“ Olha lá Quem eu Encontrei… ” vai em busca de encontros inesperados e situações imprevistas com figuras do panorama musical e artístico. Ep...



Olha lá Quem eu Encontrei…” vai em busca de encontros inesperados e situações imprevistas com figuras do panorama musical e artístico. Episódios breves que descrevem cruzamentos do quotidiano narrados na primeira pessoa.

Rafael Monteiro, radicado em Londres, músico e compositor dos Almamor, foi assistir a um concerto de Anathema. Enquanto caminhava pelo recinto, após o concerto, foi abordado por um dos elementos da banda, que lhe pediu um favor.


Ideia e execução: Emanuel R. Marques

Pieter Bruegel, o Velho. A luta entre o Carnaval e a Quaresma. 1559. Museu de História da Arte em Viena, Viena. Aquele ambiente sonoro prete...

Pieter Bruegel, o Velho. A luta entre o Carnaval e a Quaresma. 1559. Museu de História da Arte em Viena, Viena.

Aquele ambiente sonoro pretensamente relaxante que preenchia o consultório médico fez-me refletir sobre A ascensão da insignificância, uma entrevista radiofónica que fizeram ao filósofo francês Cornelius Castoriadis em 1993. “O trabalho do intelectual deveria ser um trabalho de crítica, como foi frequentemente o caso durante a História. Na Grécia, por exemplo, os filósofos questionavam as representações coletivas instituídas, as ideias estabelecidas sobre o mundo, os deuses, a boa ordem da cidade. Mas ocorre rapidamente uma degenerescência: os intelectuais abandonam, traem o seu papel crítico e tornam-se racionalistas do que existe, justificadores da ordem estabelecida”1.

A envolvência sonora daquele espaço estava a irritar-me quase tanto como a estrondosa agressividade que se pratica nos centros comerciais, supermercados e outros templos do consumismo com o subliminar objetivo de inibir a faculdade de pensar. Uma subtil maneira de silenciar anonimamente a divergência e a autocrítica sem recorrer à censura. Quando desistimos do nosso direito de dizer o que pensamos e de ser responsáveis pelo que dizemos, são os outros a falar e preencher o nosso espaço de sociabilidade com ideias que podem ser mesmo monstruosas. Constantino já percebera a importância da religião no controlo subliminar do seu vasto império, convocando e presidindo, no ano 325, o Primeiro Concílio de Niceia para unificar a doutrina que configurasse a obediência subconsciente dos seus cidadãos. Carlos Magno compreendeu que era preciso vigiar o que se cantava nas igrejas para dominar o pensamento do seu Sacro Império Romano, e impôs o Canto Carolíngio, também conhecido por Gregoriano. Lutero decretou que todos os ofícios se celebrassem na língua do povo e iniciou um novo tipo de canto, os corais ou hinos que passaram a ser cantados diretamente pela assembleia, reforçando a assimilação das mensagens. O Concílio de Trento instou os compositores a simplificar a textura sonora para que o recado ideológico fosse mais compreensível. Já no século XX, o Concílio Vaticano II seguiu os passos de Lutero e finalmente decidiu que os ofícios se celebrassem nas línguas vernáculas, fossilizando assim o Canto Gregoriano e, não por acaso, inundou os serviços religiosos de músicas banais, talvez mais conformes com o ‘aggiornamento’ da ideologia institucional. Jacques Attali afirma que tudo isso “é um meio para fazer calar, … um monólogo de instituições”2. Neste processo, a música foi invadindo todos os espaços de atividade e já se transformou no “barulho de fundo para as massas. Música para fazer calar”3

A sociedade repetitiva, consumista, impõe o silêncio mediante a música. MUZAK, uma empresa especializada em vender música ambiental, aplica uma ‘limitação da gama de intensidades’ às unidades sonoras que processa e que consiste em reduzir os contrastes auditivos, nomeadamente comprimindo ou homogeneizando o volume, e selecionando os timbres, dinâmicas e ritmos para elaborar sequências de treze minutos e meio, que era o tempo médio que os telespetadores americanos conseguiam manter a atenção concentrada, mas que nos últimos anos tem vindo a diminuir de modo radical. Essas sequências, integradas em séries de oito horas, são as que ouvimos nos espaços laborais para aumentar a produtividade, nos centros comerciais para estimular o consumo, nos aeroportos, elevadores, transportes, restaurantes, estádios, igrejas, piscinas e todo o tipo de espaços de sociabilidade, instalada como mais uma mobília funcional para o ritual repetitivo de endoutrinação anónima. Música manipulada para manipular as massas, mesmo no consultório médico. “O conjunto está instrumentalizado, utilizado por um sistema, ele próprio anónimo”, reflete Castoriades, onde “tudo respira em conjunto, sopra na mesma direção, a de uma sociedade na qual toda a crítica perde a sua eficácia”4

O pensamento ocidental desenvolveu a capacidade de se questionar e de fazer autocrítica. Se a crítica do intelectual adormece, a sociedade entra em crise, uma crise dos significados do imaginário coletivo. Quando não questionamos a História e só relatamos os factos sem qualquer discernimento crítico, podemos induzir a racionalismos falaciosos que justifiquem a involução ou legitimar que o ideal sublime dos criadores é o enriquecimento e o reconhecimento social, e não, criticar esta corrida para o abismo e, sobretudo, “tirar da miséria psíquica e moral os nossos contemporâneos”5.

