Álbum: Mutatis Mutandis Género: sludge metal, post-metal Lançamento: 23 de Outubro, 2020 Editora: I, Voidhanger records https://kevel.bandca...

Álbum: Mutatis Mutandis
Género: sludge metal, post-metal
Lançamento: 23 de Outubro, 2020
Editora: I, Voidhanger records
https://kevel.bandcamp.com


Mutatis Mutandis é uma frase que em latim significa algo como “com as mudanças necessárias” e que preconiza a renovação, seja ela de ideias ou de costumes. Kevel é uma banda grega que se apresenta pesada, mas cambiante e dinâmica. Faz lembrar as texturas monolíticas de Meshuggah, ao mesmo tempo que deambula por sonoridades mais cósmicas, sem nunca abdicar do seu lado massivo e concreto. 

Kevel consegue conjugar em 6 temas longos e complexos as géneses de várias categorias do metal alternativo e/ou extremo, como o sludge, stoner e doom. As vocalizações são certeiras e encaixam bem nas melodias intrincadas e progressivas que não abdicam de uma dose saudável de bestialidade. A viagem é cósmica, mas nem por isso pacífica ou etérea. Atravessamos limiares extremos de emoções e estados, nunca estagnantes e sempre mutáveis. As líricas apelam a uma consciencialização cósmica, dilemas existenciais e como é absurda a nossa condição de terráqueo se nos dermos ao espaço para reflectir, não há egomania que resista à evidência que somos menos que pontos minúsculos na imensidão do universo. 

Kevel é um som introspectivamente combativo e belicoso com uma delicadeza existencialista nada aparente e que irá cativar os fãs do metal mais pesado.


- TRANSLATION - 
Album: Mutatis Mutandis
Genre: sludge metal, post-metal
Release date: 23 de Outubro, 2020
Label: I, Voidhanger records
https://kevel.bandcamp.com/

Mutatis Mutandis is a latin phrase that means something like “with things changed that should be changed” and it welcomes renovation, be it of ideas or customs. Kevel is a band from Greece that is downright heavy, but also dynamic. It reminds us of the monolithic textures from bands like Meshuggah, while wandering through more cosmic sounds, without losing its massive and colossal roots.

Kevel can conjure within 6 long and complex themes the genesis of several metal subgenres like sludge, stoner and doom. The vocals are on the spot and fit beautifully in the intricate and progressive melodies that do not lose their bestial edge. The voyage is cosmical but never quite peaceful or ethereal. We go across extreme boundaries of emotions and moods, never stagnant and always changing. The lyrics appeal to a cosmic consciousness, existential dilemmas and how absurd can be our condition of simple earthlings and if we have the time to reflect there is no egomania that can resist the evidence that we are nothing more than miniscule dots in the immensity of the universe.

Kevel is a combative and bellicose introspective kind of sound with an existential sensibility that will captivate fans of heavy metal.


Texto | Text: Cláudia Zafre

voz, bonecos | voice, hand-made cartoons: Emanuel R. Marques vídeo | video: Priscilla Fontoura tradução | translation: Cláudia Za...



voz, bonecos | voice, hand-made cartoons: Emanuel R. Marques
vídeo | video: Priscilla Fontoura
tradução | translation: Cláudia Zafre
som genérico | opening title soundtrack: Emanuel R. Marques, Priscilla Fontoura
tema | song: Halloween Theme, John Carpenter
Filme: Halloween, John Carpenter

© Acordes de Quinta

CRIAÇÃO E AUTORIA:   EMANUEL R. MARQUES

CRIAÇÃO E AUTORIA: EMANUEL R. MARQUES

Os dias de uma criança são sempre cheios e longos. Dias de descobertas incessantes que brotam da curiosidade inata que habita na mente...


Os dias de uma criança são sempre cheios e longos. Dias de descobertas incessantes que brotam da curiosidade inata que habita na mente de uma criança. Gostam de cores, novos sabores e de saber os porquês que os adultos ludicamente lhes tentam explicar. Há quem faça vídeos caseiros de viagens, visitas a parques e jardins, e depois há quem procure criar um registo sonoro de emoções, sensações e estados de espírito para partilhar com quem querem bem.

