Pautas são para meninos... CRIAÇÃO E AUTORIA:   EMANUEL R. MARQUES

Pautas são para meninos...

CRIAÇÃO E AUTORIA: EMANUEL R. MARQUES

MARIAS DA SÉ Portugal, 2018 Ficção/Documentário, 72’ Será que se poderia afirmar que o filme Marias da Sé existe em si mesmo? ...

MARIAS DA SÉ
Portugal, 2018
Ficção/Documentário, 72’


Será que se poderia afirmar que o filme Marias da Sé existe em si mesmo? 
Se o trabalho cinematográfico não precisasse da mão do realizador Filipe Martins, a fim de mostrar os vários pontos de vista dos personagens, através de vários planos de câmara, e não necessitasse de uma extensa planificação, que costuma ser exigível na realização de uma ficção, diríamos, provavelmente, que a linguagem aproximar-se-ia, mais rapidamente, à da clássica documental do que à da ficção. Também porque as histórias da Sé não precisam de registo para existirem. Ainda que a maior parte do elenco seja constituído por não actores, toda a dinâmica do filme pende para a ficção, uma vez que existe uma série de elementos que se assenta numa logística que se aplicaria mais ao género ficcional, por exemplo, a repetição do guarda-roupa que dá a ideia de que tudo foi filmado num só dia. Neste momento, os géneros do cinema entrecruzam-se e os limites de cada género não são delimitados pelas fronteiras, contrariam o modo de fazer de outrora.


Não há espaço para subterfúgios ou para mentir frente à lente. Parecem actores experientes que vivem da representação. Mas não. São apenas autênticos e fiéis à sua história. Por incrível que pareça, os actores de formação, João Reis e Carla Bolito, os turistas na Sé, não convencem o espectador a acreditar na história, a representação plástica apaga a autenticidade que se pretende mais próxima do real; ao contrário dos não actores, que conseguem cativar naturalmente. A comunidade que vive na Sé, lugar identitário da cidade do Porto, não finge. Cada um vive o dia a dia com os problemas inerentes à própria existência, mas, como qualquer comunidade que se mantém ligada às raízes, não se deixa influenciar pelas alterações externas, actualmente muito forçada pela gentrificação. Ali existe uma noção de entreajuda, cada vez mais escassa nos nossos dias, enquanto assistimos à mudança de uma cidade que perde a sua identidade para dar lugar a quem nunca acompanhou o seu crescimento. Ali as pessoas não entram e saem, ali vivem uma vida inteira.

A Sé não tem cor sem a sua comunidade. No decorrer do filme, vamos percebendo porque esta comunidade local não se perdeu - ainda que estando localizada no meio de tanta confusão -, umas das razões é porque a força que a mantém firme às suas raízes tem género, e é feminino. Podemos dizer que são as mulheres que estão na linha da frente. Elas são de fibra e têm calo. Não precisam de homem algum para subsistirem e são elas que preservam o espírito típico do lugar.

Na narrativa desta longa há sentido de humor, como também há drama que se introduz pela ansiedade daquelas mulheres preocupadas, sobremaneira, com a educação dos seus filhos, ou pela ansiedade de uma senhora de idade quando sabe que tem que ser hospitalizada devido a uma cirurgia. No decorrer da história, o desfecho dá-se quando um Judas de pano é incendiado, uma tradição que ali ganha outro sentido: não há espaço para a traição.

No plano mais profundo, Marias da Sé, é uma chamada de atenção que defende a tradição de um lugar que se mantém resistente à sua identidade. Esta comunidade não se deixa levar pelas influências externas que adulteram tantos outros lugares; como tem acontecido cada vez mais nas grandes cidades manipuladas pelos seus políticos que privilegiam o mercado turístico sem contenções. O turismo passou a ser prioridade e os seus locais esquecidos, muitas vezes expulsos das suas próprias casas, por causa da ambição dos seus senhorios que se adaptaram, inescrupulosamente, ao mercado imobiliário desregulado.

No Passos Manuel, lugar onde a exibição do documentário aconteceu, inserido no Family Film Project, esteve representada a comunidade da Sé, que continuará fiel às suas tradições.

TEXTO: Priscilla Fontoura 
FILME: Marias da Sé, 2018 
Realizador: Filipe Martins
Imagens: frames do documentário

PUZZLE: FEDERICO FELLINI  e  MICHAEL LERNER IDEIA e MONTAGEM:  PRISCILLA FONTOURA PUZZLE:  CLÁUDIA ZAFRE

PUZZLE: FEDERICO FELLINI e MICHAEL LERNER

IDEIA e MONTAGEM: PRISCILLA FONTOURA
PUZZLE: CLÁUDIA ZAFRE

Não é fácil para um ocidental pronunciar o nome da banda japonesa. É um quanto engraçado quando o pronunciamos, mas, assim que o repe...


Não é fácil para um ocidental pronunciar o nome da banda japonesa. É um quanto engraçado quando o pronunciamos, mas, assim que o repetimos, entranha-se. As vozes dos asiáticos parecem saídas de um episódio anime, são frágeis e soam a algodão doce. 

Os Kikagaku Moyo não se estreiam em Portugal, quem se lembra do SonicBlast Moledo do ano passado? Um número ecléctico de pessoas aguarda-os, desta vez, no auditório do renovado Café CCOP. Assim que chegam ao palco, não há barulho. 

Este quinteto, de aparência tão exótica, consegue chegar a um som setentista com Masana Temples (2018) que "até mete impressão". Embora o concerto tenha começado com alguns problemas técnicos, conforme iam aquecendo, passou de problemático a perfeito. Se os juntássemos no mesmo cartaz com Grails, Secret Chiefs 3, Kayo Dot, Flower Travellin' Band (infelizmente inactivos), Zu, e tantas outras bandas que nos "levam daqui para fora", seria qual cálice sagrado que nos transporta para o mundo perfeito. Estas bandas não se enquadram nas fórmulas convencionais, além de preencherem bem o ouvido, contêm espiritualidade que não precisa de palavras para ser interpretada. 

