Em 2018 decidimos adaptar a rubrica   Bagagem   em formato escrito (iniciada em 2017) para o vídeo. Este projecto partiu da premissa: pedir ...


Em 2018 decidimos adaptar a rubrica Bagagem em formato escrito (iniciada em 2017) para o vídeo. Este projecto partiu da premissa: pedir as referências de 5 livros, 5 discos, 5 filmes/séries a pessoas que consideramos que podem dar um input positivo aos mais ávidos por cultura — ideia influenciada pelo programa What's in my Bag


O primeiro convidado para o formato de vídeo foi o músico Vítor Rua que anteriormente já tinha respondido ao nosso pedido para a rubrica escrita. Algum tempo passou e muita coisa aconteceu. Chegámos a 2021 e decidimos avançar com o que tínhamos pendente, e agora, que os ventos sopram a nosso favor, conseguimos terminar a rubrica. É com muito gosto que apresentamos a primeira parte da Bagagem com os 5 livros que o músico singular Vítor Rua sugere.


Agradecemos o apoio que a Louie Louie no Chiado, Lisboa, nos concedeu, e o apoio à produção da Widescreen e da Lula Gigante prod


Legendas em inglês disponíveis | English subtitles available


Uma produção: Acordes de Quinta 
Convidado: Vítor Rua 
Animação, vídeo, pós-produção: Priscilla Fontoura 
Som e tradução: Cláudia Zafre 
Música: "Heavy Mental", de Vítor Rua; "When Better Isn't Quite Good Enough", de Vítor Rua & The Metaphysical Angels 
Discos: "Made In Japan", Deep Purple; "The Velvet Underground & Nico", The Velvet Underground; "Their Satanic Majesties Request", The Rolling Stones; "Shut Up 'n Play Yer Guitar", Frank Zappa; "Sirius", Karlheinz Stockhausen Programa: Bagagem 
Apoio à Produção: Lula Gigante prod. 
Agradecimentos: Louie Louie, Chiado; Widescreen

As séries nórdicas têm ocupado um espaço de destaque na Netflix, pelo menos quem as segue sabe que ainda tem algumas por onde escolher. Love...


As séries nórdicas têm ocupado um espaço de destaque na Netflix, pelo menos quem as segue sabe que ainda tem algumas por onde escolher. Love and Anarchy não aborda nenhuma temática profunda e complexa sobre a vida, no entanto tem a capacidade de entreter quem precisa de uma hora ou duas de despreocupação. Uma série que se agarra ao humor, a algum surrealismo e drama. 


Cartaz, Love and Anarchy


No que respeita à sinopse, Sofie divide-se entre duas ocupações primordiais, ser mãe e consultora. Esta personagem vive ainda o sonho de uma adolescente que criou um livro e cujo género prende-se a uma narrativa que é motivo de troça para as cenas de convívio social do seu marido. Este passa a vida a negligenciar constantemente o lado criativo e sonhador do seu cônjuge. Mas o que a série criada por Lisa Langseth tem de catchy é a relação e jogo de sedução que Sofie desenvolve com o seu colega de trabalho Max. Este jovem, apesar de ser muito mais novo que Sofie e ao contrário do seu marido, valoriza a alma adolescente e idealista desta mulher. Do elenco incluem-se personagens com as quais nos podemos identificar e "gargalhar". 

O estilo de filmagem influencia-se no Dogma 95, o zoom é assumido para criar momentos mais realistas e intimistas. 

Fica aqui a sugestão para quem quiser relaxar um pouco, após um dia de muita preocupação.


Texto: Priscilla Fontoura

© Vera Marmelo A inocência e alguma espécie de romantismo leva-nos cedo a insistir num caminho que se inicia como hobby. Mas quanto mais se ...

© Vera Marmelo

A inocência e alguma espécie de romantismo leva-nos cedo a insistir num caminho que se inicia como hobby. Mas quanto mais se emerge na paixão, mais difícil vai sendo voltar à superfície desse mergulho profundo, porque quando esse enamoramento acontece depois sucede o amor. 

Em Portugal, já devem ter encontrado na Web trabalhos da Vera Marmelo, a fotógrafa que tem dado destaque à cultura underground com as suas imagens. Ainda na flor da idade, foi mostrando curiosidade em sair do núcleo dos seus amigos da escola para habitar espaços culturais e ir ver concertos. 

A Música e a Fotografia são dois mediums que têm tido uma relação estreita, principalmente quando começaram a surgir publicações que mantiveram estes dois mediums essenciais para passar a informação. Vera Marmelo é, claramente, um nome cada vez mais associado à música porque, na verdade, a sua investida – pelo menos a mais exposta – tem sido não apenas o registo fotográfico de músicos, mas a forma como olha para cada um deles. 

Olá, Vera, como tens enfrentado este tempo de pandemia? 
Não a enfrento, aceito-a e respeito-a. 

Março passado, quando tudo começou a cair, a cancelar, a adiar, não havia previsão nenhuma sobre um fim, então vivi isto de uma forma moderadamente leve. Pensei que era uma boa oportunidade para ler, estudar, arrumar coisas, atualizar site, voltar a ter tempo para dormir. Tenho outro trabalho para além da fotografia e vim para casa em modo teletrabalho. Sobraram-me as muitas horas de concertos, de fotografia, de planos para fotografar, de amigos, de viagens então tentei aproveitar. Tive um primeiro confinamento muito privilegiado a trabalhar, segura e com companhia e energia mental e física para aproveitar o tempo que me sobrava. 

Com o aligeirar das regras voltei a fotografar. Houve uma capacidade de resistência e um querer fazer de muita gente que me chamou para voltar a fotografar. E entre Junho e início de Janeiro ainda fotografei muito. Agora, nesta segunda fase de regresso a casa, datas canceladas, notícias terríveis na televisão, testemunhos de amigos médicos e amigos atingidos de forma pessoal pela pandemia, da capacidade de adaptação a ser mais dolorosa que nunca e estarmos todos em desgaste, estou só a tentar manter-me sã e fazer o que posso, que é ficar em casa e continuar a escapar à doença. Continua a pensar e a ver fotografias todos os dias. De vez em quando nos passeios levo a máquina, mas recolhi-me e nem consigo pensar no futuro. Continuo ocupada com o meu outro trabalho. Debaixo do meu privilégio. Acho que nunca valorizei esta vida dupla que tenho mantido nos últimos 14 anos como agora. 

