas, que se encontram em completa combustão celular, não querem parar, o ritmo avança, não se quer esta viagem terminada, o groove afecta qual crente pentecostal alterado por toda a espécie de revelação, cujo corpo se encontra numa performance primitiva e tribal com os olhos extasiados.

Imagina-se um concerto de Krypto como uma entrada numa pista de aceleração, onde não se sabe quando se vai perder o controlo da velocidade. Os mais sensatos que fiquem sentados na bancada porque garante-se uma demanda inconsciente da qual depois de arrancada é impossível regressar. Este tipo de som é ressonante, todas as frequências afectam a corrente sanguínea. Eye 18 é o álbum de estreia do trio de destruição que junta Gon (Zen, Plus Ultra) a Chaka e Martelo (Greengo). Co-editado com a Lovers & Lollypops e Chili com Carne, o disco editado fisicamente, no dia 16 de Janeiro, faz-se acompanhar de uma BD da autoria de Rui Moura



Levanta-se a seguinte questão, onde se encontra tanta atitude, quando se pensava ter sido toda gasta durante os belos e memoráveis anos noventa em que Ruizinho já era uma referência no que respeita a mostrar como se faz em cima dos palcos? A energia que o caracteriza não se perdeu e está cada vez mais acentuada. De facto há resistência, força e persistência. Acima de tudo, não há medo em ser touro enraivecido. A cadência do primeiro tema, Crow Oath, é imersiva, com Krypto é-se transportado não só para o submundo de Zen e Plus Ultra, mas para bandas como Pigs Pigs Pigs e Gnod. Não há desvios aqui, há uma estrada que leva a quem os ouve à cripta de cada um. E quanto à música nacional são necessárias bandas como Krypto para se fazer a catarse. Sugestão? Que se ouça Eye 18.

Texto: Priscilla Fontoura
Banda: Krypto
Artwork: Rui Moura

Dr. Mosho: o sábio que dá conselhos sobre como vingar na indústria da música. Ideia original, criação, montagem Dr. Mosho: Emanuel...

Dr. Mosho: o sábio que dá conselhos sobre como vingar na indústria da música.


Ideia original, criação, montagem Dr. Mosho: Emanuel R. Marques 
Montagem: Priscilla Fontoura

Género: alternativo, experimental, dark electro Álbum:   Violent Blue Data de lançamento:   7 de Fevereiro, 2020 Editora:   Regula...

Género: alternativo, experimental, dark electro
Álbum: Violent Blue
Data de lançamento: 7 de Fevereiro, 2020
Editora: Regulator Records 


Estava com uma semi-ressaca já de há uns anos, desde que ouvi os temas de Julian Winding para o filme do seu irmão Nicholas Winding-Refn, The Neon Demon, um filme que incomoda porque fala dos nossos “pequenos” problemas, entre eles, o narcisismo patológico e o culto da imagem, seja de que forma for. 

Os beats do filme e da banda-sonora deixaram-me num estado de ansiedade constante. Quando e como é que pode surgir um som assim tão envolvente? 

Felizmente, surgiu um projecto português que segue numa linha de beats arrojados, destemidos e que entram automaticamente na cabeça. Acabou-se a ressaca. Existe novamente revolta e o cyberpunk em Portugal. 

Misfit Trauma Queen, projecto de David Taylor que no seu último disco, Violent Blue, reúne um conjunto de temas que nos fazem mexer, não tanto em euforia inconsciente, mas com um senso de melancolia que traz reminiscências de filmes série-B. 

Existe uma narrativa presente ao longo dos 10 temas de Violent Blue, uma poética que tanto se conforma com o final do mundo como o pretende reconstruir com uma paleta de cores, ora violenta, ora pastoral, como nos subtis apontamentos de piano dilacerados pela dinâmica electrónica que permanece visceral e necessária. 

