Fomos dar um concerto no Anfiteatro da Cidade Olímpica de Moscovo, com mais dois grupos: um belga e outro alemão de Leste; o concerto ia ser...


Fomos dar um concerto no Anfiteatro da Cidade Olímpica de Moscovo, com mais dois grupos: um belga e outro alemão de Leste; o concerto ia ser transmitido em directo para toda a URSS e era numa sala do género da Gulbenkian mas com o dobro do tamanho; depois do nosso check sound surge uma intérprete e o director de palco, que parecia o Lenine, vira-se para a tradutora e diz qualquer coisa em russo que ela traduz: "O director pergunta se podem emprestar os vossos sintetizadores ao grupo belga"; e o Jorge diz-lhe: "É impossível, porque os nossos sintetizadores estão programados por nós"; e ela transmite isso ao director; o director volta a dizer algo em russo, e ela insiste se podemos emprestar os nossos sintetizadores; e o Jorge volta a responder a mesma coisa; aí, o director diz qualquer coisa em tom duro e breve, e ela traduz: "Então, o director diz que não vos empresta o piano"; aí, o Jorge levanta-se da cadeira e desloca-se até ao director e diz-lhe em português: "Ouve lá, ó palhaço, eu sou Doutor, e sou músico, há mais de 20 anos, e se voltas a dizer isso, fodo-te todo, e parto-te as trombas, estás a ouvir, meu grande filho-da-puta?"; a tradutora ficou sem saber o que fazer e disse qualquer coisa baixinho, em tom calmo; o director, olhou para nós, disse apenas duas palavras e retirou-se; e ela diz-nos: "Podem usar o piano"...

Texto e Imagem: Vítor Rua

por Emanuel R. Marques


por Emanuel R. Marques

Rubrica: A Passo Duplo de Hélder Macedo Género: rock, jazz, ambient, punk, weird rock Banda: black midi Disco: Cavalcade Lançamento: 2021 ht...

Rubrica: A Passo Duplo de Hélder Macedo
Género: rock, jazz, ambient, punk, weird rock
Banda: black midi
Disco: Cavalcade
Lançamento: 2021


Depois da sua surpreendente estreia discográfica com "Schlagenheim" (2018), os black midi aproveitaram este ano de 2021 para conceberem "Cavalcade".

Para quem já teve contacto com a música dos black midi, sabe exactamente que este grupo de rapazes londrinos não se preocuparam muito com aquela mítica pressão do segundo álbum. A herança do rock progressivo e pós-punk, a adrenalina e mecânica do math-rock ou a loucura de composições mais experimentais, relacionando-se com um público mais atento e curioso.

O "flow" dos Soul Coughing , o "humor" dos Mr. Bungle ou a "energia" dos Liars são algumas das analogias importantes para classificar um pouco a natureza musical dos black midi. Em "Cavalcade" também podemos encontrar canções mais calmas e melancólicas, exemplos de "Marlene Dietrich" ou "Diamond Stuff".

Para quem não aprecia toda esta estranheza e sonoridade caótica, vale apenas observar o conceito visual desta banda, videoclips extremamente bem produzidos e de muito bom gosto.


Género: new wave, art pop, synthpop, pós-punk, alternativo
Banda: The The
Disco: Mind Bomb
Lançamento: 1989


Muito mais do que um mero convidado para o terceiro disco dos The The, Johnny Marr (ex-Smiths) tornou-se um dos elemento-chave na composição de "Mind Bomb".

Matt Johnson, patrão e visionário dos The The, resolveu neste álbum trabalhar as canções numa perspectiva mais colectiva, com um mundo de novas ideias, obtendo um som mais orgânico e não tão dançável e electrónico como no registo anterior "Infected" (1986). Convidados de luxo como Danny Thompson, Chris White ou Sinéad O'Connor, reforçam a ideia do que Matt Johnson e do seu restante gangue queriam para a concepção desta "Bomba Mental".

"Mind Bomb" explora as temáticas de conflitos mundiais, abordando a guerra, movimentos políticos e religiosos, mas também a introspecção do ser comum, o amor ou a perda são retratados em canções muito elaboradas que até de uma maneira muito especifica se tornam algo de experimental.

Texto: Hélder Macedo

O programa de hoje dá a escutar a conversa com os Triciclo Vivo : músicos que tocam os seus temas na rua. Talvez, seja este o modus operandi...


O programa de hoje dá a escutar a conversa com os Triciclo Vivo: músicos que tocam os seus temas na rua. Talvez, seja este o modus operandi mais democrático, pois não há bilhete de entrada para um evento mais horizontal, quem andar pela rua poderá ter a sorte de poder ver e escutar, sem qualquer impedimento, as criações do duo talentoso Miguel Almeida (bateria) e Ricardo Martins (baixo eléctrico). A rua é o lugar de possíveis encontros, qualquer pessoa de qualquer extracto social pode, por acidente, "dar de ouvidos" com concertos não sujeitos a organizações nem programações externas. Em determinada rua ecoam vibrações que acabam, inevitavelmente, por convidar ou despertar a curiosidade de quem por ali passeia. O acaso é, portanto, mais surpreendente e imediato quando o recurso à internet ou a outro meio qualquer pode não possibilitar esse encontro. 


Triciclo Vivo live feat. João MortáguaIlha da Fantasia

A análise realizada por Natália de Almeida Figueiredo, com o título Música de rua e ocupação de espaço público em São Paulo, ressalta as seguintes considerações: 
"O cidadão tem acesso a uma manifestação artística cada vez mais rica e diversa em diferentes momentos de sua rotina diária, como também o artista ganha uma nova possibilidade de exercer a sua actividade de uma maneira mais independente. Ao caracterizar-se como uma arte que ocupa e ressignifica o espaço público, a música de rua ganha um aspecto político e social. Observa- portanto, a um contexto histórico no qual esses mesmos espaços são tomados de um carácter privado, restrito e financeiro, perdendo cada vez mais as possibilidades de sociabilização e de encontro.

