Após insistência da nossa parte, pois a sua vida é bastante ocupada em palestras, conferências e consultas, o famoso Dr. Mosho decidiu ...


Após insistência da nossa parte, pois a sua vida é bastante ocupada em palestras, conferências e consultas, o famoso Dr. Mosho decidiu abrir as portas do seu consultório e colaborar no Acordes de Quinta, partilhando os seus sábios ensinamentos com todos aqueles que querem melhorar a dinâmica da sua banda. O próprio Dr. Mosho foi tocador de harmónica, enquanto completava os seus estudos na distinta Universidade de Forrobodó, conhecendo de perto os problemas que acarretam formar uma banda. Pisou muitos palcos e foi pisado por outros, mas, certa vez, ao ajudar uma folha a atravessar uma passadeira, sentiu, num dia de vento, o chamamento e percebeu qual seria o seu caminho. 


Ideia original, criação, montagem Dr. Mosho: Emanuel R. Marques
Montagem: Priscilla Fontoura

Há famílias que partilham a herança artística. Chico é Francisco, o caçula do compositor  Maurício Pereira e Lucila Bernardes , irmão ...

Há famílias que partilham a herança artística. Chico é Francisco, o caçula do compositor Maurício Pereira e Lucila Bernardes, irmão de Manuela Pereira e de Tim (Martim) — guitarrista e vocalista no trio paulistano O Terno. Tim já pisou os palcos de Portugal para apresentar o seu trabalho. A vez que se sucede é a do seu irmão, que em Janeiro e Fevereiro estreia-se em Portugal para uma digressão distribuída por 10 datas em vários pontos do país. O músico de 20 anos faz parte da nova vaga do MPB e lançou recentemente o seu álbum homónimo pela editora brasileira Risco – cujo catálogo de discos editados engloba nomes como Maria Beraldo, O Terno, Ana Frango Eléctrico e Sessa

Chico trabalha tanto o lado lírico quanto o instrumental dos seus temas, identifica-se com o registo folk de Joni Mitchell e deixa-se levar pelas letras, pelas melodias introspectivas e sentimentais.


"O disco fala de amores platónicos, amores correspondidos que chegaram ao fim, amores não correspondidos, isso mesclado a outros paralelos, seja minha vontade de escrever pequenas narrativas musicais, seja uma saída para desenvolver minhas questões introspectivas diante do existencialismo."


- Segundo as investigações online, reparei que o teu pai Maurício Pereira não induziu nenhum dos filhos a seguir o caminho da música. Ainda que seja difícil, na maior parte das vezes, saber como se processa este lado mais empírico e artístico, podes falar das memórias que tens e que te foram conduzindo para a criação musical?
- Creio que a música esteve presente na minha vida desde pequeno, mesmo iniciando a prática de instrumentos e me interessando com a produção e composição musical em redor dos 15 anos. Dividia quarto com meu irmão, que tocava guitarra, ia a shows do meu pai acompanhado pela minha avó, ouvíamos Beatles e Bob Marley no carro, a caminho da praia. A maior parte das actividades que fiz a partir dos 10 anos era acompanhada por um fone de ouvido. Nessa idade, cultivava um certo negacionismo em relação à música, uma vez que meu pai e meu irmão já o faziam, e parecia que já tinha “músicos demais” na família. Porém, com o passar do tempo, fui percebendo que o acesso a instrumentos em casa era muito grande, algo que não me chamava tanto a atenção antes, e diante disso comecei a explorar. Primeiro foi a bateria. Depois ukulele, violão, guitarra. Tempo depois o piano. O violão foi o primeiro instrumento ao qual me apoiei para escrever músicas.

- Como se processou este disco. Quanto tempo demorou, como decorreu a escrita e a composição e de onde surgiu a inspiração para as letras?
- A música mais antiga do disco, e também minha primeira composição (“Vago”), escrevi aos 16 anos, e a mais recente do disco (“Sem Palavras”) escrevi aos 19. A meio desse período, escrevi as outras, fiz meus primeiros shows sozinho, me formei no colégio e comecei a cursar a faculdade de música. Ali, absorvi ferramentas diversas que me ajudaram a organizar e encaminhar o projecto que me foi esse primeiro disco. Em termos de inspirações líricas, me debrucei fortemente diante dos meus próprios sentimentos, que pareciam já não caber no peito, necessitando serem escoados a algum lugar. O disco fala de amores platónicos, amores correspondidos que chegaram ao fim, amores não correspondidos, isso mesclado a outros paralelos, seja minha vontade de escrever pequenas narrativas musicais, seja uma saída para desenvolver minhas questões introspectivas diante do existencialismo. Embora bastante pessoal, creio que este campo dialoga com as questões internas daquele que escuta.

"Uma das minhas maiores preocupações diante do meu trabalho é o registro sincero da fase sobre a qual estou vivendo quando escrevo, em busca de um retrato musical de mim, sobre o qual poderei olhar posteriormente, mais velho, e relembrar como eu era." 



