Em 1984, os Telectu foram tocar ao Centro Pompidou, integrado na semana portuguesa de performance; vários performers portugueses estiveram p...


Em 1984, os Telectu foram tocar ao Centro Pompidou, integrado na semana portuguesa de performance; vários performers portugueses estiveram presentes; os melhores; recordo-me que o Gerardo Burmester, foi uma semana antes – como nós –, para se preparar para o seu show, que tinha a duração de 50 segundos apenas, e que consistia em entrar vestido de smoking preto, com uma mala preta na mão, enquanto a luz é a de um strawb em rotação rápida; ele entra em palco, abre a mala e deixa cair centenas de bolas de ping-pong no chão que se encontra amplificado por microfones. Nós, Telectu, estávamos ali para fazer música para o performer Manoel Barbosa; e o Barbosa pediu-nos para fazermos o som mais alto e mais estridente que pudéssemos, enquanto as luzes, eram holofotes de aeroporto brancos, apontados para o público, mais todas as luzes brancas do Grande Auditório do Centro Pompidou. Mal dá início o show, o público nem sabe se há-de tapar os olhos (por causa da intensidade das luzes), ou os ouvidos (pela intensidade sónica); por sua vez a performance de Barbosa, consistia na existência de um monte de areia branca em palco, no centro; ele tinha duas varas uma em cada mão, como se fossem as varas dos esquiadores; e estava uma lagosta cozida com casca, pousada no cimo do monte de areia; a performance era então o Barbosa de costas para o público a atirar areia para o público (que começou de imediato a levantar-se, porque estava a ficar cheio de areia),e de vez em quando ele parava, para ir dar uma dentada na lagosta; mastigava e engolia e depois lambia e comia areia misturado com a lagosta; e depois – claro –, vomitava; e retomava tudo de novo; esqui na areia; lagosta; vómito; e assim esteve durante 60 minutos; não esquecer que, além da performance, o som continuava sempre no máximo e estridente, e as luzes brancas e intensas; como ele não terminava a performance, entra em palco o organizador, o Egídio Álvaro (especialista em performance portuguesa), e diz virado para o público em francês; "Terminou o concerto de Manoel Barbosa"; o Barbosa olha para ele, mete as mãos nas ancas e diz em português muito alto: "Ainda não terminei"...

Texto e Imagem: Vítor Rua

Os estereótipos muitas vezes conduzem as pessoas a pensamentos errados. Só mesmo uma ficção para mostrar que o inesperado é também possível ...


Os estereótipos muitas vezes conduzem as pessoas a pensamentos errados. Só mesmo uma ficção para mostrar que o inesperado é também possível e o cliché desmontado pelos cérebros mais desafiantes, neste caso o de Özgür Önurme que partilha a realização com Ozer Feyzioglu. A série produzida por Basak Abacigil Sozeri não ditaria que uma discreta empregada de limpeza, proveniente de uma aldeia, sujeita a uma vida difícil, seria uma justiceira pronta a ajustar contas com os que foram encolhendo as possibilidades de ter uma vida mais feliz. 


Fatma inspira, sem saber, um dos seus patrões a escrever um thriller tornando-a protagonista do seu próximo livro. Esta mulher atravessa a pior fase da sua vida: o luto de um ente muito querido. À conta de tal tragédia, Fatma procura vingar-se da forma mais fria e inimaginável, enquanto tenta encontrar o marido Zafer que desapareceu sem deixar rasto; ao mesmo tempo é invadida por memórias em flashbacks de traumas da sua infância. 

Esta série mostra o paradoxo de uma Turquia rural e urbana, e como o garante de muitos influentes e poderosos é conseguido através de "negócios" duvidosos, os abonados das grandes cidades intimidam os mais economicamente vulneráveis, provenientes de aldeias, para vassalos das suas agendas. Há quem tenha chamado à personagem principal de serial cleaner, nome mal empregado pois Fatma age legitimamente - as actividades criminosas a que foi submetida não poderiam deixar quem as praticou impunes, uma vez que a falida "Justiça" se deixa corromper pelo poder, penaliza a vítima e protege o criminoso, como tantas vezes acontece.

Fatma é uma série bem construída e mostra como uma trama um pouco à Promising Young Lady coloca a mulher como eixo central, uma que não se verga e está pronta a fazer justiça pelas suas próprias mãos, por ser vítima da própria Justiça que tanto deixa a desejar e, infelizmente, não actua de forma imparcial. 

Burcu Biricik é Fatma, e o resto do elenco composto por: Ugur Yucel, Mehmet Yilmaz Ak, Hazal Turesan, Olgun Toker, Gulcin Kultur Sahin, Deniz Hamzaoglu e Cagdas Onur Ozturk. O último episódio deixa no ar a possibilidade de uma segunda temporada, no entanto a resposta ainda é ambígua. 


Texto: Priscilla Fontoura

Pode-se afirmar que um realizador é como um maestro que tenta harmonizar os instrumentos de determinada peça musical para que a obra nasça e...

Pode-se afirmar que um realizador é como um maestro que tenta harmonizar os instrumentos de determinada peça musical para que a obra nasça e viva por si. Esse andamento é tocado em O que Arde (Viendra le Feu) do realizador Oliver Laxe de origem galega, a ficção deambula entre géneros cinematográficos, o documentário, conferindo-lhe um olhar realista e credível. Os personagens, cujos nomes empregados são os reais, não levam o espectador ao engano e servem como ponte para mostrar uma realidade ainda muito presente nos nossos dias: a analogia entre a natureza e a natureza humana, ambas contendo em si o poder da destruição e da auto-destruição. 2017 foi marcado por momentos trágicos destacados pelos incêndios que devastaram muitas florestas e casas, tragando assim muitas vidas.


A narrativa de O que Arde traça a história de Amador Coro, o alegado pirómano condenado a prisão por ter provocado um incêndio. Assim que goza os seus dias de liberdade, volta para casa da sua mãe Benedicta, à paz e à sua lida diária, ao trabalho no campo junto dos animais nas montanhas da Galiza. Todo o filme é permeado pelo encanto bucólico e segue o ritmo da vida tranquila. Mas toda a trama precisa de um conflito para que a narrativa tenha impacto, e tal como o filme The Hunt de Craig Zobel, há sempre um bode expiatório para que o real criminoso possa viver e continuar a sua má conduta causando mau dolo, conseguindo sair muitas vezes impune. Aqui não se chega a conclusão, pois a mesma é meramente sugestiva, mas, como seria de esperar, outro fogo devasta a região.