Os concertos eram quase como a tua arena de trabalho, e agora, em que são tão escassos, achas que, quando isto começar a normalizar, vais voltar ao modus operandi de antigamente, ou achas que algo vai mudar na forma como vislumbras trabalhar? 
Entre Junho e Janeiro voltou tudo ao normal. Tinha esse receio quando parei. Nunca tinha estado mais do que uma semana sem fotografar um concerto. Então óbvio que estando parada mais de 3 meses comecei a pensar o que aconteceria no regresso. Como sempre fui arrastada para a arena e foi tudo muito normal, aparte das máscaras, termómetros à entrada de salas, afastamentos e limpeza de mãos. Demorei a habituar-me a salas meio cheias, por causa das restrições de limitação. Mas a felicidade da normalidade e as saudades que tínhamos de todos fez com que nem sentisse a necessidade de pensar em “como fazer isto”. Simplesmente fui. 

Tens o teu blogue há mais de 10 anos, o v - miopia, e dás-lhe relativa importância, porque o entendes como o teu arquivo online onde vais alojando as tuas fotografias. Os blogues foram as primeiras publicações mais democráticas em que cada um de nós podia publicar para qualquer internauta, e, na verdade, os blogues estavam no auge nos finais dos noventa e princípio do novo milénio. No entanto, ficaram um pouco obsoletos por causa da extrema alienação e distracção que as redes sociais provocaram. Como achas que se pode dirigir a camada mais jovem, que lida com os adventos mais recentes e rápidos, para estes lugares da Web mais “clássicos”? 
A reação que eu sinto é o “deixar de parte”. Estamos todos a gravitar em torno do instagram. O consumo de fotografias, notícias, até de música faz-se dentro daquela rede. Quem sou eu para navegar contra a maré? A verdade é que continuo a alimentar o blog, a fazer o meu exercício pós fotografar de selecionar um conjunto e o partilhar ali. Faço as pontes para as redes sociais. Escolho uma mini-amostra para as stories do instagram e uma imagem que me interesse mais para o feed do instagram. 

Começas a repensar melhor o teu processo de edição. Sabes que a forma como partilhas imagens nas diferentes plataformas são diferentes. O blog continua lá. É um bom arquivo para quem procura uma imagem em particular a encontrar. As visitas são muito menores. Mas, por exemplo, há pouco tempo pediram-me muitas imagens de um músico para entrarem numa entrevista grande. Limitei-me a enviar o link com o tag para o blog e a base de escolha estava ali. Poupou-me estar a cavar em arquivos enormes. A pré-seleção já ali está feita. Pode ser que num futuro qualquer as pessoas voltem a ter interesse em ver mais além de uma fotografia. É o meu álbum de fotografias. Vai continuar, mas sei que com um décimo do interesse que outrora gerou. 

És muito apologista das lentes fixas, entendes a fotografia como um acto que obriga o autor a andar e ir ao encontro de algo para captar aquele momento que foi procurado por quem está atrás da câmara. Achas que o significado da fotografia é uma espécie de flâneur em vez de voyeur? 
A ideia do flâneur agrada-me muito mais. O significado da fotografia que tu fazes é aquele que lhe queres atribuir. Revelar-se-á nas imagens que fazes. A mim interessa-me não interferir, ser “a fly on the wall”, mas sem manto de invisibilidade. A proximidade ao fotógrafo interessa-me. Física e também “humana”, no sentido de me interessar o que está a acontecer ao ponto de o achar relevante e merecedor do meu tempo. 

Fazes outro tipo de trabalho, mas o mais exposto é o contacto que tens tido ao longo de uma década com músicos. Essa paixão ainda se mantém acesa e voraz, ou foste, ao longo deste tempo, também motivado pelo cansaço e descoberta de outro mundo menos mágico mas relacionado à música, sentindo outros interesses para fotografar? 
Afasto-me de forma mais ou menos elegante de mundos menos interessantes. A minha constante tentativa de procurar universos musicais e gente mais nova que eu é na verdade uma tentativa de resgatar essa paixão. A fotografia de música tem-me feito as pontes com outros universos e outros tipos de fotografia. É uma relação feliz. Continuo a conseguir mantê-la saudável. Mas com a plena consciência de que não depender exclusivamente dela a nível monetário é uma ajuda preciosa. 

Ano Novo, Jan. 2020 © Vera Marmelo

Podes relatar algum episódio que te tenha marcado de alguma fotografia que tenhas feito? 
Nunca há uma imagem x ou y. Estava a correr as entradas do blog para tentar encontrar uma resposta para isto. É também o meu auxiliar de memória. 
2020 tinha tudo para ser incrível. Comecei o ano a fotografar amigos super queridos a tocar. Detesto a cena da passagem do ano, mas lá me convenceram a passar a tarde, noite e madrugada num sítio cheio de estranhos, cerveja a voar e rock. O argumento foi “vai ser uma noite normal para ti, só acrescentas a contagem decrescente” e assim foi. 

Agora que olho para estas imagens penso no quão por garantido tomava este tipo de noites. 2020 começou assim e teve dois meses do que podiam ser estas histórias de fotografias que aqui vocês me pedem. Tive três concertos com a Angel Olsen, com acesso a tudo. 

Angel Olsen, à tarde, no Capitólio, Jan. 2020, © Vera Marmelo

Músico (que acompanha Angel Olsen), Capitólio, Jan. 2020, © Vera Marmelo

Convém o leitor perceber que sigo o Devendra enquanto fã séria desde 2004. Portanto há aqui uma camada de fangirl pesada nesta oportunidade. 