- És muito novo, mas a maturidade das letras reflecte um músico que se preocupa com o registo. Qual a tua maior preocupação em relação ao teu trabalho? Achas que o folk é um género que exige essa maturidade, em que as letras e a composição instrumental só podem existir quando há densidade de pensamento? 
- Vejo o género “folk” como uma estética que me faz sentido quando dialoga com meus interesses musicais. Mesmo assim, creio que seja pelo fato de conquistar intimidade diante do violão, algo que não se restringe ao género, que encontro esse espaço para me pensar e elaborar, por dentro. Uma das minhas maiores preocupações diante do meu trabalho é o registro sincero da fase sobre a qual estou vivendo quando escrevo, em busca de um retrato musical de mim, sobre o qual poderei olhar posteriormente, mais velho, e relembrar como eu era. De qualquer forma, esse não é um conceito restrito, ainda há muita coisa que não explorei, conceptualmente, que poderei desenvolver em próximos trabalhos.

"Acho que a formação não é necessariamente o que faz do músico um bom músico, mas sim seu interesse em aprender para chegar no som que lhe corresponda."


- Mais tarde decides ingressar na faculdade de música para progredires na técnica do violão. Quais as tuas reflexões antagónicas sobre o músico sem formação e com formação; quais as vantagens e desvantagens a ter relativamente a esses dois lados, uma vez que a intuição muitas vezes não necessita da formação para a criação acontecer. Achas que a formação, no teu caso, permite que te envolvas com mais saber e desenvoltura no processo criativo? Não achas que às vezes saber demasiado poderá cortar o lado mais ingénuo e intuitivo de um músico? 
- Acho que a formação não é necessariamente o que faz do músico um bom músico, mas sim seu interesse em aprender para chegar no som que lhe corresponda. A partir daí, cada um desenvolve sua técnica até onde parece conveniente. Por mais que eu curse faculdade, não me considero, academicamente, um bom aluno. Isso pois abro mão de estudar certas coisas que não parecem me direcionar, ali dentro, buscando meus interesses de forma intuitiva, mas ainda assim o curso me é de grande ajuda. Justamente, às vezes o saber teórico e técnico pode fazer do músico mais convencional, adequado ao que já foi feito na música diante da história, – algo que é interessante de conhecer – gerando uma certa perda do que lhe é pessoal quando se está a descobrir sozinho, sem “spoilers”.

"Como caçula, tive inegável influência de meu pai e meu irmão, mas, em dado ponto, tive de desviar do caminho deles para começar a trilhar o meu, à minha maneira. De qualquer forma, isso não nos impede de ter interesses em comum: muito de minhas referências e músicas que gosto de ouvir me foram apresentadas por meu irmão, e, quando pequeno, foi meu pai que me deu “aulas básicas” diante dos artistas que já fizeram sua história diante da música."



- É inevitável falar sobre a ligação que a tua família mais próxima tem à música. Nasceste no seio de músicos, crescer à volta de discos e de influências poderá, por vezes, insurgir-se contra o que não se quer quando queremos criar algo original? Ou achas o oposto? Poderá ser um apoio para aquilo que se gostaria de fazer e criar? 
- Ambas as partes são possíveis. Em famílias de músicos (não apenas na minha), sempre existiram histórias daquele que vivia “à sombra” do outro, ou que “pegava carona” no sucesso do outro. Em casa, cada um tem seu jeito de funcionar, sua personalidade e interesses. Como caçula, tive inegável influência de meu pai e meu irmão, mas, em dado ponto, tive de desviar do caminho deles para começar a trilhar o meu, à minha maneira. De qualquer forma, isso não nos impede de ter interesses em comum: muito de minhas referências e músicas que gosto de ouvir me foram apresentadas por meu irmão, e, quando pequeno, foi meu pai que me deu “aulas básicas” diante dos artistas que já fizeram sua história diante da música.

- Despir a superficialidade da produção musical ao violão e à voz (letras) é difícil porque a entrega é diferente, na medida em que é mais crua e directa. Hoje em dia lidamos com todo o tipo de criação e produção e, no entanto, existe também uma vaga de músicos que gostam das reminiscências para pintarem os seus caminhos musicais. Trazer algo de novo é difícil. Mostrar uma atmosfera diferente é o teu desejo, ou não te preocupas com esse aspecto de poder fazer mais do mesmo e apenas moves-te pela teu lado mais imediato?
- Não diria que meu principal interesse é fazer novidade, uma vez que diante da música, principalmente em voz e violão, muito já foi feito. Dito isso, meu interesse é utilizar desse recurso musical para escrever minha própria história. Esta, sim, é novidade, algo que não foi feito ainda, e a partir dela busco compor, diante de minhas reacções subjectivas frente às banais descobertas do ser humano durante seu percurso.

- Começas a dar os primeiros passos como músico e a resposta que tens tido tem sido positiva e recíproca. Quando crias pensas no teu público ou é um processo muito pessoal?
- A este primeiro projecto, não fiz as músicas voltado ao público, até porque ainda não tinha um. Com isso, minha preocupação maior foi ser sincero comigo mesmo, e produzir pelo meu prazer pessoal. Fiquei muito contente após o lançamento por ter tido uma devolutiva recíproca de carinho e atenção, e por ver pessoas que se identificaram com o que eu estava dizendo, quando colocadas as letras em seus universos particulares.

- Há algum músico português que ouves? O teu irmão tocou alguns temas com o Salvador Sobral, tu gostarias de colaborar com algum músico português? 
- Ainda desconheço a cena da música portuguesa. Conheci o trabalho dos Capitão Fausto e do Salvador Sobral por meu irmão. Gosto de ouvir Carlos Paredes no avião. Espero conhecer mais durante minha estadia, para que, desta forma, entenda o que circula pelos ouvidos de Portugal.