O concerto começa contido e acaba em polifonia desconcertante. O baterista e mentor da banda, Go Kurosawa, numa performance quase meditativa, transita do início ao fim em linha crescente. O diálogo entre todos os instrumentos não coloca nenhum músico em destaque, conversa-se reciprocamente com pequenos apontamentos sonoros (chocalhos), que fazem com que a sensibilidade musical avance para outro nível.


Como responder a Tree Smoke (Kikagaku Moyo, 2013)? Ouvem-se gritos de agradecimento porque o tema consta no repertório. Quase que nos convencemos que quem está presente no concerto dos Kikugaku Moyo, faz parte de uma comunidade exclusiva. Os japoneses de olhos rasgados não se distanciam de ninguém, olham-nos causando um efeito hipnótico. O baixo de Kotsu Guy que mete, de vez em quando, uns contratempos tímidos, marca o tempo para que as guitarras extrapolem. Obviamente que a cítara quitada de Ryu foge aos quadrantes do género rock, se bem que no rock psicadélico de sessenta e setenta alguns músicos, exemplo Jehtro Tull - deixando-se inebriar pela Índia e por todo o esoterismo inerente -, depositaram a transcendência psicadélica no rock adicionando instrumentos tradicionais do oriente; e o rock ocidental deixou de estar confinado aos limites de outrora, estabelecendo-se, assim, a ponte entre o ocidente e o oriente.

O tema Gatherings (Masana Temples, 2018) é um dos pontos altos da noite, as transições entre distorções altas, misturadas com oitavas a um ritmo que nos leva às viagens de estrada, causam no público a agitação de quem se deixa influenciar pelas batidas que ouve. A cítara exerce todo o seu poder em Streets of Calcutta (Forest of Lost Children, 2014), sente-se o cheiro a açafrão e avista-se o oriente. Os nipónicos levam-nos a dar a volta ao mundo, paramos no Médio Oriente, de repente entramos no cenário de O Bom, o Mau e o Vilão, paramos, por momentos, num episódio anime, e, finalmente, na Índia alcançamos o nirvana.

Podia falar-se de samurais, só porque são do Japão; no entanto, aqui não se procura vingança à lei da espada, pelo contrário, sente-se o amor filéo. 

TEXTO e IMAGENS: Priscilla Fontoura
LOCAL: Café CCOP, Porto
DATA: 2 de Dezembro, 2018
CONCERTOS: Kikagaku Moyo

Promotora: Lovers & Lollypops

Acho que é difícil dizer que Francesca era provocadora por escolha. "Vou provocar", simplesmente ser provocadora porque sou assi...

Acho que é difícil dizer que Francesca era provocadora por escolha. "Vou provocar", simplesmente ser provocadora porque sou assim. Acho que ela tinha uma noção viva de ser uma actriz num drama e essa noção de ser uma actriz num drama deu-lhe uma capacidade de organizar o drama e fazê-lo funcionar. Representamos uma família que não possui apenas dois artistas: eu e a minha esposa, Betty. Mas a Betty e eu compartilhamos uma incrível atitude estética da vida. Tudo o que vemos é muito importante para nós. E acho que isso causou um grande impacto nos nossos filhos.
George Woodman, pai de Francesca Woodman, no documentário The Woodmans, 2010.

(Cartaz do documentário The Woodmans)

Este momento não serve para indagar sobre o conceito de belo e sublime de Kant, mas, na verdade, o filósofo alemão afirmou que A mulher tem um sentimento inato mais intenso para tudo o que é belo, lindo e adornado. O trabalho de Francesca Woodman vai ao encontro da afirmação, uma vez que o corpo, enquanto protagonista das suas histórias visuais, coloca-se como centro do que pode ser tido como belo, lindo e adornado, mas, ao mesmo tempo, coexiste o outro lado, o visceral e agressivo que poderia, muito bem, ilustrar os poemas de Sylvia Plath. A paz e o caos encontram-se na mesma imagem. O corpo de Francesca, muitas vezes, se funde no próprio espaço sem se desvincular dele, como se o lugar fosse uma extensão do próprio corpo.


Eu não poderia viver com alguém que não desse ao acto de fazer arte a importância que dou. Eu os odiaria, diz Betty Woodman, mãe de Francesca. Na casa dos Woodman o lado artístico é prioridade. Não se respira se não se criar. 

Eu gostaria de mudar de ideia com a mesma facilidade que troco de meias. Então, não troco de meias com tanta facilidade. Esta afirmação de Francesca leva-nos ao processo criativo do trabalho da fotógrafa, tão singular no seu tempo. A singularidade criativa - que costuma ser aberta a novas hipóteses, colocando-a na categoria de arte de vanguarda -, mexe com os cérebros dos que se sentem perdidos no tempo e no espaço, porque os padrões são descontruídos. Nem sempre a diferença é aceite com facilidade e acaba por atrapalhar as mentes mais arrumadas, interferindo na zona de conforto e causando medos desconhecidos. Há quem não os receie e há quem se deixe intimidar por eles. Francesca Woodman não se deixou intimidar, criava porque tinha que o fazer, sem pensar muito nos limites. Quando a autora foi para o colégio, o seu pai ofereceu-lhe uma máquina fotográfica e, desde então, foi amor à primeira vista. Foi esse o seu suporte predilecto. A partir desse momento não parou de fotografar de forma quase obsessiva.


Ela se despedaçou emocionalmente. Eu não sei o porquê, mas... Talvez eu tenha sido uma péssima mãe. Não... não posso voltar e refazer as coisas... E não acho que seja realmente verdade.
Ao longo do documentário vamos sentido as vulnerabilidades dos Woodman que, embora tenham vivido momentos preenchidos de liberdade de pensamento e de prática artística, não se desprendem das interrogações associadas à tragédia (motivada por uma forte depressão), que fragilizou a família. Ainda que os sinais tenham estado presentes, os pais de Francesca não conseguiram travar o desastre. 