Devendra Banhart, no Capitólio © Vera Marmelo

Devendra Banhart, no Capitólio © Vera Marmelo

Devendra Banhart, no Capitólio © Vera Marmelo

Mas, a parte boa nisto tudo é que no mesmo dia em que estive com o
Devendra pela segunda noite, com o tal acesso a tudo e mais alguma coisa, ainda tive a vontade de ir fotografar na ZDB, durante a tarde, mais uma das matinés dos workshops do Peter Evans

Peter Evans "Som Crescente", na ZDB © Vera Marmelo

Marca-me sempre esta minha energia inesgotável de estar presente, que de vez em quando tem o brilhantismo de alguém muito conhecido que me deixa estar por perto, mas intercalada com banho de cerveja e matinés com estudantes do Peter Evans

As fotografias da Vivian Maier vão estar expostas em Cascais. Muito se poderia acrescentar sobre a fotógrafa que viveu uma vida tão imersa a registar as suas observações nos seus passeios. Muito arquivo dela ficou retido numa garagem e alguma polémica foi gerada por causa dos direitos, etc, imagina o tempo que Vivian deve ter passado a revelar. Para ti a fotografia passa ainda muito por este processo clássico, cujo verdadeiro significado também advém do processo de revelação, ou achas que há outras perspectivas legítimas também, como o processo que a fotografia digital tem implícito? 
Do que vi no documentário, a maior parte dos negativos até ainda estavam por revelar. O que a movia nem era bem o resultado das imagens… era sair e fotografar. E há tantos fotógrafos que mesmo usando o digital continuam a trabalhar desta forma. Fotografar, chegar a casa, descarregar imagens e só voltar a olhar para elas depois, afastando-se do dia, ganhando uma distância ao que fotografou para depois olhar de forma independente para as fotografias. 

O que faço já não tem muito tempo para esta magia da descoberta no pós. O que esperam de mim, e arrisco-me a dizer a razão pela qual também me chamam, é esta rapidez, o momento a ser partilhado no segundo seguinte a ter acontecido. 

Agora faço esse exercício do tempo depois, mensalmente. Tenho, ou tinha, esse compromisso mensal de olhar para todas as fotografias que fazia e compilar o meu best of no site (veramarmelo.pt). Este ano foi atípico mas ainda o fiz. Esse olhar para trás, com mais calma, o que fotografei, compilar menos imagens e as que me dizem mais a mim é um exercício muito útil. 

A minha cabeça em formato digital está no blog e no instagram. O meu processo analógico de seleção de imagens e espera está no site. 

Tu ainda vives a fotografia analógica, o prazer da revelação, todo esse processo que não sabe bem o que está no rolo e que é surpreendido na revelação. Achas que um fotógrafo profissional deveria ter sempre conhecimento sobre o processo mais primitivo, mesmo que não escolha esse caminho, ou achas legítimo que um fotógrafo profissional entenda somente o processo digital? 
To each is own! Não vamos obrigar a malta a ter uma máquina de escrever quando já há tanta alternativa de escrita. Aprende-se muito com a espera, com a contenção a fotografar. Mas podes fazer isso tudo até a fotografar com o teu telemóvel. 

Qual é a fotografia que tiraste e mais gostas e que é capa de um disco? 
A do Thurston Moore. 

Achas que o poder da fotografia, tal como a música e o cinema, é elevar uma possível magia, que à partida possa passar despercebida se não for mediada por um olho fotográfico? 
O poder de contar uma história, de te mostrar uma coisa ou sítio onde não podes estar, de tornar belo uma coisa para a qual nem olhas na corrida do dia. É o cinema dos que querem prazer imediato. Dos que não têm paciência para esperar. 

Acredito muito no poder de passar uma mensagem, de guardar momentos, de te ajudar na construção da tua história na tua memória. 

Tu não és fotojornalista, no entanto há sempre um lugar ético que qualquer pessoa em qualquer trabalho deveria ter, a imagem tão conhecida The Vulture and the Little Girl, tirada por Kevin Carter correu o mundo e foi premiado com um Pullitzer, mesmo assim, o fotógrafo teve um desfecho trágico, acabando com a sua vida, talvez por causa da consciência mórbida que não dissociou o acontecimento traumático daquela imagem com o clique do botão. Como vive a tua consciência nesta circunstância? 
No universo em que fotografo nunca me deparei com uma cena trágica. Mas prefiro mil vezes não carregar no botão a representar de forma injusta e indigna quem está à minha frente. É preciso ter uma fibra muito particular para seres fotojornalista, um dos bons. Não a tenho. 

Há muita gente a publicar inescrepulosamente imagens de autores sem aplicar os devidos créditos. Insurges-te em relação a essa prática ou já lidaste tanto com isso que agora já nem te aquece nem arrefece? 
Já lidei muito com isso. Tentei sempre ser cordial. Nunca deu chatices. E hoje em dia recebo é créditos por coisas que não fotografei. 

Há alguém a quem gostarias de fotografar (esteja morto ou vivo)? 
Neste momento quero fotografar um molho de gente todo colado num buraco qualquer mal ventilado, sem termos medo de morrer a seguir. 

Como tens sentido a representatividade de género desde que começaste até agora no papel de fotógrafa? 
Os tempos mudaram muito. Somos cada vez mais. No pit é realmente notável. Ou então sou eu que estou mais atenta às miúdas na tentativa de as “proteger”. 
Tenho estado, nestes tempos de pandemia, mais interessada em pesquisar o trabalho de outros e isso levou-me a fazer um curso que se foca na Fotografia feita por mulheres, no Atelier de Lisboa, surpreendeu-me sermos só alunas. Este olhar para o trabalho no feminino e a presença mais tardia das mulheres neste universo só me revela que há muito a fazer. Muito a aprender. E acima de tudo a necessidade de sermos mais, em diferentes mundos da fotografia, para que o ponto de vista se diversifique. É diferente, mesmo muito diferente. 