Pedro Cabral é o músico por trás do projecto Os dias da Rita. Um disco composto e gravado com inspiração na sua filha Rita, tem como propósito partilhar com ela um conjunto de canções. Um projecto gravado de forma caseira num modesto home studio com temas que começaram a ser gravados desde o dia em que a sua filha nasceu. O conceito do disco é interessante, principalmente, numa época em que as prendas dadas e recebidas são quase sempre compradas em lojas com um preço de mercado inerente. 

Deambulações de guitarras acústicas e eléctricas encontram um caminho que nos conduzem a aventuras de um pai movido com o objectivo de mostrar a quem quer bem como sente e vê o mundo.
O álbum distende-se por 28 temas de pequenos episódios sonoros com Influências blues, soft rock e indie.


Os Dias da Rita, além de ser um disco de produção modesta e caseira, é também um exemplo de que as melhores prendas podem ser diy. Essas costumam ser as mais especiais.

Texto: Cláudia Zafre
https://osdiasdarita.bandcamp.com/releases 
Imagens: © Os Dias da Rita (Pedro Cabral)

Muitas vezes a força motriz do trabalho de um autor ou de uma autora é a sua musa, quem lhes abre a estrada da inspiração criativa para m...

Muitas vezes a força motriz do trabalho de um autor ou de uma autora é a sua musa, quem lhes abre a estrada da inspiração criativa para materializar ideias. No caso de Werner Herzog, Klaus Kinski foi quem o inspirou para retratar personagens dos seus filmes. O actor alemão apareceu em mais de 180 filmes, e a sua reputação internacional teve projecção após ter colaborado em cinco filmes do cineasta Herzog: Aguirre, der Zorn Gottes (1972), Woyzeck (baseado na peça de Georg Büchner) (1979), Nosferatu: Phantom der Nacht (1979), Fitzcarraldo(1982) Cobra Verde (1987). Em 1989 Kinski foi também realizador do filme Kinski Paganini. Quem acompanhou os filmes de Herzog e viu o documentário Mein liebster Feind de Herzog percebe que Kinski teria uma personalidade controversa e colérica, com inesperadas explosões de violência motivadas por insignificâncias que perturbavam toda a equipa de rodagem. Kinski apesar de muito talentoso, representava quase sempre personagens do tipo dostoievskiano: atormentados, fanáticos, violentos, obcecados, intensos, criminosos, apaixonados ou loucos. Por outro lado, era um sedutor insaciável e participava em filmes com o único objectivo de atrair determinada actriz.

Mille Dinesen protagozina a personagem Rita na série homónima dinamarquesa distribuída pela Netflix. Uma profissional que não se verga às intimidações externas, no plano afectivo a situação muda de cenário, as suas fragilidades do passado afectam o seu modo de vida. A actriz dinamarquesa é conhecida por ter participado no filme Nynne (2005).

Klaus Kinski e Mille Dinesen

Texto & montagem: Priscilla Fontoura
Puzzle: SP

Mulheres que pensam por elas mesmas e fogem às normas estipuladas costumam dar trabalho. O mundo paternalista, regulado, ao longo dos ...



Mulheres que pensam por elas mesmas e fogem às normas estipuladas costumam dar trabalho. O mundo paternalista, regulado, ao longo dos séculos, pelos homens vive a mudança em pequenos passos, mesmo assim, essa variação não acontece de igual forma entre países.


A série Rita, produção dinamarquesa criada por Christian Torpe, retrata a vida de uma professora primária que tem como foco principal mudar - para melhor - o estado da escola onde lecciona. Independente e assertiva, os alunos com maior défice e com carências são o seu foco, e mesmo que tentar mudar o que lhe parece errado implique sofrer retaliações por parte de colegas com cargos superiores ou políticos da freguesia onde vive, Rita não vende o seu carácter, nem muda a sua conduta pelas pressões que sofre, porque o que as escolas precisam são tomates (biológicos ou não) e muita sensibilidade pragmática. Esses, os tomates, são as mulheres que os trazem, e, da Escandinávia, não se poderia esperar outra coisa. Mesmo imperfeita, a sociedade dinamarquesa olha para o sujeito como indivíduo que vive no seu pequeno mundo; nessa perspectiva, tenta respeitá-lo, não obstante as suas vicissitudes e limitações. No plano afectivo, Rita tem problemas em assumir compromissos mais sérios colocando-se sempre na defensiva e assumindo o papel de domínio sobre os homens com quem acasala.  