A arte dos músicos de rua que este público pode desfrutar está livre do controle e restrições que os grandes agentes fazem de qualquer informação e forma simbólica transmitida pelos média. Os transeuntes que são abarcados com a chance de desfrutar de uma apresentação só a aceitam se realmente são tocados pelo trabalho. Assim sendo, a mensagem do artista chega de forma livre de interesses, assim como o público que consome essa mensagem a recebe de livre e espontânea vontade, criando afinal, uma nova maneira de relacionamento público-artista. Feito neste ambiente de ocupação, ambos se beneficiam como cidadãos. Outra característica dessas relações é que são mais horizontais, diferente de situações onde há o palco e o artista é uma espécie de 'semideus'. O artista contribui disponibilizando o seu trabalho para um amplo público, livre das catracas invisíveis de certos ambientes como salas de espectáculos e concertos, e beneficia-se ao poder divulgar o seu trabalho, que é assistido pelo público e divulgado por esses nas suas redes sociais. Outro carácter transformador da música de rua é a sua capacidade de se inserir na rotina do cidadão por meio de uma arte que pode tocá-lo num momento inesperado. Assim, a música de rua torna-se uma maneira de humanizar a cidade, com o seu forte poder simbólico de tocar os transeuntes.

O espaço público ganha ressignificação que é promovido pela música de rua, aproximando tanto o artista como o público do conceito primordial de cidadania, a arte de rua pode até mesmo ser considerada como um acto político e uma arte-activista, torna-se fundamental para a humanização da cidade, transforma e anima a urbe e recuperação o direito do cidadão."

Locução e edição: Priscilla Fontoura
Interlocutores: Triciclo Vivo (Miguel Almeida e Ricardo Martins)

Um dia, o Jorge Lima Barreto ia dar um concerto com o seu Anar Band com o Rui Reininho; era numa antiga igreja; o camarim improvisado era na...


Um dia, o Jorge Lima Barreto ia dar um concerto com o seu Anar Band com o Rui Reininho; era numa antiga igreja; o camarim improvisado era na sacristia; a determinada altura, o Jorge disse: "Vou só ali ver uma coisa" e saiu; o Reininho, entretanto viu um laço de seda rosa com o feitio de uma pequenina cruz e prendeu-o com um alfinete na manga do casaco com que ia actuar; a determinada altura, o Jorge entra, vestido com uma toga de padre, encarnada e dourada, e com um chapéu branco enorme, de bispo, na cabeça; o Jorge olha para o Reininho, e diz-lhe zangado: "Não vais actuar neste concerto importante nessa figura, pois não?"...

Texto e Imagem: Vítor Rua

por Emanuel R. Marques

por Emanuel R. Marques

Rubrica: A Passo Duplo de Hélder Macedo Género: dark ambient, downtempo, electrónico, experimental, jazz Banda: Bohren & der Club of Gor...

Rubrica: A Passo Duplo de Hélder Macedo
Género: dark ambient, downtempo, electrónico, experimental, jazz
Banda: Bohren & der Club of Gore
Disco: Patchouli Blue
Lançamento: 24 de Janeiro, 2020


Foi no concerto no festival Amplifest 2012 (Porto) que o público português teve o primeiro contacto ao vivo com os BOHREN & der CLUB OF GORE. Escuro, suave e íntimo são algumas das palavras certas para descrever aquela noite de 27 de Outubro.

Da cidade alemã Mülheim an der Ruhr em 1992, os B&dCG sempre criaram um repertório original inspirado no mundo das bandas sonoras, ANGELO BADALAMENTI será possivelmente o compositor que torna mais visível essa inspiração, abordando um som acompanhado com uma atmosfera quase "metaleira" absorvidas entre a música ambiente e um jazz mais negro e intenso.

A dois anos de celebrarem 30 de carreira, trazem na bagagem este "Patchouli Blue", um conjunto de ideias musicais que espelha bem a raiz deste grupo agora em formato trio. Mais uma viagem entre o mistério e a sensualidade, criando um trajecto imaginário navegado pelos caminhos mais perigosos e até ocultos. Aguardamos um regresso breve dos BOHREN a Portugal, até lá continuamos a desfrutar dos seus belos discos que já contam com oito na sua discreta mas estimada discografia.


Género: pós-punk, new wave, rock gótico, rock industrial
Banda: Killing Joke
Disco: Extremities, Dirt and Various Repressed Emotions
Lançamento: 1990


Foi a partir do quarto álbum, "Fire Dances" (1983), que os KILLING JOKE tiveram contacto com o baixista Paul Raven, que foi determinante com a sua atitude e habilidade para o grupo passar do seu estilo inicial, o pós-punk, a um registo mais cru e pesado, criando um som próprio e único.

Entram a fundo em 1990, com a edição de "Extremities, Dirt and Various Repressed Emotions", levando a bom porto um exercício de canções turbulentas. Os sons acompanham na perfeição as letras abertamente críticas da sociedade. Desde o capitalismo ao uso abusivo de drogas, passando por temas mais comuns como a solidão, a depressão e a morte, a sua lírica representa bem a Inglaterra onde viviam nos anos 80.

Depois deste álbum, os KILLING JOKE continuam até aos dias de hoje, mas sem Paul Raven, que passou a participar em bandas como PIGFACE, PRONG, MINISTRY, ZILCH, entre outras, até à sua morte em 2007.

Raven ainda regressou brevemente aos KILLING JOKE em 2003, a propósito do segundo disco homónimo da banda de Notting Hill, Londres.

Texto: Hélder Macedo

Egon Schiele, A Família , 1918 Palavras-chave: pneumónica, 1918 Introdução: Seria impensável imaginarmos uma epidemia que se alastrasse pelo...

Egon Schiele, A Família, 1918

Palavras-chave: pneumónica, 1918

Introdução:
Seria impensável imaginarmos uma epidemia que se alastrasse pelo mundo fora, julgávamos este tipo de tragédias fechadas na história. Mas o tempo passado deve servir de aprendizagem para o presente. A ciência revelou que ainda está aquém de conseguir actuar perante o desconhecido, mesmo que seja a tábua de salvação para que mais mortes não sucedam. A esperança que a pandemia termine deveria ser, em termos práticos, uma vontade global, e para que isso aconteça a responsabilidade não cabe apenas aos funcionários da saúde.

Neste último ano falou-se da pneumómica de 1919 (comummente conhecida por gripe espanhola) para comparar o que a mesma provocou e entender de que modo poder-se-ia travar a transmissão do coronavírus mais cedo do que se antevia, mas em termos comparativos a análise possível reflecte que as condições de vida seriam bem diferentes e os recursos também. Chegou-se à conclusão que a dificuldade em liquidar a transmissibilidade do vírus é mais difícil do que se pensava. 

