CRIAÇÃO E AUTORIA:   EMANUEL R. MARQUES

CRIAÇÃO E AUTORIA: EMANUEL R. MARQUES

Pose é uma série criada por Ryan Murphy, Brad Falchuk e Steven Canals que se centra em Nova Iorque em finais dos anos 80 e revisit...


Pose é uma série criada por Ryan Murphy, Brad Falchuk e Steven Canals que se centra em Nova Iorque em finais dos anos 80 e revisita o mundo dos bailes dentro da comunidade LGBT. 

Os bailes da comunidade foram imortalizados no documentário Paris is Burning, realizado por Jennie Livingston, e retrata fielmente toda uma cultura que engloba moda e dança, e, acima de tudo, a necessidade de expressão numa sociedade que ignorava e menosprezava essa comunidade. 


Pose alcança todo o encanto de Paris is Burning, aliando uma série de plots e sub-plots que seguem os dramas e alegrias das personagens, desde o rapaz gay que não foi aceite pela família e teve de se mudar para Nova Iorque para seguir o seu sonho de ser dançarino, ao glamour nas vidas difíceis de duas das personagens principais, Elektra e Blanca

A série também retrata a prosperidade materialista da época, a epidemia do HIV e os preconceitos vigentes da época em relação à comunidade gay e transgénero. 

Um dos trunfos da série, são as suas interpretações, brilhantemente levadas a cabo por MJ Rodriguez (Blanca Rodriguez-Evangelista) e Dominique Jackson (Elektra Abundance) que são as “mães” principais da série. 

O termo “mãe” carrega um elevado valor simbólico e profundo dentro da comunidade, visto que os bailes são constituídos por várias “casas” lideradas por uma “mãe”. Um dos objectivos centrais de uma “mãe” é cuidar da sua prole, organizar as coreografias e roupas para o baile, mas, acima de tudo, exercer uma força positiva, dinamizadora e compassiva para as pessoas que foram rejeitadas pelas suas famílias de sangue que encontraram na comunidade a sua verdadeira família. 


Pose é um olhar sensível que captura as dificuldades, exuberância, alegrias e dramas de uma comunidade que construiu os seus próprios valores, éticas e identidades, numa época que os rejeitou e menosprezou. Pose afirma com segurança que é bom e salutar ser diferente.

Texto: Cláudia Zafre
Série: Pose
Imagens: Frames da série Pose (2018- )

voz e bonecos | voice and hand-made cartoons: Emanuel R. Marques material: papel | paper vídeo | video: Priscilla Fontoura tradução |...



voz e bonecos | voice and hand-made cartoons: Emanuel R. Marques
material: papel | paper
vídeo | video: Priscilla Fontoura
tradução | translation: Cláudia Zafre
som genérico | opening title soundtrack: Emanuel R. Marques, Priscilla Fontoura
música | music: White Stripes: "Catch Hell Blues"


© Acordes de Quinta

New Orleans no Louisiana é um epicentro famoso da música jazz que reúne várias influências de culturas diferentes, como é o caso da cub...


New Orleans no Louisiana é um epicentro famoso da música jazz que reúne várias influências de culturas diferentes, como é o caso da cubana e siciliana. É uma cidade muito rica musicalmente e há uma grande predominância de brass bands que tocavam pelas ruas em ocasiões fúnebres ou mais alegres como piqueniques e festivais. 

Não é então de admirar que seja também o berço de músicos como Louis Armstrong, Mahalia Jackson, Louis Prima e James Booker


James Booker foi um pianista com um visual icónico e de cariz muito virtuoso que se expandiu na fusão do blues e do jazz. A sua personalidade única e maneira de se apresentar ao público, assim como a sua atitude extravagante e “larger than life”, valeu-lhe a alcunha de “the black Liberace” por também possuir uma aura exuberante. 

Uma das suas peças mais famosas chamada Gonzo, foi apreciada por várias pessoas, inclusive Hunter S. Thompson que a considerava um hino. Dizem algumas teorias que foi esta música que inspirou o nome para o que seria o estilo de escrita jornalístico popularizado pelo escritor. Gonzo foi um hit-single e apesar da sua popularidade com o público em geral, muitos poucos se aperceberam que era uma música sobre heroína. 

Este documentário realizado por Lily Keber traça a história deste músico, desde a sua infância em que começou a ter aulas de piano até à vida adulta, as suas gravações, concertos e aspectos menos felizes como o seu vício em álcool e outras drogas. Há também vários mitos urbanos explorados neste documentário sobre a perda do olho de James Booker, cuja razão continua a ser desconhecida, apesar de haver várias teorias. Entre as várias possíveis teorias, a mais rebuscada e a mais peculiar, foi a de que o perdeu numa briga com o músico Ringo Starr, daí por vezes Booker usar uma estrela na pala. Se será verdade ou não, não se sabe.  


O documentário é construído a partir de imagens de arquivo, footage de actuações e entrevistas da vários músicos que tocaram com Booker

Um retrato que se foca essencialmente na música deste pianista de New Orleans que nunca quis abandonar a sua cidade, aquela onde cresceu e onde criou as suas melhores peças. Apesar da queda trágica deste músico, o documentário não se foca no negativo e no sensacionalismo, mas sim no lado humano e na influência que o músico teve, tem e terá no espectro da música jazz e blues.

Texto: Cláudia Zafre 
Imagens: Frames do doc. Bayou Maharajah

Imagem por Camila Grun   Dom Pescoço é uma banda que nasceu em 2014 em São José dos Campos, no interior de São Paulo. Foi em 2015 que...

Imagem por Camila Grun 

Dom Pescoço é uma banda que nasceu em 2014 em São José dos Campos, no interior de São Paulo. Foi em 2015 que lançaram Cuba Corazón, um single com respectivo teledisco que lhes garantiu visibilidade para pisar os palcos de vários festivais no Brasil. 

Foi logo no ano seguinte que editaram "Temperar", um disco composto por cinco temas que os fez descobrir e cunhar o termo com que passaram a identificar o seu som. Tropsicodelia é também esse o nome do seu original editado no ano passado pela Bigorna Discos

Uma banda bastante múltipla, onde cada músico tem a sua contribuição nas vozes e composições, as múltiplas influências vão desde ritmos funk cariocas ao rock alternativo, passando também pelo samba e disco sound. Esta diversidade de influências faz com que o seu som, assim como a estética, seja como a banda a define: “lúdica, multifacetada e libertária”.

Imagem por Camila Grun 

- Dom Pescoço parece ser uma banda muito fluída e harmoniosa, em termos da contribuição de cada um de vocês. Como decidiram formar a banda? Conheceram-se todos em São José Dos Campos?
Dom de Oliveira: Tudo flui em sua maioria em conjunto, principalmente na questão de criação de arranjos. Tudo é muito conversado nos ensaios e, principalmente, testado até chegarmos num ponto em comum no quesito musical.. 
Gabriel Sielawa: Nos conhecemos com um certo empurrão do destino. Em 2013 o baterista Passarinho, natural de Recife, morava em um Centro Eco Cultural na zona rural de São José, onde aconteciam encontros musicais que uniram e movimentaram bastante o cenário artístico da cidade e foi ali que nos conhecemos e nos aproximamos. Como ideia inicial a formação seria essa já existente, mas por acaso não aconteceu de primeira, mudanças foram acontecendo até estarmos, finalmente, os quatro juntos em uma formação uníssona, que perpetua até os dias de hoje.