- A tua estreia em Portugal é marcada por 10 datas em solo nacional. Há algo de novo que o público possa esperar além da apresentação do disco homónimo? 
- Em shows, costumo fazer versões de músicas que gosto e, de vez em quando, cantar algumas “demos”, além do repertório do disco. É algo previsivelmente inconstante.

Imagens: discos de Chico Bernardes
Texto e entrevista: Priscilla Fontoura
Entrevistado: Chico Bernardes




Digressão completa:
- 30 Jan. || Leiria || Atlas Leiria
- 31 Jan. || Alcobaça || 
#OssosdoOfício
- 01 Fev. || Sabrosa || 
Novas Canções da Montanha
- 02 Fev. || Guimarães || 
Capivara Azul
- 04 Fev. || Lisboa || 
MUSICBOX LISBOA
- 05 Fev. || Aveiro || 
Avenida Café-Concerto
- 06 Fev. || Porto || 
Maus Hábitos - Espaço de Intervenção Cultural
- 07 Fev. || Barcelos || 
Theatro Gil Vicente, Barcelos
- 08 Fev. || Estarreja || 
Saramago Caffé Bar
- 09 Fev. || Coimbra || 
Galeria Santa Clara

O imaginário que tenho do Vietname, centra-se em reminiscências literárias, como The Quiet American, de Graham Greene, e documentário...



O imaginário que tenho do Vietname, centra-se em reminiscências literárias, como The Quiet American, de Graham Greene, e documentários em que as ruas de Ho-Chi-Minh se enchem de motoretas e bicicletas mas que não é tão “rico” e completo como a confluência de noodles, massa vermicelli com legumes, tofu e amendoim que fazem da comida vietnamita um dos micro-universos mais complexos e interessantes do já de si diverso universo de comida asiática. 

Somos feitos de memórias e intuições. As minhas duas grandes amigas também. Partilhamos interesse e gosto por outras paragens, países, culturas, experiências gastronómicas e sabores aguerridos. Para uma das minhas amigas, comida vietnamita significa mais do que conforto, mas também um lugar de pertença, relembrando-a de uma vida em Paris onde os restaurantes de comida vietnamita são mais comuns do que em Portugal. 
Foi por acordo e mútuo entusiasmo que acordámos ir ao Viet View, situado na Rua de Cedofeita (Porto). Uma das minhas amigas “adivinhou “intuitivamente” que um dos rapazes que nos atendeu seria de Minas Gerais. A sua intuição estava correcta, o seu jeito sereno e ponderado remeteu-a para essa zona do Brasil, talvez por ter uma ampla ligação emocional com o país. O outro rapaz também era brasileiro e com muita simpatia e cuidado explicou-nos a essência dos pratos que constavam no cardápio, apesar do restaurante estar a ficar cada vez mais cheio. 

Uma refeição é um acto partilhado e íntimo quando entre amigos. Dividimos um rolinho de primavera de camarão, onde a massa delicada, suave e transparente de arroz tinha sido confeccionada ao ponto certo de forma a que não ficasse pegajosa e se colasse aos dedos. O recheio, fresco e leve, consistia em cenoura ralada, alface fresca e sadia, massa vermicelli, ananás finamente cortado e camarão refrescante. O momento fica completo quando se junta o molho agridoce à base de amendoim. 

O Viet View é um dos primeiros restaurantes de comida vietnamita na cidade do Porto e destaca-se por possuir uma fusão da alma e calma brasileira com a exuberância e frescura de sabores do oriente. Destacam-se as sobremesas de origem brasileira como a tapioca com lascas de coco e amêndoa e as de influência britânica como o banoffee. 

Viet View representa um mundo feito de diversidades, uniões, fusões e influências. Acolhedor e extremamente familiar e à noite, por baixo dos nón transformados em candeeiros, é um pedaço do sudeste asiático na baixa do Porto. 

O bem receber não diferencia nem faz separações. No final uma surpresa que nos motivou ainda mais a voltar. Um shot de aguardente de arroz para enfrentar o frio de mais uma noite no Porto em que estivemos por algumas horas na companhia de três amigas de adolescência e no caminho para o carro partilhámos o nosso imaginário sobre esse país tão distante, mas apelativo, seja pela voz de Robin Williams que nos diz “Good Morning, Vietnam” ou por outras referências literárias e fílmicas que alimentam e alimentaram o nosso imaginário. Mot, Hai, Ba, Yo!

Texto: Cláudia Zafre

Resumo O poder das palavras é intenso e quando aliadas num contexto forte são regeneradoras e adjuvantes para almas mais tranquilas e/ou...

Resumo
O poder das palavras é intenso e quando aliadas num contexto forte são regeneradoras e adjuvantes para almas mais tranquilas e/ou solitárias. A poesia ergue-se no hemisfério do mundo das palavras como um santuário que acolhe o autor e o leitor. O/a compositor/a de versos, o dito poeta/poetisa, faz com que dele brotem versos que encontram a sua verdadeira significação nos leitores. 

A transmissão escrita e oral de pensamentos e sentimentos tem uma história remota e os nossos antepassados fruíram de escritos, seja em verso ou prosa que iluminaram o caminho de muitos/as pensadores/as e criadores/as. 