Quando o final da vida de alguém é trágico surge uma espécie de curiosidade mórbida para se especular sobre o que terá acontecido, principalmente quando se trata de alguém que cujo trabalho tem projecção global. E, nesse sentido, a obra do autor estende-se qual tapete para dar asas a toda uma série de interpretações. Não é o fim que interessa, é o entretanto. E ironica e injustamente, a chamada de atenção acontece depois dos autores pôrem termo às suas vidas. Consequentemente, as instituições de arte e a "indústria" que a representa pretendem tomar posse, quando antes não prestaram atenção ao trabalho do/a artista.


A ideia de que a arte se expressa a si mesma, que se trata de si mesmo, estava muito distante de nós os dois, e, quando vemos o trabalho de alguém não perguntamos o que ela nos diz daquela pessoa. Falamos sobre o que aquela obra de arte diz. Esqueça o artista. (...) Há por parte do público um interesse por uma história trágica.

Ao longo do documentário surgem pequenas notas do diário de Francesca, sobre as suas frustrações e memórias. Os detalhes sonoros (por sinal de muito bom gosto), autoria da organização Sō Percussion, não interferem com a narrativa do documentário e pintam os momentos mais cruciais.


Francesca confessa que gostaria de ter tido uma relação amorosa semelhante à dos seus pais, harmoniosa e feliz. Das misturas provêm as coisas mais interessantes. Não é da homogeneidade, mas do inverso. Porque há espaço para as diferenças, para outras visões e ideias; para a progressão e o crescimento conjunto. Francesca sentiu, especialmente pelo seu pai, admiração e proximidade, um sentimento que revela um vazio por colmatar nas suas relações passionais.
Betty e eu temos origens muito diferentes. Ela teve uma criação judaico-russa, perto de Boston, e eu tive uma criação ultra-protestante, em New Hampshire. As coisas que tínhamos em comum não tinham a ver com as nossas origens, mas com as coisas que descobrimos e dividimos juntos. (...) Quando conheci a Betty, eu tinha uma imagem minha, como artista, que era muito diferente da dela. Acho que ela tendia a rejeitar o contexto artístico, definindo-o como não sendo arte, não sendo uma artista. Em retrospectiva, acho que éramos pessoas muito isoladas. Não tínhamos muitos amigos. O mundo não estava em sincronia connosco. E acho que descobrimos que compartilhávamos um interesse pela arte. E isso era profundo. Eu tinha muita pouca experiência com mulheres. Estudei numa escola só para miúdos. Tinha tido pouco contacto com miúdas. E acho que a Betty maravilhou-me. - George Woodman

Assim começa uma bonita história que, apesar de ter vivido momentos muito trágicos, não se desfaz das suas especificidades, sendo uma delas a obra tão particular que a filha dos Woodman criou e deixou como legado para os seus pais. Hoje, o pai George Woodman tenta recriar as fotos da filha Francesca, talvez a forma mais directa que encontrou para a manter viva dentro de si.



TEXTO: PRISCILLA FONTOURA
Imagens de Francesca Woodman

IDEIA ORIGINAL: CLÁUDIA ZAFRE & PRISCILLA FONTOURA

IDEIA ORIGINAL: CLÁUDIA ZAFRE & PRISCILLA FONTOURA

Palavras-chave: baixo-orçamento, terror, comédia Resumo: A sétima arte está rechead a de filmes clássicos que podem mudar a vida do espe...

Palavras-chave: baixo-orçamento, terror, comédia

Resumo:A sétima arte está rechead
a de filmes clássicos que podem mudar a vida do espectador ou inspirá-lo a querer e sonhar com mais do que uma vida mundana e rotineira. São filmes usualmente feitos com um orçamento razoável, um realizador que sabe o que está a fazer, um argumento bem escrito e personagens densas que parecem ter vida até fora do ecrã. Alguns conseguem atingir a corrente mainstream, agradando a um vasto número de pessoas, e outros continuam com bons filmes independentes que agradam apenas a um número restrito de pessoas. Debaixo desse mundo de filmes de pretensa qualidade, existe um submundo gigante que quando começa a ser explorado, facilmente se torna num vício e que torna o clichê “tão mau que é bom” uma verdade universal. São feitos com um orçamento bastante reduzido, com actores que, muitas vezes, não entraram em mais nenhum filme, com um realizador que, por vezes, não sabe onde colocar a câmara, mas que mostra determinação e valentia para retratar uma narrativa com elementos bastante peculiares. É o mundo fantástico dos filmes que redefinem completamente os conceitos de qualidade e bom gosto. 

1 – Winterbeast 

(Imdb)

Este filme realizado por Cristopher Thies - que tem o seu quê de peculiar e fantástico  -, demorou alguns anos para ficar completo. Uma prova da tenacidade e persistência de alguns dos realizadores independentes que trabalham com orçamentos mais reduzidos do que o almoço quotidiano de certos políticos. Apesar de ter sido lançado em DVD nos anos 90, o filme mantém uma estética típica dos filmes independentes e de baixo orçamento dos anos 70, o que apenas lhe dá mais charme e encanto. Tentar seguir a narrativa é uma tarefa um pouco estóica, sendo que não segue uma linha de coerência ou de nexo linear (pelo menos no que se refere a conceitos humanos). Assemelha-se a um sonho febril, talvez às consequências de beber óleo de conservas num dia muito quente de verão ou então ser raptado/a durante a madrugada por um UFO e ser submetido a experiências pouco ortodoxas sob a influência de um tranquilizador alienígena. Para quem não se atreve a experimentar drogas alucinógenas, este filme prova ser uma alternativa bem mais segura e com efeitos análogos. No entanto, para os fãs mais selvagens de cinema, a narrativa mostra-se bastante intrigante. Foca-se numa comunidade de pessoas que vivem na montanha que é subitamente assolada por uma quantidade infindável de monstros de diversos tamanhos e feitios. Estes monstros aparecem porque a comunidade está amaldiçoada por espíritos de índios nativos norte-americanos que têm até o dom de possuir totems. Neste filme não há CGI’S nem efeitos especiais careiros, não! É tudo feito na base da animação em barro que partilha as mesmas características surrealistas dos inserts em animação feitos pelos Monty Python. Os actores apresentam uma representação fleumática e há muitas cenas em que discorrem em diálogos completamente alheios à narrativa, o que dá um carácter ainda mais misterioso ao filme. O cartaz promocional do filme é de elevado bom gosto e mostra uma criatura assustadora que não aparece no filme, tal podia ser encarado como marketing falacioso; mas há redenção no slogan do filme que nos diz “It must be seen to be believed”. Um filme para ver ou rever num dia em que se tenha horas suficientes para deixar os efeitos secundários dissiparem-se. É natural sentir alguma confusão e desfasamento da realidade depois da sua visualização. Um filme que é uma autêntica pérola que ultrapassa em valor sentimental qualquer que tenha sido a quantia miserável do orçamento. 