- Desde a revolução industrial que o Homem se tem distanciado cada vez mais da natureza, optando por viver em grandes cidades e havendo cada vez mais uma luta entre a consciência ecológica, virada para a natureza que combate acerrimamente contra uma postura utilitarista e industrialista que vê a natureza e recursos naturais apenas como fonte de lucro. Quais os vossos pensamentos e posições sobre o que está a acontecer actualmente na Amazónia? Para vocês que cresceram num meio do interior de uma grande cidade, percebemos que a natureza tem uma importância muito grande. Como foi escrever e compor o primeiro disco tão próximo dela?
Dom de Oliveira: A Amazónia, vista aqui do sudeste/sul do Brasil, locais mais industrializados, nos parece um lugar super distante, inalcançável, caro de se chegar e que faz parte mais de nosso imaginário do que nosso dia a dia. Parece mais uma quimera, algo que não faz parte aqui de tão longe que fica de nós. Isso se deve às nossas distâncias continentais, pelo fato do estado de São Paulo ser o mais rico e o que tem a maior concentração urbana do país. Mas esta distância é ilusória, pois como vimos nas últimas queimadas na região amazónica, existem “rios voadores”, que vêm diretamente da floresta, contribuindo de maneira significativa na umidificação dos ares de todo o Centro-oeste e sudoeste do país, incluindo São Paulo. Trazendo chuvas e não deixando que nossa região seja um deserto, assim como é a maioria das regiões do mundo onde passa o trópico de capricórnio. Na questão das últimas queimadas no norte, em vez dos rios voadores, vieram grandes quantidades de fumaça que escureceram todo o céu da região, demonstrando escancaradamente que dentro de nosso planeta e, ainda mais, de nosso continente sul americano não existe separação ou isolamentos. Somos um bioma único, integrado e que necessita uns dos outros para sua harmonia. Preservar é fundamental! Incluindo o direitos dos animais a viverem em um ambiente natural e saudável.

Sou contra o desmatamento da Amazónia por ser a forma mais arcaica, bruta, ignorante e estúpida de se lucrar com a região. Entendo que o consumo de carne é primordial nesta derrubada, que o consumo de madeiras nobres também o são, assim como o consumo de monoculturas para alimentação de animais para consumo humano. Principalmente gado. A questão é que temos - humanidade - que nos responsabilizar também se consumimos algo que prejudica outro local. A grande questão que percebo na Amazónia é: há muitas outras formas de se auto-sustentar com a floresta em pé, assim como fazem diversas comunidades que vivem bem com a terra. Bastaria estudo e conhecimento, que poderiam ser oferecidos e fomentados pelo Governo Brasileiro. Pois a floresta vale muito mais em pé financeiramente, vale mais viva. Assim como ela é fundamental para a sobrevivência da humanidade. 

No entanto, sustentabilidade aqui no Brasil não é sinónimo de lucro fácil, o que a maioria das grandes corporações e proprietários de terra querem, tudo isto em concluo com política e alguns políticos do país. 

Vejo que das únicas e efetivas atitudes que poderiam ajudar as florestas brasileiras são consumidores do mundo cobrando efetivamente a cadeia de produção brasileira e, assim, mudando seu consumo para um mais consciente. Boicotando desmatadores e empresas que lucram com a destruição da mata.

SOBRE A CRIAÇÃO DE NOSSO DISCO

A grande questão é que moramos realmente numa região que ainda possui uma parte de sua natureza, com diversidade biológica e de ecossistemas. Estamos muito próximos do banhado (encravada ao lado da zona central da cidade, uma enorme área verde, concha natural com 5,1 milhões de metros quadrados onde o rural e o urbano se encontram, literalmente, bastando atravessar uma rua), do litoral paulista todo envolto em florestas, da Serra da Mantiqueira em nossas costas e com muitos remanescentes florestais. Tudo isso é captado aqui na cidade em qualidade de vida. Estes aspectos também entraram bastante dentro de nossa capa do disco e em músicas como Manhã e Cidade Azul. 
No entanto, de nossa natureza em volta, o que mais influi simbolicamente é em nosso imaginário. Além, claro, importante explicitar que muitos de nossos ensaios acontecem na região rural de São José dos Campos, no Bairro dos Freitas. Esse contato constante é meio como respirar. Respiramos, mas não nos damos conta de como é fundamental, apesar de não prestarmos atenção. Mas está lá, fundamental e presente.

A capa traduz um sentimento muito exposto pela região do Brasil onde moramos: o Vale do Paraíba. O rio Paraíba do Sul e as montanhas da Serra da Mantiqueira, sempre próximas a nós, o lobo-guará, animal nativo da região e os frutos do café, que por muito tempo foi a principal engrenagem da economia local são as principais características ali explícitas. E o olho que tudo vê, tudo vê.


- No vosso disco "Tropsicodelia" há um tema com referência a divindades, como por exemplo, a Iemanjá no tema Além de Belém do Palá. Existe uma intersecção interessante entre o que Iemanjá representa, a força da natureza, a procura de um refúgio natural e algumas nuances de amor romântico e tudo num só tema. Quais as crenças ou convicções espirituais que guiam a vossa vida pessoal e também enquanto músicos e criativos?
Gabriel Sielawa: Somos efetivamente uma banda laica, que respeita as crenças de cada um (dentro e fora da banda), por isso não é possível dizer que são convicções espirituais específicas. Um de nossos integrantes é umbandista (religião afro-brasileira) e essa letra se deu nesse contexto. De certa forma podemos dizer, também, que mencionar esses guias espirituais também é uma forma de dizer que não esquecemos nossas raízes e nossos aprendizados que passamos de forma empírica ou racional. 
Dom de Oliveira: Eu me considero pagão, panteísta, fruto da natureza e à mercê das intempéries e calmarias, prazeres, dores, amores e sentires advindos do exterior e de nossas mentes. Somos a forma como o próprio universo tomou consciência de si. No geral, tudo é divino e nada é necessariamente mau, mas manifestação caótica do apanhado cósmico, que muitos chamam de Deus, outros apenas acaso. E vamos caminhando, humanidade, ainda sem saber para onde, mas caminhando. O que vale, portanto, dentro de nossa existência, é praticar o bem, para o nosso próprio bem.
Acredito que todas essas crenças e observações entram dentro de nossas canções também, indiretamente e, às vezes, diretamente.

- A vossa composição "Tchau" tem uma letra carregada de crítica social. Como é que vocês observam e o que pensam sobre a situação actual política, social e cultural no Brasil?
Gabriel Sielawa: Não somos favoráveis ao atual governo. Nessa música em específico dizemos indiretamente sobre a reforma da previdência, a qual havia uma necessidade de ser reformada, porém não nos moldes e o formato que está sendo apresentado atualmente no senado que visa apenas ou principalmente a aposentadoria e ao tratamento do governo para com os trabalhadores, trazendo novos transtornos, fechando um ministério com quase cem anos de existência e desvalorizando os seres humanos por trás do número, tirando direitos e necessidades. 
Dom de Oliveira: Estamos vivendo no Brasil uma áurea de Idade Média nos costumes, um conservadorismo imposto às artes pelo governo, uma cobrança de impostos gigantesca com extirpação dos direitos das pessoas à riqueza do país e aos serviços públicos básicos. Pagamos muito e recebemos pouco. O capital acima de tudo, privilégios somente a poucos.