A série de comédia dramática tem um elenco rico com personagens bem desenvolvidas. De pais de alunos a professores, todo o elenco gira à volta da personagem principal. 

Uma série que conta com cinco temporadas. 
Sugestão: assistir após um dia de trabalho para relaxar.

Texto: Priscilla Fontoura

Álbum: Nothing as the Ideal Banda: All them Witches Lançamento: 4 de Setembro, 2020 Género:   desert rock, metal, rock, blues, heav...

Álbum: Nothing as the Ideal
Banda: All them Witches
Lançamento: 4 de Setembro, 2020
Género: desert rock, metal, rock, blues, heavy, psicadélico, sludge, stoner, stoner metal

A distância ajuda a análise mais neutra sobre dado assunto ou episódio, mas, quando se vivem experiências que afectam positivamente a forma como as idealizamos, a expectativa sela essa prévia ilusão, que não passava apenas de uma suposição e torna-se realidade.

© Robby Staebler, Blackjack Jennings

Não faz sentido descrever Nothing as the Ideal clinicamente, como se fosse uma atalaia que observa à distância certa ocorrência, ou, neste caso, que ouve com eco. Desde as muitas viagens que fiz ao som de A Dying Surfer Meets his Maker (o meu álbum preferido de ATW), mais os episódios vividos acompanhados pelo disco e o desfecho da conversa que tivemos com Michael Parks Jr. e com o, já não membro da banda, Allan van Cleave no SonicBlast Moledo, em 2016, que a ligação a ATW se tornou mais afectiva do que racional, e por tudo o que isso implica, (partes dessa conversa manter-se-ão no segredo dos deuses). Concluindo e resumindo, ouvir qualquer disco de All them Witches faz-se com afecto.

Já não se ouvia um disco tão introspectivo desde o lançamento de A Dying Surfer Meets his Maker. Começar por falar no último tema do novo Nothing as the Ideal, lançado a 4 de Setembro, produzido pela banda e Mikey Allted, misturado pelo mesmo, com a assistência do engenheiro Neil Dawes, leva ao início e ao conceito do disco descrito pela banda: 
The album is live. Nothing as the ideal is real. Love yourself love your neighbor. Think about how your actions affect the ones around you. Be a light that others want to absorb and reflect. Hope you find something in there that resonates and shakes up the ol subconscious baggage. In the words of a great wise man we are all just walking each other home. This music is our hand in yours. See you around the bend. 

Gravado na Abbey Road Studios, no estúdio 2, onde os Beatles gravaram, Nothing as the Ideal será o disco que colocou os ATW num lugar de destaque em relação a outras bandas de rock psicadélico. Aproveitada a oportunidade, utilizaram tudo o que a sala tinha ao dispor no que respeita a material vintage de som: desde pre-amps a compressores e microfones utilizados por John Lennon e Paul Paul McCartney.

O disco começa com ambientes que remetem para Fear Inoculum de Tool, acontece que logo, no instante a seguir, escuta-se a guitarra singular de Ben McLeod a tocar o blues que tão bem domina mesclado com as influências heavy-metal (se ainda não tiveram oportunidade, ouçam o seu side project Woodsplitter); e a voz de Parks mergulhada nos efeitos usados desde Sleeping Through the War. Definitivamente, a guitarra rítmica de Ben leva a Adam Jones. Assumem, na conversa em directo que tiveram há um dia no instagram, que 41 é o tema que mais temiam mostrar aos fãs. Um tema que deambula entre Tool e os temas mais introspectivos de System of a Down e Katatonia, guitarras potentes e melódicas, refrão que fica no ouvido, todo o álbum é liricamente um diário onde as preocupações de Parks são desabafadas, sem ser muito directo, revela o pessimismo com que vislumbra o futuro, uma travessia sem direcção para uma terra desconhecida e sem origem, reflectindo assim uma humanidade confusa no seu próprio entendimento. Parks começou desde A Dying Surfer Meets his Maker a procurar a essência mais espiritual e filosófica de abordagem lírica para os discos de ATW.