Depois da exibição do filme, na Casa das Artes, no Porto, seguiu-se a intervenção de Sérgio Silva, director de som, que explicou com entusiasmo a fase de rodagem da longa metragem. Detalhou também como conseguiram filmar tão realisticamente os incêndios e como o material se comportou face a temperaturas tão altas. Expôs também a cumplicidade da equipa que foi criando uma relação nos tempos mortos quebrados pelo alerta de incêndios que tanto aguardavam para o filme. Aqui, neste ecrã, observa-se os contratempos que surgem e que atrapalham o trabalho dos bombeiros quando tentam deflagrar um fogo monstruoso. 

O trabalho de som é tratado com delicadeza e sensibilidade, deambulando entre o diegético e não diegético, pontuado por leitmotif e cuja intenção passa por dirigir o espectador para a contemplação e imersão do acontecimento. Destacam-se os não actores, Amador e Benedicta, pois são eles que agarram o espectador, como também o olhar de Oliver e o trabalho de som. Este filme é, igualmente, uma afirmação da zona espanhola tão negligenciada pelo próprio país, por Portugal e por ela mesma, a Galiza tem sido tratada como uma espécie de colónia que só serve para "mariscadas"; é desta que o filme galego mais visto de sempre em Espanha e o primeiro a chegar a Cannes se afirma com independência.  

Da plantação de Eucaliptos - um problema mal resolvido
A plantação de eucaliptos tem sido um problema recorrente e debatido nas esferas públicas. Se levada a cabo ilegalmente, tem como penalidade coimas que podem ir até os 3.700 euros para os cidadãos e até aos 44 mil euros para entidades colectivas. Quem faz dela negócio tem apenas como foco beneficiar empresas produtores de papel com interesses meramente capitalistas em detrimento das florestas e pessoas que precisam do equilíbrio da biodiversidade, natural da região, para que a mesma possa sobreviver com saúde. Nesse sentido, os ministérios realizaram um conjunto de diplomas para complementar e consolidar a estratégia de defesa da floresta e prevenção e combate a incêndios, tendo em vista reforçar o nível de protecção de pessoas e bens e a resiliência do território face à ocorrência de fogos rurais.

Em O Que Arde há uma árvore centenária cujas raízes profundas perduram e sobrevivem à passagem dos séculos. Se se pudesse resumir o filme a uma frase, seria a que Benedicta proferiu:
Causa dor quem vive uma lancinante.

Quando me referia aos esquecidos referia-me ao tipo de situações e de pessoas que são retratadas. Acabam por ser sempre os abandonados pelo sistema, como nessa Galiza rural. Gosto de pessoas rotas [palavra galega para “quebrado”]. Gosto de pessoas rotas porque as pessoas rotas, em geral, têm fissuras no coração e é através dessas fissuras que passa a luz. A luz passa através da rutura do coração. Comovem-me muito esses borderlines, esses outsiders, os solteiros da montanha, os Amadores, tudo isso me comove muito. Isto também existe na cidade: estas pessoas que são muito sensíveis mas que não têm as ferramentas para viver neste mundo, as ferramentas psicológicas para viver num mundo que não tolera a fragilidade, que não tolera as coisas pequenas, que hoje em dia estão esmagadas. E, com elas, o rural também. É um pouco isso. Estes personagens, estes animais feridos que se escondem, que se fecham a mim, comovem-me muito. E as mães, as mães galegas – a Galiza não é uma pátria, a Galiza é uma mátria. É muito mais feminina do que o resto de Espanha. Não é melhor nem pior, mas é, se calhar, mais misteriosa, mais esotérica, mais feminina. Creio que nisso tem algo semelhante a Portugal.


Texto: Priscilla Fontoura

por  Emanuel R. Marque s

Ela é conhecida pelo sentido de humor acentuado que lhe assiste; ela é conhecida pelas telenovelas em que apareceu. Sarah Silverman , cujas ...

Ela é conhecida pelo sentido de humor acentuado que lhe assiste; ela é conhecida pelas telenovelas em que apareceu. Sarah Silverman, cujas feições físicas continuam em pleno estado de conservação, é uma das figuras norte-americanas femininas que provoca gargalhadas a uma multidão pelo seu sentido de humor tão vincado. Nascida em 1970 nos Estados- Unidos, a criativa multifacetada: comediante, actriz, escritora e cantora, aponta muito das suas temáticas para assuntos como racismo, sexismo, homofobia, política e religião de uma forma muito satírica. Silverman foi guionista e participante de Saturday Night Live, criou e produziu também The Sarah Silverman Program. Em 2010, produziu a autobiografia intitulada The Bedwetter. Participou igualmente em vários programas de TV e em filmes como I Smile Back para o qual foi nomeada. A partir de 2016, com a nomeação de Donald Trump para Presidente dos EUA que tomou posse em 2017, a comediante tornou-se cada vez mais politicamente activa. Por outro lado, Maria Ribeiro contracenou em várias telenovelas brasileiras, História de Amor é uma delas. A actriz começou a focar-se mais no Teatro: Confissões de Adolescente, Cabaré Filosófico, A Primeira Valsa, O Inimigo do Povo, Cabaré Filosófico 2 e Separações e Capitu. Em 2001, retornou às telenovelas com A Padroeira. Em 2003, passou do ecrã para detrás dele iniciando-se como realizadora com a curta Vinte e Cinco. Sarah Silverman e Maria Ribeiro poderiam ser irmãs pelos traços físicos que partilham. Destacam-se a expressão dos olhos e o sorriso.

Sarah Silverman e Maria Ribeiro

Texto: Priscilla Fontoura

Género: ambiental, minimalista Disco: Sete Fontes Autor: Homem em Catarse Editora:  Regulator Records e Golden Pavilion Lançamento: 30 de Ab...

Género: ambiental, minimalista
Disco: Sete Fontes
Autor: Homem em Catarse
Editora: Regulator Records e Golden Pavilion
Lançamento: 30 de Abril, 2021

Fotografia: Maria João Salgado

Só existe aquele momento, e a incrível certeza de que tudo sob o sol foi escrito por apenas uma mão. Tal como um piano tocado a duas mãos. Possivelmente nesse balanço poderão perdurar feridas por sarar. Não sabemos se será o caso de Afonso Dorido que atribui a Homem em Catarse o seu alterego musical - um que caminha entre 7 fontes para se lavar nesses tanques regados por águas límpidas e cunhados com nomes diferentes, como se fossem baptismos por imersão que o ligam a uma transcendência. Pêndulo da Sé, Santa Marta das Cortiças, Rua do Souto Deserta, Valsa dos Bicainhos, Pastor da Serra dos Picos, Moinhos de Português, Nascente do Este são os tanques que ligam o trajecto dessa caminhada que se faz entre lugares do Portugal rural, supersticioso, folclórico e ligado às raízes. Acabado de atravessar as Sete Fontes inicia-se o descanso do criador.