Estamos vivendo no Brasil uma áurea de Idade Média nos costumes, um conservadorismo imposto às artes pelo governo, uma cobrança de impostos gigantesca com extirpação dos direitos das pessoas à riqueza do país e aos serviços públicos básicos. Pagamos muito e recebemos pouco. O capital acima de tudo, privilégios somente a poucos.


- Dom de Oliveira, além do teu trabalho com Dom Pescoço, também lançaste um EP, Mercado das Flores e um LP, Pequena Odisseia Mística. Ambos os álbuns têm uma forte noção de ritmo a nível lírico e algumas imagens poéticas, nomeadamente o tema Silêncio! Memórias que consta do EP. Quão importante é esta linguagem poética na tua criação musical?
Dom de Oliveira: Meu trabalho artístico sempre teve este aspecto poético muito forte. Escrevo poesia desde 2003 e acabei desenvolvendo uma forma de compor a escrita que não se separa muito da forma musical de publicá-la, a letra, a poesia dentro da música. Como minha “formação” na escrita foi lendo muitos poetas brasileiros - mais focadamente o ultrarromântico Álvares de Azevedo, os modernistas Manuel bandeira, Carlos Drummond e o inclassificável Augusto dos Anjos - eu trago naturalmente estas brincadeiras com os fonemas, o linguajar um pouco mais rebuscado e muitas figuras de linguagem. É importante para mim pois faz parte de meu jeito de ser, minha forma de escrever, mas como tende a ser menos popular admito que me frustra não ser tão bem entendido e aceito de primeira. Mas é parte de mim. Faço algo honesto.

Existe uma musicalidade engraçada e divertida na maneira como vocês brincam com certas palavras e com a sua sonoridade. Reparámos nisso, especialmente nos temas, Mutuca Bacana, Um Pé de Flor e Música contemporânea. Esses elementos dão uma cor mais vibrante e surrealista às vossas composições. É essa uma maneira de reconhecer a voz, também ela como um instrumento, sujeito a improvisações e que se liga aos outros instrumentos, em vez de algo mais concreto que segue uma linha poética e lírica mais linear? 
Gabriel Sielawa: Sem dúvidas, a voz é um instrumento melódico e potencialmente harmónico. No fim, mesmo de forma mais concreta e/ou linear, também é um instrumento componente da música como um todo. 
Essas músicas citadas na pergunta e algumas outras do disco como Além de Belém do Palá e La Ursa tem uma peculiaridade na forma de sua criação, aconteceram em momentos distintos de composições específicas para o álbum ou até mesmo para a própria banda. Foram criadas em momentos de descontração, brincadeira e contextualizadas conforme os arranjos novos iam surgindo. Acreditamos na força do impulso criativo e não quisemos desperdiçar.


- A capa do disco, além de apelativa é também intrigante. A arte da capa parece uma fusão de símbolos de várias culturas, assim como no vosso som, existe essa união entre vários continentes e culturas. Quais foram as ideias por detrás da criação da arte do disco?
Gabriel Sielawa: A proposta da capa do disco nos foi apresentada pelo Estúdio Miopia (com sede aqui em São José dos Campos, dirigido pelo artista Gustavo Magalhães), após algumas reuniões de contexto. As perguntas que nos foram feitas para terem como referência foram especificamente voltadas ao significado da banda em nossas vidas e qual sentimento queríamos passar, no fim sintetizadas com respostas sobre nosso meio, tanto artístico quanto físico. 
A capa traduz um sentimento muito exposto pela região do Brasil onde moramos: o Vale do Paraíba. O rio Paraíba do Sul e as montanhas da Serra da Mantiqueira, sempre próximas a nós, o lobo-guará, animal nativo da região e os frutos do café, que por muito tempo foi a principal engrenagem da economia local são as principais características ali explícitas. E o olho que tudo vê, tudo vê.

- Dom Pescoço já conta com 5 anos de existência, o que consideram como algumas das maiores conquistas ao longo desses anos?
Dom de Oliveira: Nossa maior conquista, de primeira e sem dúvidas, são as pessoas que acabaram se identificando, gostando e agora acompanham nosso trabalho. Sem esses apoiadores e apoiadoras nossa música não faria o menor sentido de ser. Nosso foco primordial é tocar, sensibilizar, divertir, fazer bem, intrigar, fazer refletir essa gente. Conquistar a atenção e o carinho dos ouvintes é o que mais gostamos e almejamos. E queremos muito mais. Estamos na lida e na busca para aumentar esse leque de “torcedores”. 
Em paralelo, o que mais nos deixa felizes são as ferramentas que construímos para chegar ao público: gravações em áudio, singles, ep, álbum. Tudo isso nos orgulha. Tem também nossos videoclipes que muito nos agrada. Ter feitos digressões pelo país e participado de diversas entrevistas para jornais, programas de rádio e alguns programas de TV que admiramos fazem parte deste rol de conquistas.


Sou contra o desmatamento da Amazónia por ser a forma mais arcaica, bruta, ignorante e estúpida de se lucrar com a região. Entendo que o consumo de carne é primordial nesta derrubada, que o consumo de madeiras nobres também o são, assim como o consumo de monoculturas para alimentação de animais para consumo humano. Principalmente gado. A questão é que temos - humanidade - que nos responsabilizar também se consumimos algo que prejudica outro local.


- São José dos Campos parece ser uma zona que faz intersecção entre a ruralidade e a urbe, como definem a cena cultural (música e outras artes) nessa região? O que é e como funciona o Catraca Cultural? 
Dom de Oliveira: “Mais urbanos que rurais. A roça que está em nós que não moramos na roça”. Viraram bordões essas frases para mim. São José dos Campos é peculiar na transição roça/cidade, rural/urbano, conexão centro caótico/paz da natureza. No entanto, somos bem urbanos no geral, principalmente a questão cultural contemporânea. Acho que o ficou literalmente da roça/natureza aqui na cidade é parte da culinária e a música tradicional caipira, pelo menos é o que lembro fortemente. E o fato de estarmos bem perto dela, é um refúgio, principalmente na hora de compor e fazer arranjos.
Na questão urbana, pelas ruas de São José dos Campos é notável as variadas iniciativas artísticas e culturais contemporâneas que brotaram de muita gente nova que já não espera acontecer e faz a hora. 
A cena cultural independente da região começou a pulsar mais fortemente a olhos vistos. É contínuo o surgimento de uma cena independente: bandas, coletivos, espaços culturais, estúdios de gravação, produção audiovisual, empresas de marketing cultural e muitas outras iniciativas que tiraram definitivamente o título “cidade dormitório” da cidade. Título este que a cidade sempre trouxe por também possuir um centro industrial bem forte, onde a máxima dizia “trabalho/casa/trabalho”. Já não é assim.