Estamos a viver tempos muito estranhos e a cultura tem sido a secção mais prejudicada, como olhas para o futuro da cultura? 
Nem o consigo olhar de frente pelo medo que isso me traz. Como sempre, será a última a ser ajudada a se levantar. Estamos, neste momento, mesmo na base da pirâmide. A tentar sobreviver. Que a resiliência não nos falhe. 

Temos uma rubrica intitulada Bagagem onde pedimos as referências para 5 livros, 5 discos, 5 filmes/séries, a acrescentar a estes pedidos podes também referir 5 fotógrafos que são para ti uma influência? 

Livros:
Just Kids, Patti Smith 
Kindred, Octavia E. Butler 
A tetralogia da Elena Ferrante, A amiga genial 
A triologia do Henry Miller, Sexus, Nexus e Plexus 
Girl Woman Other, de Bernardine Evaristo 

Discos:
Marked for Death, Emma Ruth Rundle 
Hiss Spun, Chelsea Wolfe 
Joy as an act of Resistance, Idles 
Titanic Rising, Weyes Blood
 All Mirrors, Angel Olsen

Filmes:
Thelma and Louise, Ridley Scott
Paris Texas, Wim Wenders
Parasite, Bong Joon-ho
Everybody Street, Cheryl Dunn
Small Axe, Steve McQueen

Fotógrafos:
Pooneh Ghana 
Alec Soth 
Magdalena Wosinska 
João Canziani 
Sacha Leca

Intro e entrevista: Priscilla
Entrevistada: Vera Marmelo
Todas as Imagens: © Vera Marmelo

O mundo parece estar virado do avesso, ou já estava e os comuns mortais não fizeram caso disso. O ano que passou foi especialmente marcado, ...

O mundo parece estar virado do avesso, ou já estava e os comuns mortais não fizeram caso disso. O ano que passou foi especialmente marcado, além da pandemia, pelas hostilidades políticas entre os EUA e o Irão. Há décadas que estes dois pólos da civilização contemporânea estão numa espécie de divórcio mal superado e em contínuo litígio. Será que com Biden as relações mudarão de figura entre as duas potências?

O presente artigo pretende destacar o trabalho de uma artista iraniana que desde os anos 70 exilou-se nos EUA para, à distância, fazer-se ouvir artisticamente, com o propósito de apontar para a problemática do estado em que encontrou o seu país de origem. Após ter voltado a visitar o Irão, já com um regime teocrático instalado, esse mesmo país que herda uma história rica e única, esse Irão que já foi a Pérsia dos zoroastras e o apogeu dos grandes pensadores, Shirin deparou-se com a mudança radical de um país laico que passou a teocrático, tornando-se um lugar interdito para quem nele vislumbrava a liberdade. Essa mudança fez com que muitos iranianos saíssem do país.

Shirin Neshat, Offered eyes, 1993


Shirin Neshat, iraniana nascida em 1957. 
Conheci o trabalho de Shirin Neshat em 2013 através de um amigo, muitos dos nossos encontros e conversas eram à volta de pessoas cujo trabalho admiramos. 

A iraniana nasceu em Qazvin, no Irão, e mudou-se para os EUA em 1974 para estudar na tão conhecida Berkeley, no estado da Califórnia. Após ter adquirido o grau de mestre em Artes em 1983, decidiu viajar até Nova Iorque, lugar onde assentou e trabalhou durante 10 anos na Storefront for Art and Architecture. Em 1993, ao retornar ao seu país natal, 14 anos após a Revolução Islâmica, Shirin voltou à criação, desta vez com uma índole mais politicamente activista. Esta mulher de estatura baixa mas de olhos penetrantes, suportou-se na multimédia - fotografia, vídeo e filme - para explorar e materializar os projectos que se começavam a definir pela identidade muito característica do seu input intelectual, a oposição entre oriente e ocidente, e a maneira como a mulher é caracterizada nesses dois ambientes. 

Para Shirin, a arte tem que ter um cunho político, para si os artistas devem ser politizados com consciência, e no seu caso em particular, ter nascido iraniana e crescido num país que carece de direitos humanos desde a revolução islâmica, faz com que o seu trabalho gravite descontroladamente nas temáticas da tirania, ditadura, opressão e injustiça política. Contudo, Shirin não se assume activista, acredita que a sua arte, não obstante a sua natureza, é uma expressão de protesto, e um choro para a humanidade.

Shirin Neshat, Fervor Series, 2000


Shirin Neshat, Fervor (Couple at Intersection), 2000


As suas primeiras vídeo-instalações - Turbulent (1998), Rapture (1999), and Fervor (2000) examinam a questão de género e sociedade, especialmente as leis islâmicas que restringem a liberdade da mulher. O seu primeiro filme Mahdokht (2004) baseia-se no livro de Shahrnush Parsipur "Women Without Men".

Destaca-se a vídeo-instalação Turbulent (1998), cuja crítica aponta para o homem como figura central. Este homem canta para uma plateia (só de homens) que o aplaude após a sua performance "confortável para os ouvidos habituados à cultura popular", enquanto a mulher mais capaz de sair das normas, liberta-se, saindo das linhas da canção popular. Esta mulher apresenta uma estrutura livre e improvisada perante uma plateia vazia, mesmo assim é como se a sua voz conseguisse sair das paredes daquele espaço. As duas personagens do vídeo (Shoja Azari - homem, e Sussan Deyhim - mulher) criam uma metáfora musical poderosa inerente aos papéis de género, poder cultural e injustiças praticas pelo governo iraniano. Fica aqui a sugestão para investigarem mais o trabalho desta artista tão sensível.


Texto: Priscilla Fontoura

Cartaz: This is not a Film, de Jafar Panahi This is not a film | Isto Não É um Filme,  de Jafar Panahi ajuda-nos a perceber como a criativi...