É a partir de uma tela em branco de onde parte um ser criado e que agora também é criador de uma reprodução que se devolve ao infinito, à intemporalidade, partindo de uma folha em branco para tecer a sua criação no caos, dá-lhe contorno e forma para extrair afectos dessa peregrinação solitária. A maior linguagem, a arte, cria um finito que restitui o infinito para eternizar sensações - a existência dos afectos para compor a sua obra e a reconciliação entre o Eu e o mundo. 

A obra por fim terminada transforma-se no monumento dessas sensações passadas pelas fontes, pelas lavagens em águas correntes que lavaram um corpo esgotado. O que será a última instância do acto criativo e a sua catarse senão inventar, criar e mostrar afectos desses processos por que passou? A arte luta com o caos para torná-lo sensível.

O último mergulho volta à superfície agora com um corpo revigorado, não é mais o mesmo. Nesta passagem pelas fontes fez-se o trajecto necessário, nessas lavagens veio à superfície um novo Eu. Curado. Esta obra começa e acaba com um piano, despido, sem pressa, aceitam-se as respirações.

O lançamento de Sete Fontes tem como data prevista 30 de Abril, uma data que fecha certamente um ciclo tempestuoso para todos. Chega o vislumbre de um novo mais optimista e persiste o sentimento de superação do trauma para curar feridas que se julgavam congeladas. Seria inevitável esta catarse que se faz com tempo, com a morosidade implícita em cada tecla, presente nos silêncios, na dor, na cura, nas interrogações e nas respirações, às vezes curtas, outras vezes prolongadas.

O disco remete para a última obra de Kaada, por mais que Misinterpretations seja um disco de reinterpretações de temas clássicos, encontram-se semelhanças no processo de gravação despido de plasticidade; da mesma forma é uma reconstrução nostálgica que se assemelha ao acto de dar corda a uma caixa de música, como acontece no projecto que James Leyland Kirby encabeça em The Caretaker.

Sete Fontes é editado pela Regulator Records em cd e k7 e pela Golden Pavilion em formato vinil. Um disco composto ao piano e encorpado com sintetizador, gravado e co-produzido por Francisco Oliveira e Budda Guedes, misturado pelo último. 

Texto: Priscilla Fontoura 

A sentimentalidade presente no shoegaze aflora esta condição de isolamento físico que todos estamos a viver. Há também quem tenha aprove...



A sentimentalidade presente no shoegaze aflora esta condição de isolamento físico que todos estamos a viver. Há também quem tenha aproveitado este estado para criar temas que reflectem sentimentos mais nostálgicos que desembocam na incerteza e provocam receio do futuro. Os Personas divulgam o EP “Das Luzes Que Se Fundem Com a Manhã” com um repertório que inclui os singles Frio da Madrugada, Brado e E Eu Me Desespero Facilmente, além das faixas Talvez, Entrelaços e Mar de Problemas. O lançamento chega às plataformas de streaming através do selo Bangue Records. As sessões de gravação ocorreram no Estúdio Wasabi, em São José dos Campos/São Paulo. A produção e a mixagem ficaram a cargo de Diego Xavier (BIKE). Já a masterização foi realizada por Cássio Zambotto.

- Como se encontram e como têm vivido face à condição séria e ainda tão presente no Brasil?
João: Estamos todos bem dentro do possível, nos protegendo ao máximo e tentando proteger todos os mais próximos de nós, mas, claro, sem nos reunirmos ou nos vermos, e fazendo de tudo pra não perder completamente as esperanças na volta de “dias normais”.

Fernando: Em função da gravidade da pandemia em nosso país, suspendemos todos os encontros presenciais até tudo melhorar.

Pablo: Estamos bem, nossas famílias também estão bem. Tentando manter a saúde mental no meio de tantas notícias ruins e incertezas.

Rodrigo: Como todos no início da pandemia da Covid-19, abdicámos dos nossos encontros presenciais e partimos a fazer reuniões por vídeo chamada, e na época em que gravamos o nosso EP ainda havia casos mais isolados de contaminação, visto isso tomamos todas as medidas de protecção para podermos realizar as gravações.

- "Das Luzes Que Se Fundem com a Manhã" mostra um lado da moeda diferente de "Nunca Foi Para Dar Certo". O que mudou para passarem de um trabalho mais Pop para um mais nostálgico?
João: Sempre buscámos fazer um tipo de som no qual acreditamos e que ouvimos no nosso dia a dia, e acho que dessa vez conseguimos nos desprender do medo de abordar os nossos gostos mais barulhentos e mais sujos para compor o Das Luzes, mesmo sabendo que talvez fosse ser menos “acessível” àqueles que gostam do nosso lado mais Pop.

Fernando: Sempre compusemos este tipo de trabalho, mas aguardámos para publicá-lo, tanto que algumas músicas, como E Eu Me Desespero Facilmente e Talvez já estão "guardadas" há um certo tempo.

Pablo: Acredito que os sons que estávamos ouvindo no período de composição trouxeram essa personalidade ácida do EP.

Rodrigo: Quando gravámos "Nunca Foi Pra Dar Certo" sentimos a necessidade de mostrar um lado mais visceral e melancólico das situações vividas por nós. Pra mim, o EP “Das Luzes Que Se Fundem com a Manhã”, sonoramente, representa muito bem esses sentimentos como a ansiedade, angústia e até mesmo um pouco do conformismo ao qual nos sujeitámos.

- Como começou Personas e o que vos levou a juntarem-se para fazerem canções?
Fernando: Personas começou com João e Rodrigo, após a diluição de um antigo conjunto chamado "Rolê Errado". Após, eu (Fernando) integrei o grupo e passámos a ser "Personas". Depois de um tempo de grupo, sentimos que havia a necessidade de mais uma guitarra no grupo e foi aí que o Pablo Hanzo se juntou a nós.

Rodrigo: Personas começou comigo e com o João num outro projeto que felizmente não era pra acontecer hahaha. Porém, como as influências de nós os dois estavam bem próximas, nos juntámos para fazer músicas autorais, o Fernando entrou no meio desse processo pois precisávamos de um baterista, e por ser meu irmão e sempre tocámos juntos, acreditei que seria uma ótima formação pra dar início ao que seria o primeiro trabalho da banda. Assim, até o final de 2019 seguimos como power-trio, mas devido ao que queríamos realizar como banda sentimos falta de mais um guitarrista e sem muita procura entrei em contato com o Pablo para somar nas guitarras e desde a primeira vez que nós quatro tocámos juntos tive a sensação de que ele estava na banda desde o começo.

