Do Porto a Braga, são os Sereias o motivo que nos leva à Roma portuguesa, à cidade de António Pedro Ribeiro e da sua mãe. Com o pé no acele...


Do Porto a Braga, são os
Sereias o motivo que nos leva à Roma portuguesa, à cidade de António Pedro Ribeiro e da sua mãe. Com o pé no acelerador, tenta-se cumprir a lei, mas, também, chegar a tempo do concerto. Sair do tédio, após a semana de trabalho, é a agenda. Há uma porta que separa o auditório pequeno do corredor de um dos andares subterrâneos do Theatro Circo. 

Todo o imaginário acontece nas nossas mentes permeado pelas letras vociferadas pelo vocalista de Sereias e pelos instrumentos que acompanham o cenário dantesco que nos leva ao inferno de Bosch. Nunca se transita para o purgatório ou para o paraíso. APR representa, aqui, a voz da revolta e da consciência sobre o estado de um país em queda moral e ética, que se reflete nas notícias que nos são transmitidas em loop: a TAP, o Governo, a dona de casa que vai presa porque em desespero mata o marido que a tortura à paulada todos os dias, o senhor que nunca consegue a reforma antecipada com desculpas esfarrapadas mascaradas de decretos-lei comunicadas pela Segurança Social.

Os Sereias lembram a reunião de tipos outsider que andaram numa escola artística e juntaram-se para a catarse. Já que as cartas registadas à Assembleia não têm resposta, que seja o microfone e a amplificação a ecoar toda a corrosão de estados de alma. Todos os Sereias transmitem tanto visual como musicalmente o estado de um país, da cultura à ciência, da economia ao direito, a caminhar para o abismo. Todos os dias lê-se desinformação vinda dos média, dos tipos amorais que apontam o dedo, que nos dão fake news, cometem plágio, são até agressores que falam de violência doméstica e p# da TV que instrumentalizam o feminismo, sendo as primeiras a praticar bullying contra as mulheres e pactuam com os opressores.

Precisamos destes Sereias frente à Assembleia da República a representar o povo inerte à constante hipocrisia perpetrada pelos governantes deste país e seus empresários, e a dar uma abanão aos políticos correctos que fazem música. Este país que mais parece um poço defecado pelo diabo educa uma sociedade zombificada. Os Sereias nadam no fundo do mar à espera da erupção de um vulcão adormecido que dá sinais pelos seus tremores de terra. O canto dos Sereias não chegou a todos os ouvidos durante o concerto de ontem. Uma sala bem composta mas um público um tanto adormecido e pouco reactivo. 



Depois do excelente País a Arder, temos o disco homónimo lançado em Abril do ano passado, gravado pelo teclista da banda Nils Meisel, na sala 304 do Stop, excepto o tema "A Depressão", gravado na Associação Luz & Vida, produzido por João Pires, Sérgio Rocha e Tommy Hughes misturado por Nils Meisel e masterizado por Chris Hardman na CH Sound. A belíssima capa “Ódio e Amor” foi executada por João Alves e pelo designer gráfico Sérgio Couto. A formação mantém-se, e conta com a participação de Arianna Casellas na voz e de Ra-Yacov nos sopros.

Só há uma afirmação de APR com a qual não posso concordar, o mal não é o dinheiro, são as pessoas. Quando se acabam as folhas, terá o poeta APR algo mais a dizer?

Esperamos que sim!

Texto: Priscilla Fontoura
Imagem: Sandra Correia, telemóvel
Concerto: Theatro Circo - Pequeno Auditório, Sereias, 20 de Janeiro, 2023

Paulo Portas e Paulo Nogueira À esquerda, Paulo Portas, comentador, jornalista d'O Independente com Miguel Esteves Cardoso, e político, ...

Paulo Portas e Paulo Nogueira

À esquerda, Paulo Portas, comentador, jornalista d'O Independente com Miguel Esteves Cardoso, e político, envolvido no polémico "caso dos submarinos". O processo levantava dúvidas sobre alegados compromissos para favorecer o consórcio vencedor em troca de financiamento partidário, com Abel Pinheiro e o administrador da Escom, do Grupo Espírito Santo. Segundo consta, Paulo Portas pagou 30 milhões de euros a mais em submarinos. Filho de Helena de Sacadura Cabral e irmão do dirigente político já falecido Miguel Portas, e meio-irmão da jornalista e empresária Catarina Portas, que viu há pouco tempo a sua loja "A Vida Portuguesa", no Porto, a fechar portas devido à crise provocada pela pandemia.

À direita, Paulo Nogueira, jornalista de profissão. Começou na Rádio Renascença e esteve vários anos na RTP. Em 1992, é convidado a ser cara da SIC, onde é pivot e coordenador de informação. Paralelamente, também colabora com a revista dirigida às famílias com crianças Estrelas & Ouriços.

Os dois têm narizes proeminentes e as expressões faciais poderiam prometer que partilham percentagem de ADN. Se ambos são apreciadores de música? Crê-se que sim.

Texto: Priscilla Fontoura

  Montagem: Priscilla Fontoura

 

Montagem: Priscilla Fontoura

Cartaz de The Marvelous Mrs. Maisel The Marvelous Mrs. Maisel, série escrita pela talentosa Amy Sherman-Palladino, também autora de Gilmore ...