Cartaz: This is not a Film, de Jafar Panahi

This is not a film | Isto Não É um Filme, de Jafar Panahi ajuda-nos a perceber como a criatividade e a concretização de ideias que se julgam ficar em suspenso por tempo indeterminado são possíveis de serem materializadas quando olhamos para o que Jafar Panahi consegue fazer, mesmo confinado em casa por causa do regime do seu país, o Irão. Mesmo castrado e oprimido pelas forças governamentais que o impedem de concretizar o seu filme sujeito a uma série de alíneas que determinam o que o realizador pode ou não fazer, o realizador iraniano não se coíbe de ser personagem de um Não Filme e mesmo que o décor seja o tapete da sala da sua casa. 

Este filme aponta essencialmente para dois sentidos, o do confinamento e o da censura política. O Irão desde os anos 70 tem sofrido uma grande instabilidade política que tem posto em cheque o direito à liberdade de expressão, de imprensa, artística e de género, como tantos outros. Por exemplo, por um lado é um país que persegue os homossexuais, mas apoia a mudança de sexo porque o governo ganha dinheiro com essas cirurgias - sendo que a mudança de sexo não é pecado para a religião vigente do país. A opressão política tem continuamente levado vários iranianos a sair do país e jovens a ir para as ruas protestar. 

O iraniano realizador Jafar Panahi na sua sala de estar da sua casa em Teerão

Rapidamente entendemos que a obra de 75 minutos de Jafar Panahi faz paralelismos com este cenário surrealista de hoje, tanto o político, quanto o de saúde pública, mas o que ressalta é o humor subtil e surreal presente neste ensaio. A pergunta que se faz é, quem são os maiores censores? 

Este ensaio em vídeo foi gravado em Teerão, quando Panahi, um dos principais cineastas iranianos da década passada, estava sob uma agressão legal do seu governo, que incluiu o confisco do seu passaporte, a ameaça de uma longa pena de prisão e proibição de fazer filmes.

Com o cuidado de obedecer à letra desse liminar - e, assim, expor o absurdo e também a mesquinhez do do poder político iraniano - Panahi não escreveu um roteiro nem empunhou uma câmara em tamanho real. Um colega, Mojtaba Mirtahmasb (creditado como codiretor), chega ao seu apartamento para filmar, e Panahi restringe as suas actividades a falar, gravar com o seu iPhone, comentar sobre alguns dos seus filmes anteriores e ler em voz alta guiões existentes. Portanto, se este não é um filme, é, entre outras coisas, uma declaração de resistência criativa em face à tirania e um documento de liberdade intelectual face à coação política.

Na década de 1990 e nos primeiros anos deste século, cineastas iranianos como Mohsen Makhmalbaf e Abbas Kiarostami, o antigo mentor de Panahi, misturaram investigação social com autoconsciência formal numa série de experimentações que culminaram na invenção de um novo estilo que mistura documentário, realismo social e visão poética.

Jafar Panahi com a sua iguana na sala de estar da sua casa em Teerão

Isto não É um Filme aborda a vida de um homem de meia-idade vagueando por um apartamento espaçoso e elegante que pode ser a casa de um intelectual cosmopolita de classe média em qualquer lugar do mundo, cheio de livros, arte, electrodomésticos de última geração e outras coisas. O homem, cuja família visita parentes, conversa com o seu advogado ao telefone, cuida da iguana de estimação da sua filha e assiste a alguns dos filmes que fez na altura em que tinha permissão para exercer a sua profissão. Às vezes deixa transparecer a sua ansiedade e cansaço, mas principalmente parece considerar a sua situação com estoicismo e certa diversão. Claramente, este homem, está mais acostumado a observar e a reflectir sobre as acções dos outros do que a ser o centro da acção. E então faz as duas coisas, transforma um diário de vídeo altamente pessoal numa narrativa histórica carregada e expansiva. Não há enredo (não é um filme, afinal), mas, ainda assim, há uma reviravolta incrível no final, seguida por um leve tremor de admiração. 

Este não filme é já por si um documento incrível para perceber os efeitos que um regime autoritário desencadeia nas várias vidas - artística, social, política. Neste momento, em que se vive agitações de todos os lados, visualizar este filme poderá ser relevante para percebermos como se resiste a momentos de coação tirana e aos abusos de poder que nem sempre se ficam pela política.

Texto: Priscilla Fontoura
Breaking the Fourth Wall: This is not a Film, de Jafar Panahi

Criação e Autoria: EMANUEL R. MARQUES

Criação e Autoria: EMANUEL R. MARQUES

Roça Nova é mais do que um grupo musical, é um colectivo que acredita firmemente no poder de trabalhar em conjunto e na expansão de consciê...



Roça Nova é mais do que um grupo musical, é um colectivo que acredita firmemente no poder de trabalhar em conjunto e na expansão de consciência através da espiritualidade. Hoje, dia 22 de Janeiro, lançam o seu álbum de estreia, Tramoia, composto por 10 temas de "caipigroove", um termo que designa a fusão entre rock psicadélico, sons caipira e ritmos de inspiração afro-latina. 

A banda acredita na expansão e abertura da consciência que tem e terá como cerne emoções positivas como o amor, que se torna uma força opositora e de resistência a crises, sejam elas políticas, ambientais e/ou sociais. 

Roça Nova é uma banda jovem, mas com um ethos desenvolvido e francamente implantado tanto no som da banda, como na própria imagética. 

Como é que se deu a origem de Roça Nova?
A banda surgiu no final de 2019, quando eu conheci o Marco Maia (guitarrista), e começámos a tocar juntos nossas composições aqui em Juiz de Fora. O Hector (baixista), que já era um grande amigo e parceiro musical do Marco há muitos anos, depois de assistir uma apresentação nossa, demonstrou interesse e entrou para o projecto.

Daí para a frente, por iniciativa minha, iniciou-se uma aproximação gradual entre os dois e os meus antigos amigos e parceiros musicais João (bateria e voz) e Bernardo (percussão), que, assim como eu, são nascidos em Manhuaçu. Hoje a Roça Nova é um colectivo independente, e contamos com mais pessoas na equipe: o Victor Miranda (marketing), o Lucas Machado (produção audiovisual), Gabriel Barbeto (curadoria), a Ana de Castro (redacção) e o ATM (artes visuais).

