Desenhei no quadro uma linha vertical e outra horizontal. Perguntei aos alunos qual das duas linhas representaria melhor a sociedade na qual...


Desenhei no quadro uma linha vertical e outra horizontal. Perguntei aos alunos qual das duas linhas representaria melhor a sociedade na qual vivem; a resposta foi unânime. A vertical era descrita por eles como a representação do poder de uns indivíduos sobre os outros. Quanto mais baixa é a posição nessa linha, maior é o peso do poder, diziam os mais esclarecidos. Repeti a pergunta em turmas diferentes e a resposta era sempre a mesma.


O arquiteto renascentista, Leon Batista Alberti, que construía harmonias baseando-se na música dos números, formulou no livro IX de De Re Aedificatoria o conceito de ‘consensus partium’ como a interdependência do todo e a parte, ou uma conspiração das partes e o todo, de acordo com um número, uma ordem e um lugar definidos, “princípio absoluto e primeiro da natureza”[1].

Esse poder vertical, justificado durante séculos pela oposição entre o divino e o humano, subjaz nas partes e no todo duma sociedade que, desde o grande renascimento, se quer humanista, mas que permanece coberta por uma densa nuvem teocêntrica que passou de focar-se nos valores do ser, para ressaltar os valores do ter. Na essência do poder vertical está sempre o referente masculino como valor moral inquestionável.

Foi preciso espicaçar a imaginação e a inteligência dos alunos para encontrar algo, nesta sociedade, que pudesse ser representado pela linha horizontal. Herbert A. Simon, em As Ciências do Artificial, afirma que “a complexidade ou simplicidade de uma estrutura depende criticamente da maneira como a descrevemos”[2] e num artigo posterior introduz o conceito de ‘parcimónia’, que seria a relação da complexidade dos dados observados com a complexidade da fórmula que os representa, explicando muito a partir de pouco[3]. Assim como a ciência procura parcimónia, não simplicidade, a linha horizontal acabou por representar, na parcimónia da aprendizagem, o poder colaborativo da negociação, do respeito pelas diferenças, da aceitação do outro, e onde os valores têm como referente o feminino, numa neo-modernidade sem dominações.

O património cultural em masculino, que nos legou a história, não pode ser negado nem esquecido, mas sim deve ser reinterpretado à luz do feminismo. A perceção, como diz Pierre Boulez em Les Neurones Enchantés, é uma experiência de aprendizagem prática e também teórica[4]. Se recebemos uma aprendizagem baseada no poder vertical, teremos dificuldades em interpretar as formas, as complexas subtilezas e os benefícios de um poder horizontal.

A linha vertical começou a inclinar-se entre o final do século XIX e o início do XX, num novo período renascentista, o Modernismo, que reagiu ao individualismo romântico com uma nova harmonia das proporções clássicas. Na música, o opressivo poder fálico da tonalidade foi desmantelado por Debussy, Stravinski, Schönberg, Bartok e os seus seguidores. Sigmund Freud interpreta os sonhos. Albert Einstein mede a Energia. A poesia ultrapassa a rima. Wassily Kandinsky descobre que a beleza não precisa de figuração. Antoni Gaudí constrói monumentos com colunas inclinadas e formas desafiantes. A mulher veste e age, pela primeira vez, ao seu gosto e começa um século de lutas pelos direitos de género. A vertical curva-se, mas resiste a ser derribada.

Com a queda das torres gémeas de Nova Iorque, em 2001, um novo período de recuperação da harmonia das proporções está reagindo contra o ‘tudo vale’ do pós-modernismo. A novidade é que agora são as mulheres as que começam a comandar o desenvolvimento social. Na música erudita, as mulheres estão a modernizar o repertório e, quando olham para o passado, reinterpretam as obras sem os estereótipos masculinos. Na ciência, na literatura, nas artes, e até na política as mulheres começam a exercer o poder; na Espanha já há um governo com maioria de mulheres, e até o jornal El País é agora dirigido por uma mulher.

O novo património cultural é o poder horizontal construído desde o respeito pela diferença e, ainda que o poder vertical continue presente, o feminismo está a esvaziá-lo de argumentos. A parcimónia, como o artista, numa aprendizagem cidadã colaborativa, expressará a beleza “explorando uma economia extrema dos meios”[5].

Que o equilíbrio e o sossego da linha horizontal orientem o percurso dos alunos e o de As Artes entre as Letras, na parcimónia de mais um aniversário em feminino, o nono. Parabéns!

(*) da Academia Galega da Língua Portuguesa.
Compositor e Mestre em Educação Artística e Ensino de Música.

© 2018 by Rudesindo Soutelo
(Vila Praia de Âncora: 10-VI-2018)
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[1] Alberti, L. B. (1553). L’architecture et art de bien bastir (Vol. IX, cap. 5, f. 192). París: J. Kerver. Obtido em 10 de junho de 2018, de http://architectura.cesr.univ-tours.fr/.../CESR_4781_9.pdf
[2] Simon, H. A. (1981). As ciências do artificial. (L. M. Pereira, Trad.) Coimbra: Arménio Amado, p. 336.
[3] Simon, H. (2002). Science seeks parsimony, not simplicity; Searching for pattern in phenomena. Em A. Zellner, H. A. Keuzenkamp, & M. McAler, Simplicity, Inference and Modeling (pp. 32-72). Cambridge University Press.
[4] Boulez, P., Changeux, J.-P., & Manoury, P. (2016). Las Neuronas Encantadas. Barcelona: Gedisa, p. 99.
[5] Ibid. p. 75

Capa do livro Querosene O volume Querosene da colecção LowCCCost , editado pela Associação  Chili com Carne   ( organização de artistas sem...

