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I was so confused by her.  By her naïveté mixed up with her worldliness,  by her beauty that was so unattended by vulnerability. The Knockou...


I was so confused by her. 
By her naïveté mixed up with her worldliness, 
by her beauty that was so unattended by vulnerability.

The Knockout Queen, no mais recente romance de Rufi Thorpe entramos no mundo de Michael, um rapaz de sensibilidade arguta e sincera, que se vê a viver na cidade ficcional de North Shore, ainda dominada por preconceitos, dogmas e incidentes esporádicos de violência extrema, que ao contrastarem com a ambiência pacata e limpa da cidade, fazem com que esses actos pareçam ainda mais monstruosos. 

Michael, fruto de uma família disfuncional, pontuada por episódios de violência doméstica, vê-se à mercê do sistema, depois da sua mãe ser presa, e ter de ir viver para casa de uma tia em North Shore. É nessa cidade aparentemente incompreensível e aborrecida para Michael, que encontra Bunny, uma rapariga atlética e também ela proveniente de um seio familiar marcado pela tragédia. Bunny e Michael encontram vários pontos em comum e formam uma amizade intensa e marcante, que irá perdurar no imaginário de Michael mesmo quando se torna adulto. 

Além de retratar uma história de amor filial bastante peculiar, o romance aborda também questões pertinentes de género, sexualidade e o que motiva certos actos de violência extrema. Um livro que aborda um coming-of-age complexo, intenso e que nos agarra desde a primeira página à última. 


Ao ler, senti também reminiscências de dois outros romances que retratam ritos de passagem igualmente peculiares e fantásticos, como em Junk de Melvin Burgess e Middlesex de Jeffrey Eugenides. Uma boa leitura, não só para aficionados de ficção “coming-of-age”, mas para todos aqueles que gostam de um romance com um narrador cativante que nos guia por uma adolescência labiríntica como também sensitivamente excitante.

“Bunny,” I said, “judges don’t like violent women. I don’t know how to say this. My mom cut my dad superficially with a fruit knife and she got three years. If a man had done it, if it was just a regular domestic violence dispute and the woman who got stabbed, he probably wouldn’t have even seen the inside of a jail cell.”


Texto e sugestão: Cláudia Zafre

“Hush, child. Don't be so hard on yourself. Everyone gets to start over again. This America, hon. One dream dies, you get another.”  Lak...

“Hush, child. Don't be so hard on yourself. Everyone gets to start over again. This America, hon. One dream dies, you get another.” 

Lake Success é o quarto e mais recente livro de Gary Shteyngart, um escritor nascido na Rússia que emigrou para os Estados Unidos no final da década de 70. O seu trabalho é dominado pela sátira, misturando crítica social com uma dose soberana de humor e drama. 

A narrativa centra-se em Barry Cohen, um bilionário (ou perto disso) administrador de hedge-funds que, após uma discussão com a sua esposa, embarca numa viagem de autocarro por uma América dividida pelas eleições presidenciais que garantiram a vitória de Trump. Barry conhece uma América com quem tinha deixado de ter contacto, uma América real que nunca mais penetrou na vida super privilegiada que levava. 

Gary Shteyngart, sem nunca perder uma boa dose de humor, aborda temáticas como identidade, casamento e outros mais delicados como a síndrome de autismo. Lake Success é uma odisseia por uma América dividida nas vésperas de uma eleição, cujo resultado ainda a dividiu mais. 

Laureado como um dos livros mais importantes de uma América pré e pós Trump, Lake Success é uma obra que tem tanto de terno quanto de divertido, em suma, faz-nos reflectir sobre o que é verdadeiramente essencial na vida, através dos olhos de um herói improvável.

Texto: Cláudia Zafre

Valentine é o romance de estreia da escritora norte-americana Elizabeth Wetmore que nos transporta para o boom de petróleo no Texas nos a...


Valentine é o romance de estreia da escritora norte-americana Elizabeth Wetmore que nos transporta para o boom de petróleo no Texas nos anos 70, mais propriamente em Odessa. 

A economia de Odessa é motivada simplesmente pelo “sangue” da terra, o petróleo, o novo el dorado de quem procura ganhar uma fortuna rapidamente. Assim como a substância negra que dá sonhos libidinosos a qualquer magnata, também a atmosfera do romance é densa e pesada. 

A narrativa é contada através das perspectivas das várias personagens, todas elas mulheres e habitantes de Odessa. Este hyperlink é gerido de forma magistral pela escritora, que consegue construir uma narrativa sobre minorias e como o crime é visto numa comunidade pequena. 