Esteticamente Rats in Ruin distingue-se dos outros temas do álbum, é mais introspectivo e pessoal, transportando à imersão sónica pela força dos ambientes da guitarra eléctrica de Ben McLeod e de outras paisagens sonoras suportadas pelo baixo, não com a mesma identidade mas com a mesma transparência de Easy (Our Mother Electricity) — tema que nunca tocam ao vivo. Rats in Ruin é repetido qual mantra, penetrando passo a passo como um condutor eléctrico que desperta as mentes de quem os ouve, um estado que alerta a humanidade para a situação em que se encontra, de desorientação e confusão. O reverb muralha e transmite os sentimentos profundos declarados em repetição rats in ruin, passando a desdobrar-se numa ambiência "tooliana" e doom atmosférico. Perto do fim da gravação, a banda convidou amigos londrinos para ajudarem à produção da cacofonia da base de Rats in Ruin, pediram-lhes que fossem à cave fazer o maior ruído possível, que na produção foi revertido para soar o mais sinistro possível.

Os ambientes que Ben McLeod consegue fazer vibrar, tanto pelo seu input blues e metal, reflectem-se na magia sónica que flui enquanto toca, aproximando-se do doom metal, e Rats in Ruin corre com independência instrumental interpretando-se a si mesmo com determinação. Liricamente, tal como Parks já havia referido na conversa filmada que tivemos, o vocalista e baixista deixou de ter interesse em abordar questões frívolas, partindo cada vez mais para a introspecção e desenvolvimento de assuntos que o incomodam de foro externo, político e social; e interno, profundo e pessoal. 

Por mais estranho que possa soar, Enemy of my Enemy remete para Pure Morning de Placebo, palavras que se confundem entre temas e ritmos menos ou mais acelerados. A cadência é a mesma, a estética diferente e o tema termina numa bela harmonia em oitava, num sludge metal com guitarras que nos transportam para Baroness e Mastodon. Acredita-se que o clímax, quando tocarem ao vivo Nothing as the Ideal, acontecerá com Enemy of my Enemy, sendo o tema preferido do álbum de Parks e Ben. See you Next Fall (o único tema que não foi gravado em Abbey Road) introduz-se tal como outros temas de ATW — com muita sedução gerado pelo slide guitar que Ben McLeod foi introduzindo a mais e mais discos de ATW, a influência sudoeste dos EUA — como acontece com See you Next Fall, conduz à lendária Blues Highway, o roteiro inesquecível que leva de Nasville, no Tennessee, a Nova Orleans, na Louisiana, com música por todos os lados. Desde lugares onde nasceram grandes artistas até lojas de vinil, salas de gravação e à gastronomia sulista, cada paragem tem uma história para contar. Everest antecipa essa viagem que começa silenciosamente, mas que divaga em constante descoberta visual. Na verdade, Ben consegue chegar ao patamar dos guitarristas que fazem proezas com a guitarra, seduz com ímpeto e delicadeza, elevando o êxtase e encanto implícitos no blues quase a fazer desmaiar quem o ouve numa orgia sónica. 

Os All them Witches têm tido um percurso muito focado no pacote que o mercado da música underground requer, músicos em estado natural e aplicados que não cedem a distracções. Desde Ben McLeod, que editou o pedal Alabaster Fuzz, aos videoclips filmados em película e editados pelo baterista Robby Staebler e à imagem de marca, tudo faz parte do interesse, curiosidade e dedicação que têm aplicado ao imaginário ATW  um trabalho de minúcia que determina o sucesso gradual que têm alcançado. Por isso que Parks canta I am focused em 3-5-7 no disco Sleeping Through the War, a bom rigor os ATW não têm perdido o foco, no decorrer dos anos produzem sem interrupções. Fazem tudo o que lhes está à mão para viverem como gostam, a tocar música, fazer digressões e a exprimirem-se criativamente com liberdade. 

The Children of Coyote Woman tema country blues rock liga os álbuns de ATWThe Marriage of Coyote Woman e The Death of Coyote Woman são temas do disco Lightning at the Door que se ligam a Nothing as the Ideal, um tema que reconta a fundação de Roma, pela perspectiva sulista. Dois irmãos lutam para ver quem controla a região, após o falecimento de sua mãe, uma mulher tão feroz e lendária que as pessoas prefeririam deixar as suas casas a enfrentá-la. Embora poderosa, embora feroz, as vidas dessas pessoas existem num pontinho minúsculo no universo e ainda estão ligadas às lutas e dificuldades de tentar sobreviver no sul rural pobre.