Capa do livro Querosene

O volume Querosene da colecção LowCCCost, editado pela Associação Chili com Carne  (organização de artistas sem fins lucrativos), vem trazer consciência aos humanos, pois é nesta estação que somos assombrados pelos incêndios nas florestas e pelas péssimas acções dos pirómanos — infelizmente. A partir do tema dos Big Black, a Chili com Carne lançou o desafio a autores de BD que vivem nas pequenas cidades, vila e aldeias de Portugal para darem a conhecer o seu olhar sobre as possibilidades da piromania. O ponto de partida dá-se com a seguinte premissa "Na terrinha, o aborrecimento combate-se com fogo e só há uma forma eficaz de matar o tempo: de uma vez por todas.", assim diz a publicação no blogue Chili com Carne, e acrescenta-se: "Seja sobre a arquitectura pavorosa ou as gentes beatas que nela habitam, as histórias aqui reunidas documentam as frustrações e ansiedades de quem não cresceu no bulício do Porto ou de Lisboa e, sentindo a falta da animação das metrópoles, viu na fogueira a única cura para a letargia." O livro é uma espécie de "guia para lidar com os sítios em que nada acontece". Nesse sentido, fui ao encontro dos autores André Pereira e Marcela aka Dois Vês (vencedora do prémio “Toma Lá 500 Paus e Faz uma BD”) com trabalhos publicados neste volume. Neste podcast falou-se de muita coisa, desde Querosene, que foi o motivo principal para realizar esta conversa, ilustradores, religião, vilas e cidades pequenas, colectivos criativos tal como o Quarto Escuro, etc. 

Lista dos autores de Querosene:
Ana Margarida Matos, André Pereira, Cláudia Sofia, Dois Vês, Eva Filipe, Gonçalo Duarte, Joana Tomé, João Carola, Rodolfo Mariano, Rui Moura e Sofia Neto.

"Querosene, tal como os volumes no passado — Zona de Desconforto (Melhor Livro de BD de 2014) e Lisboa é very very Typical —, junta autores, ora amadores, ora consagrados, que se abrem na intimidade sempre desconfortável da autobiografia. Na soma desta transmissão de estados de espírito individuais, fica a saber-se mais sobre o país do que através dos dados do INE: os resultados, talvez sem supresa, deixam dúvidas sobre a laicidade das gentes ou sobre o futuro da população jovem." - Chili com Carne

Para ouvir, quem tiver tempo e gosto pela BD, é só clicar no player que se segue:


Nota:
A rede wifi nem sempre estava boa, por isso pedimos desculpa pela instabilidade da conexão desta conversa via zoom. 


Tema: Big Black, Kerosene
Conversa conduzida por: Priscilla Fontoura

Uma vez, em 1980, já estava eu nos GNR, fui passear com o meu amigo Rui Branco; entrámos – fumadíssimos – no Centro Comercial Brasília; ao p...


Uma vez, em 1980, já estava eu nos GNR, fui passear com o meu amigo Rui Branco; entrámos – fumadíssimos – no Centro Comercial Brasília; ao passarmos numa loja de brincos e jóias, resolvi – tal era a pedra – furar a orelha esquerda; entrei, e as empregadas e todas as mulheres presentes, ficaram a olhar para mim; umas, só por eu ser homem e outras por me reconhecerem dos GNR; foi um burburinho; veio uma empregada e perguntou-me o que eu queria; eu disse que queria furar a orelha; e se demorava muito; ela respondeu que era um instantinho. Imaginava-me eu a entrar numa sala, a deitar-me e a vir uma enfermeira com luvas, a darem-me uma anestesia, para eu não sentir o alfinete que me furaria as orelhas; quando ela – afinal –, me aparece com uma caneta de feltro e um agrafador (ou tinha aspecto disso); pergunta-me qual a orelha, eu digo-lhe que quero na esquerda; ela marca-me na orelha um "X" no sítio onde iria ser feito o furo; mete a minha orelha no meio do suposto agrafador e... PIMBA!!! Só senti uma picadita, nada de grave; o pior veio a seguir; o agrafador ficou preso à minha orelha; e ela dizia: "Nunca me aconteceu isto" ou "Tenha calma"; e, de repente, tenho um agrafador na orelha, o meu amigo a cagar-se a rir, todas as clientes a olhar para mim, e as empregadas todas à minha volta; aí, a ganza começa a bater, e começa a dar-me uma queda de tensão; vejo-as todas à minha volta a falar ao mesmo tempo "blá, blá, blá", e eu começo a escorregar pela parede a baixo, até ficar sentado no chão, ainda com o agrafador na orelha, e com uma das empregadas, de alicate e chave de fendas nas mãos; elas perguntam-me se eu me estou a sentir mal, e eu digo ao meu amigo: "Vai-me comprar um sumol de laranja"...


Texto e Imagem: Vítor Rua

Como há alimentos que podem conter resquícios de glúten, neste texto poderão encontrar spoilers. Sintam-se avisados. Nunca fiquei muito embe...


Como há alimentos que podem conter resquícios de glúten, neste texto poderão encontrar spoilers. Sintam-se avisados.


Nunca fiquei muito embevecida por filmes-musicais. Não esperaria ver um musical depois da obra-prima Holy Motors, um filme que não se esquece com facilidade, mas Leos Carax, apesar de ser um realizador com mais experiência em curtas do que em longas-metragens, tem vindo a formar um culto - e não é fácil com poucas longas lançadas; parece que os cinéfilos levam mais a sério realizadores cuja filmografia reúne muitas mais longas do que curtas-metragens. Contudo, Carax é caso raro, não tivesse uma identidade que marca um passo progressista no cinema. Além de que este musical reinventado tenha como destaque vários pontos, um deles é que é cantado em som directo! A dualidade de Carax faz com que Annette tenha a probabilidade de ficar no templo das obras-primas, o realizador ao mesmo tempo que se sente atraído pelo show biz e por Hollywood, sente também repulsa desses meios sombrios e dúbios.


Não é fácil ler nem absorver o seu todo, este filme feito pela mente de um realizador complexo e destemido, que agora lança outra longa, eleva o trabalho dos irmãos Ron e Russel Mael, os criadores da banda Sparks que se iniciou nos anos 70, a outro nível. Tudo aconteceu por causa de uma chamada telefónica dos irmãos a Carax para agradecer a inclusão de um tema de Sparks em Holy Motors, essa conversa serviu de pretexto para o realizador mastigar outro imaginário. Os Sparks passaram meio século mergulhados em géneros musicais totalmente diferentes - do glam rock ao disco, do electro à ópera - combinam um pouco de tudo. A dupla planeou originalmente “Annette” (que é meio falado, meio cantado) como um álbum altamente conceptual narrativo, que seria apresentado ao vivo em digressão, adaptando-o para as telas apenas depois se Carax manifestasse interesse.