De Shiele, Klimt e Apollinaire
O tema de hoje aborda autores que faleceram durante a gripe espanhola. Egon Schiele e a sua mulher, Gustav Klimt e Guillaume Apollinaire, perderam as suas vidas, em 1918, devido à gripe espanhola - como se não bastassem as agruras que a I Guerra Mundial causou. Os austríacos Klimt e Schiele não só foram amigos de profissão como mudaram o carril da pintura, uma vez que utilizavam, sem reserva, a nudez e o erotismo como motivo para os seus quadros - nessa altura, devido ao conservadorismo presente na Europa, os pintores foram vistos como hereges da arte. Ao passo que Klimt retratava a sensualidade das mulheres da elite de Viena no seu apogeu, Schiele, por sua vez, e quase 30 anos mais novo, caiu nas bocas do mundo pela forma como representava o corpo humano. Os dois pintores faleceram em 1918.

Egon Shiele, Gustav Klimt no seu leito da morte1918

A 7 de fevereiro de 1918, o artista Egon Schiele, com apenas 27 anos, considerava Klimt a sua grande inspiração. Mas, das muitas visitas feitas, Schiele, desta vez, teve que visitar o necrotério de Allgemeines Krankenhaus, o Hospital Geral de Viena, para fazer desenhos de Klimt que no dia anterior morrera de um derrame que muitos historiadores acreditam ter sido causado por uma gripe. A visita de Schiele resultou em três desenhos assustadores da cabeça de um Klimt falecido, mostrando o seu rosto deformado pelo derrame. Klimt teria sido vítima de um AVC seguido de uma infecção pulmonar que complicou após contrair a gripe espanhola, um pouco mais tarde. Naquele mesmo ano, Schiele começou a trabalhar na pintura intitulada "A Família" que deveria ser um retrato dele mesmo, da sua mulher e do seu futuro filho. Mas antes que pudesse terminar a peça, a sua esposa, que estava grávida de seis meses, morreu de gripe. Três dias depois, a vida de Schiele também foi roubada pela gripe. Essa mesma data é marcada pelo final do Império Austro Húngaro com a derrota na I Guerra Mundial. O Poeta Francês Guillaume Apollinaire morreu jovem, com apenas 38 anos, de vítima da gripe espanhola. Apollinaire foi um dos poetas mais importantes da vanguarda francesa.

Biografia de Apollinaire

Durante um século, as obras dos dois mestres Schiele e Klimt são figuras centrais na colecção da Neue Galerie New York e definiram a criatividade fértil que caracterizou o chamado “alegre apocalipse”, um termo para indicar o declínio do domínio dos Habsburgo.

Klimt foi o principal representante da arte nova austríaca (art nouveau), e foi líder da Secessão Vienense, nome dado à associação de artistas plásticos em Viena no final do século XIX e início do século XX.

Pintura Explicada: "Morte e Vida"
Klimt começou a trabalhar nos desenhos "Morte e Vida" por volta de 1908, e completou a pintura em 1915. O pintor usava padrões e símbolos semelhantes aos da sua Fase Dourada. 

Gustav Klimt, Morte e Vida1916

À esquerda está a figura da morte, uma caveira com um corpo estampado com cruzes e as mãos empunham uma clava, que lembra um castiçal de igreja. À direita está a vida, com sete corpos de mulheres adormecidas, um homem e um menino envolvidos por uma colcha decorativa com flores de cores vivas que lembram a marca das pinturas de jardins que Klimt fazia.

Edvard Munch foi também acometido pela gripe espanhola, mas, felizmente, superou-a. O pintor norueguês encontrou também inspiração na doença. Do resultado dessa inspiração incluem-se "Autorretrato Com a Gripe Espanhola" e "Autorretrato Após a Gripe Espanhola", são detalhes e registos da sua própria experiência aquando da contracção e sobrevivência à doença. Essas pinturas, caracterizadas pela obsessão de Munch com o drama existencial, falam de sentimentos de trauma e desespero que se espalharam a meio de uma pandemia que matou pelo menos 50 milhões de pessoas. “Doença, insanidade e morte ... vigiaram o meu berço”, disse uma vez o artista, “e acompanharam-me toda a minha vida”. Resumindo e concluindo: que esta pandemia exerça efeitos positivos para a reflexão existencial de cada um/uma, e que a arte seja um desses condutores.

Edvard Munch, Autoretrato com a gripe espanhola, 1919

Artistas que faleceram durante a pandemia de 1918. Clicar aqui


Texto: Priscilla Fontoura

Rafael, Platão e Aristóteles , Escola de Atenas, fresco, 1509-1511 “Quando se pronuncia a palavra «cultura», é grande a probabilidade de alg...

Rafael, Platão e Aristóteles, Escola de Atenas, fresco, 1509-1511

“Quando se pronuncia a palavra «cultura», é grande a probabilidade de alguém empunhar um revólver, pronto a disparar!” diz Gilles Lipovetsky na introdução de A cultura-mundo[1]. O nazismo eliminava os intelectuais e artistas por degenerados, o estalinismo por burgueses. As ditaduras de todo o espectro político coincidem em culpabilizar a cultura, e as democracias não ocultam a fadiga de lidar com uma cultura viva: que pensa, reflete e critica o poder.

No século XVIII, Schiller escrevia como cidadão do mundo; a Ode à Alegria – mercê de ser utilizada por Beethoven no final da Nona Sinfonia – é desde 1985 o Hino da Europa. A cultura de Schiller, como a dos filósofos gregos e a das origens do cristianismo, era a universalidade do género humano; um ideal ético, partilhado por Beethoven, que recusava considerar os outros povos como inferiores. Situar o amor à humanidade acima do amor à origem sempre foi percebido como um perigo, uma alta traição às pátrias.

Lipovestky diz também que a cultura era um sistema completo e coerente de explicação do mundo[2]. Mas aquela utopia de ser ‘cidadãos do mundo’ e de “exaltar os valores da liberdade e da tolerância, do progresso e da democracia” foi dando passo ao mundo sem fronteiras do capitalismo cultural, o hipercapitalismo de consumo, onde a cultura se impõe como uma indústria, um complexo mediático-mercantil que proclama o “tudo é cultura” e elimina as fronteiras simbólicas da alta e baixa cultura, da ciência e superstição, empobrecendo a vida social e intelectual, e glorificando a barbarização da cultura[3].