2 - The horror of Party Beach

(Imdb)

Este clássico dos anos 60 realizado por Del Tenney e feito com um orçamento bastante restritivo foi anunciado como o primeiro filme de terror musical com monstros! Claro que o que é entendido por musical trata-se apenas da participação da banda Del-Aires a tocar alguns temas na praia durante o filme, o que contribui (enormemente) para o factor entretenimento desta obra cinematográfica. A narrativa é bastante simples e fácil de acompanhar. Um bando de irresponsáveis decide que é boa ideia largar lixo radioactivo no mar e a partir daí, instala-se o caos na simpática comunidade costeira. Criaturas que parecem primos em segundo grau do monstro da lagoa negra aterrorizam e assassinam algumas pessoas. As sequências de ataque da criatura são extremamente inventivas, com close-ups frenéticos e uma dose generosa de gore e sangue (considerando a época em que o filme foi feito). Este filme tem imensos pontos altos, um deles é a cena da criação destas estranhas criaturas que parece uma autêntica peça surrealista. Os actores são convincentes nos seus respectivos papéis e até os diálogos com piadas extremamente imaturas conseguem arrancar um ou dois sorrisos do espectador. É um exemplo em que por vezes é bom ter expectativas baixas para as ver ser brilhantemente superadas. Um filme que merece bastante carinho. 

3 - Beyond Atlantis


(Imdb)

Uns quantos cocktails e muita tendência para o escapismo são os pré-requisitos para a visualização deste filme que consegue fundir ficção-cientifica, aventura e terror numa audaz peça de entretenimento. Realizada pelo lendário Eddie Romero - responsável pelo excelente White Mama, Black Mama -, encontrou os cenários mais paradisíacos possíveis para filmar uma trama aparentemente simples, mas que se espraia em sub-plots interessantes. Há até um sub-plot de amor bastante curioso com cenas sub-aquáticas! Tudo começa quando um pescador (aparentemente ingénuo) recolhe uma data de pérolas e decide vendê-las a um homem de reputação duvidosa. Esse homem unido a uma cientista, um mergulhador de bom coração e corajoso e um mercenário também mergulhador, partem em direcção à ilha para arranjarem pérolas e mais pérolas. Claro que nem tudo são facilidades, porque a ilha é habitada por criaturas estranhas com olhos brancos salientes e que conseguem respirar debaixo de água. São uma espécie de humanoides anfíbios. Uma das líderes desta tribo é a bela Syrene (Leigh Christian) que atormentada pela tribo e o seu pai (que parece o Tritão da pequena sereia), é levada a seduzir um dos humanos para dar à luz e assegurar a salvação da sua tribo. É um filme extremamente bem filmado com umas sequências a roçar o surrealismo e que em complemento com o décor paradisíaco fazem deste filme uma experiência digna de ser vista ou revista. 

4 - Truth or Dare? A Critical madness

(Imdb)

Este filme realizado por Tim Ritter quando era ainda adolescente é a prova de que com criatividade e devoção se pode tirar o maior partido de um orçamento muito reduzido. A narrativa foca-se na espiral de demência, em que a personagem principal embarca depois de apanhar a sua esposa a ter relações carnais com o melhor amigo. A partir daí, é consumido pela loucura e os seus instintos homicidas metamorfoseiam um homem outrora pacato e razoável numa autêntica máquina de destruição e carnificina que aniquila todas as pessoas que se encontram no caminho, até as que estão sentadas na boa à espera do autocarro. Sem dar spoilers, uma das cenas mais memoráveis envolve uma moto-serra, um miúdo e um carro em andamento. A violência é surpreendente e gráfica mas tão over-the-top que nos transporta para um universo de comicidade negra. Não chega a chocar nem aterrorizar, mas consegue prender o espectador na insanidade da personagem principal e entretê-lo com diálogos surreais, interpretações quase caricaturais e cenas de homicídio que por vezes fazem lembrar os cenários lendários dos desenhos do coyote e do bip-bip. Para filme que se considera de terror, o elemento mais assustador é sem dúvida a música que decidiram colocar no genérico.

5 - Teenagers from outer Space

(Imdb)

Os anos 50 foram um oásis de filmes de baixo-orçamento sobre criaturas alienígenas, monstros e animais que assumem proporções gigantescas. Foi uma década imaginativa que fundiu o género de terror com a ficção-científica. Um dos trabalhos mais interessantes da década é este filme intrigante realizado por Tom Graeff, o único filme que realizou tendo cometido suicídio passado alguns anos. No entanto, o trabalho e investimento criativo que colocou neste pequeno filme de ficção-científica é notório e bastante impressionante. A narrativa segue um grupo de rapazes de outro planeta que aterram no planeta Terra com o intuito de trazer os seus Gargons, basicamente lagostas gigantes, para a Terra para que possam devorar os humanos a seu belo prazer. No entanto, há um dos jovens que se opõe a esta missão e que os tenta impedir. Estes jovens estão também munidos de pistolas laser que quando disparadas reduzem uma pessoa a um esqueleto. Uma das cenas mais fascinantes do filme é a de uma lagosta gigante a descer uma montanha. Um filme que apesar de apenas ter tido um orçamento de 5000 dólares consegue cativar e entreter o espectador. 