Cartaz de The Marvelous Mrs. Maisel


The Marvelous Mrs. Maisel, série escrita pela talentosa Amy Sherman-Palladino, também autora de Gilmore Girls, acontece nos anos 50 e é distribuída pela Amazon Prime Video. Dois judeus casam-se. Ele, Joel (Michael Zegen), acha-se engraçado, mas não passa de um machista que objectifica a mulher para atingir os seus propósitos. Vive obcecado com a alienada vontade de poder vir a ser um comediante famoso. De facto, não são precisos muitos episódios para verificarmos a sua falta de talento. E como é natural nesse tipo de pessoas, utiliza-se da estratégia indigna que serve de trampolim para gamar textos de outros comediantes - algo que é inconcebível para Midge e Susie (já vão saber quem são), sendo que Midge é o radar que detecta tal mediocridade. A única vantagem que Joel tem é a de ser um homem nos anos 50 a viver num contexto sobretudo machista. No entanto, ao longo da série, vai tentando procurar a sua identidade e vivendo um conflito interior permeado pelo que se quer ser e do que na verdade se é.

Ela, Midge (Rachel Elizabeth Brosnahan), desde que se casou, tentou agarrar o marido pelo perfeccionismo. Nem uma migalha no chão seria vista no apartamento no Upper West Side para agradá-lo, e nem um sinal de desmazelo da sua imagem estaria estampado. Midge é a sua "buddy", aponta e avalia a performance do marido sem talento durante as actuações nos "dive bars" no seu caderno de capa cor-de-rosa - tentando, sempre, que a sua performance melhore de dia para dia. Quando Joel diz que se quer separar de forma abrupta, por estar envolvido com a sua secretária em plena véspera de Yom Kippur, ela, Midge, que já vinha a dar indícios de puro humor autêntico, torna-se numa aspirante comediante irreverente cheia de piada honesta, capaz de mexer com as estruturas da época. No palco, Midge despeja a sua revolta, é a Lorelai Gilmore a viver nos anos 50, época em que o machismo era predominante na sociedade americana. Esta série é caracterizada por padrões que marcaram a época, um homem sem talento a querer singrar na comédia e a ter o foco de luz virado para ele quando a mulher é a verdadeira luz. 

Na década de 1950, as mulheres sentiam pressão social para concentrar as suas aspirações na aliança de casamento. A taxa de casamento nos EUA estava em alta e os mais novos casavam-se, em média, mais cedo do que nunca. Casar-se após o ensino médio ou durante a faculdade era considerado a norma. Um estereótipo comum era que as mulheres iam para a faculdade para conseguir o título de "Sra." (M.R.S.), ou seja, mulher casada. Embora as mulheres tivessem outras aspirações na vida, o tema dominante promovido na cultura e nos média da época era que um marido tinha mais importância para uma jovem do que um diploma universitário. Apesar do facto de que as taxas de emprego também aumentaram para as mulheres durante esse período, os média tendiam a concentrar-se no papel da mulher em casa. Se uma mulher não estivesse noiva ou casada aos vinte e poucos anos, corria o risco de se tornar uma "solteirona", nos dias de hoje uma "encalhada" (infelizmente esse construto continua a prevalecer).

O machismo latente na época é sem dúvida um ponto que leva Midge (Mrs. Maisel) a confrontar as ideias dos seus pares comediantes que continuam, maioritariamente, a perpetuar a estereotipagem da mulher bonita mas burra, cómica mas feia. Porém, o comediante Lenny Bruce (Luke Kirby) encontra em Midge tudo o que é necessário para seguir este tipo de vida: o amor, a vocação, a autenticidade e a coragem. Tal como ele diz: foram os comediantes que tiraram a tristeza das pessoas durante a Grande Depressão. Midge quebra com todos os preceitos de como a mulher era vista na sociedade americana. É multifacetada: bonita, engraçada, corajosa, mãe de 2 filhos e foi detida, pelo menos duas vezes, por desenhar guiões politicamente subversivos. Quando pisa o palco, seja no pequeno bar chamado "Gaslight", cujo lugar é mesmo real em Manhattan (The Gaslight Cafe), seja num evento elitista, não deixa de ser genuína e sem filtros. Mas que mulher corajosa!

A série envolve e causa um grave problema a qualquer espectador. Vicia quem a vê e desregula horários. Mrs. Maisel, além disto tudo, faz-nos querer viver naquele tempo. Numa Manhattan habitada por espaços sui generis, desde a loja de geeks que tem um arquivo raríssimo, onde é capaz de se encontrar o comediante mais desconhecido de sempre, ao diner tidos como a casa dos comediantes, artistas e agentes de todas as classes. A construção de personagem da agente Susie Myerson (Alex Borstein) é como reviver um Danny DeVito em The Kominsky Method - uma aspirante a agente que quer sair a todo custo da miséria financeira e uma sidekick leal e comprometida com a sua pérola Midge. Susie também desconstrói a figura da mulher americana dos anos 50. E quem diria que iria encontrar o grande "inconceivable" Vizzini (Wallace Shawn)...

Mrs. Maisel abunda em humor judaico como se passeámos numa rua de pastelarias que preparam bolos a toda a hora. A química que tem com o seu colega extremamente inteligente, cáustico e atraente Lenny Bruce (Leonard Alfred Schneider), leva-nos a acreditar no amor. Mrs. Maisel é inspirada na comediante e actriz Joan Rivers e Lenny Bruce é uma adaptação do famoso comediante norte-americano que viveu os anos 1950 e 1960 a mudar as estruturas morais norte-americanas. Bruce não se deixava normalizar pelas regras da altura, foi julgado e condenado por obscenidade em 1964, foi dispensado do serviço naval e preso em Miami por se fazer passar por padre, com o intuito de arrecadar dinheiro para uma colónia de leprosos na Guiana Inglesa, conseguindo arrecadar 8 mil dólares, dos quais 2500 foram enviados para a colónia. Quando Bruce começou a ser influência no meio, foi sendo controlado pela polícia e acabou preso por diversas vezes - uma delas por posse de drogas e muitas por atentado à moral. Foi com Bruce que o Estado de Nova Iorque concedeu o primeiro perdão póstumo da História para defender a Primeira Emenda, com o governador George Pataki, de Nova Iorque, em 2003, uma vez que Bruce foi condenado por atentado à moral, ainda que celebridades como Woody Allen, Bob Dylan, Allen Ginsberg, James Baldwin e muitos mais se insurgissem a favor de Bruce. Pouco tempo depois, veio a falecer na altura em que aguardava o recurso para viver em liberdade; contudo foi um dos precursores da liberdade de expressão na comédia e artística nos EUA, abriu caminho para a liberdade de expressão expansiva na comédia que desfrutamos hoje, inspirando outros comediantes a desafiar os costumes e limites sociais.