Desde os tempos da Grécia e Roma antigas, foram algumas as mulheres que se destacaram no campo da escrita e cujo legado, infelizmente, foi desvanecendo com o tempo, restando em alguns casos, apenas fragmentos que se mantêm e que podem ser reconfigurados, analisados e apreciados à luz dos nossos dias. 

Palavras-Chave: Poesia, Grécia antiga, Roma antiga, mulheres poetas 

GRÉCIA 

1 - Espadas e Canas 


Plutarco, filósofo e historiador escreveu o seguinte sobre as virtudes das mulheres na sua conhecida obra, Morália: 

De todos os feitos realizados por mulheres em prol da comunidade nenhum é mais famoso do que a batalha contra Cleomenes por Argos (494 B.C) na qual, as mulheres ficaram sob o comando de Telesilla, a poeta.

Telesilla, de acordo com relatos, era filha de uma casa nobre, mas muito débil fisicamente, por isso, foi enviada ao oráculo para saber mais sobre a sua saúde; e quando o oráculo lhe revelou que devia cultivar as Musas, ela seguiu esse conselho rapidamente e ao devotar-se à música e à poesia rapidamente se curou dos seus problemas físicos e passou a ser admirada pelas mulheres devido ao seu talento poético.

Trata-se de um registo histórico sobre Telessila, uma das poetas mais influentes e inspiradoras da Grécia Antiga, apesar de nos nossos dias, apenas restar da sua obra um pequeno fragmento que evidencia uma métrica distinta, como afirmam vários estudiosos. 

Além da métrica, Telessila também se destacou por ter inventado algumas palavras com definições muito concretas, tais como ‘oulokikinna’ (cabelo encaracolado) e ‘dilon’ (eira). A sua inclinação para a escrita manifestava-se no estilo de poesia lírica que escrevia dedicada ao deus Apolo e à deusa da caça, animais selvagens, castidade e maternidade Artemis, conhecida como Diana na Roma antiga. 

Os seus feitos de bravura na defesa militar de Argos com um exército de mulheres estão descritos nos trabalhos de Pausanias, um antigo geógrafo e viajante de origem grega.

2 - Poeta da vida selvagem 


Anite de Tégea foi uma das poetas da Grécia Antiga com a maior quantidade da sua obra preservada até aos dias de hoje. Anite escrevia primordialmente epigramas sobre a natureza e epitáfios, sendo que os que escrevia sobre a relação entre o homem e o mundo animal e natural eram extremamente populares. 

Aqui está um epitáfio escrito sobre um animal de estimação: 

You died, Maira, near your many-rooted home at Locri, swiftest of noise-loving hounds; A spotted-throated viper darted his cruel venom into your light-moving limbs.

O seu talento era reconhecido e Anite era requisitada muitas vezes para escrever epitáfios para famílias que sofriam a perda dos seus animais de estimação. 

Os epigramas helénicos conheceram um período frutuoso, no qual os poetas encontravam nessa forma curta, mas intensa, uma maneira eficaz de transmitir o quotidiano de indivíduos simples e as suas relações com familiares e amigos. 

Anite, assim como Nossis e Erina, foi das primeiras mulheres poetas helénicas que se concentrou em epigramas que descreviam o quotidiano de mulheres, as suas perdas, triunfos e pequenas conquistas. Dessa forma, a mulher enquanto poeta foi ganhando mais força no mundo patriarcal da Grécia Antiga. 

3 - Adivinhas sagazes 


Na antiguidade, os músicos serviam-se de instrumentos feitos a partir de ossos e peles de animais. Na Grécia antiga, muitas flautas eram feitas de ossos das pernas de faunos, no entanto, alguns músicos descobriram que as pernas dos burros conferiam um som mais perfeito. Foi desta constatação que nasceu um dos ditos de Cleobulina mais populares acerca da flauta de Frígia, para nos fazer pensar que um animal aparentemente pouco musical, pode providenciar após a sua morte, um dos melhores sons imagináveis. 

A dead ass boxed my ear with his horned shin-bone.

Alguns académicos e outros estudiosos duvidam da existência real de Cleobulina de Ródes e avançam com a teoria de que se trata somente de uma personificação de uma mulher anónima que fazia adivinhas, no entanto, Cleobulina continua a ser sinónimo de uma mulher poeta perspicaz e sagaz que usando pequenos versos conseguia fazer meditar sobre pequenos aspectos do quotidiano da Grécia Antiga. 

As adivinhas, enquanto expressão escrita, adquiriam para alguns estudiosos, segundo Aristóteles, a mesma importância que a poesia ou que os jogos de palavras inteligentes. Essa importância deriva do cerne sofisticado que uma adivinha contém, sendo que para Aristóteles seria uma descrição de algo real, mas com um pressuposto que parece descrever algo intangível ou mesmo impossível. Essa qualidade fez com que contar advinhas fosse uma das actividades predilectas de certos atenienses depois de um longo banquete. 

Apesar de restarem dúvidas sobre a natureza (se ficcional ou real) de Cleobulina, não se pode negar que esta é um símbolo de uma mulher com um elevado grau de educação e que sabia misturar com mestria inteligência e humor. 