Consultada a palavra ‘cultura’ em dois prestigiosos dicionários da internet[4], percebemos a origem agrária deste termo pois as primeiras definições referem-se ao cultivo da terra, lavoura e técnicas para obter produtos vegetais para consumo. Apenas em sexto lugar é que aparece a definição de cultura como conhecimento, saber, educação, estudo, valores sociais e aplicação do espírito. Cultura é, pois, um artifício, uma intervenção do intelecto humano na natureza, desenvolvendo formas de pensamento e conceitos filosóficos. Cultura é uma determinada organização e conceção humana da natureza e só em sentido metafórico é que podemos falar de cultura, de música ou de arte na natureza. Claude Lévi-Strauss, em La Pensée sauvage, diz-nos que na sua forma pura, ‘selvagem’ ou mítica, a cultura é uma ordenação totalizadora do mundo[5].

Então o que é que concita as iras do poder quando se menciona a palavra «cultura»? Já, na antiga Grécia, Platão expressou, na República, um temor que parece continuar vigente: “nunca se abalam os géneros musicais sem abalar as mais altas leis da cidade”[6]. A cultura dá argumentos aos indivíduos para questionar o poder mas nenhum ‘poderoso’ aceita de bom grado submeter a sua autoridade. O que irrita os “cretinos com poder”[7] – expressão de Diego Armario que assim intitula o seu recente livro – é o prestígio da alta cultura, erudita e nobre, a ‘cultura culta’ do humanismo clássico, a cultura do mérito, da inteligência, a cultura que cria, inova e tem iniciativa[8].

Não se pode pensar no ser humano carecendo de uma vontade de superação, de se ultrapassar, de transcender – o que Nietzsche denominou “vontade de poder”[9] – mas essa identidade não se recebe nem se compra; a cultura, o conhecimento, segundo Robert Stake, não se descobre, constrói-se[10].

Apenas depois de conhecer a cultura é que ela pode ser apreciada[11].

(*) Compositor, Mestre em Educação Artística e em Ensino de Música.
© 2010 by Rudesindo Soutelo (http://www.soutelo.eu)
(Vila Praia de Âncora: 11-XI-2010)

[1] Lipovetsky, G., & Serroy, J. (2010). A cultura-mundo (Resposta a uma sociedade desorientada). (V. Silva, Trad.) Lisboa: Edições 70, p. 11.
[2] Ibid., p. 12.
[3] Ibid., p. 32.
[5] Leví-Strauss, C. (1970). O pensamento selvagem. São Paulo, Brasil: Companhia Editôra Nacional, Editôra da Universidade de São Paulo. p. 299.
[6] Platão. (2008). A República (11ª ed.). (M. H. Pereira, Trad.) Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, p. 169 [424c].
[7] Armario, D. (2010). Cretinos com poder. (M. B. Cruz, Trad.) Lisboa: Babel - Arcádia
[8] Lipovetsky, G., & Serroy, J. op. cit., p. 209.
[9] Nietzsche, F. (2004). A vontade de poder (Vol. 1). Porto: Res.
[10] Stake, R. E. (Outono de 1994). Composition and Performance. Bulletin of the Council for Research in Music Education, 122, pp. 31 - 44.
[11] Lipovetsky, G., & Serroy, J. op. cit., p. 224.

Publicado em:
A Aurora do Lima (Viana do Castelo), Ano 155 nº 82, 1-XII-2010, p. 8
As Artes entre as Letras (Porto), nº 41, 29-XII-2010, p. 13 [http://www.artesentreasletras.com.pt]

Nick Cave é um dos nomes que ocupa o templo da música popular, ao lado de nomes como Leonard Cohen e Tom Waits – até David Eugene Edwards o ...


Nick Cave é um dos nomes que ocupa o templo da música popular, ao lado de nomes como Leonard Cohen e Tom Waits – até David Eugene Edwards o tem como influência para as suas composições. O músico australiano é um dos maiores ícones do rock‘n'roll da actualidade e, cada vez mais, esquece o estado de euforia e enlaça-se, harmoniosamente, nos assuntos da metafísica e da espiritualidade.

Nesta apresentação, Nick Cave é o expoente máximo do processo criativo que atravessa o luto e a perda de um ente querido, e cujo trabalho exprime, através da música e da arte contemporânea, todos os fantasmas, medos e anseios vindos desse momento tão traumático. A análise que se faz do trabalho criativo de Nick Cave identifica um autor que sempre se preocupou com a existência, inicialmente numa perspectiva mais caótica e agora mais reconciliada consequente da maturidade alcançada pela experiência, talvez; mas, sem dúvida alguma, desde a tragédia que traçou uma ruptura abrupta na sua vida, que o mote fulcral e a temática em que ultimamente se debruça tem sido a perda, a morte e o luto - a travessia no deserto que tem feito, consequência do falecimento inesperado do seu filho Arthur. 

Poderiam ser levantados mais exemplos, tal como David Bowie que antes de morrer encarou a morte de frente com o seu "Lazarus", a documentarista Petra Costa que fez a sua via dolorosa à procura da sua irmã que morreu em Nova Iorque no documentário "Elena", ou o nórdico Karl Ove Knausgård que escreveu a sua autobiografia dividida em volumes sendo "A Morte do Pai" o que descreve os sentimentos que o falecimento do seu pai lhe trouxe. Muitos artistas tiveram como temática a morte e o sofrimento de perda que daí advém, Munch (e tantos outros artistas) representada em quadros, filmes, músicas. Mas hoje destaca-se Nick Cave como o autor que nos conduz sem grandes rodeios ao tema da perda vivida na primeira pessoa. Quem já a viveu sabe que, apesar do sentimento singular, há uma objectividade transversal a todos que passam por este momento.

A verdade é que a morte e o luto envolvem paradoxos e alegorias, não se pode falar de morte sem se falar de vida, não se pode falar de tragédia sem arte, nem de filosofia sem existência, nem de arte sem criação, todos estes antónimos são sinónimos também; por mais que as nossas vivências sejam reflexos também do meio social em que nos incluímos, existe também um sentir e olhar para a vida de uma forma muito individual e singular. Por mais que certa cultura tenha como tradição realizar um funeral com uma festa, isso não significa que na essência da perda, e quem a sente intensamente, não a viva de uma forma muito particular com significado.