A narrativa começa com o abuso sexual e físico de uma rapariga mexicana de 14 anos que consegue fugir do seu agressor e buscar refúgio no rancho de Mary Rose. A partir daí, a cidade vira-se contra Mary Rose que começa a receber todo o género de ameaças por estar a defender uma “mexicana” contra um rapaz branco de boas famílias. 

A sequência narrativa do julgamento, e todo o subtexto da história de como um crime é visto numa pequena cidade quando envolve minorias, é francamente reminiscente do clássico How to Kill a Mockingbird de Harper Lee, apenas uma referência numa história que apresenta um mosaico de personagens femininas fortes, mas com algumas fragilidades. 

Apesar de vislumbrarmos o possível final e com a ideia premente que a justiça nem sempre é cega ou justa como é indicativo da sua premissa natural, percebemos que romances como Valentine continuam e vão continuar a ser necessários para nos lembrar que há histórias que não culminam em vitórias, mas apenas em sobrevivência e que a luta essa continuará sempre. 

Valentine é um romance escrito com tal fluidez e riqueza de personagens, os subplots de cada personagem e mundos interiores estão de tal forma desenvolvidos, que é como se o leitor fosse também ele de Odessa. Uma pequena cidade perdida no Texas, esburacada e explorada ao máximo para obter petróleo e o lugar de sonhadoras e sobreviventes.

Texto e Sugestão: Cláudia Zafre

The Vegetarian , romance da escritora sul-coreana Han Kang , vencedora do prémio Man Booker prize em 2016, é uma obra cujo relato da metamor...


The Vegetarian, romance da escritora sul-coreana Han Kang, vencedora do prémio Man Booker prize em 2016, é uma obra cujo relato da metamorfose da personagem principal é de uma violência tão vibrante que, mesmo após a leitura integral, somos deixados com uma sensação de angústia permeada por alguma tontura existencial. E porquê? Porque o estilo de Han Kang não é certamente polido ou virtuoso, mas psicografa com exactidão e brutalidade, os pensamentos e emoções das personagens que batalham interiormente com as suas neuroses e dificuldades emocionais numa sociedade sul-coreana altamente organizada e disciplinada, patriarcal e ainda sustentada por tradições familiares. 

A obra é a primeira de Han Kang traduzida para inglês (por Deborah Smith) e está dividida em três partes que serpenteantes unem uma narrativa extrema, gráfica no subtexto interligado de sexo e psicose, comovente na descrição poética da metamorfose decandentista da personagem principal. 

A narrativa centra-se em Yeong-hye, uma dona-de-casa que é inicialmente introduzida pelo próprio marido como uma mulher comum, como qualquer outra e sem qualquer particularidade exótica ou estimulante, mas com quem casou por esta se mostrar apta para ser uma boa dona de casa, cumpridora, boa cozinheira e responsável nas lides domésticas. Somos assim introduzidos a um casamento pragmático e respeitável aos olhos conservadores de uma sociedade tradicional sul-coreana. 

Yeong-hye pode parecer apenas mais uma dona de casa, mas isso é uma impressão que muda subitamente e bruscamente quando percebemos que é assolada e atormentada por sonhos de violência bastante gráfica. São esses sonhos que a motivam a deixar de comer carne por completo, o que se tornará um problema para o marido e a restante família que não conseguem compreender ou sequer aceitar a sua nova escolha. 

Uma escolha que é também uma alegoria, para uma revolta em relação a uma sociedade patriarcal e que representa também a metamorfose de Yeong-hye de dona de casa submissa e quase mulher stepford para uma criatura livre, selvagem, semelhante ao modelo de bom selvagem de Rosseau. Yeong-hye começa a perder o contacto com a realidade exterior, assim como com os modelos preconizados de moralidade, não existindo regras ou limites morais para a sua conduta, tornando-se tão livre como sujeita a abusos e brutalidades. Torna-se uma flor selvagem, inocente e pura, mas vulnerável à violência por não a saber distinguir de outra coisa qualquer. 

The Vegetarian é uma obra de uma imagética potente, quase cinematográfica, não sendo surpresa já ter sido adaptado para cinema em 2007. O filme realizado por Woo-Seong Lim é uma adaptação que tenta ser fiel ao livro, não desvirtuando ou obliterando as passagens mais gráficas e perturbantes do romance, no entanto, não consegue mostrar a tridimensionalidade e densidade dramática das personagens. 

O romance poderia ser refeito novamente para tela e, nesse caso, há dois realizadores que poderiam fazer deste conto de moralidade contemporâneo uma viagem alucinante e eles são Sion Sono ou Takashi Miike

Um livro que não agrada a todos, mas que, mesmo após lido, deixa a sua indelével impressão.

Texto e sugestão: Cláudia Zafre