E voilá, Annette passa de imaginação a matéria. O filme inicia-se logo com a referência às pálpebras dos olhos que se abrem qual cortinas, começa o espectáculo da ópera rock romântica que usa constantemente a meta-linguagem para confundir quem olha para a tela; será apenas fantástico? Não, em Annette conjugam-se géneros, todos legítimos para a realidade que se forma com trapalhadas de acontecimentos difíceis de absorver e, por isso, seria de esperar que penetrassem a fundo a visão surrealista.


Mas todo esse exagero prepara o terreno para algo muito mais íntimo, sincero e subtil. A primeira linha de diálogo do filme é falada pelo próprio Carax, dizendo à filha Nastya que o espectáculo está para começar. A mãe de Nastya era a musa e parceira de Carax, Yekaterina Golubeva, a quem Carax dedica os seus filmes, tanto Holy Motors como Annette. Um espectro semelhante paira sobre Annette - um de perda e culpa e tristeza e a maneira como se alimentam da nossa auto-aversão. “Esse desejo horrível de olhar para baixo”, canta Henry. “Meio horrorizado, meio aliviado, eu lancei os meus olhos para o abismo.” Escuridão, depressão, nojo são monstros, sim, mas são monstros sedutores. E Henry, a quem Carax frequentemente enquadra pairando sobre Ann como um demónio gigante de possibilidades raivosas, é o monstro mais sedutor de todos eles. A casa isolada do casal na floresta, cercada por uma floresta alta e dominada por uma piscina verde luminosa e sobrenatural, parece uma cabana encantada saída de algum conto de fadas sinistro.


No primeiro quadro somos apresentados aos protagonistas do filme, aos Sparks, a Leos Carax e a sua filha. Tal como o filme navega entre fantástico, drama, comédia, surrealismo; musicalmente viaja também entre géneros, mas sempre com uma componente contemporânea e vanguardista. Há aspectos que conduzem o cinéfilo a sentir o drama pesado manipulado pelo realizador, como também a encarar algumas cenas mais intimistas com a leveza que só o humor consegue proporcionar. Reminiscências de A Bela e o Monstro, O Fantasma da Ópera, do primata que sobe às mesas em The Square e à acidez tão visceralmente honesta presente em Bo Burnham: Inside constroem Henry, que antes dos seus espectáculos prepara-se qual pugilista prestes a entrar num ringue.   


Encontram-se contrassensos nesta trama, uma criança-boneco, que partilha traços em comum com a figura folclórica Pinóquio, explorada pelos pais, cada um auto-centrado no sucesso da sua fama. Perto do final esse boneco transfere-se para criança real; não será também a representação infantil outra exploração? Quantas crianças viram as suas vidas exploradas em Hollywood por pais que procuravam preencher a frustração do sucesso nunca alcançado, através do talento dos seus filhos?




Annette em termos estruturais separa-se em capítulos que marcam a trama clássica de uma obra trágica. Um casal célebre que vive uma paixão e um amor interrompidos assim que a primeira filha do casal nasce. Passado na Los Angeles contemporânea, Annette conta a história de Henry (Adam Driver), um comediante de stand-up com um sentido de humor intenso, e Anne Defrasnoux (Marion Cotillard), a soprano mundialmente famosa. A montagem é fluída e consegue fazer pontes entre géneros que à partida não se misturariam, mas a magia da montagem é mesmo essa, ligar pontos incompatíveis, à partida. 


Anne premoniza em palco aquilo que lhe vai acontecer, uma figura que morre sempre nos seus espectáculos e que sonha com avisos premonitórios de vítimas de assédio #metoo (pode-se fazer a ligação com The Morning Show); por outro lado, Henry antecipa o que vai fazer no último espectáculo, acabando por destruir assim a sua carreira. Com o tema Forest parece que estamos numa espécie de Fantasma da Ópera, quem dá a voz na realidade, Cotillard? Não me parece.


O casal reflecte muito bem o princípio de uma relação que começa em lua de mel e acaba em lua de fel, uma dinâmica tão plural e tão representativa das que acontecem na maior parte das vezes, reflecte também as representações de género que a nossa história tem espelhado, o macho alfa que tem como marcas de personalidade o sadismo, a força, a frieza calculista, e a mulher, a fragilidade, o drama e a tragédia. 


Adam Driver é neste momento um dos actores que tem um pé no cinema mainstream, e outro no cinema independente ancorado na formação em teatro e drama que o defende dos artifícios que não queremos ver no cinema, um actor que se deixa inflamar pelo realismo que o argumento de Marriage Story requer e pela contenção poética de Paterson.

No fundo, Annette é uma grande crítica ao mediatismo jornalístico, ao mediatismo do público que no mesmo instante que endeusa as celebridades diaboliza-as quando cometem uma tragédia, o público aprova ou reprova a viralização mediática perpetrada pela classe jornalística e de entretenimento.  


Chego à conclusão de que há musicais que passam a parede do género, tal como Dancer in the Dark e La La Land, este musical nunca poderá ficar dentro das barreiras do género. 


Texto: Priscilla Fontoura

Esta edição do festival Rodellus , que acontece em Ruílhe, Braga, está esgotada e, por isso, terá cobertura streaming em cada um dos dias d...


Esta edição do festival Rodellus, que acontece em Ruílhe, Braga, está esgotada e, por isso, terá cobertura streaming em cada um dos dias do festival para os que não conseguiram comprar o bilhete a tempo. Este streaming tem como objectivo angariar fundos para a União Audiovisual que tem, ao longo de mais de um ano, apoiado os profissionais da cultura neste momento tão frágil.