A presente apresentação parte de uma canção que, na realidade, é uma carta inspirada na fã Cynthia, que dirigiu uma pergunta ao músico australiano em Outubro de 2018  no site The Red Hand Files, plataforma onde Cave responde às questões colocadas pelo seu público. O novo trabalho de Nick Cave, aparece originalmente no 7″ de Nick Cave e Warren Ellis intitulado “Grief”, foi composto e gravado depois de "Carnage" (registado na altura do confinamento), e é assinado a meias com o companheiro de longa data Warren Ellis. Esta canção "A Letter to Cynthia" surge como resposta à fã que perguntou a Cave se sentia que o seu filho se comunicava com ele por sonhos. Como resposta, Nick Cave exprime, nesta canção, sem rodeios e sem artifícios todos os pensamentos que cabem no discurso de quem passa pelas várias fases que uma perda desta escala acarreta. Como Cave explicita – quando amamos, sofremos. No vídeo realizado para o tema observa-se um pássaro que abana as asas mas não sai do mesmo lugar. Essa representação visual reflecte bem o estado desse congelamento próprio da apatia.


Após este drama todos os álbuns que sucederam à discografia do músico tiveram como inspiração criativa a morte do filho do casal Nick e Susie Cave. Todos esses processos criativos reflectem muito directa e profundamente todas as fases de luto do músico: Skeleton Tree, Ghosteen, no âmbito Nick Cave and the Bad Seeds, banda que tem sido suporte para a sua catarse criativa, e agora, com o seu companheiro e pilar da vida artística, Warren Ellis, também membro dos Bad Seeds.

Sabemos que o processo criativo de Nick sempre se baseou muito na palavra, numa intenção diarística que não foge às confissões existenciais da sua realidade, muitas vezes poética e imaginativa, mas com uma boa dose de realidade.


Toma-se então de exemplo o processo criativo de Nick Cave, em especial o tema A Letter to Cynthia (Uma carta para Cynthia), este desabafo é um exemplo vivo de todas as fases que o sentimento de perda contempla: silêncio, distanciamento, apatia, contradição, protecção, dúvida, questionamentos, medo e queremos acreditar uma possível superação.

O músico vai transparecendo em todo o processo a necessidade que se lhe impõe: ajudar a família para que não se perca na escuridão que pode trazer muitas mais perdas, por exemplo, um possível divórcio, por se obrigar a dar suporte familiar ainda que esteja a passar por um processo penoso; distanciamento familiar, quando também tem que ter forças para apoiar o seu outro filho, o irmão-gémeo de Arthur – uma família com dor a precisar de cuidados e a precisar de encontrar refúgio nela mesma, porque a dor, apesar de colectiva, é vivida e sentida no núcleo familiar por cada membro de forma muito particular. O exercício catártico feito sozinho, em estúdio e no palco condu-lo a uma resiliência e à superação que, talvez, nem o músico algum dia acredite alcançar.


Ainda que a sofrer, Nick permite passar esta mensagem ao mundo e traça esta linha de identificação: muito importante neste processo, pois quem vive uma tragédia pública consegue tocar na alma de quem a vive ou viveu anonimamente, nesta relação entre músico e fã encontram-se também os fantasmas que conduzem à superação recíproca de feridas profundas.


O processo criativo é portanto um mecanismo muito importante para o processo de cura, passa por fases necessárias com vista à superação e a obra artística realizada deixa de pertencer ao autor para passar a pertencer ao mundo independentemente, segundo Deleuze, o mergulho nunca faz o artista voltar à superfície igual.


Em última análise, o acto criativo termina numa mensagem que passa de emissor para receptor, ela não é egoísta e não se permite a sofrer sozinha, é pois uma partilha que se alia à identificação e à reciprocidade.

Um emissor que sofre para um receptor que também sofre, uma ligação que procura e vislumbra a redenção, a empatia e a cura: aqui sente-se a transcendência. Talvez, seja esse um dos sentidos da vida, nem sempre explicados pelo raciocínio lógico, tão enfatizados por Viktor Frankl, que passando pela via dolorosa não ocultou a sua dor e ajudou outros a continuar a vida com os olhos virados para o sentido e importância da vida. A alegoria visual mostra um pássaro que bate as asas que não sai do mesmo lugar, assim se metaforiza o estado de luto - mas chegará o dia em que alcançará o voo se mantiver as asas em movimento.

Esta canção ensina também o amor ao próximo, Nick Cave não se reserva a lidar com a dor sozinho, é nobre, partilha com os outros anónimos o sentimento transversal que afecta tantas pessoas, especialmente agora, todavia, ainda que se encontre a abanar as asas, o voo um dia virá. 


Texto e Slides: Priscilla Fontoura
Vídeo: Nick Cave

Rubrica:  A Passo Duplo de Hélder Macedo Género:  Shoegaze, Dream Pop Banda:  Slow Crush Disco:  Aurora Lançamento:  2018 https://slowcrush....

Rubrica: A Passo Duplo de Hélder Macedo
Género: Shoegaze, Dream Pop
Banda: Slow Crush
Disco: Aurora
Lançamento: 2018


A curiosidade e a necessidade leva-nos ao encontro de novos projectos e bandas, a que dificilmente teríamos acesso, sem a existência de plataformas como a bandcamp e outras similares que brotam na internet.

O Shoegaze ou o Dream Pop, por exemplo, foram correntes que iluminaram as décadas de 80 e 90, em território inglês e americano, espalhando-se depois facilmente para o resto do Mundo.

Da Bélgica podemos falar dos SLOW CRUSH. "Aurora", disco de estreia, é o argumento de todo esse trajecto, que foi escrito em linhas anteriores, representado num leque de 8 canções que revisitam os COCTEAU TWINS, SLOWDIVE, KITCHENS OF DISTINCTION, DROP NINETEENS, também outros nomes que nasceram e criaram raizes já no novo milénio, como os WHIRR, THE JOY FORMIDABLE ou BEST COAST.

Se ouvirmos todas estas "criaturas", podemos afirmar que "Aurora" é um fruto concebido a partir delas, com canções originais de SLOW CRUSH, exibindo um universo vincado, para nos fazer lembrar que a música não é apenas um motivador de sonhos, mas sim o próprio sonho (Dream Pop!!).


Género: Rock, New Wave
Banda: Rain Tree Crow
Disco: Rain Tree Crow
Lançamento: 1991


JAPAN, uma das bandas de referência para toda uma geração de meninos que andavam fascinados com a synth-pop. A experimentação de outros elementos electrónicos na música, um conceito estético de vanguarda, espacial e de pós-modernismo são os ingredientes responsáveis pelo culto desta banda.