O pai de Midge, Abe Weissman (Tony Shalhoub), tal como todas as outras personagens, é hilariante e é o estereótipo do judeu americano cientista reconhecido na academia, guiado por uma conduta exemplar, em contraposição com outro estereótipo, o pai de Joel, Moishe Maisel (Kevin Pollak), um judeu comerciante e trambiqueiro, que ajudou judeus a sair da Alemanha nazi e faz disso o seu grande feito, quando de facto explora-os na fábrica que chefia. Um retrato de Seinfeld, no que aos diálogos diz respeito, mas nos anos 50. O ritmo, os planos, os diálogos, as personagens, a atenção aos detalhes, a reprodução da época, e a banda-sonora são tratados com toda a mestria, vencendo 20 Emmys em 66 nomeações. Tal como a série Dickinson, também aqui é incluída música contemporânea numa série de época. A música adaptada ajuda a revelar a série como não tradicionalista com as suas escolhas musicais modernas, um lembrete de que o público está a assistir a uma história novelística sustentada por sentimentos modernos.

Midge vive o mundo das mulheres requintadas, é ingénua, tem um grande sentido estético e bom gosto, mas é, igualmente, artista e genuína. Apesar de ter crescido no seio de uma família de classe alta, representa as mulheres da época e é a porta voz de todas as suas lutas. Tal como tantos outros homens que tentaram viver à sombra do talento das suas mulheres, como o caso de Rodin com Camille Claudel, esta série é mais um exemplo disso. Mulheres com personalidade, mesmo a viver contextos impeditivos para a sua emancipação, não deixaram de definir o seu caminho pelos tropeços da estrada. Mais haveria para dizer, mas já spoilei demasiado...

E como diria Mrs. Maisel: "Thank You and Good Night!"


Para apreciadores de: Seinfeld, The Kominsky Method, Curb Your Enthusiasm, Gilmore Girls, Broad City, Almost Famous, Arrested Development, Shtisel. 

Texto: Priscilla Fontoura

Isto não é uma petição, mas uma mobilização para que as pessoas, que se sentem directa ou indirectamente ligadas ao Stop, possam sugerir sol...

Isto não é uma petição, mas uma mobilização para que as pessoas, que se sentem directa ou indirectamente ligadas ao Stop, possam sugerir soluções para o futuro deste ecossistema que engloba várias bandas de vários géneros. Esta página será actualizada conforme as sugestões que nos vão chegando. Entretanto há outras mobilizações que poderiam ter sido feitas, como formar uma "orquestra Stop" para descer até aos Aliados em direcção à Câmara, para se posicionar face às soluções que se vão apresentando. Não estávamos todos tão preocupados com o futuro da cultura em Portugal?

Miguel Inglês, voz de Equaleft


João Pimenta, de 10000 RussosStereoboy e Overdoses

Flávio Silva, vocalista e guitarrista de Leftsun

Foto: Jemima Stehli A imagem de Pedro Cobrado remete para uma estética niilista. Vemos meia face mergulhada em negritude, onde só se vê a fo...

Foto: Jemima Stehli

A imagem de Pedro Cobrado remete para uma estética niilista. Vemos meia face mergulhada em negritude, onde só se vê a forma, complementada por outra meia face, na qual se vê olhar de exaustão. É em 2009 que Jemima Stehli retrata o músico que se situava numa época em que podia "ter tido tudo mas não teve nada". Pedro Cobrado, também conhecido por Gaza, toca baixo nos Men Eater e integra Besta e If Lucy Fell.

Música para Plantas de Exterior que Vivem no Interior é o seu disco de estreia com catorze temas que se resumem, segundo a descrição do autor: "No presente, passado e futuro nascem com a mesma velocidade. Tentas-te encontrar para sempre e para sempre te perdes. O bom da vida não foi, não será: Está…". Porém, todo o álbum confirma um sinal de desgaste, exaustão e, até, descrença. Provavelmente terá sido devido a todos os cenários deste presente que Pedro não imaginou e afectam uma visão de futuro imaginado por terrenos agrestes onde as sementes terão dificuldade em germinar.

Este trabalho resulta do encontro com vários músicos, com Elísio Donas (Ornatos Violeta), Tony Love (Lena D'Água, Benjamim), Cláudia Guerreiro (Linda Martini, A Azenha), Filipe Rocha (Sean Riley, Legendary Tigerman, Cabrita) Hélio Morais (Linda Martini, Paus, MURAIS), Gonçalo Prazeres (Club Makumba), André Henriques (Linda Martini), Filipe Homem Fonseca (Cebola Mol, A Favola da Medusa), João Palma (Erro), Tiago Cobrado (Emist), Pedro Geraldes (Carminho, Mão Verde) e Pedro Gonçalves (Dead Combo). A cassete está disponível numa edição limitada de 80 unidades (40 verdes e 40 brancas). 