No dia 24 de Julho abrem-se as portas - físicas, para quem foi a tempo de agarrar o bilhete, e virtuais - para DAVID BRUNO e Hause Plants, no dia 31 de Julho é a vez de The Twist Connection e Grand Sun, e Black Bombaim e Krypto encerram a festa a 7 de Agosto. Além da componente musical, e de modo a proporcionar uma experiência única aos participantes, cada uma das sessões será em local secreto, com passeio rural do ponto de encontro ao local dos concertos do dia.

Tive a oportunidade de estar à conversa com dois membros da direcção do festival: Hernâni Silva e João Araújo. A banda belga Brutus, que já esteve presente no festival (e lembram-se das referências de Stefanie Mannaerts que o Acordes pediu?), foi, por várias razões, referida como um dos nomes mais fortes presentes numa das edições do Rodellus. Nesta conversa falou-se de igualdade de género, de sustentabilidade, consciência ambiental e do comportamento dos festivaleiros, exposições com esculturas feitas com plástico encontrado nas praias ou nos rios, música e memórias de um festival que conta com cinco edições e que vai a caminho da sexta. Para quem quiser saber sobre o festival e quais as visões que a organização tem para praticar uma cultura com foco numa sensibilização ambiental, é só clicar no player que se segue para ouvirem a conversa.


Playlist:
Conversa com Hernâni Silva e João Araújo, conduzida por Priscilla Fontoura
House PlantsOnly You
BrutusBaby Seal

A escola pública da ditadura franquista, que eu frequentava, era muito cinzenta, mas aos dez anos levaram-me, na cidade de Vigo, para o Inst...


A escola pública da ditadura franquista, que eu frequentava, era muito cinzenta, mas aos dez anos levaram-me, na cidade de Vigo, para o Instituto ─ Masculino, como correspondia à segregação mental do poder. Ali, no ano preparatório, tive dois excelentes professores que me iluminaram outros horizontes, Emilio Joaquín Freijeiro García nas letras e Manuel Copena Araújo nas ciências. Este último fez a grande diferença na minha vida, pois, de um modo simples e estimulador, introduziu-me na lógica matemática fugindo das receitas memorizadas e aprendi a compreender a abstração da sua linguagem. Sem ele, nem eu, o sabermos, descobriu-me os segredos da música. Curiosamente, aquele professor fora um célebre dianteiro, avançado, e máximo goleador do clube Celta de Vigo, com a alcunha de Nolete, nos anos trinta e quarenta do século XX. Essa parte da sua lógica, a desportiva, nunca me cativou. Alguns anos depois, soube que militava num partido político aberrante, como era a Falange, talvez por cálculo de sobrevivência, pois não conheço acusações de ele participar nas razias falangistas que assassinaram impunemente milheiros de pessoas, muitas delas ainda hoje em valas comuns desconhecidas.


Durante todo aquele ano letivo, com o meu colega de carteira, brincava a imaginar como seria o mundo dentro de um milhão de anos. Aquelas ideias disparatadas mantinham as nossas mentes em constante excitação, criando imagens com todos os pormenores físicos dos objetos. O neurocientista António Damásio refere que “as imagens que compõem a nossa mente resultam de uma atividade neural perfeitamente regimentada que transmite os modelos ao cérebro”[1], e assim aprofundava no raciocínio lógico da fantasia. O resultado final desse ano foi ter 10 valores sobre 10 em todas as disciplinas. Então decidi ser músico, concretamente, compositor.

Já entrara para o Conservatório de Música e a lógica da matemática preencheu de sentido a abstração sonora. Comecei a escrever canções para os amores platónicos e percebi que as palavras só atrapalhavam as minhas fantasias sonoras. Descobri que, para além das musiquetas que o meu contexto social e familiar me proporcionava, existia uma linguagem musical mais complexa que ativava o sistema de recompensa do meu cérebro de um modo muito mais intenso. Na Psicologia della musica, Daniele Schön afirma que a palavra ‘música’ não representa uma simples estrutura acústica, mas é uma experiência subjetiva complexa, baseada num conjunto de capacidades mentais e que precisam de diversas funções percetivas e cognitivas[2].

Com dez anos podemos transformar qualquer obstáculo num desafio vital, porque as ideias borbulham espontaneamente e em quantidades inesgotáveis. Porém, a escolaridade vai formatando os indivíduos e limitando os contextos de criatividade, pelo que as ideias perdem o vigor e a frescura original para se transformarem em cópias recicladas, toleráveis e politicamente corretas. As ideias são gratuitas, mas a cultura economicista esforça-se em convertê-las num bem escasso para vender a preços elevados.

Leio num jornal espanhol que “o pintor das vacas que colonizaram as cidades europeias não pintava os seus quadros”[3]. Fumiko Negishi reclamou a autoria de 221 obras assinadas pelo pintor pop Antonio de Felipe e o tribunal reconheceu que não basta ter a ideia porque sem execução não há arte. Fumiko trabalhou como assalariada durante dez anos para De Felipe concretizando em obras terminadas os rascunhos ou ideias que ele lhe entregava. Depois, assinadas por ele, que considerava as suas ideias acima de qualquer realização, mercantilizava o trabalho artístico dela. A juíza do caso entendeu que o valor de uma obra está na sua realização e não na intenção de fazê-la, pois, como reza o ditado popular, de boas intenções está o inferno cheio.

António de Felipe que se considera o pai das vacas da Cow Parade que invadiram tantas cidades por todo o planeta, lamenta que de todo o leite que elas deram não lhe tenham pago direitos pela ideia, que, segundo afirma, era sua[4]. Confesso, ainda que não o possa demonstrar, que naquele primeiro ano no Instituto Santa Irene de Vigo eu já tivera a ideia de pôr uma vaca a fazer uma grande bosta na porta principal, quando nos visitou Pilar Primo de Rivera, a falangista que quiseram casar com Adolf Hitler e que proclamava, alto e feio, que “as mulheres nunca descobrem nada; falta-lhes o talento criador que deus reserva para as inteligências varonis”[5], mas eu não tinha a vaca para materializar aquela cintilante imaginação. É claro que as ideias são intangíveis e não geram direitos. Para evitar que se apropriem das nossas ideias luminosas, o melhor é realizá-las de imediato, porque sendo brilhantes qualquer um pode dar com elas.