Violent Blue faz-nos viajar em diversos ambientes, um possível apocalipse em Hyperaware, um romance em road-movie com o andróide A.I pelo qual nos apaixonámos em Leathermask, ou a melancolia de um dia perdido a comer noodles numa banca em modo Blade Runner. São todas essas paisagens, imensamente subjectivas que nos fazem procurar um novo disco, aquele set de temas que nos transportam da realidade para um outro local mais interessante, e é exactamente o que Violent Blue faz. Tira-nos do quotidiano certeiro e seguro para um local onde tudo é possível e imaginado.

"Projectos experimentais que permitiam desafiar todas as regras e fórmulas despoletaram em mim um grande interesse por composição musical. Essas experiências fazem ainda hoje parte da minha identidade e penso que se reflecte em Misfit."


-    Quando é que começaste a compor temas para Misfit Trauma Queen?
- Outubro 2017. Assim que comprei o meu desktop de sonho. Trabalhei em dois empregos durante um ano para comprá-lo. Coincide também com altura que comecei a dar os primeiros passos em produção.

- Como foi a tua experiência a tocar em bandas com outras influências sonoras? 
- Foi completamente natural, mas muito importante para desenvolver um sentido de orientação musical que não tende apenas para um x ou y. As primeiras experiências baseavam-se no metal, um estilo que consegue ser bastante exigente em termos de coordenação, velocidade e complexidade. Interessante pela diversidade de técnicas que pode requerer de um baterista. Passei pelo stoner rock que é uma boa zona para expandir a noção de groove e para jogar com simplicidade eficiente. Fiz parte também de alguns side projects que envolviam esquemáticas pouco ortodoxas, ritmos super complicados e fusão de géneros do jazz ao mathrock. Projectos experimentais que permitiam desafiar todas as regras e fórmulas despoletaram em mim um grande interesse por composição musical. Essas experiências fazem ainda hoje parte da minha identidade e penso que se reflecte em Misfit. 

  
- Misfit Trauma Queen é um nome intrigante e adapta-se perfeitamente ao som, podes dizer-nos a origem do nome ou a sua inspiração? 
- Começou como um mero malabarismo fonético. Tenho o hábito de apontar ideias random que tenham potencial para serem utilizadas mais tarde em qualquer tipo de expressão artística. À procura de inspiração encontrei no telemóvel uma nota com dois anos que citava a expressão “drama queen” - Trauma Queen. Acrescentei Misfit pois queria que o nome fosse longo para evitar possível confusão com outro artista ou marca, como já me aconteceu. No fim acabei até por interpretar como uma sátira a mim mesmo, e foi isso que me fez ter a certeza de ser o nome certo. 

- Que conceito/s mais te interessaram explorar e expressar através do teledisco para o tema GlassJaw? 
- Desde miúdo que adoro videoclips. A combinação da componente visual com o audio pode elevar a música a outro patamar, e foi essa a minha intenção com este video. O conceito simbólico perde piada se for demasiado evidente, por isso prefiro não aprofundar muito. Queria que o ritmo visual acompanhasse a dinâmica da faixa e cinematicamente queria usar uma linguagem obscura e surreal tal como um sonho abstracto - uma extensão para o mood do álbum. Sabia que queria explorar a temática da cor azul através da luz negra então o ambiente de dança nocturno pareceu-me mandatório. O resto da magia veio dos meus amigos que aceitaram participar nisto comigo e do grande mestre por trás da câmara Carlos Calika, com quem felizmente mantenho contacto para colaborações que surgirão muito em breve. Um grande abraço à DRAC e a todos os envolvidos.

- Violent Blue, para nós, foi uma experiência imersiva e bastante cinemática. Que género de filmes mais te inspiram ou inspiraram? 
- Filmes cerebrais são o meu tendão de Aquiles. Sou um grande fã de David Lynch, do seu à vontade com o desconfortável e experimental, e da sensibilidade com que explora as ideias mais fora da caixa. Para mim faz parte de um tipo de artista que consegue desbravar caminho para o próximo. É um dos artistas que me dá confiança para experimentar ideias novas que talvez por insegurança nunca veriam a luz do dia. Outra influência relevante é a do Christopher Nolan. Tenho uma homenagem a um dos seus filmes neste álbum, mas não vou dizer em que faixa. 