Nothing as the Ideal tem os pés assentes no chão, mas sopra também aos lugares mais misteriosos do espaço. A banda de Nashville tem conquistado melómanos de todo o mundo e sabe como não exaurir os seguidores mais exigentes. Todo este cenário que estamos a viver alimenta cada vez mais a vontade de ver concertos ao lado de desconhecidos sem preocupações, ao lado de quem partilha a mesma intenção. Seria bom poder afirmar See you next Fall a esta banda que esteve em Portugal apenas duas vezes com concertos que deixaram boas marcas. Nós do outro lado do oceano aguardamos o regresso.

Em tom de conclusão, compreendo o fã que assaltou o bastidor dos ATW aquando de uma das suas digressões na Inglaterra, gritando alto e bom som "You saved my life". Para quem compreende o que a música dos ATW significa, acolhe esta confissão com um grande sentido de pertença. Agradeço à minha irmã, por partilhar esta banda que tanto ajudou a enfrentar tempos mais difíceis. 


Texto: Priscilla Fontoura

“Rock over London, Rock on Chicago”, era com esta catchphrase que Wesley Willis acabava a maior parte das suas canções, populariza...


“Rock over London, Rock on Chicago”, era com esta catchphrase que Wesley Willis acabava a maior parte das suas canções, popularizadas por serem quase sempre curtas, constituídas por três ou quatro acordes e com temáticas que variavam entre super-heróis, pessoas que Willis conhecia, acontecimentos do quotidiano ou referências sociais e culturais da época. Willis nasceu em 1969 numa família numerosa e foi diagnosticado com esquizofrenia no final dos anos 80, o que não o impediu de se tornar uma autêntica rock star no circuito independente e gravar cerca de cinquenta discos. 


Neste documentário realizado por Daniel Bitton temos acesso a footage de Willis no seu quotidiano, a gravar as suas canções e a vender discos a editoras independentes. A sua música era um misto de spoken word com acompanhamentos de Casio, e as suas letras variavam entre apontamentos bizarros e frases memoráveis como I whupped Batman’s ass. O documentário apresenta-nos um artista pouco usual, motivado e com uma persistência inigualável na sua odisseia de fazer mais e mais música. É uma slice of life de um artista cuja presença continua incontornável no meio independente e do mundo da denominada “outsider music”.

Texto: Cláudia Zafre
Imagem: Frames do documentário Wesley Willis 

Dotada de uma sensibilidade para criar melodias intimistas e de suave identificação, Emma Shepard é uma voz sincera e delicada que faz...



Dotada de uma sensibilidade para criar melodias intimistas e de suave identificação, Emma Shepard é uma voz sincera e delicada que faz uma psicografia de relações e estados de espírito que nos soam intensamente familiares. 

É um indie aliado a folk e bedroom pop que nos faz viajar nas intrincadas e aparentemente subtis teias de guitarra, a voz de Emma e os ocasionais apontamentos de outros instrumentos. 

Bedroom pop que nos faz estar próximo de quem canta para e por nós. Pedimos a Emma as suas referências e preferências para 5 livros, 5 discos, 5 filmes/séries e aqui estão elas: 

Livros: 
- Poetics of Space, Gaston Bachelard 
- The Unbearable Lightness of Being, Milan Kundera 
- Arsène Schrauwen, Olivier Schrauwen 
- NW, Zadie Smith 
- Lolita, Vladimir Nabokov 

Discos: 
- Heaven or Las Vegas, Cocteau Twins 
- Forever Changes, Love 
- A Catholic Education, Teenage Fanclub 
- Another Setting, The Durutti Column 
- The Dreaming, Kate Bush 

Filmes: 
- Punch Drunk Love, Paul Thomas Anderson
- Daisies, Vera Chytilová
- Bottle Rocket, Wes Anderson
- Contempt, Jean-Luc Godard
- Happy Together, Wong Kar-Wai


Emma Shepard has an uncanny sensibility to create intimate and familiar melodies. She is a sincere and delicate voice that examines relationships and moods that can be remarkably familiar to us. 

Its indie mixed with folk and bedroom pop that makes us travel in the intricate and apparently subtle webs of guitar, Emma’s voice and the occasional appearance of other instruments. 