Destaca-se o tema Vaqueiro em Americano (conv. Tiago Cobrado) pela imersão que se sente remontada a cenário de filme. Todo o álbum são horas passadas em exploração com o Fostex tateado em inércia e cujo som reflete sentimentos causados por um ciclo de confusão externa. Retalhos de um bem maior (conv. Elísio Donas) é outro tema que perdura em repetição, também enquadrado na linguagem cinematográfica e experimental. O videoclip, filmado a Super 8 por Roberto Roque, parece ter como inspiração aquela atmosfera palpável tão bem pintada por Béla Tarr e que emana uma espécie de desespero irreparável carregado pelos protagonistas dos seus filmes.


Pedro Cobrado lança este disco na vã esperança de se reconciliar com o passado e com o futuro. Claro que não consegue nem conseguirá, pois as plantas que nascem em terras consumidas pela morte do pós-guerra não costumam dar flor. Há quem diga que é uma visão pessimista, mas os niilistas dirão que é somente uma realidade face ao acontecimentos do nosso tempo. Do Monte para Lisboa, de Lisboa para o Porto o álbum foi feito de amizades e encontros.


Música para Plantas de Exterior que Vivem no Interior é o primeiro volume de uma série de canções gravadas em Fostex 280. Todos os temas foram gravados em cassete por Pedro Cobrado entre Dezembro de 2021 e Julho de 2022 num Fostex 280, em Monte Abraão, Lisboa e Porto; misturado e masterizado por Hugo Valverde, em Marvila, em Setembro de 2022.

Texto: Priscilla Fontoura
Disco: Música para Plantas de Exterior que Vivem no Interior, de Cobrado (Gaza), 2023

Fonte: Pinterest Desabafo de alguém que gostaria de ver as coisas a avançar, ainda com desesperança -, resultante da constante falta de visã...

Fonte: Pinterest


Desabafo de alguém que gostaria de ver as coisas a avançar, ainda com desesperança -, resultante da constante falta de visão dos órgãos responsáveis que deveriam assegurar políticas de transformação e desenvolvimento cultural neste país. 

Sobre o estado do Centro Comercial Stop, no Porto:
Eu pergunto se não há no seio do Stop pessoas a trabalhar no sentido de levar a cabo uma investigação que se insurja contra a visão (que tende a perdurar) subordinada a uma só face de cultura homogeneizada virada para massas. Julgo que, ao longo de pelo menos uma década, é premente levar à discussão um programa sustentado e fundamentado, desenhado por especialistas, para que se encontre junto do pelouro da cultura da Câmara Municipal do Porto uma solução viável que seja perdurável, sustentável e saudável, tanto para a cidade como para os músicos. Tentar tapar o sol com a peneira, para dar a entender que o assunto foi resolvido, não trará qualquer satisfação tanto a curto como a longo prazo para ninguém.

É certo que há particularidades difíceis de colmatar para que o Stop continue a existir com a identidade que lhe é inerente, mas a "solução" que a Câmara do Porto oferece também não parece viável. Segundo o JN, a 
Câmara do Porto encontra-se disponível para adaptar Silo Auto para acolher músicos do Stop. Talvez não seja a geografia de Portugal que se encontra na cauda da Europa e em contacto directo com a aquacultura, é mesmo a mentalidade que prevê o comodismo sustentado num pensamento de "um dura para sempre". Julgo que foi isso que aconteceu de ambas as partes. Por um lado, a Câmara não agiu em tempo certo para tentar encontrar uma solução que exige tempo mas que iria prever um plano exequível, por outro lado, as bandas acomodaram-se, não se organizaram e não encontraram representatividade para prevenir problemas de segurança que já colocaram em causa o bom funcionamento do espaço por pelo menos duas ou três vezes. Se o presidente da Câmara do Porto afirma que o Stop não pode funcionar como está, uma vez que as condições representam perigo para a segurança pública, por que não agiu em tempo certo? Os planos que o presidente tem para zonas da cidade e para a cultura não devem ser adaptados a outros grupos com outras vontades e necessidades.  


Lembro que a Câmara do Porto (com Rui Moreira) demonstrou preocupação com a cultura local, e quando pode faz disso bandeira promovendo iniciativas para a dinamizar. Dá-se o mais recente exemplo do Cinema Batalha. Mas e a cultura local do Stop, que tem em si características singulares que foram sendo construídas num ecossistema próprio, mesmo que o edifício não esteja sob tutela da câmara? O porta voz (que o Stop não tem) deveria criar uma estrutura viável para se auto-sustentar, um organismo independente, que resulte através de um plano inteligente que sirva de modelo para outros. Vivemos num tempo com exigências diferentes. Saber agir com equidade e contemplar todas as partes, sempre de mãos dadas com a comunidade que deveria configurar-se em aliança e não em paredes egomaníacas, é também outra característica importante para que egos não falem em nome de um grupo.

Nesse contexto, fui pesquisar intervenções ou planos estratégicos que pudessem responder à situação vigente. A instituição Musicboard Berlin (MbB) concebeu um modelo para responder a um fosso presente na cidade e julgo que poderia servir de modelo para o Porto.

O MbB é uma instituição única na Alemanha que financia a música pop de maneiras novas e criativas e mantém um discurso dinâmico sobre a música pop em Berlim. Defende uma abordagem respeitosa à diversidade e ao financiamento musical baseado em conteúdo, enfatizando as posições dos músicos. É baseado na colaboração e inovação de criadores de música, nas suas comunidades e colectivos. Por meio da comunicação e intermediação entre criadores de música, redes, administração, política e negócios dentro do diversificado cenário da música pop de Berlim, o MbB visa criar transparência, oferecer orientação e fornecer uma visão geral: de consultoria relevante e oportunidades de networking, fontes de financiamento públicas e privadas e opções para espaços de ensaio e qualificação em Berlim.