- Com que idade é que começaste a tocar bateria? 
- Assiduamente comecei aos 15 anos num kit que nem era meu, mas que estava disponível na garagem de um amigo. 

- Que conceitos pretendeste transmitir através da artwork para Violent Blue? 
- O artwork foi feito pelo Fiumani, um artista que tenho vindo a acompanhar desde que o conheci no Gliding Barnacles aqui na Figueira da Foz. Idolatro o aspecto de intervenção anarquista que utiliza nos seus trabalhos. Dude´s a genius. Perguntei se ele queria colaborar comigo na capa e ele aceitou. Só lhe pedir para ouvir o álbum e construir uma imagem icónica, portanto todo o conceito foi concebido por ele. Adoro a capa de morte e acho que não podia pedir melhor. 

- Quais as narrativas que mais te interessaram explorar nos temas de Violent Blue? 
- Queria principalmente que fosse bastante versátil e que não se conseguisse sumarizar facilmente num só parágrafo. Quase como um “audio filme” procurei torná-lo dinâmico, com bastantes altos e baixos, intensos, feios e bonitos. Uma banda sonora para um “bank heist”. A música electrónica trouxe-me liberdade total para experimentar vibes que nunca consegui explorar nos projectos anteriores e penso que este álbum transmite muito isso. Resumindo as narrativas que explorei são verdadeiras novidades para mim também.

Texto & Entrevista: Cláudia Zafre
Entrevistado: David Taylor (Misfit Trauma Queen)
https://regulatorrec.bandcamp.com/album/violent-blue

Há muitos anos, costumava jogar um jogo online chamado Nation States , onde conseguíamos criar a nossa própria nação, estabelecer reg...



Há muitos anos, costumava jogar um jogo online chamado Nation States, onde conseguíamos criar a nossa própria nação, estabelecer regras sociais, políticas, económicas e militares, de acordo, com as nossas escolhas, o jogo estabelecia a nossa orientação política. Foi um pequeno exercício para verificar onde o poder, por mais ínfimo que seja, nos caracteriza não só enquanto líder, mas enquanto ser humano. É-nos dito, vezes sem conta, que o poder nas mãos erradas pode ser uma força imensamente destrutiva, e que nas mãos certas pode ser a salvação. No entanto, nem tudo é preto e branco, existem nuances e espaço para reflectir e tirar as nossas próprias conclusões.


Esta subjectividade é deixada totalmente livre e oferecida ao espectador quando assiste à série The Society criada por Christopher Keyser que nos coloca na cidade de West Ham, uma cidade aparentemente pacata até ao dia em que todos os adultos da cidade desaparecem de forma misteriosa, deixando os adolescentes totalmente sozinhos e livres para criar as suas próprias regras e estabelecer uma nova sociedade.


Esta premissa pode fazer-nos lembrar o clássico de William Goldman, Lord of the Flies ou The Chocolate War de Roger Cormier, mas The Society explora esta realidade de caos iminente em busca de uma ordem, de uma forma peculiar, explorando as dinâmicas relacionais entre personagens, aprofundando-as de forma a criar personagens que não são totalmente boas ou más, mas cheias de alguns contrassensos, dúvidas e fraquezas.


Durante os episódios, aprendemos a conhecer as personagens a fundo e a sentir empatia com todas elas, mesmo as que agem de forma desviante por ser essa a sua natureza. São criadas várias facções políticas, lideradas por pessoas diametralmente opostas nas suas convicções. O idealismo filantrópico da comunidade acima dos interesses individuais, o exercício quase caótico da propriedade privada e a oposição somente por ser oposição sem uma agenda política concreta.