Bedroom pop that makes us closer of who sings for and by us. We asked Emma her references and preferences for 5 books, 5 records, 5 films/TV shows and here they are:

Books: 
- Poetics of Space, Gaston Bachelard 
- The Unbearable Lightness of Being, Milan Kundera 
- Arsène Schrauwen, Olivier Schrauwen 
- NW, Zadie Smith 
- Lolita, Vladimir Nabokov 

Records: 
- Heaven or Las Vegas, Cocteau Twins 
- Forever Changes, Love 
- A Catholic Education, Teenage Fanclub 
- Another Setting, The Durutti Column 
- The Dreaming, Kate Bush 

Films: 
- Punch Drunk Love, Paul Thomas Anderson
- Daisies, Vera Chytilová
- Bottle Rocket, Wes Anderson
- Contempt, Jean-Luc Godard
- Happy Together, Wong Kar-Wai

Texto | Text; Tradução | Translation: Cláudia Zafre
Escolhas | Choices: Emma Shepard
emmashepard.bandcamp.com/album/this-place-after-dark-2

© Sandra Correia Crus e directos ao assunto, os All Kingdoms Fall expelem as angústias e revoltas num grito que funde o hardcore em...

© Sandra Correia

Crus e directos ao assunto, os All Kingdoms Fall expelem as angústias e revoltas num grito que funde o hardcore em momentos mais ambientais e melódicos. No início do ano estrearam o EP Vanuatu’s Tumble que inclui cinco temas, gravado nos estúdios da RedBox, em Paços de FerreiraO trabalho resulta, segundo as palavras de All Kingdoms Fall, “num registo homogéneo, negro e melancólico, mas também violento que descreve uma visão pessoal sobre a vida, a partilha e o legado da mesma.”. 

Os AKF começaram em 2018 e são cinco músicos com experiência no underground nacional. Não obstante as dificuldades que tiveram que enfrentar entre mudanças na formação da banda, acabaram no estúdio a gravar o EP que tem como capa a personificação de estados de alma subjacentes ao conceito lírico/musical, realizada pela ilustradora Sandra CorreiaA dicotomia entre brutalidade e melancolia faz parte do universo desta banda que se esgrima entre luz e negritude, entre simplicidade e complexidade.

Encontram-se todos de boa saúde?
Marcos: Sim, tendo em conta o panorama actual, felizmente estamos todos bem.

Pinto: Calma [risos], esta pergunta é relativa a questões pandémicas ou é de cariz global? Isto, porque, se for para acrescentar enfermidades que começaram a surgir a cada manhã nestes pós 30 tenho uma lista a apresentar! Bem, ok… já percebi, fica para outra altura! Vamos ao que interessa.

© João Fitas


"São músicas que falam de opressão religiosa/política, de escolhas, de morte e de uma particularidade humana à qual não sou imune e que me incomoda que é a cobrança. Parece que existe uma necessidade de cobrar, ou seja, nós por norma não fazemos algo de bom por uma determinada pessoa sem termos a esperança de cobrar de seguida. Mas, se um dia precisarmos dessa pessoa, estamos de facto à espera que ela nos retribua. Penso que tem tanto de natural como de negativo."


Como correu a gravação do EP e como tem sido a sua promoção?
Vilela: A gravação do “Vanuatu’s Tumble” correu muito bem, ocorreram nos estúdios da RedBox em Paços de Ferreira, onde fomos bem recebidos e acompanhados. O que não poderia ser de outra forma, uma vez que o produtor deste nosso primeiro trabalho é também um dos guitarristas da banda. O contratempo mais significativo durante a criação/produção deste trabalho foi ainda em fase de pré-produção. Quando terminada, o José Ribeiro, guitarrista no momento, viu-se forçado a abandonar o projecto por motivos pessoais. Foi então, que o Jorge passou a fazer parte do projecto, não apenas como produtor, mas também como músico. Esta situação levou a que as músicas sofressem novos arranjos e atrasou um pouco a entrada em estúdio para as captações finais.

Marcos: A promoção do EP, assim como do projecto no geral, está em andamento devido às circunstâncias e de todos os acontecimentos que têm vindo a afectar o planeta e em especial o panorama cultural/musical, não nos está a ser fácil, temos de admitir. A falta de concertos, que é o cenário onde o nosso “ruído” pode atingir a sua verdadeira expressão, veio, de certa forma, pregar uma rasteira, uma vez que acreditamos que é uma das melhores maneiras de promover um trabalho desta natureza. De qualquer forma, não estamos parados, temos como principal objectivo a curto/médio prazo, lançar algum conteúdo multimédia para circular pelas redes sociais e algum merchandise e começamos também a escrever novo material. Contudo, esperamos que as coisas possam voltar ao normal ou “novo normal” o mais rápido possível para podermos levar este projecto avante.