- O vosso videoclipe, Lábios de Papel, que prenuncia o lançamento de um futuro álbum para 2020, é editado com várias imagens de olhares e vocês salientam, a importância da comunicação nesse tema em específico. Como surgiu esse conceito e o que pretendem reafirmar através dele?
Dom de Oliveira: O clipe Lábios de Papel, na realidade, acabou surgindo de um outro videoclipe que foi abandonado por nós. Nós havíamos filmado outro trabalho diferente com roteiro, personagens, mas que não nos cativou. Mas vimos que o que mais nos chamava atenção nas captações era os olhares dos atores e atrizes. Deixamos de seguir aquele roteiro inicial e fomos trabalhar este viés do olhar. Entramos em contato com António Iandro, nosso editor de vídeos que mora o sul do país. Ele aproveitou um retiro para filmar, então, diversas outras pessoas. O resultado não poderia ter sido melhor: a conexão do olhar para dentro da proposta do videoclipe. Se é tão difícil olhar nos olhos das pessoas, aqui nós damos a pista: são gente como a gente. Vivamos! 

- A título de curiosidade geral, se pudessem fazer uma digressão com uma banda ou artista, ainda existente ou já não, quem é que escolheriam?
Dom de Oliveira: A grande questão, maior de todas, é que nós somos muito, muito plurais e ouvimos e somos influenciados diretamente por muitas bandas diversas. Se dissermos um artista apenas como referência estaríamos meio que “mentindo”. O que podemos escolher é, por exemplo, a música brasileira como um fortíssimo norteador de nosso trabalho. 

- Tropsicodelia é um disco muito diverso e imprevisível porque o vosso som brinca muito com certas sonoridades. Como vocês afirmaram, são também uma banda muito "lúdica" e existe um carácter muito relaxado e de bom-humor na vossa música. Estamos curiosos em relação ao próximo disco que vai sair em 2020. Já lançaram a música, Lábios de Papel e o respectivo videoclip mas o que é que podem adiantar mais sobre o futuro álbum?
Dom de Oliveira: Com este “novo” desgoverno conservador no Brasil entramos em um tempo muito estranho. Minguante para a música e ao fomento à cultura em geral. A atmosfera é de ataque aos artistas, junto ao corte de verbas que incentivam a arte que, justamente, não foca no apelo comercial e de mero entretenimento. Deste deste contexto, já não sabemos com exatidão quando conseguiremos lançar o novo disco. São tempos de vacas magras para todos os artistas que não estão no “mainstream” ou não fazem música comercial, líquida, facilmente vendável. Artistas autorais tem diversas intempéries no país para serem ouvidos e valorizados. Por uma questão cultural - as pessoas ainda não querem investir tempo e dinheiro em atrações que não conhecem a fundo - e por uma questão de políticas públicas - não se investe na educação não-formal destas pessoas, incentivando-as a frequentarem espaços de música autoral.

Dada esta atual conjuntura, o que podemos dizer é que vamos trabalhar com o que aparecer para nós e tentar potencializar. Estamos para fazer alguns shows no final do ano e com eles vamos nos organizar melhor para focar na produção de um novo disco para 2020. Atualmente esta é nossa meta. Estamos torcendo por nós também (risos). 

Aparentemente, a atmosfera deste nosso novo disco seria mais debochada e um dos aspectos que gostaríamos de trazer é um pouco mais de romantismo e crítica social. Coisas que falamos menos em nossas canções. Tem também as questões quiméricas, sonhos, devaneios… talvez entre com mais força também. Falo isso baseado nas composições que já temos prontas. Estão interessantes. Excêntricas e interessantes. Vocês não perdem nadinha por esperar. Só vamos!

Texto e entrevista: Cláudia Zafre
Banda: Dom Pescoço
Entrevistados: Dom de Oliveira, Gabriel Sielawa

DREI AFFEN – Seguimos Ciegxs Drei Affen come from Spain despite their german inspired name that means three wise monkeys, an emb...

DREI AFFEN – Seguimos Ciegxs


Drei Affen come from Spain despite their german inspired name that means three wise monkeys, an embodiment of the proverb: “see no evil, hear no evil, speak no evil”. 

Seguimos Ciegxs is their latest record and it’s an explosive and piercing mix of screamo’s raw enery and the darker moods of crust. 

Lyrically the band chooses to express themselves in Spanish and it adds an extra layer of dynamics to the instrumentation, there is also a harmonious component brought by the duo of female and male vocals. 

The first song, Seguimos Ciegos, starts off with some quotes from the movie Bold Native (2010) directed by Denis Henry Hennelly a film that revolves around the animal liberation movement. “What is freedom? Are we born free or do we earn it? And if you deny freedom to the quiet ones, those who have no voice, can you be free yourself? Or are you caged by your own lack of compassion?” Pertinent questions to ponder as we blast away on a swirling wheel of energic and passionate screamo that gives way to some calmer and darker passages.

That balance between melancholic serenity and raw energy is achieved quite beautifully all through the 6 songs of the record. 

Drei Affen scream and sing for the oppressed, being the voice of the quiet and more silent ones. 

BLUE YOUTH - EP + 2 songs 


Blue Youth is a trio from Canada that gained some deserved recognition after their debut LP, Dead Forever. A frenetic blend of 90’s noise rock with some post-hardcore, punk and screamo elements make Blue Youth a creative and interesting band in the modern alternative scene. 

This EP has 2 songs, Deaf Mode and Two Faces that were recorded “live off the floor” and that join forces with the other 5 songs that make up this self-titled EP. 

The Power, The Screw, The Enemy, The Past and The End are the other fabulous five. Constructed on a 90’s vibe but incredibly fresh and relevant, Blue Youth manages to be indie and abrasive at the same time. Highly melodic and with a creative approach to the chorus and verse structure, the songs are pleasing to those that want to feel that long lost 90’s vibe but also want to enjoy the modernity of the present. 

Blue Youth makes us rage and scream along at the top of our lungs while we headbang endlessly to these noisy but extremely melodic tunes. Highly recommended for fans of 90’s noise rock with a different edge.

Text: Cláudia Zafre
Label: Zegema Beach Records 

Género: a lternativo, pop-indie, indie, electrónico Álbum: Wallace Data de lançamento: 4 de Outubro, 2019 Editora: A bismmo https://open.s...

Género: alternativo, pop-indie, indie, electrónico
Álbum: Wallace
Data de lançamento: 4 de Outubro, 2019
Editora: Abismmo

https://open.spotify.com/album/11Z6CwwIZfBziNoPOHuivt?replay=1


                Imagem por Isabela Yu

Persiste uma ligação indelével entre músico e ouvinte quando se cria arte que é intimista e introspectiva. As reflexões, memórias e experiências passadas do músico criam um campo fértil de simbologia e significados onde o ouvinte pode também avivar as suas memórias. São experiências e emoções diferentes, mas que encontram vários traços em comum. A música encontra a sua significação no e através do ouvinte. 