A instituição realizou uma pesquisa durante o mês de Maio de 2020, para dar resposta à falta de oferta de espaços de ensaio em Berlim. Para determinar a oferta e demanda de espaços de ensaio, principalmente os de música pop, foi feito um levantamento para documentar a quantidade desses espaços, e apelar tanto à protecção como à criação de espaços adicionais, fornecendo mais dados sobre as condições actuais e necessidades futuras. Os resultados desta pesquisa, quantitativa e qualitativa, serviram como base para tomar as medidas necessárias com o intuito de melhorar a situação dos espaços de ensaio dentro do sector cultural pop.

Através da mailing list e com a ajuda da rede de contactos, associações locais, colectivos e um número alargado de operadores de espaços de ensaio, o MbB circulou o questionário Berlin Rehearsal Space a larga escala, entre músicos que vivem em Berlim.

Devido à pandemia de Covid-19, a pesquisa foi distribuída exclusivamente via digital pelos canais. De Maio a Junho de 2020, um total de 948 músicos de Berlim participaram no questionário. Embora o foco estivesse nas necessidades da cena da cultura pop berlinense, músicos de todos os géneros foram convidados a participar. O público-alvo assegurou que músicos que trabalham na interseção de géneros fossem incluídos no questionário, enquanto também permitiu fazer comparações entre géneros específicos para espaços de ensaio.

O MbB considerou a música pop para incluir todos os géneros e variedades de música popular que não podem ser claramente classificados como jazz, música clássica ou nova. A pesquisa foi realizada em nome do MbB por Samuel Bergmann (músico e graduado pela Berlin School of Popular Arts) e Prof. Dr. Clemens Schwender. A avaliação qualitativa dos resultados foi realizada pela MbB. Com o questionário, a organização continua a ser um apoio activo da cena musical pop-cultural de Berlim, um papel que a instituição financiadora pública tem vindo a cumprir desde a sua fundação em 2013.

As conclusões tiradas a partir do questionário e as recomendações futuras apresentadas nesta pesquisa são prementes, para que se possa tentar solucionar uma vontade de uma camada que faz da cidade um centro cultural heterogéneo e que merece ser ouvida. Mas não de qualquer forma. Ainda que não seja uma obrigação da autarquia, penso que é falta de visão da mesma e é um dever quando se pretende que a cidade viva uma cidadania activa, uma vez que as minorias também ajudam a tornar a cidade um espaço com as suas especificidades.

As conclusões desta pesquisa partem de 5 pilares:
- a protecção dos espaços;
- a criação de espaços;
- financiamento de estruturas independentes;
- arquivo que documente a existência desses espaços e as suas actividades;
- salas de ensaio para todos.

Agora não digam que pensaram no mesmo, aquando do ruído gerado sobre este assunto. É preciso agir mediante as exigências do tempo de hoje. Não me parece que o Silo Auto, em modelo de "open space" para os músicos, seja o espaço para resolver o problema do Stop. Facto é que o Stop não reúne condições para se manter aberto, pois qualquer alternativa que se pretenda dar é efectivamente incomportável, por mais que se sinta a boa fé da parte dos músicos. Construir sobre um modelo que responda às necessidades plurais e particulares, mas sustentado no conceito de comunidade - que é o que deveria determinar a força dos grupos desvinculados dos grandes meios -, parece ser o caminho e a vontade de ter uma humanização da cidade contemporânea que prevê microintervenções. 

Falta cidadania cultural e literacia artística para saber como agir quando cenários destes acontecem; afinal não são os músicos também agentes directos e criadores de cultura? Não deveriam igualmente ser porta-vozes na defesa de uma causa que depende deles, e que deve ser sustentada em diálogo articulado e estruturado com os organismos competentes? Se não é possível a apresentação de um projeto de especialidades no processo de licenciamento do Stop, então que seja feito um levantamento de espaços disponíveis para cedência da parte da autarquia com enquadramento semelhante ao do Stop, no que diz respeito à capacidade de acolhimento para cerca de 500 utilizadores de salas de ensaio. 

Não basta o peso da memória do espaço para atenuar a necessidade urgente de segurança e salubridade face às condições actuais. No entanto, é de assinalar que até hoje nada de grave aconteceu ao espaço e, se assim o é, é graças aos músicos que lá estão, aos bombeiros e a todos os intervenientes que estiveram despertos quanto à vulnerabilidade do espaço. Porém, não são feitos estudos nem levantamentos apropriados para arquitectar e desenhar soluções que visem o estudo adequado às exigências que as salas de ensaio requerem, como o tamanho da sala, a acústica, as condições de segurança, não é porque se cria música "alternativa" que tem que se morrer electrocutado.... A música não vive de remendos! Não basta pedir a deputados para dialogar com a câmara sobre o assunto, é preciso que a força venha da parte de quem fez do Stop o centro de memória que é.

Em tom de conclusão, pergunto, qual deverá ser o papel das instituições associadas à promoção e apoio da dinamização cultural, aqui, neste contexto? E refiro-me por exemplo à SPA, GDA, AMEI, APORFEST, associações culturais, etc. Ainda há luz ao fundo do túnel quando vemos Casas da Juventude com espaços próprios para quem quiser ensaiar ou quando observa-se, em Guimarães, o Teatro Jordão a ser convertido em salas de ensaios para bandas de garagem. É preciso saber fazer, sem negligenciar as especificidades do público-alvo e sem instrumentalizar esta problemática para fins turísticos para as massas. O STOP é, acima de tudo, um ponto de encontro para os músicos e para quem sente identificação.