- Não há ansiedade mais presente para uma banda do que o retorno aos palcos. De que forma o vislumbram?
João: Antes da pandemia, a gente conseguia fazer pelos menos uns 2 shows por mês, então estar mais de 1 ano sem subir ao palco tem sido de partir o coração, mas, assim que for possível, vamos juntar todas as bandas amigas pra fazer um rolezão gostoso com todo o mundo.

Fernando: A saudade das apresentações é enorme. Tanto de tocar, quanto de assistir as demais bandas dos eventos. A expectativa para quando a pandemia acabar é de muitos shows o quanto antes.

Pablo: É o que mais queremos, poder tocar as músicas do EP novo pelo mundo todo. Com certeza vai ser bem enérgico e caloroso! Nos chamem para tocar em Portugal.

Rodrigo: Como todos os outros artistas, sentimos muita falta de nos apresentar em palcos estrada afora, mas sinto que temos que seguir e nos reinventar e continuar produzindo, ficar parado não faz bem pra nossa mente, e seria incrível esse reencontro com os palcos realizando a primeira tour fora do país!

- O vosso som remete para bandas como I Break the Horses, será o shoegaze o subgénero mais envolto do amor – esse forte sentimento que une duas pessoas romanticamente falando?
João: Eu acho que a densidade e barulho do shoegaze é perfeito para podemos tocar num assunto tão delicado e complexo quanto o amor romântico. As músicas Pop de amor que tocam nas rádios são bonitinhas, mas acho que músicas românticas precisam ser muito mais só “bonitinho” pra poder tocar honestamente em todas as nuances que se enquadram nesse tema, e o shoegaze engloba todo esse caos.

Rodrigo: Com certeza sim! Toda a atmosfera do género remete ao "clima" do amor, como por exemplo as guitarras suaves e envoltas pela reverberação, até a sujeira intensa e às vezes caóticas combinados com vocais como se fossem declarações de amor sussurradas em seu ouvido.

- Gostei mesmo muito do EP, principalmente do tema "Eu Me Desespero Facilmente". Como foi a construção e quanto tempo demorou. Foi um acto colectivo ou pessoal?
João: Muito obrigado! Desde o começo da primeira composição até o fim das gravações, acho que foram um ano e meio de trabalho. Normalmente eu ou o Rodrigo sempre chegamos com a base da música e a letra prontas, e aí levamos pro ensaio pra trabalharmos coletivamente em cima, com todos os membros dando ideias e palpites, o que sempre leva o resultado final a ser completamente diferente da ideia inicial, de uma forma bem positiva.

Fernando: Foi cerca de um ano e um ano e meio de trabalho que culminou no lançamento. As letras foram compostas pelo Rodrigo (baixo e voz) e João (Guitarra e voz).

Pablo: O João nos apresentou a composição e nos ensaios trabalhámos nos arranjos e elementos, alguns detalhes foram adicionados no ato da gravação da música.

Arte da capa por Vitória Nogueira

- O Presidente brasileiro tem mantido estratégias governamentais pouco inteligentes no que concerne às premissas de conduta do país: ordem e progresso; como também tem tomado decisões que têm provocado um efeito dominó no povo que, por consequência, não tem sentido grande protecção. O que têm a acrescentar sobre esta reflexão?
João: É revoltante ver o negacionismo de Bolsonaro sendo seguido tão cegamente pelo povo brasileiro. Ele já mostrou por diversas vezes, quase que diariamente, que é incompetente pra estar lá e pra comandar o país durante uma pandemia. Com certeza uma grande parcela das mortes que aconteceram no Brasil são diretamente culpa dessa política negacionista que ele prega.

Fernando: Infelizmente as condutas de nosso Presidente, menosprezando a gravidade da pandemia, vêm contribuindo para que o povo se sinta legitimado a fazer o mesmo, desrespeitando as medidas de prevenção, o que gera um alastramento no pico de contaminação que vem crescendo e crescendo.

Pablo: Realmente a reflexão é bastante coerente com relação ao descaso governamental em que temos vivido. Sou totalmente desesperançoso quanto às medidas desse governo, sinto que a cada dia nos afundamos num buraco mais difícil de sair. Muitas medidas negligentes e a população pagando caro por isso.

Rodrigo: O desgoverno do presidente é marcado principalmente pelo pensamento negacionista, com fortes bases na religião, suas decisões vão em contramão ao que a ciência comprova como o certo para minimizar a transmissão do vírus, tratando a Covid-19 como uma gripe comum, promoveu e promove aglomerações, e isso é só um reflexo da grande parte da população brasileira.

- Neste cenário negro têm sentido apoio dos vossos colegas das bandas e da cultura ou nem por isso?
João: Aqui na nossa cidade e na nossa região tem rolado um apoio bem massa por parte dos artistas e bandas, todos se apoiando da forma como podem, seja compartilhando as obras uns dos outros, ajudando em vaquinhas coletivas ou fazendo eventos online. E também rolaram alguns editais públicos para ajudar os artistas a arrecadarem um pouco de grana e dar uma leve aliviada no lado financeiro.

Fernando: Tem ocorrido bastante apoio entre os artistas na divulgação de trabalhos lançados e lives. Inclusive, recentemente houve uma mobilização para arrecadação de fundos para uma casa de show de São José dos Campos/SP (lar da Personas). Por isso, acredito que sim, há um apoio entre os artistas.

Pablo: De certo modo, sim! A rede de apoio não é tão forte e sólida, mas tem acontecido.

Rodrigo: O cenário demandou o isolamento social, porém o apoio de colegas artistas foi visto como uma grande forma de se manter ativo, o consumo de artes em geral tem sido uma grande forma de se ocupar a mente e também como forma de se manifestar!