6 - The Terror of Tiny Town 

(Imdb)

“The Simpsons done it” é um episódio de South Park que brinca com o facto de todas as possibilidades narrativas e plots do mais surreal ao mais simples já terem sido feitas pela série Simpsons. Por isso, se um dia se desejou estar a ver um western em que os heróis e vilões em vez de entrarem de peito feito pela porta do saloon prontos a esvaziar o seu revólver, entrarem por baixo da porta do saloon devido à sua estatura, esse desejo já foi concretizado e em 1938! Este filme western realizado por Sam Newfield tem um elenco constituído apenas por pessoas anãs que em vez de andarem em cavalos andam em póneis. Este filme sofreu algumas represálias e críticas duras por ser supostamente uma exploração de minorias e a polícia do politicamente correcto por certo terá algumas coisas negativas a dizer sobre o filme, mas o que há de tão negativo em ter um elenco constituído por uma minoria que aceitou de bom grado ter trabalho na indústria? Não sei. Apenas sei que é um filme que infunde elementos cómicos e musicais, num género que já de si é austero como é o caso do western. É um dos filmes proclamados como um dos piores de sempre, uma afirmação que acho bastante hiperbólica, sendo que é bastante mais interessante e intelectualmente estimulante que qualquer comédia romântica genérica produzida por Hollywood nos últimos anos. 

7 - Attack of the Beast Creatures

(Imdb)

Há um encanto particular em filmes passados em ilhas, a tradução literal da nossa tendência e desejo de escapismo. E o que poderá ser melhor que um grupo de pessoas que sobreviveram a um desastre de avião e aterraram numa ilha? Só mesmo o cenário em que são aterrorizados e chacinados por criaturas baixinhas cujas dentadas são mais aflitivas e mortíferas que as de uma piranha. Para quem alguma vez se perguntou qual seria a aparência de um boneco troll se tivesse feito um pacto com Satanás, pode ver este clássico dos anos 80 e ver a sua questão perfeitamente respondida. Eles atacam em bando e o som dos seus passos é francamente memorável. O filme tem um ritmo um pouco lento no geral até às cenas de massacre e carnificina que são merecedoras do adágio “contado ninguém acredita”. Estas criaturas minúsculas e homicidas são também os melhores actores do filme. 

8 - Sgt. Kabukiman Nypd

(Imdb)

A vida seria impossível de ser experienciada ao máximo sem os filmes dos estúdio Troma que durante anos nos ofereceram clássicos de entretenimento inesquecível. Uma das minhas obras preferidas da Troma é este filme realizado por Michael Hertz e Lloyd Kaufman que numa autêntica folia estilística e estética conseguem fundir comédia, acção, fantasia, terror e kabuki! A história é divertida e original, seguindo as desventuras de um polícia que após ser beijado por um actor de kabuki se vê na posse dos poderes mais incríveis e fica assim munido para combater vilões, encarnando a sua nova forma de super-herói, kabukiman! O filme está recheado de metáforas, simbolismos, piadas que podem ser grosseiras para activistas do politicamente correcto e uma subtil mensagem anti-capitalista. É uma autêntica rapsódia fílmica de cores com um ritmo frenético mas bem articulado com a narrativa que fará as delícias dos espectadores de qualquer faixa etária. 

9 – Sorority babes in the slimeball bowl-o-Rama

(Imdb)

Quem se senta para ver um filme com este título não pode certamente esperar uma narrativa de densidade psicológica Bergianiana, mas terá certamente uma experiência que rompe os limites do non-sense e do conservadorismo mais cinzento. Esta pérola de diversão cinematográfica realizada por David DeCocteau mistura com mestria humor dito imaturo (que para mim significa humor requintado), com terror absurdamente ilógico e como tal, divertido. Um filme que usa uma cabeça decapitada como bola de bowling só pode garantir ao espectador uma paleta de situações hilariantes que ainda assim mantêm o suspense e o ritmo tenso típico dos filmes de terror. A história segue um grupo de nerds que são desafiados (ou melhor obrigados), por um grupo de raparigas a entrar num bowling depois da meia-noite para roubar um troféu. Infelizmente, esse mesmo troféu é a residência de um demónio com um sentido de humor distinto e uma voz inconfundível que está disposto a aniquilar os jovens, um por um. Um dos nerds que, apesar de ficar bêbado com apenas uma cerveja, junta esforços com uma delinquente chamada Spider que tem as melhores linhas de diálogo do filme para derrotarem o demónio de uma vez por todas. Um dos melhores exemplos de filmes de terror dos anos 80 que, apesar de não se levarem muito a sério, conseguem criar uma atmosfera mágica e divertida que cativa o espectador. 

10 – The Killing of satan 

(Imdb)

Este filme bastante enigmático rodado nas Filipinas por Efren C. Piñon apresenta-nos uma personagem principal que enfrenta Satanás com um cajado mágico e que vence! Além de conseguir derrotar o príncipe da escuridão, Ramon Sevilla (o actor que interpreta este destemido herói), é alvo de um mito que alega que é pai de cerca de 80 crianças, um número claramente exagerado e cujo valor mais sensato será talvez 40, mas o número factual é apenas dez. Apesar do filme conter alguma nudez, cobras gigantes que se transformam em pessoas e efeitos especiais da velha-guarda que nos apresentam algum gore, a narrativa possui uma qualidade um pouco inocente, na medida em que há literalmente uma batalha entre o bem e o mal e em que o bem sai claramente vencedor. É um filme que apesar das fracas qualidades técnicas e de representação, consegue hipnotizar o espectador pela sua qualidade surrealista e ingenuidade verdadeira. 

(CONTINUA...)

TEXTO: CLÁUDIA ZAFRE
IMAGENS: Cartazes dos filmes (Imdb)

Maturidade musical...  CRIAÇÃO E AUTORIA:   EMANUEL R. MARQUES

Maturidade musical... 