Terminam funções em 1982 e cada elemento da formação dos JAPAN enveredou por outros caminhos. David Sylvian (vocalista) desenvolveu uma carreira a solo muito interessante e sólida, Mick Karn (baixista) colaborou com Peter Murphy em Dali´s Car, Steve Jansen (baterista) e Richard Barbieri (teclista) formaram The Dolphin Brothers, mais tarde Barbieri faria ainda parte dos Porcupine Tree.

Voltam a trabalhar juntos, sob o nome de RAIN TREE CROW, e em 1991 lançam este disco homónimo. Mudando de nome, mas não perdendo a identidade de discos anteriores, encontram outras linguagens para a sua expressão musical: elementos de World Music, de Jazz, ritmos de "Krautrock", envoltos em canções Pop-Rock.

2021 marca a celebração do 30º aniversário de vários álbums de referência da década de 90, como "Laughing Stock" dos TALK TALK ou "Nevermind" dos NIRVANA, mas é preciso não deixar cair no esquecimento um disco como o dos RAIN TREE CROW.

Texto: Helder Macedo

Criação e Autoria: EMANUEL R. MARQUES


Criação e Autoria: EMANUEL R. MARQUES

Um dia, eu e o Nuno Rebelo, íamos tocar a Faro com a Companhia de Dança do Paulo Ribeiro; e o Nuno é que me dava boleia de carro; combinou-s...


Um dia, eu e o Nuno Rebelo, íamos tocar a Faro com a Companhia de Dança do Paulo Ribeiro; e o Nuno é que me dava boleia de carro; combinou-se às 09 horas, ele apareceu e partimos; mal partimos, um segundo depois, lembrei-me que me tinha esquecido da erva e pedi-lhe para voltarmos para trás; já estávamos quase na ponte 25 de Abril; e ele: "Ó Rua, és um drogado do caraças, pá... Caga lá nisso uns dias..."; e eu: "Nem penses, voltamos para trás"; e ele: "Depois esqueces-te das coisas, tu"; e lá regressámos a minha casa, apanhei a erva, entrei no carro, fiz logo uma ganza e fumei; e o Nuno: "De caminho já nem te lembras das músicas que temos de tocar"; e eu fumava outro; e ele: "Agora é que já nem te vais lembrar das deixas, estás fodido"; e eu fumava outro... e ele sempre a gozar comigo, que eu era um esquecido do caraças, e que só não me esquecia da cabeça porque a tinha agarrada ao corpo; chegámos a Faro, e fomos directamente para o auditório descarregar a aparelhagem; nesse concerto eu tocava guitarra e electrónica, mas o Nuno era só guitarra, uma Gibson que ele tinha comprado em Viena, quando fomos lá tocar com o Mark Tompkins; eu começo a descarregar e só vejo o Nuno a meter as mãos à cabeça e a dizer: "Esqueci-me da guitarra, f#!"...

Texto e Imagem: Vítor Rua

Às vezes interpretamos um assunto tomando uma só via. Há mais que se podem tomar e que acabam por fundir-se na principal. Assim, a viagem qu...

Às vezes interpretamos um assunto tomando uma só via. Há mais que se podem tomar e que acabam por fundir-se na principal. Assim, a viagem que se faz não segue apenas a estrada principal que acabaria por apagar a beleza existente nas demais. Deixamos as imagens registadas pelo Rui durante as suas explorações nas florestas de Portugal e que poderão levar à contemplação e à possibilidade de várias perspectivas. 

“Viajar é interpretar. Duas pessoas vão ao mesmo país e, quando regressam, contam histórias diferentes, descrevem os naturais desse país de maneiras diferentes.” - José Luís Peixoto


Imagens: Rui Mota Pinto 

Rubrica: A Passo Duplo de Hélder Macedo Género:  Folk, Alternativo Autor:  Cory Hanson Disco:  Pale Horse Rider Lançamento:  16 de Abril de...

Rubrica: A Passo Duplo de Hélder Macedo
Género: Folk, Alternativo
Autor: Cory Hanson
Disco: Pale Horse Rider
Lançamento: 16 de Abril de 2021


Numa viagem estadual entre a Califórnia e o Nevada, determina-se o assunto nuclear para a composição de "Pale Horse Rider". Paralelamente com os WAND, Cory Hanson consegue transmitir ao segundo álbum a solo um conjunto de canções que constrói esse trilho.

Hanson não esconde as suas referências (musicais), confortável a compor de sua casa e de vizinhos, o movimento Paisley Underground e uma outra cultura sobre o mundo sonoro e lírico da Califórnia estão cristalizadas em "Pale Horse Rider" sem grande esforço, que automaticamente se sente essa facilidade quando se ouve nos quase 40 minutos do disco.

Temas como "Angeles" "Necklace" "Vegas Knights" ou "Surface to Air/Another Story From the Center of the Earth" encaminham a personalidade de um dos compositores americanos que de certeza irá criar um estatuto mais abrangente nesta nova década.

Género: Folk, Alternativo
Autor: Wovenhand
Disco: Star Treatment
Lançamento: 9 de Setembro de 2016
https://wovenhand.bandcamp.com/album/star-treatment


Até à data, o último registo dos Wovenhand levado a cabo pelo mentor Dave Eugene Edwards continua a fazer a sua travessia, já sem os 16 Horsepower, escolhendo há vários anos o símbolo de Wovenhand, um nome que também personifica os seus ideais religiosos, e um olhar próprio sobre a sua América, a cidade de Denver (Colorado) e o mundo em geral, principalmente aquele que tem tido a oportunidade de conhecer com os seus concertos intimistas, mas cheios de energia (Portugal incluído).

Star Treatment invoca as suas raízes tradicionais do folk e country que Eugene nunca abandonou nos discos anteriores, tal como em 16 Horsepower, completando com uma atmosfera psicadélica e ruidosa que muitas bandas actuais revestem na sua música, não esquecendo a electrificação muito acentuada e nunca perdendo a sensibilidade e coerência das suas canções.

Texto: Helder Macedo

Assim surge mais uma iniciativa Acordes de Quinta. As mudanças levam a novas adaptações e transformações. Há pouco tempo não havia cortina d...

Assim surge mais uma iniciativa Acordes de Quinta. As mudanças levam a novas adaptações e transformações. Há pouco tempo não havia cortina de ferro que nos separasse por causa de um vírus, hoje vemo-nos obrigados a conversar com distância física. Vivemos também outra altura graças à tecnologia que permite a comunicação à distância pelo meio de outros veículos que, ao fim e ao cabo, são pontes digitais que não nos separam socialmente. Apesar das várias conversas que temos já como base de arquivo com diversas bandas e músicos, reparámos que fazia ainda mais sentido batermos um papo com músicos e criativos - não só para falar do lançamento dos seus discos, mas também para perceber a leitura que fazem do mundo. 