Com o tempo aprendi que se quisermos o leite da vaca, há que ordenhá-la. Por muito que o pós-modernismo nos tenha dito que o mundo era uma junção de simulacros ─fictum─, ele não deixou de ser um conjunto de realidades ─factum─ e não basta pensar, há que materializar aquilo que se pensa porque a vaca, de motu próprio, não dá leite.

(*) da Academia Galega da Língua Portuguesa.
Compositor e Mestre em Educação Artística e Ensino de Música.

© 2021 by Rudesindo Soutelo
(Vila Praia de Âncora: 15-06-2021)
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1. Damásio, A. (2020). Sentir & saber. A caminho da Consciência. Lisboa: Círculo de Leitores, p. 86.
2. Schön, D., Akiva-Kaviri, L., & Vecchi, T. (2013). Psicologia della musica. Roma: Carocci, p. 97
5. Soler Gallo, M. (2018). Sé mujer antes que estudiante: El ideal de mujer universitária de la Sección Femenina durante el primer lustro del franquismo. Em Y. Romano Martín, S. Velázquez Garcia, & M. Bianchi, La mujer en la historia de la universidad. Retos, compromiso y logros. (pp. 75-87). Salamanca: Aquilafuente – Universidad de Salamanca, p. 79.

Género: mathcore, progressivo, rock, avant-garde, japan-core, música tradicional japonesa, rock Autores: Poil + Ueda Demo: Dan no ura Lança...

Género: mathcore, progressivo, rock, avant-garde, japan-core, música tradicional japonesa, rock
Autores: Poil + Ueda
Demo: Dan no ura
Lançamento: previsão de lançamento do álbum 2022
Editora: Dur et Doux

                                                 

Aqui está um extracto da nova criação franco-japonesa resultante do trabalho de PoiL e do artista japonês Junko Ueda: Dan no ura. É uma demo no preâmbulo de um álbum a ser lançado em 2022.

PoiL & Junko Ueda, Yoshitsune é um encontro e uma criação musical entre a banda francesa de rock / música contemporânea dos PoiL e Benoit Lecomte (baixista da banda Ni) e o cantor de música tradicional japonesa / tocador de satsuma-biwa Junko Ueda. O tema da criação gira em torno da história épica japonesa ‘Heike-Monogatari’ do século XIII.

A composição é baseada neste canto épico tradicional acompanhado por satsuma-biwa e pelo canto budista Shomyo. Este projecto é uma grande oportunidade de explorar um novo universo musical através do encontro de dois tempos distintos: a formação musical europeia supermoderna e a antiga música tradicional japonesa. Experimental, mas comuns expressões musicais poderosas de ambos os estilos criarão uma descoberta empolgante que pode atrair mais público.

Uma nova experiência onde o rock experimental desenfreado de PoiL se mistura com a voz calma e sinuosa, a força narrativa e o grande carisma de Junko Ueda.

Digressão:
22.09 | Les détours de Babel (Granobra - França)
02.10 | La Baie des Singes (Cournon - França)
06.10 | Café Wagner (Jena - Alemanha)
08.10 | Freakshow festival (Wurburg - Alemanha)
14.10 | Théâtre de la Renaissance (Oullins - França)
16.10 | Les plages magnétiques (Brest - França)
27.10 | B-Flat (Berna - Suíça)

Bagagem de PoiL 👇

Um dia, eu e o Jorge Lima Barreto, tínhamos uma reunião na Gulbenkian-ACARTE, com a Drª Madalena Azeredo Perdigão, uma grande senhora, de um...


Um dia, eu e o Jorge Lima Barreto, tínhamos uma reunião na Gulbenkian-ACARTE, com a Drª Madalena Azeredo Perdigão, uma grande senhora, de uma vasta cultura; fomos levados ao seu escritório, cumprimentou-nos e perguntou se queríamos algo; respondemos que não (o JLB tinha estado a comer rissóis, chamuças e bolos de bacalhau, com um copo de vinho tinto, logo ao pequeno almoço); fomos falando sobre uma proposta de um Festival de Música Improvisada e ela diz: "Esperem aí que vou buscar a minha agenda, para marcarmos as datas do Festival"; nesse momento, logo que percebeu que ela tinha saído de vista, o JLB mandou um grande peido; de repente, ela volta para trás: "Afinal, a agenda está aqui, na secretária" e senta-se de novo; um cheiro nauseabundo invadia toda a sala; e o Jorge: "Está aqui um cheiro estranho, não acha Srª Drª?"; e ela: "Muito estranho mesmo, nunca vi nada assim"; e o Jorge: "Creio que deve ter a ver com o cheiro a mofo destes quadros antigos"; e ela: "Mas esses quadros estão aí há décadas"; e diz o Jorge: "Mas hoje está muita humidade"...


Texto e Imagem: Vítor Rua

Nem pessoas, nem realidades abrem tanto o nosso cérebro quanto certos filmes que indicam que determinada fase da nossa vida não era disrupti...


Nem pessoas, nem realidades abrem tanto o nosso cérebro quanto certos filmes que indicam que determinada fase da nossa vida não era disruptiva, mas uma reacção normal para uma situação anormal. É assim que se apresentam na tela aqueles seres com pensamentos projectados naquele quadro que nos guia para dentro de uma história com a qual nos identificamos.

Aubrey Plaza já tinha mostrado a sua capacidade em Parks and Recreation, mas é com Black Bear que se vê até onde pode e consegue ir. Black Bear divide-se em dois actos, a actriz separa-se em duas pessoas diferentes em cada acto, mas as duas têm uma relação com o macho alfa que manipula, cinicamente, a história. Será?