São várias as memórias, dolorosas ou felizes que nos incentivam a criar e a expressar as emoções que outrora poderiam estar recalcadas. A música como linguagem alternativa da alma apresenta-se na sua imaterialidade, numa estrutura mais coesa e maciça que qualquer objecto visível. 

Buscamos arte que, apesar da sua genuinidade, consiga traduzir o que sentimos e/ou pensamos. E é assim que o músico, na sua sensibilidade e olhar diferente sobre o mundo, cria essa ligação inabalável que une continentes distantes. 

Do Brasil para Portugal chega-nos Paes, um músico originário do Recife, no Brasil. Vive actualmente em São Paulo e lançou o seu mais recente EP – Wallace – através da editora Abismmo. O EP foi gravado durante uma residência artística que o músico realizou com Benke Ferraz (Boogarins) no Glândula Lab em Gravatá (Pernambuco). Paes colaborou também com outros músicos como Mombojó e José Duarte

O EP é composto por 7 temas que gravitam tematicamente sobre a capacidade de reconstrução emocional e as metamorfoses pelas quais todos passamos durante a nossa existência. Essa capacidade que nos garante que nada é totalmente linear ou estacionário, que não vivemos na estagnação e que tudo sofre uma transformação, mesmo que essa não nos seja visível imediatamente. 

Wallace, nome adoptado por ser o alter-ego do músico, é “uma viagem lisérgica e melancólica, mas rosa, azul, mergulhada em lembranças de infância, questionamentos sem fim, e um coração, por vezes, apaixonado.”, como resume o texto de apresentação do álbum. 

O álbum é o seu sexto lançamento em doze anos de carreira e apresenta-se como um trabalho melódico, experimental e exploratório. É também delicado porque aborda temas como as ansiedades do mundo contemporâneo e a solidão que advém ironicamente do excesso de informação e comunicação dos nossos tempos, no entanto, não se deixa ficar pela desesperança ou morbidez existencial porque através dos seus sons cristalinos e psicadélicos, existe uma forma de resistência audaz e optimista. 

Paes metamorfoseia-se em Wallace e mostra-nos que há tempo para criar, respirar e viver, apesar do ritmo frenético que a sociedade constantemente nos impõe. Neste cenário fértil de ligação com o ouvinte, Wallace é música feita por e para os nossos tempos modernos. 

O álbum conta também com um mini-documentário de 10 minutos realizado por Victor Giovanni, filmado durante a gravação do disco na residência artística. 

- TRANSLATION - 

Genre: alternative, pop-indie, indie, electronic
Record: Wallace
Release: 4 de Outubro, 2019
Label: Abismmo

https://open.spotify.com/album/11Z6CwwIZfBziNoPOHuivt?replay=1


                                                 Wallace, drawing by Wallace, Art by Marcela Dias, graphic design by Diana Lins 

An indelible connection persists between musician and listener when there is the creation of art that is intimate and introspective. The reflexions, memories and past experiences of the musician can create a fertile ground of symbols and meanings where the listener can recall their own personal memories. The memories and emotions are different but they have some things in common. Music finds its meaning on and through the listener. 

There are several memories, painful or cheerful that make us create and express our emotions that might otherwise be locked away. Music as an alternative language for the soul that presents itself in its immateriality but more cohesive and massive than any other visible object. 

We seek art that despite its genuine qualities can translate what we think and/or feel. And that is how the musician in its sensitivity and different outlook on the world, creates that strong bond that unites different continents. 

From Brazil to Portugal comes Paes, a musician from Recife, in Brazil, that lives in São Paulo and has released his most recent EP – Wallace – through the record label Abismmo. The EP was recorded during an artistic residency that the musician made with Benke Ferraz (Boogarins) at Glândula Lab in Gravatá (Pernambuco). Paes also played with other musicians like Mombojó and José Duarte

The EP has 7 themes that gravitate towards the capacity of personal reconstruction and the metamorphoses that we suffer along our existence. That capacity that ensures us that nothing is one hundred percent linear or stationary, that we don’t live in stagnation and everything changes, even if those changes are not immediately visible. 

Wallace, name adopted as an alter-ego for the musician is described on the text of the record’s release as “a lysergic and melancholic trip, that is pink, blue, dipped in childhood memories, unending questions and a heart, that is in love, sometimes”. 

The album is the musician’s sixth release in twelve years of career and presents itself as a melodic work but also experimental and exploratory. It is also delicate because it approaches themes like the anxieties of our contemporary world and the solitude and isolation that ironically comes from the excess of information and communication in our day. However, it does not stick to hopelessness or existential morbidity because through its crystalline and psychedelic sounds there is an audacious and optimistic form of resistance. 

Paes metamorphoses in Wallace and shows us there are times to create, breathe and live despite the frenetic rhythms that our society imposes upon us. In this fertile ground of connection with the listener, Wallace is music made by and for our modern times. 

The album is accompanied by a 10 minutes short-documentary directed by Victor Giovanni, filmed during the recording of the album on the artistic residency. 

Texto: Cláudia Zafre 

Explorar e quebrar barreiras de género parece um desafio imenso, mas há bandas e projectos que o fazem com uma facilidade natural. ...


Explorar e quebrar barreiras de género parece um desafio imenso, mas há bandas e projectos que o fazem com uma facilidade natural.

Housewives é um quinteto londrino que começou a editar em 2013 e que já lançou 3 LP’S, sendo o mais recente, Twilight Splendour, uma reunião de 8 temas que compõe cenários de distopia sónica com a deconstrução constante de um post-punk fortemente sustentado por electrónicas dilacerantes. 

A banda composta por amigos de infância originários de Gloucestershire foca-se no presente e pisca o olho ao futuro, fazem música para e dos nossos tempos numa tentativa de criar uma arte imediata e cerebral que reflecte as ansiedades, angústias, mas também as esperanças e euforias de uma vida na contemporaneidade. 

Numa entrevista ao site The Quietus, Joseph Rafferty elabora sobre a dualidade que existe entre a nossa persona online nas redes sociais ou outros locais na internet e a nossa persona real, aquela que personifica e lida com o nosso quotidiano. Essa dualidade é algo que acha bastante interessante e que permeia ideias e emoções.

"Bem, é apenas uma relação, não é? Representas-te de uma determinada maneira na vida real e de outra maneira diferente através do teu Eu online. Não estou a dizer necessariamente que uma maneira é pior do que a outra, apenas a dizer que as pessoas agem de maneiras diferentes. Estamos perante uma espécie de dualidade - dualidade em nós, nos outros, nas ideias e emoções. Há uma justaposição constante" - afirma Rafferty 

É essa justaposição constante que faz a estética sonora de Housewives uma banda-sonora para os nossos tempos modernos, uma relação simbiótica entre o mundo digital e o orgânico que se revela também nas suas estéticas visuais, seja através dos telediscos ou das fotos que os colocam em situações do quotidiano, camuflados e discretos num mundo em constante metamorfose. 