Capa do disco Minha Cabeça por Marina Novaes

Convidamo-vos a ouvir o bate-papo com Paulo Novaes, um músico brasileiro que viveu uma temporada em Portugal, gravou o álbum Minha Cabeça entre Brasil e Portugal. Ao disco juntam-se participações de Anavitória, Rubel, 5 a Seco, Tiago Nacarato, entre outros grandes artistas que colaboraram em 10 temas cimentados por poesia e música - também inclui-se a participação, talvez a mais afectiva, a da sua avó Margarida Piedade Novaes.

Curiosamente, ainda que o Paulo não me conheça (e vice-versa), a empatia que criámos foi bastante interessante, surgiu, naturalmente, uma conversa elástica que aborda vários assuntos: o preconceito, o plano de vacinação de um Brasil que não tem vislumbrado uma melhoria relativamente às mortes por Covid-19 e o Governo que não tem conseguido travar a transmissão do vírus, a nossa cosmovisão do mundo e da cultura - especialmente da música; Paulo falou também sobre o processo criativo do disco, sobre política e o estado do jornalismo. Este bate-papo, via Zoom, durou cerca de 1 hora. A conversa criada por ser à distância dificultou um pouco a manipulação do som dos interlocutores. 

Para concluir, foi uma honra para mim e uma grande oportunidade trocar ideias com alguém que esteve numa onda mano a mana. 


Paulo Novaes, Pedro Altrio, Rita Altrio: Contradição 
Paulo Novaes, Leo Middea, Rodrigo Carazo: Eu te Amo Demais
Paulo Novaes, Margarida Piedade Novaes: Cantar
Paulo Novaes, Cavalo 55, Tomaz Lenz: Casca do Ovo

Locução e edição: Priscilla Fontoura
Interlocutor: Paulo Novaes

por  Emanuel R. Marque s

Nicolau Copérnico (1473 - 1543) O primeiro requisito para um compositor é estar morto, escreveu em 1951 Arthur Honegger no seu livro Je suis...

Nicolau Copérnico (1473 - 1543)

O primeiro requisito para um compositor é estar morto, escreveu em 1951 Arthur Honegger no seu livro Je suis compositeur. A frase soa a profeta da desgraça, ou pássaro de mau agouro, a acompanhar a vida dos criadores da música erudita, mas, na realidade, não passa de uma constatação histórica. Vivaldi, apesar de alguns êxitos em vida, morreu em Viena num total esquecimento e só no século XX foi recuperado o seu legado. Mozart foi atirado numa vala comum, baixo o triste olhar do seu cão, único amigo que o seguiu até ao cemitério e, hoje, toda a Áustria vive do trabalho dele. Bach, a quem agora reverenciamos como um deus, foi ignorado por mais de um século.

Seguindo o Princípio Copernicano de que “não somos o centro do universo”, podemos amortecer a impetuosidade criativa e diluirmo-nos na mediania geral. Esse Princípio Copernicano supõe que a localização do observador provavelmente não seja especial e, portanto, sentir-se o centro não é uma perspetiva correta. No conjunto do universo, o planeta terra é mais um entre milhões de planetas, pelo que a perceção de um terrícola, quando observa a imensidão celeste, é relativa. Galileo Galilei, defensor das ideias de Copérnico, foi condenado pelo tribunal da Inquisição em 1616, por ameaçar o umbigo de um deus sem habilitações astronómicas.

Modernamente, J. Richard Gott recuperou aquele raciocínio Copernicano[1], também conhecido como o Princípio de Mediocridade, para calcular a queda do muro de Berlim ou a extinção da humanidade. A fórmula de Gott também pode ser utilizada para averiguar o tempo de vida que vai ter uma obra musical, desde que o cálculo não seja feito por um observador especial, que assiste ao seu início ou ao seu fim, pois, como o seu nome indica, a mediocridade não acontece nos extremos. Neste sentido há uma certa similitude com a curva dos valores do Quociente de Inteligência (QI) na sociedade onde, para além de que os métodos de medição sejam mais ou menos éticos e fiáveis, há um certo consenso em que aproximadamente um 82% da população encontra-se nos valores entre 80 e 120. As minorias acima e abaixo desses valores sofrem uma existência de inadaptação à ‘mediocridade’. Os sobredotados e génios são muitas vezes discriminados por terem ideias ‘muito complicadas’ para uma cultura medíocre.

Com muito bom olfato, os grandes traficantes da música sabem esperar pela defunção do compositor antes de explorar as suas obras. O compositor morto não reclama nem impõe condições molestas. Se consultarmos as grandes, e mesmo as pequenas programações de festivais, orquestras, grupos de câmara e solistas que preenchem os concertos de música erudita das diversas salas e instituições, assim como as salas de aula das instituições de ensino da música, constata-se que, em geral, as obras de compositores vivos são quase inexistentes ou puramente anedóticas; há, contudo, meritórias exceções que só confirmam a regra. O repertório incide uma e outra vez numa liturgia necrólatra com cadáveres primorosos para abutres elegantes. A desculpa para não apresentar as obras que nos são contemporâneas e deveriam dizer-nos respeito, quase sempre se baseia no hipotético gosto do público. Gosto que a eles corresponderia desenvolver e aperfeiçoar pois ninguém sabe se gosta ou não daquilo que não conhece. Na música, e nas artes em geral, a oferta é quem cria a procura.

Nesta cultura economicista o poder de decisão está nas mãos de indivíduos medíocres, adoradores do bezerro de ouro que só promovem aqueles que lhes lustrem o ego. Mas se não há compositores, escritores e artistas que nos empurrem a imaginar outros futuros possíveis, nem os abutres elegantes conseguem sobreviver.

(*) da Academia Galega da Língua Portuguesa.
Compositor e Mestre em Educação Artística e Ensino de Música.
© 2020 by Rudesindo Soutelo
(Vila Praia de Âncora: 29-10-2020)

Pé de foto: Nicolaus Copernicus, De revolutionibus orbium coelestium (1543).
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1. Gott, JR. (1993). Implications of the Copernican principle for our future prospects. Nature 363, pp. 315–319.