A origem do nome da banda
O nome Roça Nova vem da junção da cultura rural com a possibilidade de experimentações.
A palavra “roça” vem naturalmente se ressignificando ao longo dos anos e hoje, além da velha definição de um espaço destinado ao cultivo rural, também se refere aos “interiores” do país como um todo, e às características culturais do interior em si, por vezes em conotações negativas, por vezes em conotações positivas.

“Você é muito da roça”, ou “isso é muito da roça” são frases que ouvimos frequentemente nas metrópoles aqui do Brasil. Nós buscamos assumir essa identidade, deixando para trás a velha condição de um interior limitado, usando os estilhaços da revolução digital a nosso favor. Buscamos produzir o nosso som de forma independente, nos conectando com o nosso público e com os demais interiores, de onde sempre surgiram artistas tão incríveis nas mais diversas áreas. Acreditamos na possibilidade de sermos ouvidos pela metrópole e estabelecermos esse diálogo, que antigamente era unidireccional, o centro falava e o interior captava. Hoje, também podemos e precisamos falar.

Gravaram o disco de estreia numa roça. O que motivou essa escolha? E que momentos mais marcantes recordam da gravação do álbum?
Vejo dois motivos principais. A princípio, já tínhamos a intenção de pré-produzir o disco naquela roça, que é o lar do nosso baterista João Manga, e por muitas vezes serviu de refúgio imersivo para a articulação dos nossos projectos, se tornando um local que faz parte da nossa história.

Além disso, o Brasil foi um dos países onde a pandemia pela COVID-19 acometeu mais vítimas no ano de 2020, um processo muito triste e grave que derivou, principalmente, da negligência do nosso presidente e seus ministros. Por isso, a imersão ter sido realizada na zona rural, favoreceu um isolamento colectivo absoluto, seguindo as orientações da OMS, de modo a evitar aglomerações e prejuízos sociais.

Imagem por Vitória Dantas 

O vosso som mistura raízes regionais com um som mais psicadélico e sempre adaptado ao contemporâneo. Como é que ocorre normalmente o processo de composição?
Nós cinco somos compositores, e quase todas as composições deste álbum são mais antigas do que a própria formação da banda, assim, acredito que os processos de composição tenham sido bem diferentes, reflectindo o início da formação musical de cada um de nós.

O interessante é que, mesmo assim, observamos tantas semelhanças, o que eu acredito que se deve ao facto da existência de tantas referências artísticas e vivências que temos em comum. O resgate das nossas raízes num geral é um interesse que todos nós temos, porque acreditamos na importância sócio-cultural desse processo em contraponto aos reflexos imperialistas, e a adaptação do som ao mundo contemporâneo; é um processo natural para nós que vivemos o presente como uma experiência contínua em constante transformação.

As líricas têm um cerne poético, mas também um lado de consciencialização. Que temas, ideias mais vos interessa passar nos vossos temas?
Nós buscamos estimular o nosso fortalecimento psíquico, cultural e espiritual, e percebemos que isso acaba reflectindo nos nossos amigos e ouvintes de uma forma positiva, com muita fé na própria existência e tomando o amor como ferramenta base.

As nossas músicas são de resistência frente às crises culturais, políticas e ambientais que hoje se espalham pela América Latina. Nós buscamos inspiração na observação do quotidiano e da natureza, na interpretação dos sentimentos e na colectividade.

Capa por Artemutreta

A arte de capa é colorida e evoca um certo elemento surreal. Que conceito pensaram primordialmente para a capa?
A imagem de capa é composta por nove quimeras, representativas de cada uma das nove faixas do álbum. Elas são formadas por retalhos de elementos e texturas característicos da fauna, da flora e da cultura do interior de Minas Gerais. Os recortes identitários, organizados como estruturas orgânicas, são adornados com acessórios típicos e instrumentos musicais, como a personificação de seres vivendo em colectividade. A paleta cromática é oriunda das cores citadas pelo João na letra da música “Alma de Gato”. 

O artista responsável por toda a arte do álbum física é um grande amigo e incentivador do nosso colectivo, que prefere se identificar como ATM (Artemutreta), e o surrealismo é para nós uma forma de interpretar e principalmente viver o mundo, o que se reflecte em nossas criações.

Canto de Rudá é um tema cuja lírica assenta por vezes em rimas e com um contexto que pode ser interpretado como espiritual, na medida em que existe uma narração de “abertura” das portas da percepção. Como é que lidam com a espiritualidade na vossa música e no dia a dia?
“Canto de Rudá” coloca a mortalidade do homem no centro de uma especulação filosófica, em contraste com o carácter imortal que as suas criações podem adquirir, e sugerindo a própria manifestação artística como solução para as adversidades mortais.

Isso é, de certa forma, intangível, assim como o fato de acreditar que a minha experiência com alucinogénios tenha uma relação directa com um desenvolvimento empático e emocional. Talvez essas sejam formas de lidar com a espiritualidade na música e na vida, a poesia é um instrumento de redenção.

Que músicos ou bandas mais vos influenciaram e continuam a influenciar aquando da gravação de Tramoia?
Cada um traz a sua bagagem, mas num geral temos como referência o tambor mineiro universal de artistas como Maurício Tizumba e Marku Ribas; o jazz mineiro do Clube da Esquina; o manguebeat de Chico Science & Nação Zumbi; além de projectos mais recentes como Metá Metá e BaianaSystem.

Texto e entrevista: Cláudia Zafre 
Banda: Roça Nova 

Em 2018 decidimos adaptar a rubrica   Bagagem   em formato escrito (iniciada em 2017) para o vídeo. Este projecto partiu da premissa: pedir ...