Perguntámos a Joseph Rafferty (voz, guitarra, saxofone), David Moran (guitarra, teclas), Sasha Evans (baixo, bateria), Lawrence Dodd (bateria, voz) e Ben Vince (saxofone) as suas escolhas para 5 livros, 5 discos, 5 filmes/séries e aqui ficam:

Livros:
- 100 Years of Solitude, Gabriel Garcia Marquez
- The Brothers Karamazov, Fyodor Dostoevsky
- Amerika, Franz Kafka
- The Three Stigmata of Palmer Eldritch, Philip K Dick
- Capitalist Realism, Mark Fisher

Discos:
- &&&&&, Arca
- Public Strain, Women
- The Life of Pablo, Kanye West
- The Getty Address, Dirty Projectors
- Oil of Every Pearls Un-Insides, SOPHIE

Filmes / Séries:
- The Square, Ruben Östlund
- The Armando Ianucci Shows, Armando Ianucci
- Stalker, Andrei Tarkovsky
- Enter The Void, Gasper Noé
- Synecdoche New York, Charlie Kaufman

- TRANSLATION - 

Twilight Splendour, capa por Joseph Rafferty

Exploring and breaking genre barriers seems to be a giant task, but there are bands and projects that do it with a seemingly natural ease. 

Housewives is a quintet from London that started to release records in 2013 and have 3 LP’S so far, being that the most recent one, Twilight Splendour, gathers 8 themes that construct scenarios of sonic dystopia with the deconstruction of a kind of post-punk that is strongly supported by lacerating electronics. 

The band composed by childhood friends from Gloucestershire focuses on the present and flirts with the future, making music for and from our times to create an immediate and cerebral kind of art that reflects the anxieties, anguishes but also the hopes and euphoria of a modern life. 

In an interview with the website The Quietus, Joseph Rafferty talks about the duality that exists in our online persona on social media or other places on the internet and our real persona, the one that deals with everyday life. That duality is something that he finds interesting and that permeates ideas and emotions. 

“Well, it’s just a relationship isn’t it? You represent yourself in a certain way in real life, and you did it another way through your online ‘self’. I’m not necessarily saying one is worse than another, it’s just that people act differently on both. We’re kind of looking at a duality - duality in ourselves, other people, ideas, emotions. There’s constantly a juxtaposition.” says Rafferty.

It is this constant juxtaposition that makes the sound aesthetics of Housewives an adequate soundtrack for our modern times, a symbiotic relationship between the digital and the organic worlds that also reveals itself on the visual aesthetics, through the videoclips or the photos of the band that put them in daily life situations, in camouflage and discreet in a world in constant metamorphose. 

We asked Joseph Rafferty (voice, guitar, saxophone), David Moran (guitar, keyboards), Sasha Evans (bass, drums), Lawrence Dodd (drums, voice) and Ben Vince (saxophone) their preferences for 5 books, 5 records, 5 films/TV shows and here they are:

Books:
- 100 Years of Solitude, Gabriel Garcia Marquez
- The Brothers Karamazov, Fyodor Dostoevsky
- Amerika, Franz Kafka
- The Three Stigmata of Palmer Eldritch, Philip K Dick
- Capitalist Realism, Mark Fisher

Records:
- &&&&&, Arca
- Public Strain, Women
- The Life of Pablo, Kanye West
- The Getty Address, Dirty Projectors
- Oil of Every Pearls Un-Insides, SOPHIE

Films / TV Shows:
- The Square, Ruben Östlund
- The Armando Ianucci Shows, Armando Ianucci
- Stalker, Andrei Tarkovsky
- Enter The Void, Gasper Noé
- Synecdoche New York, Charlie Kaufman

São os dois actores norte-americanos e uma das coisas que mais gostam de fazer é meter o público a rir. Edward Paul "Ed" Helms ...

São os dois actores norte-americanos e uma das coisas que mais gostam de fazer é meter o público a rir. Edward Paul "Ed" Helms é correspondente no The Daily Show de John Stewart e, além da sua participação noutros filmes, é Andrew Bernard na série The Office, versão norte-americana. Nathaniel Faxon é actor, humorista e argumentista. Em 2012 venceu o óscar na categoria de melhor guião adaptado para o filme The Descendants. O guião foi escrito em co-colaboração com Alexander Payne e Jim RashEd Helms e Nat Faxon poderiam ser irmãos mas não são, no entanto, partilham algo em comum, tirar gargalhadas a quem lhes acha graça.

PUZZLE: ED HELMS e NAT FAXON

Ideia, texto e montagem: Priscilla Fontoura
Puzzle: Cláudia Zafre

Género:   lo-fi, alternative, psychedelic, garage, pop  Álbum: Is it an Easy life? Data de lançamento:  27 de Setembro, 2019 Editora:  L...

Género: lo-fi, alternative, psychedelic, garage, pop 
Álbum: Is it an Easy life?
Data de lançamento: 27 de Setembro, 2019
Editora: LP lançado por  Montagne Sacrée Records, We Don't Make It Records e Pop Club; Cassette lançada por Tortellini Records, Fart Food Records
https://leopardoshallo.bandcamp.com/album/is-it-an-easy-life

Imagem por: Juliette Henrioud 

Leopardo chega-nos da Suíça e com membros de duas cidades, Fribourg e Lugano. Lugano é talvez mais conhecida por ser a cidade onde Herman Hesse viveu bastantes anos. 

Leopardo começou como um projecto a solo de Romain Savary com um registo extremamente lo-fi e introspectivo e que deu origem ao disco de estreia, Di Caprio, cuja temática lírica e composicional consistia em canções de amor dedicadas a uma rapariga. 

Sonoramente, Di Caprio percorre os caminhos de um indie extremamente lo-fi que se torna identitário por basear-se muito em nuances psicadélicas dos anos 60. São compósitos sonoros e vinhetas de um amor adolescente ou jovem adulto, as memórias de um certo passeio, as primeiras palavras, gestos ou olhares que foram trocados. 

Di Caprio expandiu a consciência musical de Leopardo e o projecto de um só-homem tornou-se uma banda com a junção de mais três músicos, Giuliano Iannarella, Noah Sartori e Blaise Yerly. A banda já fez digressões pela Suíça com as bandas Thee Oh Sees, Tess Parks e Acid Baby Jesus, assim como já pisou palcos em França, Bélgica, Itália e Alemanha. 

Is it an easy life?, o Segundo disco de Leopardo foi misturado e gravado directamente para cassete, o que lhe dá um som retro e genuíno, ajudando a criar uma certa aura pop de anos 60. A banda reúne influências várias que vão de Syd Barrett a Velvet Underground

As líricas estendem-se sobre acordes de inspiração punk num registo lo-fi e garage, expressando sentimentos vários, desde os mais soalheiros e amorosos como em Holiday of Love, até aos mais melancólicos como Alone on Earth e Fear

O disco encerra com o misterioso e imprevisível, Chinese Army que se espraia em solos despojados de guitarra, uma qualidade que acompanha também alguns dos outros temas. 

Neste segundo disco, persiste uma qualidade de introspecção e intimismo que Leopardo alcançar já com o disco de estreia e que se estende em 9 temas de lo-fi punk que se aproximam emocionalmente do ouvinte.

- TRANSLATION - 

Is it an easy life? Capa por Virginie Jemmely 

Leopardo comes from Switzerland with musicians from two cities, Fribourg and Lugano. Lugano is perhaps most known for being the city in which Herman Hesse lived for several years.