Dos dois actos, o último apresenta o caos muitas vezes real durante a rodagem de um filme e como todos os membros da equipa se comportam face às idiossincrasias que dali decorrem. O filme realizado e escrito por Lawrence Michael Levine é, no fundo, um olhar fascinante sobre as complexidades criativas patentes no mundo do cinema, uma experiência provocante que faz crescer o drama psicológico - inabalavelmente honesto - potencializando o talento de Aubrey. O filme The War of the Roses (1981) revela um casal cruel preso a uma espiral de ódio tóxico que poderá servir de relação no que respeita a referências fílmicas para Black Bear que se constrói numa narrativa equivalente. A direcção de actores é de facto o ponto forte do filme que não tem como intenção dar respostas simples para o seu próprio mistério - pelo contrário, em vez disso, o pesadelo que é montado passa de normal a surreal e complexo.


Aubrey Plaza traz todo o seu talento para a ironia divertida e inescrutável para o papel de Allison, uma cineasta que chega a uma bela casa à beira do lago no fim de semana com a aparente intenção de recarregar as baterias criativas e trabalhar num guião para cinema. Vemos as suas anotações num bloco de notas, e a caligrafia rabiscada é o motivo para as legendas e para os créditos. A casa pertence a um belo casal, Gabe (Christopher Abbott) e Blair (Sarah Gadon) são amigos de amigos de Allison e têm uma política informal de emprestar a casa para artistas. Desde o início, há uma fricção inquietante entre os três. Allison estabelece um tom irónico de troça que é perigoso para pessoas que não se conhecem muito bem; Blair não sabe se está a troçar dela ou a seduzir o seu marido Gabe, e Gabe acha que o consumo repentino de vinho de Blair é inadequado, uma vez que está grávida.

O álcool costuma ser o alicerce fácil para que pessoas com grande insegurança possam sentir-se mais propensas a ser (se calhar) o que de facto são e pensam, o seu consumo excessivo pode provocar tensões em momentos sociais como jantares. Em Black Bear esse momento-tipo acontece durante um jantar em que Gabe e Blair discutem em crescendo nos níveis de Quem Tem medo de Virginia Woolf?, desencadeados pela atracção que Gabe sente por  Allison. Tudo leva a um desfecho horrível. O próximo acto inverte os papéis das personagens femininas no que à relação com Gabe diz respeito.

É importante ressaltar que o argumento que levou ao desastre o primeiro acto foi por causa de papéis de género: Gabe disse que o abandono da sociedade moderna desses papéis levou à infelicidade. Espantado com essa deslealdade reacionária, Blair o acusa de ser antifeminista, mas Allison concorda com Gabe. No segundo acto, vê-se Allison sob uma luz totalmente diferente: é a actriz e Gabe o seu realizador.


Este novo tom e o novo elenco expandido actualizam e revigoram o filme de uma forma engenhosa: o tempo, a banda sonora, a nova dinâmica do grupo interno fazem uma mudança surpreendente, mas a relação com o que aconteceu anteriormente carrega a acção com significado. Damos de caras com uma família muito disfuncional.

Chega-se então a uma infinitude de questões: afinal de contas quem é que está no comando? Quem é o realizador, ou o Urso Negro? Allison, como actriz principal, tem o poder; comanda o que acontece, principalmente porque consegue fazer alterações no guião no último momento. Este é o melhor papel de Plaza, a sua sensualidade fria alcança algo mais misterioso do que qualquer coisa que tenha feito anteriormente. E o Urso Negro do título assume inevitavelmente mais do que uma forma: um apelido, uma metáfora para o perigo sexual, um urso real de carne e osso. É símbolo e realidade: como o próprio filme, é um acto duplo com garras. Apesar de todos os protestos pró-feministas, será que numa relação amorosa essa capacidade de não se deixar dominar existe para afrouxar as garras que a masculinidade sempre tentou controlar, às vezes até de uma maneira silenciosa e manipuladora? Afinal quem domina quem quando numa relação não se respeitam princípios humanos e democráticos?

Texto: Priscilla Fontoura

Não se pode ignorar os cenários que compõem os quadros dos passeios que se fazem. Pode ser que os olhos retidos pela curiosidade parem num j...


Não se pode ignorar os cenários que compõem os quadros dos passeios que se fazem. Pode ser que os olhos retidos pela curiosidade parem num jardim para o contemplar devido à imensidão ou aos detalhes que tem: um pássaro que pousa num ramo, uma folha que perdura no chão deixando-se passivamente secar pelo calor emitido pelo sol ou que dança ao sabor do vento, ou uma figueira prestes a dar fruto. Toda essa riqueza que pertence a um jardim, pode, existir, de igual modo, dentro de uma casa com uma fachada que não aparenta mais do que está à vista. Mas... não se deve avaliar uma casa pela sua fachada, tal como não se avalia um livro pela capa; na realidade são muitas as casas que nos surpreendem pelo recheio que escondem, isto é, pelas riquezas histórica|cultural que sobrelevam um legado e conduzem ao exercício de fazer sentir e pensar os que procuram outras respostas culturais e artísticas.

Ninguém pensaria que a VIC Aveiro Arts House seria uma casa que serve de núcleo e cruzamento para o encontro de valências artísticas que combina traços de casa-museu, alojamento local e residência artística pela fachada da casa, mas o que contém o seu interior é outra história... A casa pertenceu ao ceramista, cineasta, pintor e escritor Vasco Branco que seguiu durante a sua vida a via artística, e não rejeitou o activismo da responsabilidade política que ia em contracorrente da vigente da época. Hoje, além de casa-museu, existem actividades que continuam a interessar aos que buscam propostas inortodoxas.   


Nesta noite de 9 de Julho de 2021 encontra-se o músico que tem dinamizado a cultura da cidade do Porto assente numa visão que não costuma corresponder ao gosto de massas. O baterista Gustavo Costanome mais que firmado na cena da música experimental e de improvisação - apresenta-se a solo na VIC, para estrear o seu novo álbum. Atrás de si estão faixas/esculturas metalizadas e à sua frente uma bateria com set up separado. 