4 – Mirtis de Antedônia 

A poesia lírica de origem grega era primeiramente composta para ser cantada. É-nos revelado através de relatos históricos que uma das vozes mais encantadoras era de uma mulher chamada Mirtis de Antedônia. Infelizmente, nenhum dos seus poemas ficou registado para a posteridade, mas a sua influência era enorme e estudiosos da antiguidade elegem-na como umas das melhores mulheres poetas do seu tempo.

A sua fama foi suficiente para que da sua figura fosse feita uma estátua em bronze e alguns dados sugerem que terá sido professora de uma outra poeta grega de importância, Corinna de Tângra.

5 – Eros personificado

 Sappho (1877) de Charles Mengin 
                                   
Um dos nomes mais reconhecidos da antiguidade. Safo foi descrita por Platão como a décima musa e deixou para a posteridade um legado poético considerável. 

Os dados da sua biografia são nos trazidos por dedução analítica da sua poesia. Sabe-se que era de uma família com algum prestígio e poder de Mitilene e que, supostamente, fundou uma escola para mulheres que viajavam de vários lugares da Grécia para serem alunas de Safo. Nessa escola, Safo dava aulas de poesia, dança e música, sendo que a arte poética estava intimamente ligada à música com os versos a serem recitados acompanhados por uma lira. 

A poesia de Safo é imediata e magnetizante pela seu carácter vibrante e apaixonado, cimentando-a como uma figura apaixonante e apaixonada por mulheres. Essa paixão é lida em duas vertentes, uma que afirma que Safo apenas nutria um amor filial, leal e de profunda admiração pelas mulheres que conheceu ao longo da sua vida e sobre as quais escreveu poemas e uma outra que considera essa mesma paixão numa vertente mais carnal, passional e sensual, sendo Safo o símbolo do amor homossexual entre mulheres. Sáfica deriva de Safo e lésbica deriva da ilha de Lesbos, da qual Safo era natural. 

Safo continua a ser nos dias de hoje uma poeta vibrante e apaixonada que pintou em versos directos, mas intensos, os vários espectros do amor. 

6 – A Roca

  Erinna por Rembrandt Peale (1845)
                                    
Os relatos históricos contam-nos que Erina faleceu precocemente, apenas com a idade de 19 anos, mas deixou um poema longo intitulado “A Roca” do qual restam hoje em dia, apenas alguns fragmentos. 

O poema é imiscuído na dor pessoal pela perda de Báucis, uma amiga sua muito próxima. A análise do longo fragmento que nos resta do poema mostra-nos que a primeira parte se centra na amizade com Báucis. Nos jogos que jogavam enquanto crianças, sendo que um deles se destaca e se chama chelichelone (jogo da tartaruga). 

Este jogo é de cariz oral e era frequentemente jogado por duas raparigas. Uma delas estava sentada a realizar alguma tarefa e a outra acercava-se dela, fazendo-lhe um jogo de perguntas que culminava com o verbo “saltar”, momento em que a rapariga se levantava e corria para apanhar a outra rapariga, numa emulação do jogo da “apanhada”. Assim que a conseguisse apanhar, a rapariga tornava-se ela a tartaruga, assegurando a circularidade do jogo. 

No poema, há também alusões a uma criatura mítica chamada Mormo, uma espécie de papão da Grécia Antiga. Mormo era um espírito feminino do folclore grego que as mães utilizavam em histórias para assegurar o bom-comportamento das crianças. 

Apesar da sua curta existência física, Erina é tida como uma das figuras incontornáveis da poesia da Grécia Antiga e é tida como uma das companheiras de Safo. 

7 – Lendas e heróis

 Corinna of Tanagra de Frederick Leighton 
                                                   
Corina de Tângra é considerada uma das Nove musas da poesia da Grécia Antiga e alguns relatos colocam-na como contemporânea do poeta Pindar, que assim como Corina também se dedicava à poesia lírica coral. 

Cerca de 42 fragmentos da sua poesia sobreviveram até aos dias de hoje, não existindo qualquer poema completo. Apesar de fazer parte da tradição de poesia escrita por mulheres, de acordo com a professora universitária e autora, Marilyn Skinner, a poesia de Corina distinguia-se da de Safo por ser escrita de um ponto de vista patriarcal. 

A sua poesia focava-se muito nas lendas de Boécia, a sua terra natal, e como tal, o seu trabalho pareceu não interessar muito aos críticos, no entanto, o seu trabalho é muito relevante como uma das mulheres poetas com a maior quantidade de obra preservada até hoje. 

8 – A voz de Eros

 Nossis por Francesco Jerace 
                                                                               
Nossis nascida em Locris, assim como Anite e Erina, foi uma das primeiras mulheres a escrever poesia com o intuito sério desta ser considerada literatura, e assim como as duas poetas acima referidas, retratava também o quotidiano de mulheres e outras figuras normalmente não representadas na tradição poética da Grécia Antiga. 

A poesia escrita por Nossis era influente e foi Antipater que inventou a palavra “Thelyglossos” como alcunha, significando literalmente “língua feminina” para descrever Nossis. Alcunha que reforçava o carácter feminino da sua poesia. 

Nos seus poemas está presente uma admiração pela poesia de Safo, e crê-se que Nossis era uma poeta bastante confiante e interessada em disseminar a sua arte poética. 