The band started as a solo project by Romain Savary with an extremely lo-fi and introspective kind of sound that generated its debut album, Di Caprio, whose main theme were love songs dedicated to a girl.

Di Caprio manages to create a sound of lo-fi indie that becomes unique by its psychedelic nuances that reminds us of the sixties. The record has little vignettes of an adolescent or young adult love, the memories of a certain walk, the first words, gestures or looks that were exchanged.

Di Caprio expanded the musical consciousness of Leopardo, a one-man project became a band with three more musicians joining in, Giuliano Iannarella, Noah Sartori and Blaise Yerly. The band toured Switzerland with bands such as Thee Oh Sees, Tess Parks and Acid Baby Jesus, and has also played through France, Belgium, Italy and Germany.

Is it an easy life?, Leopardo’s second album was mixed and recorded directly into tape, which gives a genuine and retro sound, helping to create a certain atmosphere reminiscent from the 60’s. The band gathers influences that range from Syd Barrett to Velvet Underground.

The lyrics spread over punk inspired chords in a lo-fi and garage kind of sound, expressing several emotions, from the sunnier and loving in Holiday of Love, to the more melancholic as in Alone on Earth and Fear.

The album closes with the theme, Chinese Army, that is mysterious and unpredictable, spreading itself on loose guitar solos, a quality that is present on other themes as well.

In this album, there persist a quality of introspection and intimacy that Leopardo had already reached in the debut album, and it endures through 9 songs of lo-fi punk that stay close to the listener on an emotional level.


O universo musical está em constante expansão. Novas ideias, abordagens e técnicas fazem com que a música nunca seja uma arte estacionária...

O universo musical está em constante expansão. Novas ideias, abordagens e técnicas fazem com que a música nunca seja uma arte estacionária ou linear. 

Handwrist é o projecto musical do compositor Rui Botelho Rodrigues, um multi-instrumentista com uma capacidade para composições eclécticas com bastante conteúdo temático.
Este ano de 2019 já lançou quatro discos de originais com uma forte componente jazz, mas que também aflora outros caminhos, como o psicadélico, o progressivo, alternativo e até música clássica. 
O compositor multi-facetado une a sua espiritualidade à música que faz, tornando-a complexa, abrangente e aventureira. 

(imagem cedida pelo músico)

- Além de seres um músico produtivo, tens uma discografia imensa que se destaca primordialmente por conter temas que achas interessante e te causam fascínio. O teu mais recente disco, THE GOLDEN SWAN - editado este ano -, reflecte o teu interesse por civilizações e povos ancestrais, podes falar um pouco mais desse tema e o que mais te fascina nesse passado?
RBR: Desde pequeno que tenho interesse em civilizações e culturas ancestrais e todas as disciplinas que as estudam. O que me fascina é poder compreender o presente e o futuro, e penso ser impossível fazê-lo sem compreender e conhecer o passado. Sem sabermos de onde viemos, não sabemos quem somos, nem para onde vamos.

"Um dos 'temas' ou melodias principais do álbum, que vai aparecendo aqui e ali transfigurado de uma forma ou outra, foi composto quando tinha 17 anos, e já teve várias versões, originalmente chamava-se 'At the Gloomy Carnival' e não tinha nada a ver com o país Basco, mas antes com uma sensação que sempre tive desde miúdo de que feiras populares têm algo de filme de terror, no sentido sobrenatural."


- Seguindo a lógica da tua visão, a de querer ter tido a vontade de trabalhar com vozes cantadas em basco, que tipo de intenção gostarias de ter passado se tivesses tido a oportunidade, a de recuperar uma memória que nos aviva um passado capaz de nos levar às origens das línguas europeias? 
RBR: Recentemente li algumas coisas sobre os Bascos e descobri que são o único povo moderno na Eurásia cuja língua e cultura resistiram à influência indo-europeia (da qual todas as outras línguas europeias, do Médio Oriente e da Índia descendem). Achei isso bastante interessante e que poderia ser uma janela para um mundo extinto, e por isso decidi que a história do álbum seria passada no país Basco, em quatro fases de civilização. Penso que cada língua tem a sua própria música, mesmo entre línguas com a mesma origem, por exemplo, o Português e o Espanhol apesar de muito próximos, expressam formas de ser e sentir diferentes. Obviamente sabia que não conseguiria concretizá-lo, mas achei que seria útil que se compreendesse a intenção pelo menos, dado que a história que escrevi se passava lá (mas acabei por não publicar com o álbum, ao contrário do que fiz com álbuns passados). A história começa no período da invasão Romana, e acaba com o domínio final dos mesmos sobre a região.

- Em THE GOLDEN SWAN há quatro movimentos do que idealizaste como uma só peça. O que daí resulta é homogéneo e harmonioso por ser bastante fluído. Como decorreu o processo de composição? E como se quebram e unem essas partes, como se distinguem e unificam?
RBR: É difícil descrever o processo porque é muito intuitivo, muitas vezes nem eu sei racionalizar que sons saem de onde ou vão para onde. Um dos "temas" ou melodias principais do álbum, que vai aparecendo aqui e ali transfigurado de uma forma ou outra, foi composto quando tinha 17 anos, e já teve várias versões, originalmente chamava-se "At the Gloomy Carnival" e não tinha nada a ver com o país Basco, mas antes com uma sensação que sempre tive desde miúdo de que feiras populares têm algo de filme de terror, no sentido sobrenatural. Outros temas fui compondo durante os três anos em que não lancei nada. A parte mais trabalhosa é mesmo misturar estas ideias todas num todo coerente, mas é difícil descrever como se faz a não ser que dê muito trabalho e que se passe muitas horas a tentar coisas e a deitá-las para o lixo antes de ter algo digno de lançar.

"A primeira banda que me influenciou a sério e me levou a pegar na guitarra e aprender as músicas foram os Alice in Chains, aos 12. Depois disso, aos 17, quando comecei a expandir as minhas audições para além do rock, descobri Frank Zappa, que me abriu os horizontes em todas as direcções musicais possíveis e mudou para sempre a minha vida, embora hoje já não o ouça muitas vezes."


(imagem cedida pelo músico)

- O teu eclectismo musical e capacidade para fundir vários géneros musicais resultam numa obra interessante e diversa, quais as tuas principais influências no inicio do teu percurso enquanto compositor?
RBR: A primeira música que me lembro de me tocar de forma profunda foi uma versão editada da Tocatta e Fuga em Ré Menor do Bach, que dava no genérico de uns desenhos animados de uma série educativa chamada "Era uma vez o Homem" que tinha em cassetes e que falava sobre a história humana. Adorava a série e a música, em especial os primeiros episódios sobre história antiga, e adorava o genérico e a música do Bach. Tinha uma colecção de Cds de música clássica que o meu pai me deu que rodava algumas vezes, mas particularmente estas duas faixas do Bach. Devia ter uns 6 ou 7 anos. Depois disso, a primeira banda que me influenciou a sério e me levou a pegar na guitarra e aprender as músicas foram os Alice in Chains, aos 12. Depois disso, aos 17, quando comecei a expandir as minhas audições para além do rock, descobri Frank Zappa, que me abriu os horizontes em todas as direcções musicais possíveis e mudou para sempre a minha vida, embora hoje já não o ouça muitas vezes.