Por força da pandemia, que tem provocado vários cancelamentos de eventos, a sessão Ressonância, organizada pela VIC, ficou também estagnada há cerca de um ano e meio, por causa das restrições que a toda a hora requerem novas adaptações. No entanto, Gustavo entrou em contacto com a VIC, no sentido de perceber se existiria possibilidade de estrear o álbum a solo no espaço, intitulado Entropies and Mimetic Patterns, e cujo lançamento marca a primeira co-colaboração entre a Sonoscopia - Associação gerida também pelo músico, e pela editora Lovers & Lollypops


Este recente Entropies and Mimetic Patterns, ao contrário das propostas já realizadas com Most People Have Been Trained to be Bored, busca uma abordagem e propósitos diferentes. Aqui é anulado o som sintético e plástico para desenhar-se uma estrutura mais acústica e fiel, sem distorcer as propriedades e potencialidades "naturais" do instrumento. Nestas repetições padronizadas anda-se em círculos, em geometrias ligadas em triângulo e mais formas. Nesta dança de ritmos primitivos, não se anda hirto nem em linha recta só se a Terra fosse plana, como alguns afirmam acerrimamente... mas, fugindo um pouco à comicidade da premissa da "crença moderna" dos terraplanistas, facto é que este disco faz um regresso às origens da percussão, como o fechar de um ciclo em número palíndromo. Nessas batidas que se reflectem numa espécie de mandalas são acrescentados pormenores aqui e ali em repetição, sem nunca fugir ao tempo, talvez seja uma tentativa em que se pretende elevar o corpo a um estado meditativo para o libertar da razão que tantas vezes o prende. Gustavo Costa, com o passar do tempo suporta-se ultimamente numa abordagem exploratória e independente menos sujeita a dispositivos electrónicos, cada vez mais regressa ao início da sua caminhada musical, ao instrumento tal como ele é para explorar todo o seu potencial orgânico e acústico. 


A vida é marcada por vários renascimentos que reservam alguns desafios estimulados por novas fases e experiências. Quando se pensa que estamos a ser levados para algo que nunca vivemos, somos surpreendidos pelo que sempre esteve lá e ficou tapado com um pano, falo do primitivismo, das raízes e bases, momentos que fazem sentir e potencializar o que foi útil quando crianças. Regressar ao primitivismo permite voltar a uma espécie de inocência libertadora, que se desprende da lógica e da razão para que o corpo possa libertar-se de barreiras ou bloqueios. 


Neste concerto houve quem tivesse fechado os olhos para concentrar-se apenas no som emitido pelas baquetas nas peles dos timbalões, da tarola, nas faixas metalizadas, pratinhos e pratos. Sentiu-se a exploração sonora que Gustavo tirou a partir da bateria acústica afinada e montada para produzir uma estética orgânica. Esta performance remete para o lado mais selvagem de nós (que nos julgamos civilizados), e personagens de uma história de colonialismos e imperialismos; mas o tempo é outro, e hoje enchemo-nos de questões e dúvidas por consequência de um quase esgotamento causado pelo desprendimento e distanciamento das origens, uma ligação contra-natura ligada linearmente às épocas industrial e tecnológica, no fundo, a urgência de hoje aponta para o regresso das coisas simples, da reconciliação com a espiritualidade, e da relação entre Homem-Natureza, da importância da biologia, das estruturas material e imaterial, enfim, da compleição. 


O músico introvertido mas tão versátil em várias disciplinas: pedagogia, criação de sons/esculturas sonoras e programador tem concentrado o sentido da sua vida profissional estimulando mais pessoas a educarem o ouvido para outras possibilidades do som, combinando a atitude generosa e nada presunçosa com que o faz. Anos de experiências musicais levaram-no a tomar vias mais complexas, hoje faz uma trajectória mais pacífica e curiosa qual criança que explora os sons em repetição, como uma antropologia sonora, que examina com precisão o som de cada um explorando-o com o que ali tem à mão - e se se adicionar estes pratinhos em cima de cada timbalão, que som sairá dali? É uma entre várias possibilidades. Este disco encaixaria que nem luva para a banda-sonora de um documentário filmado na Amazónia, sob a direcção de Cláudia Andujar, ou uma ficção de Apichatpong Weerasethakul


Do título do disco sai a combinação dos paradoxos: entropia que significa desordem, e padrões miméticos cuja representação transmite paciência, emoção e proximidade a um instrumento que exprime a comunhão que tem com ele. É assim que o músico organiza o caos precedente no seu universo sónico tão singular. Ao álbum integram temas curtos, alguns nem chegam aos 2 minutos, arranca com Entropy e prepara-se um "ritual" que alterna entre o minimalismo percussivo e batidas primitivas, por vezes polirrítmicas. Destaca-se Crass, um tema bastante curioso pois provoca pulsão e liberdade física, ao longo do disco percebe-se a intenção do músico aventureiro e explorador sónico que, em última instância, partilha com o ouvinte um imaginário que o faz visitar uma selva cheia de acontecimentos inesperados. Mimesis Natura eleva o espírito à transcendência em camadas multiverso. O músico não tocou o tema que encerra o disco,  Allegorial Dream Vision, uma faixa de 15 minutos com batidas profundas que soam como reverberações ilusórias que imergem o ouvinte ao ritual inicial. 


Entropies and Mimetic Patterns abre-se ao enquadramento de todo o quadro, como igualmente se fecha ao detalhe patente no mesmo. No quadro tanto existe uma selva cheia de biodiversidade e imperceptível ao olho humano, como um figo cheio de sementes também cheio de propriedades nutricionais, que pode ser observado no vídeo realizado por Augusto Lado para o tema Circles and Time I


Além da apresentação do disco na VIC, o novo registo foi apresentado num ciclo de concertos: 10 de julho, no Salão Brazil em Coimbra, 11 de julho, na Sonoscopia no Porto, e no dia 28 de julho será apresentado no Colapsolexias, em Santiago de Compostela. 



Texto: Priscilla Fontoura
Fotos tiradas por Emanuel R. Marques (que tinha no bolso um telemóvel com câmara)

Imagens: Rui Mota Pinto DR. FRANKENSTEIN , curadoria Fora do Rebanho no âmbito Jardins Efémeros



Imagens: Rui Mota Pinto
DR. FRANKENSTEIN, curadoria Fora do Rebanho no âmbito Jardins Efémeros

por Emanuel R. Marques

por Emanuel R. Marques

As pequenas e médias cidades de Portugal, tomando de análise a comparação que se pode fazer com outras cidades muito mais populosas e geogra...