Em 2018 decidimos adaptar a rubrica Bagagem em formato escrito (iniciada em 2017) para o vídeo. Este projecto partiu da premissa: pedir as referências de 5 livros, 5 discos, 5 filmes/séries a pessoas que consideramos que podem dar um input positivo aos mais ávidos por cultura — ideia influenciada pelo programa What's in my Bag

O primeiro convidado para o formato de vídeo foi o músico Vítor Rua que anteriormente já tinha respondido ao nosso pedido para a rubrica escrita. Algum tempo passou e muita coisa aconteceu. Chegámos a 2021 e decidimos avançar com o que tínhamos pendente, e agora, que os ventos sopram a nosso favor, conseguimos terminar a rubrica. É com muito gosto que apresentamos a primeira parte da Bagagem com os 5 livros que o músico singular Vítor Rua sugere.

Agradecemos o apoio que a Louie Louie no Chiado, Lisboa, nos concedeu, e o apoio à produção da Widescreen e da Lula Gigante prod

Video with captions available.


Uma produção: Acordes de Quinta 
Convidado: Vítor Rua 
Animação, vídeo, pós-produção: Priscilla Fontoura 
Som e tradução: Cláudia Zafre 
Música: "Heavy Mental", de Vítor Rua; "When Better Isn't Quite Good Enough", de Vítor Rua & The Metaphysical Angels 
Livros: "Musicónimos", de Jorge Lima Barreto; "Gödel, Escher, Bach - Laços Eternos", de Douglas R. Hofstadter; "The Time of Music", de Jonathan D. Kramer; "Music Notation in the Twentieth Century: A Practical Guidebook", de Kurt Stone; "Digital Mantras: The Language of Abstract and Virtual Worlds", de Steven R. Holtzman 
Programa: Bagagem 
Apoio à Produção: Lula Gigante prod. 
Agradecimentos: Louie Louie, Chiado; Widescreen

Cool Gardens , de Serj Tankian A delicadeza de alguém encontra-se também na nobreza das palavras que consegue transmitir. O nome Serj Tankia...

Cool Gardens, de Serj Tankian

A delicadeza de alguém encontra-se também na nobreza das palavras que consegue transmitir. O nome Serj Tankian é conhecido pela grande maioria por causa da sua veia musical. O vocalista de System of a Down, além de letrista das suas canções, escreve também poesia. Há tantos exemplos que mostram quão importantes são as palavras, a singeleza de algumas que são praticamente capazes de fazer cócegas ao ouvido, ou a brutalidade com que outras esmagam o coração, ou por oposição a força que a logoterapia, criada por Viktor Frankl, tem em si como capacidade de tirar pessoas de estados de depressão. Se já viram o filme The Professor and the Madman sabem bem o valor de cada palavra e o que vários homens e mulheres fizeram em prol das mesmas para as manterem nas melhores enciclopédias para serem exploradas ou guardadas por toda a gente. 

Cool Gardens, de Serj Tankian

O Wunderkammer de hoje tenta apresentar de uma forma sucinta o que o vocalista Serj Tankian tem feito ao longo da sua vida de poeta. Paralelamente, tem sido activista na luta e defesa da história e do legado cultural do seu país de origem. A Arménia ainda hoje não recebeu qualquer pedido de desculpas ou qualquer reconhecimento da Turquia face às injustiças por si perpetradas contra o país vizinho e cujo direito à existência e independência sempre mereceu. 

Já se sabe que o vocalista estaria concentrado e focado em preparar o documentário Truth to Power relacionado ao conteúdo (infelizmente) ainda muito preponderante e que merece mais que nunca ser exposto principalmente nos dias de hoje, a Arménia continua a enfrentar confrontos hostis com os países vizinhos, no ano passado além da pandemia, foi também vítima de ataques do Azerbaijão, avassalado pela Turquia, que tem como interesse conquistar território que é há muito povoado pelos arménios. Truth to Power foca-se no envolvimento do vocalista na revolução arménia, e conta com a sua estreia mundial a 19 de Fevereiro. Em prol da revolução arménia que se desencadeou em 2018, em favor do democrata e actual chefe de Estado Nikol Pashinyan, Serj foi compondo várias bandas sonoras, como em "1915" que traz à memória a sombra do genocídio do povo arménio pela armada turca em 1914, ou o documentário "I Am Not Alone", sobre o grande herói da Revolução Arménia, Nikol Pashinyan. Mas em "Truth to Power", é o próprio músico que se torna o alvo da câmara de Garin Hovannisia.

"Truth to Power" aborda também a forma como Tankian trabalha na sua música. O documentário conta com depoimentos de figuras como o produtor Rick Rubin ou o guitarrista dos Rage Against the Machine, Tom Morello, também ele activista dos direitos humanos. O vocalista de SOAD é igualmente um crítico histórico do papel da Turquia face à Arménia, como potência regional opressiva, quer no Genocídio Arménio de 1914, quer no apoio ao Azerbaijão no conflito fronteiriço que tem travado com o país de sangue do vocalista dos System of a Down. Um dos momentos mais comoventes de SOAD fica como registo histórico e de extrema importância, o concerto da banda em plena praça da República da capital da Arménia, n a cidade de Yerevan, no âmbito da digressão Wake Up the Souls que existiu para comemorar os 100 anos de genocídio arménio para fomentar consciência dos eventos que aniquilaram mais de um milhão e meio de arménios debaixo das armas do governo otomano em 1915.

Cool Gardens, de Serj Tankian

Sabemos que as letras de canções podem muito bem passar por bonitos poemas metamorfoseados com simbolismos que apontam para um lado menos literal. Um dos expoentes máximos de letristas de canções que ganharam o Prémio Nobel de Literatura e que não faz faz parte da comunidade de escritores é Bob Dylan, servindo de exemplo que nem sempre são os romances que são candidatos a tal reconhecimento. No entanto, há quem tente também fazer da poesia ou da prosa um estilo provocador despido de ornamentos verbais. O livro de estreia de Serj Tankian, baptizado com o nome Cool Gardens, é uma colectânea de prosa que reúne sete ou oito anos de reflexões do norte-americano de ascendência arménia. 