"Uma das coisas que gosto na música é que é necessariamente abstracta."


- Este ano já compuseste e editaste 4 discos. Tribulation, Pilgrimage, Paranoia Hotel e mais recentemente, The Golden Swan. Todos os discos reflectem temas independentes, mas existe algum fio condutor indelével entre os discos que consigas apontar?
RBR: Uma influência que o Zappa teve em mim foi aquilo que ele chamava de "conceptual continuity" e tento espelhar isso na minha música, reinventado temas, transfigurando-os, etc. Em termos de temas no sentido não-musical, Tribulation e Paranoia Hotel estão mais em linha numa espécie de crítica do mundo moderno (uma linha que já tinha começado com Metropolis). Pilgrimage é mais uma meditação bucólica. O único fio condutor realmente é a minha disposição pessoal, que tende a ser negativa quanto ao mundo ultra-tecnológico, as grandes cidades, a alienação resultante e por aí fora – sendo que mais ou menos metade dos álbuns criticam esse mundo e a outra metade celebra o mundo alternativo da ligação à natureza e ao Divino.



"Eu tive contas no facebook e twitter, mas o contacto extra que tinha com os fãs não justificava os negativos. Acho que toda a gente faria bem em sair das redes anti-sociais. São um feedback loop de narcisismo, histeria e ódio em que ninguém se entende e só servem para grandes corporações venderem coisas de forma mais eficiente. Escolho não participar e encorajo sempre que posso outros a não participar também. Se perdi alguns ouvintes por isso, acho que é um preço pequeno a pagar."


- Paranoia Hotel tem como tema o vazio existencial que advém da obsessão pelo materialismo que predomina na sociedade actual. Achas que é o dever de alguma arte, em particular a música, alertar para os riscos e perigos de uma sociedade excessivamente narcisista e materialista? 
RBR: Acho pelo menos que é o meu dever não perder a oportunidade de encaminhar o ouvinte para as ideias que me animam o espírito e que me guiam na vida. Não sei se a arte tem esse dever ou não. Eu sinto que tenho esse dever. Mas sei que a arte pode e deve ser muitas vezes um escape, não um confronto, com o mal que há no mundo. Por isso, 50/50 talvez. Por outro lado, não tenho qualquer problema se os ouvintes preferirem simplesmente ouvir os sons sem tirar nenhuma conclusão. Uma das coisas que gosto na música é que é necessariamente abstracta.

- A tua relação com as redes sociais não é muito "directa", não achas que hoje em dia, para um músico poder divulgar o seu trabalho, é necessário estar ligado às mesmas?
RBR: Eu tive contas no facebook e twitter, mas o contacto extra que tinha com os fãs não justificava os negativos. Acho que toda a gente faria bem em sair das redes anti-sociais. São um feedback loop de narcisismo, histeria e ódio em que ninguém se entende e só servem para grandes corporações venderem coisas de forma mais eficiente. Escolho não participar e encorajo sempre que posso outros a não participar também. Se perdi alguns ouvintes por isso, acho que é um preço pequeno a pagar. Mas acho que nem isso. Se olhar para as estatísticas do bandcamp vejo que tenho mais ouvintes agora do que quando tinha contas em redes sociais. Mas percebo no entanto que para uma banda que dê concertos regulares, por exemplo, seja uma ferramenta difícil de rejeitar. Para mim, não faz grande diferença.

"A espiritualidade é a coisa mais importante na minha vida e desde o primeiro álbum que incorporo isso na minha música. Sei que não é comum neste meio e percebo que cause alguma estranheza, mas por outro lado é-me completamente natural e espero que possa causar alguma curiosidade sobre o assunto em quem nunca pensou sobre isso e tem ideias preconcebidas sobre a combinação entre espiritualidade e música."



- No teu trabalho sente-se uma miscelânea de influências e estados de espírito; humor, sentido de detalhe, de liberdade, de várias ideias num só tema, de profundidade e complexidade. Achas que o jazz é o género mais apropriado para exprimir todos esses estados?
RBR: Embora a minha música tenha influências de jazz, e explore harmonia que é muitas vezes associada ao jazz, eu não diria que o que faço é jazz. Tento encontrar um equilíbrio entre rock, jazz e música clássica. Penso que o jazz, entendido em moldes mais estritos do século XX, não consegue exprimir tudo. Mas também muitas coisas hoje categorizadas como jazz eu nunca diria que eram jazz. Fusão talvez. Mas o jazz verdadeiro, acústico, para mim morreu com Charles Mingus. O Zappa tinha uma piada com a qual concordo que diz: Jazz is not dead, it just smells funny. É esta sensação que tenho quando oiço a maioria do jazz moderno.

- Por um lado, os baixos orçamentos permitem trabalhar as ideias de uma forma menos rebuscada, por outro lado poder trabalhar com orçamentos mais altos permite uma liberdade passível de materializar toda a estética idealizada; o que mudarias no disco, caso tivesses a oportunidade de trabalhar com um apoio financeiro maior?
RBR: Contrataria músicos, salas de ensaios e de gravação. E provavelmente tirava uma licença no trabalho para ter tempo de os dirigir. A grande mudança seria nos sons, que seriam orgânicos, e com muitos instrumentos acústicos, uma espécie de grupo metade jazz metade clássico. Como nunca pude experimentar, não sei bem o que ia sair dali. Se calhar saía pior a emenda que o soneto. Talvez um dia possa vir a saber.


- Agradeces a todos os que apoiaram a construção do álbum, nomeadamente à tua esposa, e dedicas o álbum a vários monstros/mestres da música. São eles que te movem a fazer mais e melhor? Uma curiosidade pouco comum, pelo menos no nosso país, é observar um músico, com referências tão eclécticas que pertence ao espectro do jazz, agradecer a Deus. A espiritualidade é importante na tua vida?
RBR: Obviamente a minha mulher tem uma grande influência e dá-me todo o apoio necessário, sendo a moldura indispensável fazer o que faço. Este álbum em específico dediquei a músicos de língua francesa que me influenciaram muito ao longo dos anos, e que ouvi bastante enquanto fazia este álbum em particular. Mas não diria que eles me movem. Nunca tive problemas em me motivar. A única razão porque não lancei nada durante três anos foi porque tive outros projectos não-musicais em que estive envolvido, mas continuei a compor – daí a avalanche de álbuns este ano. O próximo álbum, que espero lançar ainda este ano também, será precisamente relacionado com a minha espiritualidade – e será sobre 40 mártires Cristãos na Arménia, em 320AD. A espiritualidade é a coisa mais importante na minha vida e desde o primeiro álbum que incorporo isso na minha música. Sei que não é comum neste meio e percebo que cause alguma estranheza, mas por outro lado é-me completamente natural e espero que possa causar alguma curiosidade sobre o assunto em quem nunca pensou sobre isso e tem ideias preconcebidas sobre a combinação entre espiritualidade e música.

Texto: Cláudia Zafre
Entrevista: Cláudia Zafre e Priscilla Fontoura
Entrevistado: Rui Botelho Rodrigues
Imagens: cedidas pelo músico
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