CRIAÇÃO E AUTORIA: EMANUEL R. MARQUES

Cartaz: "Os Mutantes", de Teresa Villaverde (Imdb) OS MUTANTES Portugal, França, Alemanha, 1998 Ficção, 35mm, cor, 117 mi...

Cartaz: "Os Mutantes", de Teresa Villaverde (Imdb)

OS MUTANTES
Portugal, França, Alemanha, 1998
Ficção, 35mm, cor, 117 min.

Não é apenas frase popular, estudos em psicologia indicam que a primeira impressão é a que fica. Felizmente nem sempre é assim. Existem outros factores tão ou mais importantes. No entanto, não acontece só quando conhecemos alguém, a primeira impressão ocorre também com os filmes que visualizamos. Há sequências que ficam retidas de modo mais particular na memória visual de cada sujeito. Depende de vários factores: da condição emocional, do contexto, do que mais afecta; até mesmo o inexplicável entra nessa fórmula. Oliver Sacks soube explicar como funcionam os mecanismos do cérebro. Nesse contexto, cabe ao realizador decidir qual a primeira sequência do filme. 

Serve de exemplo, o início de Apocalipse Now, em que uma série de alegorias representam uma panóplia de significados. O fogo representa o Hades, lugar onde se concentra o sofrimento; o helicóptero, que é substituído pela ventoinha, a guerra. O início de um filme pode ser o ponto culminante de toda a trama. O filme realizado por Francis Ford Coppola não serve de comparação, narrativamente falando, com o filme "Os Mutantes" de Teresa Villaverde; ainda assim, encontramos dois pontos em comum nos dois filmes, os protagonistas aparentam estar com os pensamentos estáticos num momento de contemplação quase hipnótico que servem de preliminares para o desenrolar da narrativa.

Ana Moreira (Andreia), Os Mutantes

Entre outros filmes, "Os Mutantes", um dos filmes que mais marcou a história do cinema português na década de '90, esteve patente na retrospectiva Teresa Villaverde, no Auditório de Serralves. O início do filme toma a figura de manto suave que, gradualmente, transita para o peso da narrativa, concentrando-se nos três protagonistas "que não se encaixam em lado nenhum", por serem livres, rebeldes e selvagens. Acima de tudo, recusam ser prisioneiros de si mesmos, ainda que carreguem nos seus corpos o peso das memórias. O cabelo de Andreia (Ana Moreira), que se movimenta pela força do vento, faz raccord visual com o plano seguinte de um secador de cabelo. A sintaxe visual transita de momentos agressivos para outros passivos, por exemplo, quando os protagonistas fogem da opressão dos centros de reinserção para a liberdade sem limites, "como uma energia selvagem, um desejo de mudar as coisas, de viver de forma diferente". Todos estes elementos visuais causam no espectador momentos de contemplação e de revolta; assim se vive, ao lado dos protagonistas, a liberdade que procuram acima de tudo, tal como a realidade da qual querem fugir. 

Durante dois anos, a cineasta, que tinha como ideia inicial realizar um documentário sobre o tema da infância em Portugal nos anos '90, conta como tudo surgiu, referindo o episódio de quando o seu irmão se encontrava no Alentejo numa expedição arqueológica e foi interrogado por uma criança sobre a existência de naves espaciais em Lisboa. 

O filme que atingiu a maioridade faz hoje 20 anos. Na actualidade, se o desafio fosse lançado, não teria a mesma capacidade para o desenvolver, porque esta geração jovem é diferente e a idade da autora no tempo de "Os Mutantes" não era tão diferente da dos actores, por isso, há 20 anos conseguiu, facilmente, aproximar-se do tema; responde a cineasta. Teresa Villaverde enquanto desenvolvia a ideia pensou como género o documentário. Por falta de condições a ideia ficou na gaveta, mas os personagens não lhe saíam da cabeça. Assim que se tornou possível passá-la para a prática, alterou o género para ficção. "Há sempre os que querem sair, os miúdos que infringem e que desobedecem as regras, são esses os chamados Mutantes", diz a autora.

Alexandre Pinto (Pedro), Os Mutantes

Os anos '90, no que à criatividade e às subculturas dizem respeito, foram a continuidade da subversão dos subgrupos tidos como marginais. Muitos filhos ouviram dos seus pais a passagem pelas várias guerras, e esses mesmos pais ouviram dos seus pais outras memórias vividas noutras guerras. Directa ou indirectamente esses traumas passaram de geração em geração, e os efeitos causados não são apenas assistidos globalmente nas sociedades, mas dentro das casas também. Nos EUA, a guerra do Vietname, a guerra fria, entre os EUA e União Soviética, entre Portugal e Angola, a Guerra Colonial. Chegados os '90, perduraram os resquícios da descrença política, pairada, de outro modo, nos subúrbios urbanos que cuja segregação resultou num modo de viver alternativo. Uma pobreza que por força maior encontrou outras formas de subsistência. Além da descrença política, a segregação urbana intensificou e afectou a forma de estar dos seus locais. Por consequência, agitou nas mentes criativas a vontade de exprimir os efeitos dessa transição. 

Tanto na música, como nas artes plásticas, quanto no cinema, os temas da alienação social, a auto-dúvida, o isolamento social/isolamento emocional, o abuso, a negligência, a traição, trauma psicológico e o desejo de liberdade são matéria para exprimir as frustrações vividas nessa época.

Paralelamente, em Portugal também se vive a temática no cinema português, não só com Teresa Villaverde que passa pela fase da interrogação do estado de Portugal; Pedro Costa, António Pedro-Vasconcelos, João Botelho, Manuela Viegas também se interessam pelo tema da crise de identidade.

Hoje, a crise de identidade é sentida de outra forma. Os jovens que representam o futuro temem-no por causa da desesperança que sentem na incógnita do amanhã. Nesse sentido, "Os Mutantes", ainda que com 20 anos de existência, continua a retratar uma problemática actual.