Qual o conceito por detrás de Vanuatu’s Tumble?
Pinto: Vanuatu’s Tumble fala de pessoas, em grande parte de uma forma singular e muito baseado em emoções pessoais, mas consigo facilmente espelhar na maioria das pessoas que me rodeiam ou mesmo na sociedade que penso conhecer. É um trabalho que, de uma forma grosseira, caracteriza os limites da liberdade individual e tenta reflectir sobre a definição de liberdade. Pois acredito que a liberdade que tanto procuramos e pela qual passamos a vida a lutar só atinge a sua plenitude se em cada gesto se tenha em conta a liberdade do outro, a liberdade dos outros seres, a liberdade da natureza, mesmo que isso possa impor limites na nossa liberdade pessoal. São músicas que falam de opressão religiosa/política, de escolhas, de morte e de uma particularidade humana à qual não sou imune e que me incomoda que é a cobrança. Parece que existe uma necessidade de cobrar, ou seja, nós por norma não fazemos algo de bom por uma determinada pessoa sem termos a esperança de cobrar de seguida. Mas, se um dia precisarmos dessa pessoa, estamos de facto à espera que ela nos retribua. Penso que tem tanto de natural como de negativo.


"Às vezes dou por mim a pensar que o acto mais maligno e perverso que a minha imaginação consiga produzir de certo já aconteceu vezes sem conta por ordem ou vontade humana, mas a maior parte dessas situações continuam ocultas e depois reparo que ainda existem outras igualmente atrozes e que são legais e até encaradas como arte. E sim, claramente me estou a referir às touradas (termo este que me parece demasiado deleitante para o que realmente define). Enquanto estas práticas forem legais e apoiadas, não me surpreende nada que apareçam canis ilegais com tortura dos animais e da mesma forma situações racistas."


- Agora por causa da pandemia, como sabem, muitos festivais não aconteceram, o que veio alterar todas as perspectivas de concertos para este ano, têm tido propostas para o próximo ano?
Marcos: Efectivamente antes desta história da covid já tínhamos algumas datas programadas que poderiam levar a outras datas mais tarde, coisa que não aconteceu. Esses mesmos concertos podem vir a ser reagendados, mas até à data não temos concertos à vista, infelizmente.

- O hardcore tem como discurso a sobriedade ligada aos direitos sociais. Apesar do vosso som também pender para o metalcore, o hardcore é a raiz que serve de fio condutor para as vossas líricas. Como se colocam em termos de pensamento face ao cenário tão atípico que estamos a viver?
Pinto: De facto, tem sido um ano intenso, diria até constrangedor. Pois ao mesmo tempo sinto que passou cerca de uma década e, efectivamente, vivi uma semana! Mas, respondendo à pergunta, e admitindo que se refere principalmente à questão das manifestações anti-racismo, nem sei por onde começar. Com a certeza que este assunto alimentava uma conversa para toda a noite, vou tentar sintetizar. Sinto que é simplesmente ridículo ainda existir racismo seja qual for a sua natureza, mas não me surpreende. Às vezes dou por mim a pensar que o acto mais maligno e perverso que a minha imaginação consiga produzir de certo já aconteceu vezes sem conta por ordem ou vontade humana, mas a maior parte dessas situações continuam ocultas e depois reparo que ainda existem outras igualmente atrozes e que são legais e até encaradas como arte. E sim, claramente me estou a referir às touradas (termo este que me parece demasiado deleitante para o que realmente define). Enquanto estas práticas forem legais e apoiadas, não me surpreende nada que apareçam canis ilegais com tortura dos animais e da mesma forma situações racistas. Sim eu sei, parece que estou a misturar dois assuntos (e talvez esteja), mas, sinceramente, acho que estão bastante relacionados porque está tudo directamente ligado com a maldade interior. Voltando ao assunto do combate ao racismo, acho que tem de ser feito tudo que estiver ao alcance, tem se ser um trabalho contínuo, diário e de perseverança para construir e não destruir o que tem demorado tanto a construir. E na minha opinião, aconteceram algumas situações negativas, mal pensadas que temo que se tenha recuado um pouco.