Assim como Safo, Nossis também se centrava na temática do Amor, era uma poeta dedicada ao Eros e existe até aos dias de hoje, um epigrama seu dedicado a Eros. 

Nada é mais doce que o amor. Tudo mais o que se deseja 
É-lhe secundário. Cuspo até mel pela minha boca. 
Nossis diz isto: Aquela que nunca foi amada por Afrodite 
Essa mulher não sabe que tipo de flores as rosas são

Para alguns estudiosos, os versos apresentam um cariz um pouco erótico, mas estabelece a identidade da poeta como uma legitima poeta do amor. Nessa perspectiva, Nossis lidera o caminho de Eros da perspectiva de uma mulher e para uma mulher, obliterando o domínio patriarcal sobre os desejos sensuais. Nossis exalta apenas o lado “doce” e positivo do amor, olvidando o seu lado ora negro, ora tortuoso que traz dor e infelicidade. Para Nossis, amor é apenas luz e rosas sem espinhos. 

Assim como Safo, Nossis continua a ser até aos dias de hoje, uma das mais influentes mulheres poetas da antiguidade e uma porta-voz de Eros. 

9 – Banquetes e canções

   Praxilla por John William Godward 
                                       
Praxilla figura também como uma das nove musas descritas por Antipater. Alguma da sua obra sobreviveu até aos dias de hoje, mas dados biográficos são inconclusivos. Restam-nos algumas das peças escritas por si, entre elas, ditirambos, hinos e canções inspiradas em Baco. 

Há várias teorias relativamente à posição social de Praxilla, mas uma delas avançada pelo professor e autor, Ian Plant, é que Praxilla seria músico profissional que se dedicava a canções para festins e banquetes. 

Apesar da falta de informação e detalhes acerca da sua biografia, Praxilla continua a ser uma das nove mulheres poetas imortais eleitas por Antipater.

(CONTINUA...)
Texto: Cláudia Zafre

Pedal to the Mental é uma rubrica que narra os episódios quotidianos de infortúnio, má sorte, felicidade, júbilo ou simplesmente banais d...

Pedal to the Mental é uma rubrica que narra os episódios quotidianos de infortúnio, má sorte, felicidade, júbilo ou simplesmente banais de pedais que nasceram para a música, mas cujas vidas vão bem mais além. 



Pedal to the Mental is a themed series that tells the stories of misfortune, bad luck, happiness, joy or simply mundane of a group of pedals that were born for music but whose lives are way more complex. 



Ilustração & Ideia Original | Illustration & Idea: Priscilla Fontoura
Frase | Quote: Cláudia Zafre
Criação | Idea: Cláudia Zafre, Priscilla Fontoura, SP

Tradução | Translation: Cláudia Zafre

Movidos freneticamente pelo sentido de humor, virtuosismo e à vontade, para fundir vários géneros musicais, a banda de nome curioso, H...


Movidos freneticamente pelo sentido de humor, virtuosismo e à vontade, para fundir vários géneros musicais, a banda de nome curioso, Hardcore Anal Hydrogen chega do Mónaco. País que cresce nos imaginários pelo seus casinos, pratos requintados de bisque de lagosta e mulheres esbeltas com vestidos de noite, HAH oferece-nos um outro lado, o do metal extremo sem barreiras, limites e descomplexado. Assim como bandas da nossa infância que nos embalaram no berço como AxC de Seth Putnam, o sentido de humor é vigoroso e imprevisível. 

O seu álbum mais recente, Hypercut, é recheado de 14 temas bombásticos e estilisticamente livres e versáteis, mostrando que as sonoridades mais extremas podem ser também um pátio de diversões para emulações sonoras eclécticas e bom humor. As referências que a banda cita são variadas e vão desde The Beatles até Meshuggah e os incontornáveis Napalm Death, passando por algumas mais peculiares e interessantes como Little Richard ou Jean Michael Jarre

Pedimos a esta banda irreverente do Mónaco, as suas referências e aqui estão elas: 

SACHA
Livros:
- Traité des objets musicaux, Pierre Schaeffer 
- Un bunker en banlieue, Jean-Louis Costes 
- L'arte dei rumori, Luigi Russolo 
- Notes of a Dirty Old Man, Charles Bukowski 
- Histoire et bizarreries sociales des excréments, Martin Monestier 

Discos:
- Close to the Edge, Yes 
- 4’33, John Cage 
- Arkheion, Christian Zanési 
- C'era una volta nell'ovest, Ennio Morricone 
- Scum, Napalm Death 

Filmes:
- Eraserhead, David Lynch 
- Sånger från andra våningen, Roy Andersson 
- La montaña sagrada, Alejandro Jodorowsky 
- Salò o le centoventi giornate di Sodoma, Paolo Pasolini 
- Toxic Avenger, Lloyd Kaufman‎ & Michael Herz 

MARTYN
Livros:
- Dans les forêts de Sibérie, Sylvain Tesson
- Le temps existe-t'il, Etienne Klein
- Zai Zai Zai Zai, Fabcaro
- Python, The Bible 

Discos:
- Ire Works, The Dillinger Escape Plan 
- The new black, Strapping Young Lad 
- Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, The Beatles 
- Disco Volante, Mr Bungle 
- Young modern, Silverchair 

Filmes/Séries 
- Interstellar, Christopher Nolan 
- No Country for Old Men, Ethan Coen, Joel Coen 
- Into the wild, Sean Penn 
- Airplane!, Zuckers & Abrahams 
- Black mirror, Charlie Brooker

                                                             - TRANSLATION - 


Frantically propelled by a unique sense of humor, virtuosity and the need to mix several different genres, the band with the curious name, Hardcore Anal Hydrogen hails from Monaco. A country that grows in our imaginaries due to its casinos, bisque lobster dishes and slender women with evening dresses, HAH gives us another edge, the extreme metal that holds no barriers, limitations and that is free of complexes. Just like our childhood bands such as Seth Putnam’s AxC that rocked us in our cribs, the sense of humor remains vigorous and unpredictable. 