- Temos uma rubrica intitulada Bagagem, onde pedimos os 5 livros, 5 discos, 5 filmes/séries de referência para cada criativo, poderiam dizer quais são as vossas?
Livros:
- Bíblia
- Guia do Mochileiro das Galáxias, Douglas Adams
- Se houver Amanhã, Sidney Sheldon
- 1984, George Orwell
- O Iluminado, Stephen King

Discos:
- Skylight, Pinegrove
- O Ransomed Son, Ascend The Hill
- Racional, Tim Maia
- The Things We Think We're Missing, Balance and Composure
- Rather Ripped, Sonic Youth

Filmes/Séries:
- Forest Gump, Robert Zemeckis
- Donnie Darko, Richard Kelly
- A Noite dos Mortos Vivos, George Romero
- Twin Peaks, David Lynch
- Toy Story, John Lasseter

Rodrigo:
Livros:
- This is a call: A vida e a música de Dave Grohl, Paul Brannigan
- 12 horas de terror, Marcos Rey
- Sh*t My Dad Says, Justin Halpern
- Eu, Robô, Alex Proyas
- O Senhor dos Anéis, J. R. R. Tolkien

Discos:
- Recortes do Diego Xavier,
- Do Que Somos Capazes da Um Quarto (¼),
- Ensaio Pra Destruir do Fernando Motta,
- Saúde do Raça,
- Boas Pessoas São Feitas de Promessas Incompletas do Marchioretto

5 Filmes/Séries:
- Alice in Borderland, Shinsuke Sato
- Vikings, Michael Hirst
- RagnarokTaika Waititi
- The End of the F***ing World, Charles S. Forsman 
- O PoçoGalder Gaztelu-Urrutia

- O que têm preparado para um futuro próximo?
João: Por enquanto estamos trabalhando materiais para a divulgação do EP, e também já começámos o processo de composição do nosso próximo álbum.

Fernando: Já temos um álbum encabeçado. Logo haverá novidades.

Pablo: Estamos trabalhando em novos visualizers das faixas do EP, clipe e trabalhando nas composições de um próximo álbum.

Rodrigo: Estamos trabalhando em composições novas pra lançar um segundo álbum com 11 temas onde o dream-pop está sendo bem influente, são canções mais pop do que fizemos em "Das Luzes Que Se Fundem Com A Manhã".

Texto e Entrevista: Priscilla Fontoura
Entrevistado: Personas

Em 1980, chegaram dois amigos brasileiros do Alexandre e encontramo-nos antes de um concerto dos GNR no Algarve; eles perguntaram-nos: "...


Em 1980, chegaram dois amigos brasileiros do Alexandre e encontramo-nos antes de um concerto dos GNR no Algarve; eles perguntaram-nos: "Aqui há Popper´s?"... e nós não faziamos ideia do que falavam; e eles disseram: "Pode ser substituído por aquele líquido que se usa para tirar nódoas; aí eu sugiro: "Vamos à drogaria do Sr. Manuel"... e fomos.

Chegados lá perguntei: "Ó Sr. Manuel, como se chama aquele líquido para tirar nódoas?"... e ele: "Depende... há a benzina, o benzovac e a droximina”; olhamos para os amigos brasileiros e eles nada... Então eu disse: "Sabe Sr. Manuel, estes dois amigos são brasileiros e não sabem o nome do produto em português... Mas reconhecem pelo cheiro"... e o Sr. Manuel: "Reconhecem pelo cheiro?... Nem eu reconheço pelo cheiro!"; e eu disse: "Mas eles sim, quer ver?"... e estavam três bidões, cada um com uma coisa diferente; um deles abre o primeiro bidão e começa a snifar "SNIFFFFFFFF" e diz: "Não é este!"... abre outro, sob o olhar espantado do Sr. Manuel, e snifa "SNIFFFFF" e diz: "É esteeeeeeeeeeee!"... e o Sr. Manuel pega num frasco dos de álcool e pergunta: "Querem levar quanto?"... E nós olhamos para aquele frasco pequenino e para o bidão e eu disse: "Levamos o bidão"... Aí, o Sr. Manuel olha para mim e pergunta: "Que nódoa é que vocês querem tirar?"... 

Metemos o bidão na mala do carro, fomos todos para a Taberna 2000 no Foco/ Porto e dissemos a todos que tínhamos uma droga fantástica; era tudo a sair do clube e a ir ao nosso carro e a meterem lenços no bidão e tudo a snifar e a cair na relva; passamos assim a noite toda; às 06:00 fomos pôr os instrumentos na carrinha e partimos para o Algarve – em directa e todos f# de benzovac; o meu corpo era todo ele benzina: cheirava, sabia e parecia que o que corria no meu sangue era… benzina ! Mal partimos começámos a sentir-nos horrivelmente e a pensar que íamos morrer todos e que nunca mais me drogaria na vida se me salvasse daquela; até que começámos a vomitar, e riamo-nos, porque eu vomitei na janela da frente ao mesmo tempo que o Megre vomitava na de trás e apanhou com o meu vómito; ao chegar a Coimbra tive uma ideia: beber leite !!!! estávamos intoxicados e bebendo leite passaria; fomos a uma tasca e devemos ter pedido uns 200 copos de leite para os quatro; aí, sentimo-nos cada vez melhor; tinha sido uma boa ideia que, provavelmente, nos salvou a vida: Chegados ao concerto, que ia decorrer numa praça de touros – e o camarim era na relva ao lado da praça – fui à carrinha e pedi ao nosso roadie para me preparar uma linha de coca para antes do concerto; antes do concerto lá fui: "Fizeste a linha?"...e ele: "Está aí em cima do tablier"... eu vou e snifo, e diz o gajo: "ISSO ERA PARA NÓS OS CINCO! A TUA ERA SÓ A DE BAIXO!"... já era tarde, já nem o ouvia, era só ecos! eles anunciam: "E agora, os GNR!!!" e o Tóli começa a tocar e ninguém sabia onde eu estava; até que olham e topam um gajo a subir e a descer as escadas da praça... era eu, a gastar energias! Depois, dei o concerto a speedar e quando acabou e ia a mijar, pareceu-me ter mijado verde fluorescente; ao chegar a casa fui ao médico de família; ele pergunta: "Então, que o traz aqui?", e eu nada; e ele: "Tudo bem com os intestinos?" e eu dizia que sim; e ele "E o estômago?" e eu: “Ok”; e ele: "Dores de cabeça?" e eu "Não!"; e ele: "Falta de apetite?" e eu "Não!"; até que olha para mim e pergunta: "Então, que se passa?"; e eu digo: "Sr. Doutor: eu urinei verde fluorescente!"; o gajo olha para mim, tira os óculos e diz-me: "Ouça, amigo, isso não existe!"... e já nem me deixou sair da clínica: fiquei lá internado uma semana, a fazer dieta...

Texto e Imagem: Vítor Rua

por Emanuel R. Marque s


Uma família parisiense de origem judia encontra-se nas ruas da amargura e precisa dar a volta à situação. Por obra do destino, Joseph, o fil...


Uma família parisiense de origem judia encontra-se nas ruas da amargura e precisa dar a volta à situação. Por obra do destino, Joseph, o filho mais velho, entende que o caminho mais rápido para sair da situação de falência económica passa pela produção e venda de erva, uma vez que Joseph leu nas notícias que o Governo francês prepara-se para legalizar o consumo de marijuana. Por isso, decide apostar os últimos tostões para transformar o talho, o negócio de família, numa espécie de coffee shop.