A quem possa interessar, aqui deixo o estudo:

Priscilla Fontoura, Acordes de Quinta (2006-), Lula Gigante (2010-), Milkshake It (1997-1999), Puk (2001-2004), Outros projectos 
Este texto é escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

Referências:

Einstein com “Lina” — o seu adorado Violino A atividade profissional de um professor de música tem a sala de aula como palco de atuação, ond...

Einstein com “Lina” — o seu adorado Violino


A atividade profissional de um professor de música tem a sala de aula como palco de atuação, onde os alunos não são o único público pois toda a sociedade assiste ativamente, avaliando o seu desempenho. Assim como a execução que um artista exibe em público não acontece por acaso, a atuação do professor na sala, diante dos alunos, também é fruto de um rigoroso trabalho prévio. Mesmo aqueles que vão ‘improvisar’ para o palco sabem que é preciso muitas horas, dias, meses e anos de trabalho para que a suposta ‘improvisação’ aconteça. 


Uma aula improvisada, sem qualquer preparação nem guião prévio, pode ser muito estimulante para os alunos se o professor é portador de uma vasta formação e experiência, caso contrário perder-se-á o tempo na sala. Há professores que vão para a sala de aula reproduzir aquilo que vivenciaram durante o período estudantil, como se a sociedade estivesse profundamente adormecida. Há professores possuidores da ‘única’ verdade pedagógica e culpam os alunos do seu insucesso, porque o mundo é que tem de se adaptar a eles. Há professores, mesmo com habilitação profissional para a docência e até com canudos de doutoramento, possuidores de uma supina ignorância social, ética, pedagógica e até musical. Um famoso aforismo de José de Letamendi, reproduzido no pedestal da estátua de Abel Salazar no Instituto Biológico do Porto, reza: O médico que só sabe medicina, nem medicina sabe. Aplicado ao professor de música, que só sabe duma minúscula área da imensidade sonora, resulta ludibrioso. Um professor de música, para além de ser competente na sua área, deve estar integrado na sociedade que atua para acompanhar as evoluções dos alunos e potenciar as suas capacidades, porque ninguém nasce músico, faz-se. Assim, pois, a atividade profissional de um professor de música desenvolve-se maioritariamente fora da sala de aula. Só quando apreendeu a essência, o contexto e o mundo cultural que envolve os alunos da disciplina é que pode ir para o palco representar o seu papel, porque o que acontece na sala de aula é só a minúscula ponta do seu icebergue profissional. 


Para lecionar História da Música, Análise e Técnicas de Composição ou Acústica, disciplinas para as quais fui legalmente habilitado, é preciso vislumbrar e interligar um sem-fim de conhecimentos, e não só musicais. Essa reflexão submergida do icebergue é a que contextualiza a experiência profissional. Edgar Morin afirma, numa entrevista de 2014: “A transdisciplinaridade é o que possibilita, através das disciplinas, a transmissão de uma visão de mundo mais complexa”1 . As bases da reflexão que se expõe nestes artigos são fruto do percurso de uma vida inteira dedicada à música como compositor, ativista, editor, pedagogo, e mais que não necessito enumerar. Esse longo périplo de vida produziu inúmeras reflexões, que algumas vezes foram escritas em prosa e outras transformaram-se em partituras do meu catálogo. Nos últimos anos, fui recuperando da memória, ordenando e fundamentando, muitas dessas reflexões de experiência profissional que são relevantes para o melhor desempenho do ofício de compositor e de professor de música; mas quando trabalhamos com a memória, o passado torna-se uma construção do presente porque, no agora, é impossível saber como seria verbalizado aquele passado, se na altura não ficou documentado. 


No constructo teórico e argumental do passado não se pretende apagar partes da experiência de vida, mas sim de apurar os contributos ao conhecimento atual. “Cada um de nós transporta consigo padrões de pensamento, de sentimentos e de ação potencial, que são resultado de uma aprendizagem contínua. Uma boa parte foi adquirida no decurso da infância, período do desenvolvimento onde somos mais suscetíveis à aprendizagem e à assimilação”2 . A infância é o fundamento de todo o indivíduo, a referência que nos marca, seja para confluir ou divergir, pois temos tendência a observar os outros, nomeadamente os alunos, através do filtro da nossa própria vivência. “Quando certos padrões de pensamento, sentimentos e comportamentos se instalam na mente de cada um, torna-se necessário desaprender, antes de aprender algo diferente, e desaprender é mais difícil do que aprender pela primeira vez”3. Ao longo da minha vida profissional desaprendi quase tanto como aprendi porque, o que ontem era válido, nomeadamente durante o pós-modernismo, hoje pode ser errado ou insignificante. Manter-se profissionalmente ativo exige uma constante atualização crítica dos padrões de pensamento. É a sobrevivência num mundo que “coloca os indivíduos perante a absurda alternativa entre sacrificar a vida ao trabalho e sofrer as consequências de não ter trabalho”4. O que realmente me move tem mais a ver com praticar uma criação musical e uma pedagogia dignas desse nome e isso não é quixotismo retórico, forma parte de uma nova sensibilidade moral que desponta neste neomodernismo sem dominações e que assiste ao surgimento de exigências como a de comer alimentos dignos de tal designação. E com este intuito seguimos em frente.


1 Morin, E.: A educação não pode ignorar a curiosidade das crianças. O Globo.(17 de agosto de 2014). Obtido em 19 de dezembro de 2022, de http://oglobo.globo.com/ sociedade/educacao/a-educacao-nao-pode-ignorar-curiosidade-das-criancas-diz-edgar-morin-13631748 


2 Hofstede, G. (2003). Culturas e Organizações. Compreender a nossa programação mental. Lisboa: Sílabo, 2003, p. 18. 3 Ibid.: p. 18. 4 Jappe, A.: As aventuras da mercadoria para uma nova crítica do valor. Lisboa: Antígona, 2013, p. 12.