As pequenas e médias cidades de Portugal, tomando de análise a comparação que se pode fazer com outras cidades muito mais populosas e geograficamente maiores, só há pouco tempo, e a bom rigor, é que têm dirigido o seu foco para a transformação que aglomera as influências que outros visitantes e cidadãos vão deixando. Nessa perspectiva, as cidades mais tradicionais têm transitado para uma condição mais cosmopolita e heterogénea. Há quem entenda este impacto como uma estratégia negativa, uma vez que essas cidades começam a falir em identidade, negligenciando os costumes que tanto as diferenciava. No entanto, hoje vemos um crescente de nacionalidades díspares, sejam europeias ou fora do continente, com outras vontades a querer habitar estas cidades de Portugal. Consequentemente, assiste-se a intercâmbios de pessoas criativas que fazem de qualquer cidade ou de outro local também uma possível morada, pintando à identidade desse lugar outras formas trazidas por visões diferentes por quem lá começa a habitar. Há várias razões para lá ficar, preços mais baixos, uma vida menos stressante e o bom tempo fazem parte dos factores dominantes.   


Fotografia: © Anna-Maria Vaskovskaja


Os Lonzdale's Fantasy, provavelmente cunharam o nome da banda com o nome da capital inglesa (será?), escolheram o Porto como casa para comporem os seus temas muito ricos de humor, sentimento e pensamentos construídos de quem vive uma vida marginal. 

A dupla Nils Meisel & Kenneth Stitt traz o que faltava cá. Um cheiro diferente que pode ser comum em Londres, mas não cá. O frenético e versado Kenneth Stitt, enquanto corre uma sala de fio a pavio, vocifera palavras alicerçadas nos ritmos mixados por Nils Meisel, conhecido por integrar os Sereias. Poesia, teatro, fonética, banjo, electrónica são características da música destes dois músicos que nos anos 90 já começavam a compor os seus temas sem registo até há pouco tempo. 

Este pop-post-combat, assim qualificam o som que fazem, luta contra os padrões e fórmulas estipuladas nos temas que vamos ouvindo. É notável como Kenneth domina o ritmo das palavras, enquanto faz exercício físico, expulsando toxinas desnecessárias para o corpo que acaba a performance como se tivesse corrido uma maratona de muitos km's. Destacam-se os telediscos muito bem dispostos e cinematográficos, filmados em Portugal, mas com um tom de uma Londres suburbana. 

Kenneth Stitt aparenta um homem que não se deve levar a sério, mas, é uma amostra que é apenas fogo de vista, as palavras que grita e canta são tão profundas quanto um poema de Edgar Allan Poe. 

Poder-se-ia relacionar Lonzdale's a várias bandas que por aí andam, mas não vale a pena, porque a cena que fazem tem identidade e isso basta-lhes, exemplo máximo é o tema Deadhate Mate, que fica na cabeça e encerra-se tão bem: but the mosquitos still bites, it's a trap duhhhh.



Texto: Priscilla Fontoura 

Bateristas com muita força de braços influenciam outros que estão a aprender a arte do ritmo e do tempo.  Taylor Hawkins e Dave Grohl   jun...

Bateristas com muita força de braços influenciam outros que estão a aprender a arte do ritmo e do tempo. Taylor Hawkins e Dave Grohl juntaram-se para formar os Foo Fighters, passando Dave Grohl de baterista dos lendários Nirvana para guitarrista e vocalista de Foo FightersTaylor Hawkins e Dave Grohl são irmãos da música que poderiam também ser de sangue, uma vez que partilham traços genéticos semelhantes. Taylor foi o baterista da canadiana Alanis Morissette e da banda de rock progressivo Sylvia. Além dos traços físicos em comum, a performance dos dois quando tocam bateria também é semelhante. Tanto Dave quanto Taylor são dois bateristas reconhecidos mundialmente e considerados entre os melhores do rock. Por todas essas razões distinguem-se e formam uma irmandade musical, tornando-se assim uma referência na história da música do rock. 



Taylor Hawkins e Dave Grohl

Texto: Priscilla Fontoura

Rubrica: A Passo Duplo de Hélder Macedo Género: alternativo, rock, punk  Banda: X Disco: Alphabetland Lançamento: 2020 https://xtheband.ba...

Rubrica: A Passo Duplo de Hélder Macedo
Género: alternativo, rock, punk 
Banda: X
Disco: Alphabetland
Lançamento: 2020


Houve boas razões para abstrair de todos os acontecimentos ocorridos no confinamento no ano passado (2020), falando por exemplo em grandes discos que saíram nesse período. Alphabetland, muito mais que um "pack" de canções, é o regresso muito desejado por quem é aficcionado pelos X, que durante muitos anos foram acompanhando a carreira a solo do actor, vocalista e baixista John Doe.

Alphabetland mostra que, mesmo com 27 anos de ausência, continua a jogar na primeira liga mantendo a formação clássica, não perdendo o jeito para escrever canções que dão vontade de dançar até à exaustão, com aquele sorriso parvo estampado na cara. É um álbum que podíamos ouvir no tempo auge dos X, com a certeza que será uma "fresca nostalgia" para esta nova década.


Género: electrónico, jazz
Banda: Red Snapper
Disco: Prince Blimey
Lançamento: 1996


Editoras como a Warp ou Matador podem gabar-se de um certo orgulho pela aposta que fizeram em bandas como os Red Snapper. Cozinhando uma fusão essencialmente entre a electrónica e o jazz, o percurso dos "Snappers" é discreto, mas, ao longo dos anos, fez crescer um culto muito próprio, angariando novos ouvintes que apreciam estas "miscelânias" de estilos musicais.

Prince Blimey retrata a estreia dos Red Snapper, e, muito mais que um álbum, é um cartão de visita agradável que espelha bem na perfeição a continuidade da banda, como nos discos mais recentes que este colectivo inglês tem produzido. Atenção máxima para temas como: Get Some Sleep Tiger, Fatboy´s Dust ou Digging Doctor What What.


Texto: Hélder Macedo