Family Business inicia-se com Joseph frustrado pelo estado económico que a sua família se encontra, e a última esperança que lhe resta é apresentar a ideia de negócio que não é imediatamente aprovada pela família devido às constantes tentativas falhadas de Joseph e m procurar um modelo de negócio de sucesso. Iludido pela ideia que julga ser a que vai tirar a sua família da penúria, ludibria-a a apostar os últimos cartuchos no negócio moderno, apelativo e lucrativo. Consegue mobilizá-la e o seu núcleo de amigos mais íntimos, apesar da reserva inicial menos da sua avó, para transformar o talho kosher naquilo que passa a chamar de “loja potcher Hazan”. Não obstante ter tudo pronto para poder arrancar, a família espera pela legalização do consumo de marijuana do Governo que tarda em acontecer e de um dia para o outro começam a produzir e a vender clandestinamente.


Family Business mergulha profundamente no humor judeu e cada episódio apresenta uma sucessão de peripécias surreais que não entediam os espectadores. Criada e realizada por Igor Gotesman, o elenco conta com interpretações de Jonathan Cohen, Gérard Darmon, Julia Piaton e Liliane Rovère.

Family Business é a quarta série francesa com a chancela da Netflix, e conta com duas temporadas, ao lado de outras como Plan Couer — também de comédia. Fica aqui a nossa sugestão para encerrar os belos dias primaveris, uma série leve que provoca muitas gargalhadas.

Texto: Priscilla Fontoura

Foto © Daphne Daniela Nunes é artista visual e apresenta o seu trabalho artístico sob o pseudónimo Daphne. Na etimologia grega Dafne sig...

Foto © Daphne

Daniela Nunes
é artista visual e apresenta o seu trabalho artístico sob o pseudónimo Daphne. Na etimologia grega Dafne significa loureiro, pois, enquanto musa, foi perseguida por Apolo que se apaixonou por ela quando atingido por uma flecha de Eros, que também acertou Dafne, só que com uma flecha de chumbo, cuja “inoculação” tinha como efeito a rejeição do amor do deus. Dafne, já desesperada, pediu ao pai que a livrasse da perseguição. Consequentemente, Apolo transformou-a num loureiro: "Se não podes ser minha mulher, serás minha árvore sagrada". Desde então, o deus sempre trazia consigo um ramo de louros.

Nascida em 1993 e natural de Tomar, Daphne mudou-se aos 18 anos para a capital. Licenciou-se em Design de Moda, momento em que desenvolveu o gosto pelas várias texturas; até então a sua técnica era apenas materializada a grafite ou tinta da china. Após o curso, e decidida de que não queria trabalhar no mundo da moda, começou a nutrir interesse pela pintura abstracta. Escolheu, portanto, concentrar as suas forças para explorar o seu fascínio pela cor e reencontrar a expressão artística pessoal. Desde então, tem se dedicado ao trabalho mais experimental, explorando a infinitude da possibilidade cromática, aliada à forma orgânica que, no fundo, representa o seu reencontro com o mundo natural.

Olá, Daphne, como tens passado este tempo pandémico?
Olá! A pandemia apanhou-me a meio de um fase de mudanças pessoais grandes e acabou por fazer com que esse momento se arrastasse por tempo indefinido. É quase como se estivesse em transição há mais de um ano. Se isso me levou para um caminho que não era o que planeava, e me colocou numa situação que não considero ideal, ao mesmo tempo permitiu-me chegar a algumas conclusões acerca de mim própria, e acerca do meu trabalho enquanto artista, por isso diria que têm sido tempos bastante interessantes. 

O Acordes serve também de espaço para dar a conhecer o trabalho de artistas emergentes. Como tem sido a tua relação com a arte, tens conseguido subsistir através da tua?
A minha relação com a arte tem vindo a evoluir de forma muito positiva, especialmente durante este último ano. Sinto que tenho vindo a tornar-me cada vez mais próxima do meu trabalho, quase de uma forma simbiótica. A minha vontade / necessidade de fazer arte vai aumentando, ao mesmo tempo, essa mesma arte vai-me dando segurança para me expandir enquanto pessoa e artista.
 
Como olhas para a união ou desunião da comunidade de artistas plásticos em Portugal, cada vez mais ou menos individualizada?
Penso que união ou desunião dependerá de para onde olhamos. Por exemplo, eu vejo uma comunidade crescente de artistas independentes, com backgrounds diferentes, que se afastam da arte mais elitista, e nessa comunidade, aparenta existir alguma união. É para ela que me interessa mais olhar. Relativamente a outros círculos, não sei se o mesmo acontecerá, mas honestamente também não me parece que eu esteja em posição de o comentar. 

Interlude no10”, acrílico em papel. © Daphne

“Sukha III - Focus”, acrílico em tela. © Daphne

Assiste-se, paulatinamente, à vontade, de alguns criativos mais experimentais, de retornar aos materiais orgânicos como forma de exploração e entendimento “alquímico” para trabalhar-se a partir do que a natureza oferece. Tem sido essa a tua exploração? Se sim, como exploras o valor cromático?
A minha exploração tem sido mais baseada na relação entre a cor e forma orgânica e nos processos que lhes dão origem, do que propriamente nos materiais.
Mas existe dentro de mim a vontade de vir a trabalhar com materiais exclusivamente orgânicos, especialmente a nível cromático. Trabalho sempre com cores que me remetem para a Natureza, e seria interessante para mim explorar formas de trazer essas cores directamente para o meu trabalho. Por exemplo, através do uso de pigmentos naturais, feitos por mim, a partir de solo ou de plantas. Mas é algo a que ainda não dediquei tempo e estudo suficientes. 

A definição de como a estética orgânica é vista e alcançada na arte contemporânea aponta para as práticas composicionais especificamente orgânicas; acreditas ser a melhor estratégia para o futuro da construção plástica, ir às origens para trabalhar a partir das mesmas só que aplicando o olhar contemporâneo?
Claro que sim, até penso que será a única forma de manter a sustentabilidade do trabalho artístico. Explorar seja que estética for, sem ir às suas origens, sejam elas formais ou conceptuais, acho que acaba por ser um exercício com muitas limitações do ponto de vista criativo e algo superficial. 