TEXTO: Priscilla Fontoura
FILME: Os Mutantes, 1998
Realizadora: Teresa VillaVerde
Onde: Museu de Arte Contemporânea Serralves, Auditório de Serralves
Quando: 16 - 25 Novembro, Retrospectiva Teresa Villaverde; 16 de Novembro "Os Mutantes"

Foi num vinil, comprado há mais de 40 anos ( The Roxy London WC2 ), que pela primeira vez ouvi os Wire . Esse disco, onde constam tamb...




Foi num vinil, comprado há mais de 40 anos (The Roxy London WC2), que pela primeira vez ouvi os Wire. Esse disco, onde constam também bandas como os Buzzcocks, The Unwanted e Slaughter & The Dogs, espelhava um pouco do que era o ambiente musical punk em Inglaterra. Dezasseis álbuns e uma dúzia de EPs depois, o som dos Wire continua a resistir. Se a sonoridade punk e pós-punk foi sendo deixada para trás, o encantamento, esse, continua. Os Wire souberam renovar, evoluir e continuar a produzir bons discos. No regresso a Portugal dez anos depois, o quarteto inglês, constituído por Colin Newman, guitarra e voz, Graham Lewis, baixo e voz, Robert Grey, bateria (três dos quatro fundadores) e por Mattew Simms (na banda desde 2010), tocou desde temas mais antigos como Three girl Rhumba e Underwater experiences, até aos mais recentes Playing harp for the fishes e Short elevated period. Gostaria de ter ouvido Outdoor Miner, I am the Fly e Sonic Lenses, mas não se pode ter toda uma carreira de 40 anos revista num concerto de 90 minutos. Numa sala muito concorrida, onde predominavam os espectadores nascidos na década de 60, os Wire deram um grande concerto sem qualquer marca de revivalismo bacoco, demonstrando que cultivam de forma exemplar a Art of Persistence


A primeira parte foi assegurada por Sweet Nico, uma banda de Dream pop formada em Lisboa em 2015. David Francisco, guitarra e sintetizadores e Marisa Da Anunciação, voz e teclados, lançaram este ano o seu segundo disco (R EBORN) e em estúdio soaram-me melhor do que nesta aparição vivo. Sem arrebatarem, deram um concerto agradável onde no alinhamento incluíram uma cover de Fade into You dos Mazzy Star. São ainda uma formação recente e penso que irão (e deverão) evoluir em palco. Aguardemos.


TEXTO, IMAGEM, VÍDEOS: JOSÉ MARQUES
LOCAL: RCA, Lisboa
DATA: 24 de Novembro, 2018
CONCERTOS: Wire e Sweet Nico

Na mais recente visita à ZDB, oportunidade de assistir a um dos grandes concertos deste ano. Ryley Walker mudou de estilo e ainda ...


Na mais recente visita à ZDB, oportunidade de assistir a um dos grandes concertos deste ano. Ryley Walker mudou de estilo e ainda bem. Neste concerto de promoção do seu quinto disco, Deafman Glance, a diferença, que já se notava no registo discográfico, extravasou ainda mais ao vivo com as músicas a transfigurarem-se, alongando-se em solos de guitarra de grande qualidade sobre uma secção rítmica poderosa. Se no concerto do ano passado a folk / country clássica dominava, desta vez o músico de Chicago libertou-se das influências country, para incorporar sons mais psicadélicos, do jazz e da música experimental, demonstrando ainda mais o seu talento, quer como compositor, quer como guitarrista virtuoso. Num espectáculo que durou cerca de duas horas, Walker esteve acompanhado por Brian Sulpizio na guitarra, Andrew Scott Young no baixo e Quinlan Kirchne na bateria (contando também, numa música, com o seu conterrâneo violoncelista Fred Lonberg-Holm). Temas como In Castle Dome, Telluride Speed, Opposite Middle ou Spoil with the rest aqueceram de forma entusiástica o aquário. A repetir logo que possível.


Antes de Ryley Walker tocou o australiano Andrew Tuttle. Música serena, apelando à ruralidade folk que as projecções vídeo ajudaram a enquadrar. Um aquecimento tranquilo, para o quente concerto que se seguiu, no dedilhar do banjo e da guitarra, sobre os sons de um laptop a fazer de sintetizador.



TEXTO, IMAGEM, VÍDEOS: JOSÉ MARQUES
LOCAL: ZDB, Lisboa
DATA: 22 de Novembro, 2018
CONCERTOS: Ryley Walker e Andrew Tuttle

Integrado no Lisbon & Sintra Film Festival, estreou no dia 20 deste mês o documentário "Ainda Tenho um sonho ou dois: A Hist...



Integrado no Lisbon & Sintra Film Festival, estreou no dia 20 deste mês o documentário "Ainda Tenho um sonho ou dois: A História dos Pop Dell'Arte" da autoria de Nuno Galopim e Nuno Duarte (“Jel”), o filme com duração de 54 minutos aborda a carreira de uma das bandas mais inovadoras da música moderna portuguesa. Mais do que uma banda e tal como é referido no documentário, os Pop Dell’Arte são um projecto em constante construção há mais de três décadas, sem darem mostra de transigências. Prova disso são os seus concertos onde músicas antigas surgem quase sempre com novas roupagens. 

Nascidos na década de 80 no bairro lisboeta de Campo de Ourique, o primeiro reconhecimento público surge com o Prémio de Originalidade na segunda edição do 2º Concurso de Música Moderna do Rock Rendez-Vous. Apesar de nunca terem alcançado o sucesso mediático de outros, o lugar de destaque que ocupam na história da música em Portugal é inatacável. 