Their latest album, Hypercut is filled with 14 songs that are both powerful and stylistically free, showing us that extreme music can be a recreation place for eclectic sound emulations and good humor. The references the band cites are varied ranging from The Beatles to Meshuggah and the unavoidable Napalm Death, and passing through some that are peculiar and interesting like Little Richard or Jean Michael Jarre

We asked this irreverent band from Monaco their references and here they are:

SACHA
Books:
- Traité des objets musicaux, Pierre Schaeffer 
- Un bunker en banlieue, Jean-Louis Costes 
- L'arte dei rumori, Luigi Russolo 
- Notes of a Dirty Old Man, Charles Bukowski 
- Histoire et bizarreries sociales des excréments, Martin Monestier 

Records:
- Close to the Edge, Yes 
- 4’33, John Cage 
- Arkheion, Christian Zanési 
- C'era una volta nell'ovest, Ennio Morricone 
- Scum, Napalm Death 

Films:
- Eraserhead, David Lynch 
- Sånger från andra våningen, Roy Andersson 
- La montaña sagrada, Alejandro Jodorowsky 
- Salò o le centoventi giornate di Sodoma, Paolo Pasolini 
- Toxic Avenger, Lloyd Kaufman‎ & Michael Herz 

MARTYN
Books:
- Dans les forêts de Sibérie, Sylvain Tesson
- Le temps existe-t'il, Etienne Klein
- Zai Zai Zai Zai, Fabcaro
- Python, The Bible 

Records:
- Ire Works, The Dillinger Escape Plan 
- The new black, Strapping Young Lad 
- Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, The Beatles 
- Disco Volante, Mr Bungle 
- Young modern, Silverchair 

Films/TV Shows
- Interstellar, Christopher Nolan 
- No Country for Old Men, Ethan Coen, Joel Coen 
- Into the wild, Sean Penn 
- Airplane!, Zuckers & Abrahams 
- Black mirror, Charlie Brooker

Texto | Text / Tradução | Translation: Cláudia Zafre
Escolhas | Choices: Hardcore Anal Hydrogen 

Imagem de  Camila Sánchez                                                                    Suco de Lúcuma aventura-se pelo psica...

Imagem de Camila Sánchez
                                                                  
Suco de Lúcuma aventura-se pelo psicadelismo e fusões de ambiente ora tropical, ora magnetizado e pela introspecção sofisticada da pop da década de 80. A banda formada por Thomáz Bonatto (guitarra e voz), Carlos Bechet (guitarra e voz), Vicente Pizzutiello (bateria) e Felipe Pizzutiello (baixo) prepara-se para o lançamento do seu disco de estreia, “Quase Rosa, Quase Azul”, enquanto isso, já disponibilizaram 3 singles que obtiveram bastante rotação.

O trio de singles é o prenúncio de um disco construído na diversidade sonora e nas experimentações em estúdio que realçam o carácter av
entureiro da banda para quem procura a convergência e a multiculturalidade sonora.

"Eu e Bechet não tivemos uma pretensão específica de sonoridade quando começámos a produzir, mas é forte o saudosismo porque algumas bandas como Pink Floyd, Soft Machine, Can, The Doors realmente permearam as mais impressionantes experiências musicais."


- A lúcuma é um fruto bastante popular no Peru e é um dos seus frutos considerados oficiais. Qual a base para a escolha do nome da banda? O que é que esse fruto simboliza para vocês? 
- Para o Bechet, o nome tem bastante a ver com a infância e a adolescência, a um período de formação de gostos musicais, principalmente. Ao vir para o Brasil e passar pela faculdade de música, na qual muitas convenções tradicionais são impostas, foi crescendo a necessidade de saudar esse primeiro contacto genuíno e muito exploratório com a música. “Jugo de Lúcuma” também é uma canção de Luis Alberto Spinetta, compositor argentino que influenciou muito o Bechet nesse período. 

- Suco de Lúcuma é uma banda muito jovem, existindo desde finais de 2018. Antes de Suco de Lúcuma, estiveram envolvidos em outros projectos musicais? 
- Na verdade começámos a compor as músicas da banda no fim de 2017. Antes disso tivemos outros projetos, e por cerca de 2 anos tivemos uma banda de tributo a soul music onde eu conheci Pizzu, e Bechet foi produtor de duas faixas promo. Os irmãos Pizzu também participam de vários projetos de música instrumental. Mas Suco de Lúcuma foi nossa primeira experiência de banda autoral com canções. 