Apesar de se associar a série apenas como mais um drama de adolescentes, The Society vai bem mais além desse estereótipo, conquistando-nos por levantar questões pertinentes acerca de como e em que moldes é que uma sociedade deve funcionar por forma a garantir a segurança e, acima de tudo, a sobrevivência dos seus cidadãos. 

Uma série que pode surpreender e que nos cativa imediatamente após o primeiro episódio. A segunda temporada está prevista para este ano de 2020. 

Texto: Cláudia Zafre
Série: The Society
Frames: The Society (IMDB) 

O minimalismo sónico e a virtude da repetição criam no ouvinte um efeito hipnótico, assim como um maior foco em cada um dos instrumen...


O minimalismo sónico e a virtude da repetição criam no ouvinte um efeito hipnótico, assim como um maior foco em cada um dos instrumentos. O mesmo acorde repetido e saltitante, por entre as linhas mais austeras e convictas do baixo, alinha num plano em que a bateria parece querer resvalar para outros territórios mais selvagens, mas que se deixa contida. O minimalismo engana, parece a todo o momento querer eclodir em explosões sónicas para as quais não há um plano de emergência. 

Kukangendai chega-nos de Kyoto, no Japão e formados em 2006 já editaram 4 LP’S, sendo o mais recente de 2019, intitulado PALM. É uma banda que gosta e se sente mais livre em performances ao vivo, tendo colaborado com bandas como Goat ou com o poeta, cineasta e fotógrafo Gozo Yoshimasu, com o qual realizaram uma digressão em 2017. 

Apesar de se focarem no rock experimental, indo sempre mais além, Kukangendai não se acanha em aventurar por outros géneros, tendo colaborado com Moe and Ghosts, num álbum chamado Rap Phenomenon, de hip-hop experimental. 

Perguntámos a esta banda intrigante e aventureira as suas predilecções para 5 livros, 5 discos, 5 filmes/séries e aqui estão:

Junya Noguchi (Guitarra, Voz)
Livros:
- El Aleph, Jorge Luis Borges
- Black Buddha, Masayuki Shuno
- In Watermelon Sugar, Richard Brautigan
Un étranger avec, sous le bras, un livre de petit format, Edmond Jabes
- Konomichi, Yoshikichi Furui

Discos:
- Barricades, Shira Legmann / Michael Pisaro
- Doing it to death, JB’s
- BIRD, BRAZIL
- Too slow to disco vol. 3, VA
- Baroo, Carl stone

Filmes:
- Barrier, Jerzy Skolimowski
- Death proof in grindhouse, Quentin Tarantino
- Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, Martin McDonagh
- A Ghost Story, David Lowery
- Hereafter, Clint Eastwood

Keisuke Koyano (Baixo)
Livros:
- Alte Meister. Komödie, Thomas Bernhard
- I Have No Mouth, and I Must Scream, Harlan Ellison
- Philosophy of Delicious cooking, Jun Hirose
- In water melon sugar, Richard Brautigan
- Soft and Hard, Atsushi Sasaki

Discos:
- Parity Indicate, Pitch Shifters
- Dream baby dream, Suicide 
- The Seasons of Recerse, Gaster del sol
- Ever New, Bevery Glenn Copeland
- Drum + Bass, DJ Klock

Filmes:
- In a year of 13 moons, R.W. Fassbinder
- Barrier, Jerzy Skolimowski
- Journey to the Shore, Kiyoshi Kurosawa
- Sauve qui peut (la vie), Jean-Luc Godard
- Le Charme discret de la bourgeoisie, Luis Bunuel

Hideaki Yamada (Bateria)
Livros:
- A Cloud in Trousers, Vladimir Mayakovsky
- The Subterraneans, Jack Kerouac
- Vom Weser des Rhythmus, Ludwig Klages
- La carte et le territoire, Michel Houellebecq
- A Manual for Cleaning Women, Lucia Berlin