A história desta banda é indissociável da do seu fundador e grande mentor João Peste. Assim, não é só a história dos Pop Dell’Arte que se conta aqui, mas também de outros projectos musicais paralelos de João Peste e da Ama Romanta, a editora discográfica independente que criou em 1986 e onde gravaram nomes como Mão Morta, Sei Miguel, Anamar, Mler Ife Dada, Telectu, Linha Geral. Para contar esta história, os autores entrevistaram João Peste, membros e ex-membros do grupo como José Pedro Moura, J P Simões, Ondina Pires, Rafael Toral, Paulo Salgado, Paulo Monteiro, Nuno Castêdo, Nuno Rebelo, Luís San Payo, jornalistas que acompanharam o nascimento da banda como Manuel Falcão e Luís Maio (pena não haver um depoimento da época por parte de António Sérgio) e outros músicos como David Fonseca. Para além dessas entrevistas, recorreram aos arquivos da RTP onde recuperaram entrevistas a João Peste, telediscos (ainda não se chamavam videoclips) e vídeos inéditos de sessões de gravação.

Após a exibição do filme estava prevista uma conversa com os Pop Dell’Arte. Devido a doença de João Peste, essa conversa não aconteceu, tendo esse momento ficado reservado para os autores explicarem a origem e processo de criação do filme. Aí ficou claro que a sua intenção não era só o de satisfazer os fãs incondicionais que sempre acompanharam a banda. Têm também o propósito de reavivar a memória de outros que dela se desligaram e o de dar a conhecer a quem deles nunca ouviu falar. Em menos de uma hora era difícil, mas penso que o conseguiram. Com fotografia competente de Guilherme Cabral e Gustavo Lopes, este documentário da produtora Dream Big para a série Antena 3 Docs irá ser exibido na RTP2 no próximo dia 29 às 00h35m, ficando depois também disponível nas plataformas digitais da RTP e Antena 3. Um documento cuja visualização é indispensável por quem ainda sente que: Arriba! Avanti! que eu ainda tenho um sonho ou dois.

TEXTO : JOSÉ MARQUES

PUZZLE: BILL MURRAY  e  JAMES BELUSHI IDEIA e MONTAGEM: PRISCILLA FONTOURA PUZZLE: CLÁUDIA ZAFRE

PUZZLE: BILL MURRAY e JAMES BELUSHI

IDEIA e MONTAGEM: PRISCILLA FONTOURA
PUZZLE: CLÁUDIA ZAFRE

Os espectáculos ao vivo são uma boa forma de conhecer novas bandas e de aferir a qualidade de outras já conhecidas apenas em registo est...


Os espectáculos ao vivo são uma boa forma de conhecer novas bandas e de aferir a qualidade de outras já conhecidas apenas em registo estúdio. Ao vivo é mais difícil de camuflar a falta de qualidade. Na minha juventude, há muitos anos atrás, a divulgação passava por leitura de jornais e revistas estrangeiras, o boca-a-boca de amigos mais velhos e viajados, os reduzidos programas de autor na rádio que se dedicavam à música que se ia fazendo no mundo. Radialistas como António Sérgio, onde Saturnia se estreou ao vivo no “A hora do lobo”, escasseiam. Talvez Nuno Calado na Antena 3 continue a resistir, mas de resto pouco mais sobrevive. Ouço cada vez menos e quase sempre a mesma estação, mas até esta parece estar a perder gás quando se ouve o mesmo tema (de qualidade mais do que duvidosa) duas e três vezes por dia. Quanto a bandas novas e portuguesas em particular, são quase sempre as mesmas, dando a impressão que só os que pertencem ao círculo de amigos e / ou têm a sorte de ter uma editora influente têm direito a ser divulgados. Felizmente agora temos a Internet e com ela uma plataforma de acesso ao que vem sendo produzido. Infelizmente essa produção é tão vasta que, sem as pistas certas, não conseguimos abarcar tudo e corremos o risco de ignorar projectos interessantes. Do “too less” passámos ao “too much”.


Os Solar Corona, que fizeram a primeira parte do concerto, são um destes casos de bandas que conheci pela Internet no seguimento da sua participação no Sonic Blast Moledo 2018. Escutados os temas no seu Bandcamp, fiquei agradavelmente surpreendido e curioso quanto à sua actuação ao vivo. O (com muito) power trio de Barcelos não me desiludiu. Tocando um rock psicadélico com toques de stoner rock e mesmo de speed metal, Rodrigo Carvalho (guitarra e teclados), José Roberto Gomes (baixo) e Peter Carvalho (bateria), fizeram um set quase sem interrupção, batido e tocado, muitas vezes, a 200 km/h. Muito bom e uma banda a rever mais vezes.


Depois dos Solar Corona chegou o cabeça de cartaz Saturnia. É redutor classificar o trabalho de Luís Simões a.k.a Saturnia como de alguém ex-qualquer coisa. Seja de ex-elemento de uma banda de culto ou de outra com mais impacto mediático e de aceitação pública mais generalista. O som de Saturnia não renega as influências do rock progressivo e psicadélico, mas re-make e re-model fazem parte da criação musical. Neste concerto Luís Simões (guitarra eléctrica, sitar e gongo) esteve acompanhado na bateria pelo, já quase inevitável, André Silva e por Rui Guerra nos teclados. A setlist foi idêntica à de maio passado no Musicbox, aquando da apresentação do seu mais recente disco The Seance Tapes. Oportunidade para ouvir, entre outros temas, Chrysalis, I am Utopia, The real high, Mindrama, The Twilight bong e Cosmonication, onde não faltou uma dedicatória em memória ao grande guitarrista Filipe Mendes, falecido no passado mês de Agosto. Uma actuação certinha e de grande qualidade como já é hábito em Saturnia. Os seus concertos são escassos e é pena. Esperamos, ansiosos, por novos temas que possam impulsionar mais aparições ao vivo.

Durante um par de horas o Titanic deixou de estar “sur mer” e ficou “dans l’espace". Uma viagem que deverá ter continuado com os DJ’s Deus do Psicadélico e Candy Diaz, mas da qual eu já tinha desembarcado.


TEXTO: JOSÉ MARQUES 
IMAGENS e VÍDEO: JOSÉ MARQUES
LOCAL: TITANIC SUR MER, Lisboa
DATA: 16 de Novembro, 2018
CONCERTOS: Saturnia e Solar Corona