Cool Gardens, de Serj Tankian

O livro mostra o estilo do autor, cuja abordagem não-tradicional recai num sentido mais ecléctico, introspectivo, muitas vezes directo e esmagador. Os poemas lidam com temáticas sensíveis tais como a eutanásia e a própria natureza do tempo. Cool Gardens envolve o leitor na mesma abordagem multifacetada que a sua música faz com o ouvinte. A capa do livro é criada pelo jovem e talentoso artista residente em Los Angeles Sako Shahinian. Na viragem do século XIX para o XX a arte começou a preocupar-se mais com o sentido de verdade, e nessa medida Serj pode ser chamado de artista, porque não tem medo do que a sua voz interna pode causar em quem o ouve.

I can feel you far away your hesitation matching mine
Sadness left us as the residue of uncompromising love
Between the blind seeking adoration of bright doorways
And sweet melodic voices dispersed by the wind crested
In the park I can feel you far away with your earth blue eyes
Catching the waves of unknown oceans not born harvesting the sea

Of torn lullaby's in the skies your grief matching mine touching glasses
Toasting the totality of all time when lovers fought behind the
Lines of red wine pouring from the gashes left behind by the
Sweet petals of a misunderstood rose

Poema: Misunderstood Rose, de Serj Tankian


Texto: Priscilla Fontoura

Cool Gardens , de Serj Tankian Someone's most delicate side can be found in the noble way their words express themselves. The name Serj ...

Cool Gardens, de Serj Tankian

Someone's most delicate side can be found in the noble way their words express themselves. The name Serj Tankian is known by the majority of people as being associated with music. The vocalist of System of a Down, besides writing lyrics, also writes poetry. There are so much examples that show how important the words really are, the simplicity of some words can cause tickling in our ears, and the brutality of some can crush our heart, in opposition, the strength found in logotherapy, created by Viktor Frankl, has in itself the capacity of taking people out of depressive states. If you have already watched the film The Professor and the Madman, you can surely recognize the value within each word and that several men and women kept those same words alive in encyclopedias to be explored and kept by everyone. 

Today's Wunderkammer tries to present in a succinct manner what the vocalist Serj Tankian has been doing as a poet. Besides his poetry, he has been an activist in music, fighting for the legitimacy of history and the cultural legacy of his country of origin. Armenia has not received until this day any apology or even recognition by Turkey in respect of the injustices perpetrated in its neighbour country whose right to exist and be independent was legitimate. 

It is known that the vocalist would be focused in preparing the documentary Truth to Power related to a specific theme (sadly) still relevant in our days and that deserves now more than ever to be exposed, Armenia still faces hostile confrontations with its neighbour countries, last year besides also being afflicted by the pandemic, Armenia was also a victim of attacks by Azerbaijan, hounded by Turkey whose interests are centered around conquering territory that is populated by armenians. Truth of Power focuses on the involvement of the vocalist in the armenian revolution and will have its official release date 19th of February. In favor of the armenian revolution that began in 2018 favouring the democrat and present chief of State Nikol Pashinyan, Serj composed several soundtracks like in "1915" that brings to memory the shadow of the genocide of armeninan people perpertraded by the turkish armada in 1914, or the documentary "I am Not Alone" about the great hero of the armenian revolution, Nikol Pashinyan. However, in "Truth To Power" it's the musician that becomes the target of Garin Hovannisia's camera. 

"Truth to Power" also approaches the way Tankian works in his music. The documentary contains interviews of several key figures like the producer Rick Rubin or Rage Against the Machine's guitar player, Tom Morello, who is also an activist for human rights. SOAD'S vocalist is also a critic history wise in regards to Turkey's role towards Armenia, being a country who has been a force of regional oppression, like in the Armenian Genocide of 1914, or in the support it has been giving to Azerbaijan in the border's conflict with SOAD'S vocalist's native country. One of the most touching moments of SOAD remains as an historical record of extreme importance which is the band's concert in the middle of the square of republic in Armenia's capital, Yerevan, part of the Wake up the Souls tour that served as a reminder for the 100 years of the armenian genocide and served as a means to bring awareness to the events that took the lives of more than one million and a half armenians under the hands of the Ottoman government in 1915. 

Cool Gardens, de Serj Tankian

We know the song lyrics may well be beautiful poems transmuted by symbolism that guides us to a place that is beyond the literal. One of the major highlights of song writers that won the Nobel award for literature and who is not part of the writer's community is Bob Dylan, who serves as an example that it's not always novels that are candidates for that award. However, there are those who try to turn poetry and prose into a challenging vessel that is naked of verbal ornaments. Serj Tankian's debut book baptized under the name Cool Gardens is a collection of prose that unites seven or eight years of reflections by the north american of armenian ancestry. 

Cool Gardens, de Serj Tankian

The book showcases the author's style, whose non-traditional approach is eclectic, introspective, and sometimes quite straightforward and crushing. The poems deal with sensitive issues like euthanasia and the nature of time. Cool Gardens envelopes the reader in the same multifaceted approach as Serj's music. The art for the book was created by the young and talented artist resident in Los Angeles, Sako Shahinian. In the turn of the 19th to 20th century, art started to worry more about the sense of Truth and in that way Serj can be called an artist, because he is not afraid of the effects of his inner voice in those who listen to it. 

I can feel you far away your hesitation matching mine
Sadness left us as the residue of uncompromising love
Between the blind seeking adoration of bright doorways
And sweet melodic voices dispersed by the wind crested
In the park I can feel you far away with your earth blue eyes
Catching the waves of unknown oceans not born harvesting the sea

Of torn lullaby's in the skies your grief matching mine touching glasses
Toasting the totality of all time when lovers fought behind the
Lines of red wine pouring from the gashes left behind by the
Sweet petals of a misunderstood rose

Poema: Misunderstood Rose, de Serj Tankian


Text: Priscilla Fontoura
Translation: Cláudia Zafre