Publicado em As Artes entre as Letras (Porto)
Nº 290 p.20, 12-Maio-2021.

Género:  noisy, free jazz Banda:  Mula Disco:  Resiliente Relançamento (primeira vez em formato vinil):  14 de Maio de 2021 Resiliente by MU...

Género: noisy, free jazz
Banda: Mula
Disco: Resiliente
Relançamento (primeira vez em formato vinil): 14 de Maio de 2021


Não é preciso invadir o espaço com massa humana, as vibrações provocadas pelo impulso físico bastam para que a carga fique concentrada ali, naquele espaço-tempo. Não poderia existir maior liberdade do que a que persiste em cada músico que se estica como elástico para se aproximar dos seus colegas. 

Hoje apresentamos Resiliente dos colombianos Mula. O disco já lançado em 2017 via Matik Matik, foi novamente editado a 7 de Maio deste ano em formato vinil via Dur et Doux.
Resiliente veio para ficar e preencher os ouvidos que procuram vanguarda sónica. O álbum noise, com infusões e boas doses de free jazz, emprenha-se também de fragmentos, frequências baixas e texturas saturadas.

Serviria de base musical para os últimos protestos que ocorrem no país de origem dos Mula. Os protestos antigovernamentais na Colômbia, desencadeados pela proposta do aumento dos impostos gerado pelo governo, não olhou para a questão sócio-económica que a Colombia atravessa devido à Covid. Milhões de pessoas foram para a rua manifestar o desagrado e o apelo foi deferido pelo governo que retirou o plano tributário proposto. Mas por detrás desse problema, existem mais outros que ficaram por resolver e que já existiam.

Resiliente distribui-se em oito temas cheios de fúria e bizarria. Side A: Hija, Siete, Sonámbulo, Ataraxia | Side B: Petricor, Mondo Barbián, Vagido, Hija de Remy. Nesta obra, a banda sonora de Chapinero (distrito de Bogotá) faz uma pausa e abre o campo de um free jazz ruidoso emancipado onde as distorções reinventam o imaginário e os instrumentos (baixo elétrico, sax. tenor, alto e barítono clarinete, guitarra, bateria e teclados).

Entre ironia e provocação, a confusão de Mula incorpora samples em alemão e espanhol, gravação sonora de campo, respingos de receitas de guacamole: "guacamole sem tempero é como amor sem desejo", versos do pai do criador de Rasqa, Edson Velandia. Ela transporta-nos numa jornada anti-poética intergaláctica até à era do fim da razão. 

O álbum contém uma homenagem subliminar ao baixista colombiano Humberto Monroy e o tema actual de El maravilloso mundo de Ingesón (1968), "Se a guerra é um bom negócio, invista em seus filhos", e inúmeras evocações de bandas como Supersilent, Swans, Behemoth, Sonic Youth, José José e Diomedes Díaz. Antipatriarcal, antiestético e anticonformista, Mula insere-se na cartografia das bandas da região latino-americana e representa um acento radical e urgente contra as frágeis neuroses sociais que a música criativa luta com crueza e sinceridade. Mondo Barbián é o momento alto do disco.


O colectivo musical que perdura há 9 anos e  a lista de todos os envolvidos na gravação de Resiliente: 
Saxofone Tenor: Juan Ignacio Arbaiza, Bateria: Camilo Bartelsman, Baixo: Santiago Botero, Sintetizadors e Computador: Diego Herrera, Guitarra: Enrique “Kike” Mendoza, Clarinete, Clarinete Baixo e Saxofone Alto: María “Mange” Valencia. Convidados: Trombone (Ataraxia), Jose Miguel Vega “El Profe”, “diatribe on the guacamole of a Frenchman" (Ataraxia), German Velandia. Composição | Santiago Botero. Gravação | Daniel Bustos à Estudios, Audiovisión à Bogotá (Colombia) en 2016 Mistura | Benjamin Calais (** Hija de Remy by R3myBoy) Masterização | R3my Boy Arte Visual | Bibiana Rojas

Os Mula descrevem o seguinte cenário que ocorre na Colômbia:
"Estamos no meio de uma crise sócio-económica e política. Desde 28 de abril de 2021 as pessoas protestam nas ruas contra o actual governo. Esses protestos não parecem ser explicados apenas pelo descontentamento popular manifestado contra o anúncio de uma reforma tributária promovida pelo presidente Ivan Duque. Embora seja compreensível a rejeição da cobrança de impostos em tempos de desemprego massivo e dificuldades económicas, o que mais revolta a população do país é o nível de violência e brutalidade policial demonstrada pelo governo desde o início dos protestos. 

Entre 28 de Abril e 5 de Maio ocorreram 1.708 casos de violência policial, 381 vítimas de violência física infligida pela polícia, 31 mortes, 1180 prisões ilegais e arbitrárias contra manifestantes, 239 acções violentas da polícia e das forças militares, 31 pessoas com ferimentos nos olhos, 110 disparos de arma de fogo (armas letais) da polícia, 10 vítimas de agressão sexual por membros da força policial e 87 casos de desaparecimento forçado durante os protestos. Nem mesmo a declaração há alguns dias do presidente da Colômbia anunciando que o projeto de reforma tributária seria retirado serviu para amenizar a indignação do povo, e por um bom motivo. Essa reforma tributária foi apenas a gota que derramou o copo, existem muitos motivos para protestar, as leis tributárias da Colômbia não têm um sentido de justiça e equidade, uma horrível reforma da saúde está a caminho, o assassinato sistemático de líderes sociais ao redor do território por exércitos paramilitares (às vezes com o conhecimento ou ajuda do governo, polícia e militares), o massacre de crianças, a intimidação constante da classe política para com o povo que deveria trabalhar para um presidente incompetente que é o fantoche dos mais sombrias figuras lideradas pelo ex-presidente Alvaro Uribe Velez. Narcotraficantes e paramilitares, altos níveis de corrupção e a má gestão da cobiçada pandemia que levou o povo colombiano a uma crise económica e social, são apenas alguns dos motivos para protestar. 

A sensação de medo é uma constante agora. Os média locais são parciais, sentimo-nos sequestrados e aterrorizados pelos nossos chamados líderes. O governo está a matar-nos. Gostaríamos de usar esta janela de oportunidade para aumentar a conscientização sobre esta situação. Por favor, compartilhe e divulgue a notícia, se puder ajudar, há um link gofundme que pode visitar para ajudar a primeira linha de manifestantes."


Texto: Priscilla Fontoura