- A banda traz reminiscências muito vibrantes da música progressiva e psicadélica, apesar de ter uma abordagem muito moderna e fresca. O que é que inspirou essa fusão do moderno/presente com o passado? 
- O que nos inspira são as nossas referências musicais. Eu e Bechet não tivemos uma pretensão específica de sonoridade quando começámos a produzir, mas é forte o saudosismo porque algumas bandas como Pink Floyd, Soft Machine, Can, The Doors, realmente permearam as mais impressionantes experiências musicais. Aparte do clássico, era inevitável unirmos elementos da música contemporânea que gostamos de ouvir, como a levada rítmica estilo Hip-Hop shuffle, o laidback da Neo Soul, e efeitos de edição/pós produção que exploramos no software. 

"Além do subjectivo, abstracto, víamos essa dualidade que acabou se ampliando e reflectindo nas composições, criando um binário de canções inter-relacionadas. A capa é para nós um mapa do(s) disco(s), e a capa de cada single uma ampliação desse mapa."


- O vosso álbum de estreia, “Quase Rosa, Quase Azul” é esperado para o início de 2020. Enquanto isso, já lançaram 3 singles que antecipam esse trabalho. Consideram que existe uma linha condutora ou tema central que liga os 3 singles? 
- Existe uma linha condutora de carácter sonoro, pela qual buscamos mostrar o universo estético do álbum, nossa formação, a instrumentação, a divisão de vozes… 

- Sabemos que a arte para as capas dos vossos singles é influenciada pelo teste de Rorschach. Qual a mensagem ou conceito que pretendem transmitir/expressar através desse artwork? 
- A capa do disco é uma representação gráfica do disco em si, da ideia abstracta da obra. Mas é muito significativo para a gente que ela veio entes de quase tudo, antes da banda iniciar os trabalhos no estúdio, arranjo, gravação, antes da maioria das músicas existirem, de fazer qualquer show. Criar essa arte, fotografar, editar e escolher a cor de fundo foi um processo muito intuitivo, e nessa sessão terminámos com duas opções para o fundo, uma rosa e uma azul. Além do subjectivo, abstracto, a gente via essa dualidade que acabou se ampliando e reflectindo nas composições, criando um binário de canções inter-relacionadas. A capa é para nós um mapa do(s) disco(s), e a capa de cada single é uma ampliação desse mapa. 


"A letra de Nada no Ar é uma variação de um poema que o Bechet fez em automatismo. Ela foi escrita em espanhol, em fluxo de consciência, não era pensada para ser uma música, era mais como um poema em lamento. Nessa época a gente morava junto e eu fiquei muito afim de cantar aquilo em português. O Bechet já pirava em Caetano, Chico, Mutantes lá em Lima, então a gente traduziu e estruturou-a num formato de bossa-nova bem standard e ficava tocando, e assim ela viveu até 2018."

  Imagem por Camila Sánchez  

- O vosso single mais recente, “Nada no Ar”, tem um carácter muito introspectivo liricamente e uma sonoridade que roça a tropicália. Como brotou a composição? As melodias surgiram primeiro que as letras ou foi um processo em simultâneo? 
- Essa é a composição mais antiga de todas no disco, de uns 5, 6 anos atrás. A letra de Nada no Ar é uma variação de um poema que o Bechet fez em automatismo. Ela foi escrita em espanhol, em fluxo de consciência, não era pensada para ser uma música, era mais como um poema em lamento. Nessa época a gente morava junto e eu fiquei muito afim de cantar aquilo em português. O Bechet já pirava em Caetano, Chico, Mutantes lá em Lima, então a gente traduziu e estruturou-a num formato de bossa-nova bem standard e ficava tocando, e assim ela viveu até 2018. Quando já tínhamos algumas composições pro disco, resolvemos inserir Nada no Ar, então re-arranjamos para dentro do universo que vinha se formando, e aí deu no que deu. 

- “Fios de Desejo”, um single também editado em 2019 e da qual foi gravada uma sessão ao vivo, tem uma atmosfera bastante fluída, mas um certo carácter exploratório. A nível de percussão, parecem quase beats de hip-hop e há também um baixo saltitante ao jeito de certas bandas new-wave dos anos 80. Liricamente, há espaço para cada palavra e um grande cuidado com a métrica de cada verso e a sua colocação na melodia. Nota-se um grande eclectismo no que respeita às influências musicais. Sentem afinidade com o universo do Hip-Hop e há espaço para essa sonoridade? 
- Sim, com certeza! A gente não tem uma tradição de Hip-Hop, mas o groove sempre esteve presente nas coisas que a gente gosta mais, seja Soul, Jazz, Funk... Tudo isso permeia o Hip-Hop, e é muito marcante na nossa formação musical também. As músicas da banda no geral têm esse tom de exploração, a gente se sentiu muito num laboratório quando fizemos as músicas, criámos os grooves e os arranjos em ensaio. Queríamos realmente misturar tudo que a gente gostava mais das nossas influências, então resumindo um pouco, dá para dizer que a parte da cozinha é mais nutrida no groove, nos beats, na coisa de ser “tight”, de ter uma levada "laid back", ou do Hip-Hop shuffle como em Fios de Desejo. 

- O que é que podem adiantar desde já sobre “Quase Rosa, Quase Azul?” 
- É uma obra composta de dois discos, cada um com 8 faixas e 27 minutos de duração.

Texto & Entrevista: Cláudia Zafre
Banda: Suco de Lúcuma (Thom Bonatto)
Imagens: Camila Sánchez