Exploras essa intenção apenas pela motivação técnica ou também moral?
Honestamente, pelas duas. Mas sinto que a motivação moral pesa mais e é o que me faz continuar. O que me atrai no tipo de pintura que faço é o facto de trabalhar com uma técnica que não me permite controlo total. Eu apenas posso controlar o que está a acontecer até certo ponto, porque na verdade, as formas e a multiplicação de cores surgem por elas próprias, como resultado dos processos que estão a acontecer na tela. Isto é algo que me remete para o mundo natural e me faz reflectir na minha condição enquanto um ser que faz parte da Natureza e colabora com ela, e não um que lhe é superior e a tenta controlar / contrariar.
Esta mensagem é muito importante para mim e dedicar-me a algo que me relembra constantemente dela vem sem dúvida de uma necessidade moral. 

“Superterrestrial 4”, acrílico em papel. © Daphne

“Integration I”, acrílico em papel. © Daphne

O teu trabalho mais abstracto parte da realidade com vista à construção abstracta, como se processa essa construção; apenas numa base prática ou também reflexiva?
Do ponto de vista cromático, a base sempre foi reflexiva. Talvez porque a cor é uma componente tão grande no meu trabalho, desde o início senti a necessidade de a pensar muito bem e de a utilizar para representar ambientes muito específicos.

Olhando para a componente formal, os meus trabalhos mais iniciais resultaram de uma base prática e experimentalista, em que estava apenas a familiarizar-me com os processos físicos e químicos que se dão neste tipo de pintura e são necessários à criação da forma orgânica, que é na sua essência abstracta.
Mas nos meus trabalho mais recentes já tem havido uma tendência maior para que a reflexão determine as minhas decisões a nível técnico, por exemplo desde a espessura da tinta, à temperatura a que o quadro vai secar. Tudo isso começa a ser mais bem pensado e feito de forma intencional. 

Os fundamentos da origem da mimesis, construídos pelos pioneiros Platão e Aristóteles, separam o acto de criar entre os imitadores da realidade e os experimentalistas que partem da desconstrução para a criação de outra realidade. Concordas que quanto mais o representante se distancia da realidade, mais perto está do acto da criação?
Faz-me mais sentido que seja o oposto. Ou seja, quanto mais nos aproximamos do acto da criação, mais próximos estamos de conhecer e realidade como ela é.
Eu acredito que o acto de criar é precisamente a desconstrução daquilo que consideramos ser real, mas não acho que isso crie uma realidade diferente. Parece-me mais que essa desconstrução apenas separa e coloca em perspectiva as várias camadas que compõem a realidade aparente, e permite-nos vê-la com outros olhos. É um processo analítico que nos pode abrir portas para descobrir uma realidade mais interior e profunda, e por consequência mais verdadeira, porque vai para além daquilo que observamos à primeira vista.
O que é realmente criado durante todo este processo é uma percepção real da realidade e uma linguagem capaz de a representar. 

Como sentes o interesse pelo teu tipo de arte em Portugal?
Parece-me que é um tipo de arte ainda um pouco desconhecido pelos portugueses, mas que tem vindo a ganhar alguma visibilidade nos últimos tempos. O número de artistas portugueses que se dedicam a este tipo específico de pintura tem vindo a aumentar e obviamente a contribuir muito para isso. Quando eu própria comecei a explorá-lo, de forma muito tímida há 4, 5 anos, não era tão fácil encontrar alguém a fazê-lo como é neste momento. 

Tens em perspectiva alguma série de quadros?
Sim. A maior parte dos trabalhos que tenho feito já têm sido quase sempre séries, embora pequenas e normalmente em papel, por uma questão de fluidez de trabalho e também de logística.
Mas tenho sentido necessidade de me dedicar a formatos maiores e, por isso, planeio lançar uma série de maiores dimensões ao longo dos próximos tempos.

Introdução e entrevista: Priscilla Fontoura
Entrevistada: Daphne

THE FLYING NOODLE YUMMY MONSTER Ingredients : Noodles Olive Oil Onion Ginger Mushrooms Parsley Rosemary Chili Paste Creme de Soja Carrot ...


THE FLYING NOODLE YUMMY MONSTER
Ingredients :
Noodles
Olive Oil
Onion
Ginger
Mushrooms
Parsley
Rosemary
Chili Paste
Creme de Soja
Carrot
Celery
Tomato
Palm Heart
Cabbage
Salt
Pepper
Beans
Peas
Soy Sauce
Love and Dedication

"Eating noodles while slurping makes it easier to eat!"

Chop all the vegetables. Add it all vegetables little by little. Add the Soy sauce and the Soy cream, season with salt, pepper, parsley and rosemary. Add hot water and the noodles. Serve with love and with one slice of bread.

O NOODLE VOADOR, O MONSTRO DELICIOSO 
Ingredientes :
Noodles
Azeite
Cebola
Gengibre
Cogumelos
Salsa
Alecrim
Pasta de Pimentão
Natas de leite de Soja
Cenoura
Palmito
Aipo
Tomate
Palmito
Sal 
Pimenta
Feijão
Ervilha
Molho de Soja
Amor e Dedicação
Cortar todos os vegetais. Juntá-los aos poucos. Adicionar o molho de soja e as natas de leite de soja. Tempere com sal, pimenta e alecrim. Juntar água fervida e os noodles. Deixar cozer. Servir com amor e uma fatia de pão. 

Música | Music: HannahAlpha and Omega 
Video & Pós Produção | Video & Post Production: Priscilla Fontoura
Receitas & Chef | Recipes & Chef: Rui Mota Pinto Pinto

Alegoria da Caverna por Jan Saenredam,1604, Albertina, Viena “A gente inteligente que eu conheço só tem um sonho: sê-lo menos”[1] declara o...

Alegoria da Caverna por Jan Saenredam,1604, Albertina, Viena

“A gente inteligente que eu conheço só tem um sonho: sê-lo menos”[1] declara o cineasta francês Claude Chabrol numa entrevista publicada nos Cahiers du Cinéma. Há uma crença que identifica a ignorância com a felicidade – o mito do “bom selvagem”, a bondade da pessoa simples, o ideal da intranscendência pós-moderna – mas que nada tem a ver com o “só sei que nada sei”, frase atribuída a Sócrates e que assume a ignorância como um motor da sabedoria. O filósofo grego era consciente de que o seu saber estava limitado pela sua ignorância e isso impulsionava-o na procura do conhecimento. Aqueles que desconhecem a dimensão da sua ignorância são precisamente os que ousam proclamar-se de sábios.