© João Fitas

- A origem e os alicerces do hardcore é um meio de entre-ajuda, em Viana do Castelo há uma comunidade bastante estruturada e forte. Alguns de vocês vêm do Minho e vivem no Porto. Como comparam essas estruturas e dinâmicas, apesar de Viana ser bem mais pequena que o Porto, acham que o hardcore é mais unido nesses meios mais pequenos?
Vilela: O único membro que vem do Minho é o Pinto os restantes somos todos da zona do Porto. Sinceramente pensamos que o panorama do hardcore é de entre-ajuda a nível nacional, aliás mesmo a nível internacional é um núcleo bastante estruturado e unido e é um orgulho perceber a quantidade de causas humanitárias e de apoio animal que estão relacionadas de alguma forma com bandas, promotores, fãs do mundo do hardcore. Contudo, sendo mais analítico e a ser específico, sim, acreditamos que os núcleos mais pequenos são onde poderá haver mais pro-actividade e dedicação, mas, por outro lado, também podem provocar algumas barreiras como a entrada de conteúdo novo e, por vezes, infligir alguma asfixia nesses núcleos.

- O artwork é criado pela ilustradora Sandra Correia. Como se construiu a iconografia do EP?
Pinto: Vai parecer clichê o início desta resposta. Mas, a verdade é que foi mesmo um processo natural. Como já foi dito, as músicas falam de opressão, escolhas, mas também uma materialização muito forte da expressão “porque tem de ser”. O nome do EP foi inspirado numa tradição de uma das ilhas de Vanuatu que consiste num ritual que é um verdadeiro mergulho na terra preparado durante a adolescência. Saltam de uma torre com cerca de 30m amarrados pelos tornozelos a uma planta que se torna ligeiramente elástica naquela altura do ano. Esta elasticidade é difícil de controlar e é basicamente isso que vai ditar a sobrevivência do jovem, permitindo que este se torne adulto e respeitado. O nome do EP surge da vontade de espelhar esta prática para as nossas vidas. Metaforizando desta forma as nossas acções diárias, desde questões profissionais, amorosas ou familiares. Demonstrar que todas elas estão relacionadas e se influenciam constantemente num “preparado” bem oleado pelo mundo capitalista e político, promovendo decisões para as quais não conseguimos em grande parte das situações perceber o seu verdadeiro impacto na nossa vida e na vida das pessoas que amamos. O desenho apresentado pela Sandra não teve uma evolução, apenas fomos falando durante alguns meses onde eu divagava um pouco sobre as letras e um dia foi-me apresentada a proposta pelo qual eu me identifiquei totalmente. Apresentamos a ideia aos restantes elementos e a opinião foi unânime.

Dessa expressão surge a capa do álbum onde se consegue perceber uns olhos tristes, sem vida, com a opinião brutalmente censurada e alterada para um sorriso forçado com medo da consequência.

- Temos uma rubrica intitulada Bagagem, onde pedimos 5 livros, 5 discos, filmes/séries. Neste tempo de maior confinamento, em paralelo com as vossas gravações, se calhar também vos restou algum tempo para colocar a vossa “Bagagem” em dia. Quais são as vossas últimas actualizações?
Marcos Silva
Livro: O Pão dos deuses, Terrence Mckenna
Disco: New levels, New DevilsPolyphia 
Série: Final space, Olan Rogers

Filipe Vilela
Livro: n/a 
Disco: Revive, 18 Miles
Série: Dark, Ronny Schalk, Jantje Friese

Nuno Pereira
Livro: n/a 
Disco: Like broken Glass, Crowbar
Filme: Bob Lazar, Jeremy Kenyon Lockyer Corbell

Jorge Lopes
Livro: n/a 
Disco: The Congregation, Lepros
Filme: No limite de Amanhã, Doug Liman

Márcio Pinto
Livro: O Último Judeu, Chil Rajchman
Disco:  Low Teens, Every Time I Die
Série: After Life, Ricky Gervais

Texto e Entrevista: Priscilla Fontoura
Entrevistados: All Kingdoms Fall (Marcos, Pinto e Vilela)

Imagens: © Rui Mota Pinto Músico: Pedro Oliveira  Festival: Que Jazz É Este? 8.º Festival de Jazz de Viseu h...



























Imagens: © Rui Mota Pinto
Músico: Pedro Oliveira 
Festival: Que Jazz É Este? 8.º Festival de Jazz de Viseu
https://quejazzeeste.com