Autor do texto: Rudesindo Soutelo (Compositor e Mestre em Educação Artística)

Cartaz The Fabelmans A sala escura de um Cinema permite-nos chorar histórias e nunca esquecê-las. Em The Fabelmans , realizado por Steven S...

Cartaz The Fabelmans

A sala escura de um Cinema permite-nos chorar histórias e nunca esquecê-las. Em The Fabelmans, realizado por Steven Spielberg a partir do argumento coescrito com Tony Kushner, há quem se reveja na família enumerada: no contacto com o judaísmo e o humor que lhe está associado, no apoio de Mitzi Fabelman (Michelle Williams), que deixou a emancipação artística para cuidar da sua família e alargar os horizontes criativos dos filhos, de Burt Fabelman (Paul Dano), que sempre se manteve parceiro por ser um visionário fora do seu tempo. As irmãs de Steven Spielberg, Reggie Fabelman (Julia Butters) e Natalie Fabelman (Keeley Karsten), foram as protagonistas dos primeiros filmes caseiros com câmara Super 8, tanto de aventura como de terror. Muitos diálogos são cómicos, para quem se sente à vontade com as dinâmicas do judaísmo ashkenazi.


Este mais recente filme (e talvez o último) de Spielberg é uma autobiografia em homenagem aos seus pais Leah Adler e Arnold Spielberg, que morreram em 2017 e 2020. Da narrativa de The Fabelmans não são tirados os lugares obscuros que qualquer família pode carregar. Quando a marca dos progenitores deixada na memória afectiva do autor é profunda, não se deve deixar esta Terra permitindo que um desconhecido fale em nome de uma história que não lhe pertence. A memória afectiva é como carvão para a movimentação artística.

Para se fazer uma autobiografia é preciso ter coragem, uma vez que as fragilidades intrínsecas ao seio familiar são expostas - essas que tornam a intimidade do autor vulnerável, mas honesto com a arte. A verdade é que nem todos o são. Talvez seja por isso que essas almas não ecoam quando tentam criar. Preferem pela ficção contar histórias que ficam sujeitas à condição da possibilidade, sem se comprometerem com aquilo que diz respeito à eterna relação com a arte e à redenção, como afirmou Arthur Schopenhauer. É no quarto escuro que se sai da realidade. É no quarto escuro que se prepara a magia. E um mágico para conseguir enganar, pela destreza do seu encantamento, deve aproximar-se de uma noção de verdade para imergir a audiência naquela realidade. Seria sozinho com as suas mãos sobre a película que Sam (Gabriel LaBelle) encontraria o seu sentido de vida, que descobriria os segredos de uma relação extra-conjugal, que mexeria com a consciência da sua mãe e dos bullies, e convenceria o seu pai pelo esforço e dedicação ao cinema, porque são chips off the old block.

Spielberg/Sam teve a vida facilitada por ter tido a possibilidade de gastar película, devido à progressão profissional do seu pai que era um talentoso dentro do seu ramo. Mas, se não tivesse sido a sensibilidade da sua mãe para colmatar o
trauma de espectador na experiência de ver cinema com The Greatest Show on Earth (O Maior Espectáculo do Mundo, 1952), de Cecil B. DeMille, talvez teria sido um engenheiro interessado em desenvolver comboios mais modernos - motivado pelo seu pai. Spielberg mudou os carris do cinema. Olhou além da linha do horizonte, mas descentrada, porque o amor pela arte, tal como afirmou o tio Boris Schildkraut (Judd Hirsch), por ser o maior amor, traz também muito sofrimento, não obstante quem e o que se possa alcançar através dela. A arte não é um jogo, é tão perigosa quanto a boca de um leão faminto.

Sente-se a identidade de Spielberg em pequenos detalhes e por comparação a outros trabalhos, por exemplo a cena do tornado e a intercepção dos carrinhos de compras, o traço de luz que acompanha a sua mãe quando dança em contraluz no acampamento com cenas que lembram Jurassic Park e E.T., as cores quentes e as aventuras com os seus amigos em rodagem com Indiana Jones. 


É a constante (e obcecada) presença da sombra de Benny (Seith Rogen) que faz com que Mitzi engane o seu ego, rompendo por isso o laço familiar; porém questiona-se se Benny seria a sua verdadeira paixão ou se o piano. A cadência do filme vai dando sinais sobre o segredo escondido. A música, autoria de John Williams com quem Spielberg tem vindo a trabalhar, acompanha cada transição sem forçar qualquer dinâmica entre cenas. E é o final que confirma o efeito da visita da
persona non grata Boris e a última deixa de John Ford (David Lynch) a Sam. Basicamente os dois motivam-no a montar o elefante e seguir viagem.

The Fabelmans pode ser uma despedida do belo trabalho de Spielberg, embora com sorriso na cara, porque conseguiu reter o brilho nos olhos dos espectadores, sentados frente ao grande ecrã. L'chaim, a todos os que choram frente a uma tela. Se choram, é porque o domador não foi comido pelo leão.

Texto: Priscilla Fontoura
Imagens: Frames do filme The Fabelmans, de Steven Spielberg

Quando pergunto aos alunos de Ensino Secundário do Ensino Artístico Especializado se vão candidatar-se a um curso superior de música, fico a...

Quando pergunto aos alunos de Ensino Secundário do Ensino Artístico Especializado se vão candidatar-se a um curso superior de música, fico a refletir sobre o conjunto de circunstâncias que condicionam as suas decisões. Há os que têm claro o seu futuro, seja como profissional ou amador da música; há os que duvidam e ainda há os que não sabem nem querem saber, que são as vítimas de uma sociedade que fomenta o fracasso promovendo o competitivismo, onde alguns são os iniciados e os outros, os leigos. O estranho é que os alunos raramente mencionam a principal variável deste problema, a criatividade. A cultura, para além de outras coisas, é um jogo social e Dietrich Schwanitz afirma que “o jogo tem as suas regras e quem não andou a praticar o jogo da cultura desde pequeno, tem dificuldade em aprendê-las”1.