Platão mostra-nos no mito de A caverna[2] a perceção do mundo que o ignorante desenvolve quando se apoia unicamente no senso comum. Moradores permanentes no fundo da caverna, a única visão que têm do exterior são as sombras dos transeuntes que se projetam na parede última da gruta, e julgam que essas sombras são a realidade. Um deles consegue fugir dali e descobre que as sombras são produzidas por pessoas, semelhantes a ele, que transitam pelo caminho à frente da entrada da caverna. Esse descobrimento faz-lhe pensar no engano em que vivem os seus companheiros e regressa ao interior para libertá-los daquela ignorância mas eles tomam-no por louco, por inventor de mentiras, e acabam matando-o. Sócrates também foi condenado à morte por mostrar uma realidade diferente da que os atenienses, ilusoriamente, viviam. A realidade virtual, que hoje vivemos, não diverge muito da que se vivia na caverna de Platão.

Na citada entrevista, Claude Chabrol também diz que a “estupidez é infinitamente mais fascinante que a inteligência, infinitamente mais profunda”[3] e argumenta – desde a perspetiva do realizador cinematográfico que vê as pessoas como personagens a serem tratadas num filme – que a estupidez é muito enriquecedora pois, ao contrário da inteligência, não tem limites.

A ignorância ativa, aquela que se ignora a si mesma, não procura a sabedoria e despreza o entendimento ou inteligência. O filósofo alemã Arthur Schopenhauer, na sua obra O mundo como vontade e como representação, diz-nos que “Carência de entendimento se chama estupidez”[4]. Mas não devemos confundir essa carência com o analfabetismo básico pois a iliteracia tem graus académicos, poder, dignidade e dinheiro. Ouçam as musiquetas ordinárias, que se utilizam em tantas celebrações universitárias. A cultura da estupidez é a indústria que nos mantém na caverna.

Carlo Maria Cipolla, historiador e filósofo italiano, num livro com título musical, Allegro ma non tropo, inclui um ensaio onde estabelece as cinco leis fundamentais da estupidez humana. As duas primeiras leis dizem respeito ao número de estúpidos em circulação, sempre superior ao estimado, e à distribuição, como uma constante independente de qualquer outra característica dos indivíduos, confirmando-se a mesma frequência em todos os grupos de amostragem, inclusivamente nos Prémios Nobel.[5]

Partindo das quatro categorias fundamentais em que inclui o ser humano – ingénuos, inteligentes, bandidos e estúpidos – a terceira lei esclarece que: “Uma pessoa estúpida é aquela que causa um dano a outra pessoa ou a um grupo de pessoas, sem retirar qualquer vantagem para si, podendo até sofrer um prejuízo com isso”[6]. É compreensível o bandido que causa um dano para obter um ganho, mas a irracionalidade do estúpido é desconcertante. O estúpido é imprevisível e perseguir-nos-á sem razão nas circunstâncias mais impensáveis porque o estúpido não sabe que é estúpido, não tem malícia nem remorso, e aí reside a sua eficácia devastadora. Mas sempre desvalorizamos o potencial nocivo das pessoas estúpidas, como afirma a quarta lei, e, em vez de os combater, facilitamos o seu acesso às áreas do poder. Quando no governo proliferam os bandidos com uma alta percentagem de estupidez e, simultaneamente, aumenta o número de ingénuos entre os governados, a ruína é segura. “O estúpido é o tipo de pessoa mais perigosa que existe”, conclui a quinta lei.[7]

Theodor Adorno diz-nos que a indústria cultural “domina e controla, de fato e totalmente, a consciência e inconsciência daqueles aos quais se dirige”[8]. A cultura ‘industrial’, feita em série e com padrões de arte menor ou mesmo de lixo, projeta sombras de ignorância no fundo da caverna, onde a estupidez é a felicidade do ignorante.

(*) da Academia Galega da Língua Portuguesa.

Compositor e Mestre em Educação Artística e em Ensino de Música.

© 2011 por Rudesindo Soutelo
(Vila Praia de Âncora: 24-VII-2011)
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[1] Collet, J., Delahaye, M., Fieschi, J.-A., Labarthe, A. S., & Tavernier, B. (2004). Entrevista con Claude Chabrol. In La Nouvelle Vague (M. Rubio, Trad., pp. 23 - 54). Barcelona: Paidós Ibérica, p. 43.
[2] Platão. (2008). A República (11ª ed.). (M. H. Pereira, Trad.) Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 514ª-518b.
[3] Collet, J. et al., op. cit., p. 42.
[4] Schopenhauer, A. (2005). O mundo como vontade e como representação. São Paulo: UNESP, p. 68.
[5] Cipolla, C. M. (2008). Allegro ma non troppo. Lisboa: Texto & Grafia, pp. 59-63.
[6] Cipolla, C. M., op. cit., pp. 69-70.
[7] Cipolla, C. M., op. cit., pp. 84-85.
[8] Adorno, T. W. (2010). Indústria cultural e sociedade. (J. M. Almeida, Ed.) São Paulo: Paz e Terra, p. 114.

Um dos primeiros grandes concertos dos GNR, foi no Clube da Granja; ainda era uma cantora, que tínhamos arranjado: a Quina; pusemos um anúnc...


Um dos primeiros grandes concertos dos GNR, foi no Clube da Granja; ainda era uma cantora, que tínhamos arranjado: a Quina; pusemos um anúncio: "Precisamos vocalista; pouco importa que cante bem; o que interessa é ser boa"; e foi exactamente o que tivemos: era bonita e cantava exoticamente mal; o Clube estava a abarrotar; pessoas tentavam entrar pelas janelas; vidros a partirem-se; pessoas a ficarem feridas; e o organizador diz-nos: "Ó pá, comecem a tocar, senão ainda morrem pessoas"; e eu, que tinha acabado de fumar uma erva opípara, caio redondo no chão; estou caído no chão e vejo todos a olhar para mim: o Alexandre Soares, o Tóli, o Mano Zé, o organizador e a nossa vocalista; o organizador passa-se e mete as mãos na cabeça "Agora é que está tudo fodido"; e eu, digo-lhe do chão, onde estava, caído "Tenha calma que fico bom num minuto"; eles olham todos para mim, e eu, calmamente, deito uma das mãos ao bolso das calças e tiro para fora um supositório (eu andava sempre com um Torekan para as tonturas), baixo as calças e meto o supositório no cu, com o Tóli a dizer "Este é que é maluco!"; um minuto depois estava de pé e entramos para o concerto; o público em delírio; estamos a tocar o segundo tema, e eu vejo que o Mano Zé está com o baixo desafinado; ele estava muito fumado, mas de haxixe; eu chego-me perto dele, disfarçadamente, e digo-lhe: "Mano Zé, tens o baixo desafinado"; e ele, de olhos fechados e a rir-se responde-me: "Eu seeeeeeeeeeeeei"...

Texto e Imagem: Vítor Rua