Discos:
- Da Mind Of Traxman VOL.2, Traxman
- Multistability, Mark Fell
- Comme à la radio, Brigitte Fontaine
- Kinsei, Omoide Hatoba
- Hulk, OMSB

Filmes:
- Once upon a time in Hollywood, Quentin Tarantino
- The Funeral, Juzo Itami
- Happy hour, Ryusuke Hamaguchi
- The Square, Ruben Östlund
- Nader and Simin, A Separation, Asghar Farhadi

- TRANSLATION - 


Sonic minimalism and the virtue of repetition create in the listener an hypnotic haze, just like a major focus in each of the instruments. The same chord repeated and bounced through the more austere and firm lines of the bass, lines up in a matrix where the drums feel like it wants to tread savage territories but ends up contained. Minimalism can trick us, it looks like that at any given moment it can erupt in sonic explosions for which there are no emergency plans. 

Kukangendai is from Kyoto (Japan). Formed in 2006 they already released 4 LP’S and the most recent one is called PALM released in 2009. It’s a band that likes and feels more freedom in live performances, having collaborated with bands such as Goat or with the poet, filmmaker and photographer Gozu Yoshimasu, with whom they did a tour in 2017. 


Despite having a focus on experimental rock and beyond, Kukangendai does not feel shy about exploring other genres, having collaborated with Moe and Ghosts, in an album called Rap Phenomenon, of experimental hip-hop. 

We asked this intriguing and adventurous band their predilections for 5 books, 5 records, 5 films/TV shows and here they are:

Junya Noguchi (Guitar, Vocals)
Books:
- El Aleph, Jorge Luis Borges
- Black Buddha, Masayuki Shuno
- In Watermelon Sugar, Richard Brautigan
- Le livre de luciole, Edmond Jabes
- Konomichi, Yoshikichi Furui

Records:
- Barricades, Shira Legmann/Michael Pisaro
- Doing it to death, JB’s
- BIRD, BRAZIL
- Too slow to disco vol. 3, VA
- Baroo, Carl stone

Films:
- Barrier, Jerzy Skolimowski
- Death proof in grindhouse, Quentin Tarantino
- Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, Martin McDonagh
- A Ghost Story, David Lowery
- Hereafter, Clint Eastwood

Keisuke Koyano (Bass)
Books:
- Alte Meister. Komödie, Thomas Bernhard
- I Have No Mouth, and I Must Scream, Harlan Ellison
- Philosophy of Delicious cooking, Jun Hirose
- In water melon sugar, Richard Brautigan
- Soft and Hard, Atsushi Sasaki

Records:
- Parity Indicate, Pitch Shifters
- Dream baby dream, Suicide 
- The Seasons of Recerse, Gaster del sol
- Ever New, Bevery Glenn Copeland
- Drum + Bass, DJ Klock

Films:
- In a year of 13 moons, R.W. Fassbinder
- Barrier, Jerzy Skolimowski
- Journey to the Shore, Kiyoshi Kurosawa
- Sauve qui peut (la vie), Jean-Luc Godard
- Le Charme discret de la bourgeoisie, Luis Bunuel

Hideaki Yamada (Drums)
Books:
- A Cloud in Trousers, Vladimir Mayakovsky
- The Subterraneans, Jack Kerouac
- Vom Weser des Rhythmus, Ludwig Klages
- La carte et le territoire, Michel Houellebecq
- A Manual for Cleaning Women, Lucia Berlin

Records:
- Da Mind Of Traxman VOL.2Traxman
- MultistabilityMark Fell
- Comme à la radio, Brigitte Fontaine
- Kinsei, Omoide Hatoba
- Hulk, OMSB

Films:
- Once upon a time in Hollywood, Quentin Tarantino
- The Funeral, Juzo Itami
- Happy hour, Ryusuke Hamaguchi
- The Square, Ruben Östlund
- Nader and Simin, A Separation, Asghar Farhadi

Texto | Text / Tradução | Translation: Cláudia Zafre 
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