Uma das estratégias que tenho utilizado para inculcar nos alunos o gosto pela cultura é pedir-lhes que escrevam um Diário onde anotem e comentem as práticas artísticas e culturais que desenvolvem em paralelo com a atividade escolar. No final de cada período, leio tudo o que me entregam e, para além de orientar as minhas estratégias pedagógicas, as observações e experiências que relatam contribuem para uma avaliação mais equilibrada de cada estudante. Num desses diários estava escrita uma reflexão que resumidamente vinha a dizer que a sua paixão pela música iniciara já desde bebé, quando os pais começaram a frequentar as atividades e concertos dominicais da Casa da Música; e resumia a experiência numa frase devocional de comunidade de fé: “Era como ir à missa cada domingo”. A criatividade revelou-se quase que naturalmente e hoje tem uma brilhante e feliz carreira musical. A “familiaridade com os traços fundamentais da história da nossa civilização, com as grandes teorias filosóficas e científicas, com a linguagem formal e as principais obras de arte, da música e da literatura”2 é o que nos permite compreender a sociedade que nos integra. A família e a escola são os protagonistas fundamentais do desenvolvimento integral da personalidade cultural dos alunos, mas quando uma dessas instituições fracassa no seu cometido, e a outra não consegue preencher esse vazio, no melhor dos casos acontece uma formação prática de especialistas sem qualquer sensibilidade cultural. São As duas culturas3 que C. P. Snow identificara: a cultura da erudição clássica do humanismo e a cultura científica e técnica, que vai muito para além da tradicional divisão do conhecimento em Trivium e Quadrivium – Letras e Ciências –, pois tanto pode dar-se um humanista técnico como um cientista erudito. Na música, essa dualidade conduz a erros de raciocínio e argumentação onde o transcendente e o trivial se confundem e atrapalham. 

Nas minhas turmas de História da Cultura e das Artes, e de Análise e Técnicas de Composição, onde a cultura da erudição é basilar, predomina o género feminino, como, diga-se de passagem, está a acontecer na maioria das formações musicais atuais. Curiosamente há excelentes, e até brilhantes, alunos do género masculino, mas na hora de decidir o seu futuro profissional têm tendência a enveredar pela segunda cultura, a científica e técnica, deixando a música para trás ou relegada a uma prática amadora. A tendência feminina, quando deixam a música de lado, é pelos cursos da primeira cultura. Esta assimetria que se observa na música, também acontece nas universidades e no mercado de trabalho e tem consequências na progressão social. A segunda cultura, essencialmente povoada por homens, é mais bem remunerada mas os conhecimentos que proporciona não favorecem a evolução dos comportamentos, opiniões e atitudes perante a vida. Aos olhos da cultura da erudição, podem ser percebidos como pessoas primitivas altamente tecnocratizadas, o que gera inúmeros conflitos, nomeadamente quando constituem um casal misto. O que os separa é precisamente o grau de criatividade que a primeira cultura ajuda a desenvolver mais. Os que duvidam estão a auto-observar-se para resolver o problema do seu próprio saber. Precisam de conceitos para descrever e explicar o comportamento próprio e ter consciência de que “a realidade pessoal é uma construção que varia de acordo com o ambiente, a procedência, a idade, a camada social e a cultura”4 . Nessa reflexão talvez descubram que as duas culturas de Snow estão a aproximar-se e o conceito de autorreferencialidade, a auto-observação, já não é exclusivo do sujeito, do humanismo; agora são cada vez mais os organismos, inclusive as empresas, que estão a auto-observar-se, a auto-organizar-se, a autodescrever-se, e começam a valorizar e incentivar a criatividade pelo que caminhamos para uma confluência de ambas as culturas. 

Talvez o mais difícil nessa ponderação seja saber o que não devemos saber, tanto pelo que possa atrapalhar o raciocínio como que possa invalidar os argumentos. Não basta ser inteligente ou saber as respostas certas, pois isso só faz referência a elementos novos que estão ligados a conteúdos previamente conhecidos; é o que se designa de pensamento convergente. Pelo contrário, o pensamento divergente relaciona elementos novos que são independentes dos conteúdos prévios, produzindo respostas possíveis, originais e flexíveis, mas exige uma grande capacidade crítica para excluir as ideias absurdas. Isto é a criatividade e pode aprender-se, mas só se manifesta em ambientes de sensibilidade cultural, criativos. O mundo dos negócios já utiliza técnicas como a tormenta de ideias (brainstorming) para estimular a criatividade. As escolas, nomeadamente as do Ensino Artístico Especializado, têm que desenvolver um ensino criativo em todas as disciplinas, mas para isso é imprescindível que a criatividade seja uma disciplina transversal na formação dos professores. No fundo, os alunos sabem que só é culto quem sabe criar-se a si mesmo.

1 Schwanitz, D.: Cultura. Alfragide, D. Quixote 2019, p. 464-465.
2 Ibid.: p. 463.
3 Snow, C.P.: As duas culturas. Lisboa, Editorial Presença 1996.
4 Schwanitz, D.: Op. cit. p. 574.

Autor do texto: Rudesindo Soutelo (Compositor e Mestre em Educação Artística)

Imagens: Rui Mota Pinto Local: Viseu, 20 de Setembro, 2022





















Imagens: Rui Mota Pinto
Local: Viseu, 20 de Setembro, 2022