Há tempo que os valores da sociedade ocidental foram substituídos pelos valores económicos, deixando de lado o desenvolvimento dos seres humanos. Aquela música de elevador no consultório médico não é inocente. Não é mais do que uma forma de dominar os ruídos e pode ser o anúncio do silêncio geral da humanidade frente ao espetáculo da “trituração radical dos códigos pela máquina da economia”6 como a Quaresma engole o Carnaval. 

1- Castoriades, C.: A ascensão da insignificância. Lisboa, Bizâncio, 2012, p. 94. 
2 - Attali, J.: Ruídos. Ensayo sobre la economia política de la música. Paris, Editions Ruedo Ibérico, 1977, p. 224. 
3 - Ibid.: p. 225. 
4 - Castoriades, C.: Op. Cit. p. 96-97. 
5 - Ibid.: p. 106. 
6 - Attali, J.: Op. Cit. p. 227

Texto: Rudesindo Soutelo (Compositor e Mestre em Educação Artística)

Hermeto Pascoal veio trazer a Ílhavo, a convite do Festim, o samba, o forró e toda a fusão que só um mestre do jazz vanguardista consegue. A...

Hermeto Pascoal veio trazer a Ílhavo, a convite do Festim, o samba, o forró e toda a fusão que só um mestre do jazz vanguardista consegue. Após 13 anos, regressa ao festival acompanhado pelo Grupo. Hermeto merece o nosso respeito, pois tem vindo a transformar o conceito da música improvisada, como também tem vindo a desconstruir os cânones mais tradicionais do jazz, dirigindo o género para outra ramificação mais experimental. Compositor compulsivo com mais de 10 mil músicas escritas, apelidado (carinhosamente) de "Bruxo dos Sons", toca como se brincasse com a sonoridade de cada um dos instrumentos que domina: teclado, piano, flauta, baixo, melódica, sanfona, chaleira, berrante, etc. 


Hermeto dá espaço ao Grupo formado por Itiberê Zwarg (baixo), Jota P. (saxofones e flautas), Fábio Pascoal (percussão), André Marques (piano) e Ajurinã Zwarg (bateria), que vai ocupando a maior parte do concerto com ritmos e tempos que parecem não fazer parte do mesmo tema, mas, durante o desenrolar de cada um, apercebemo-nos que afinal situa-se no mesmo lugar, só deu a volta ao Brasil em muitos minutos para regressar à origem. O multi-instrumentista e autodidata já sente o peso da idade. Enquanto, sentado, observa os seus colegas em palco, levanta-se pontualmente para comunicar com eles, ora toca teclas, ora brinca aos sopros. Mas é o nome de Hermeto que leva os seus colegas além fronteiras, a "Nave Mãe" tem vindo a impulsionar a carreira de instrumentistas talentosos da música brasileira. O espírito livre é considerado um dos maiores génios do Brasil em atividade na música mundial. Nascido em Alagoas em 1936, hoje contempla 86 anos. Não se esquece das suas raízes, nem se auto-limita quando o assunto passa por experimentar novos sons. Desde tenra idade que o músico se sentiu fascinado em experimentar os sons da natureza, a partir de um cano de mamona de jerimum fazia um pífano. Gostava de conversar com os pássaros por tempo indeterminado e de ir para a lagoa, onde passava horas a tocar com a água. As abelhas também foram, com ele, outro Grupo com quem veio a compor. Foi a experimentar o acordeão de 8 baixos do seu pai que ganhou o gosto pelo instrumento e passou a tocar com o seu irmão em forrós e festas de casamento, revezando-se no acordeão e no pandeiro com ele.


Ver ao vivo Hermeto Pascoal e o Grupo é, sem sombra de dúvida, uma experiência sensorial indescritível, inesquecível e sem contra-indicações.

Tive o prazer de o ver minutos antes de chegar ao palco, a preparar-se para entrar no carro que o levaria até ao recinto do concerto, o Jardim Henriqueta Maia. Cabelos longos brancos, olhos escondidos por detrás de óculos com lentes espessas, corpo avantajado, chapéu à Indiana Jones com temas pintados e camisa havaiana são elementos icónicos que tornam Hermeto a figura singular que é: o expoente máximo do jazz experimental brasileiro, ao lado de Naná Vasconcelos. Hermeto consegue tanto falar aos elitistas do jazz, como aos mais leigos. Certamente, todos saíram deste concerto com um sorriso nos lábios pela boa disposição que Hermeto e o seu Grupo causaram na audiência.

Premiado no Brasil e no exterior, ganhou prémios como o Ary Barroso (1996), o APCA (1973), o Grammy Latino (2019), entre outros. Produziu dezenas de trabalhos ao lado de Airto Moreira e Flora Purim, além de nomes como Sivuca, Edu Lobo e até Miles Davis.


Texto: Priscilla Fontoura

O nome de Mette Rasmussen é ainda desconhecido em Portugal, assim como o é em toda a Europa do Sul. No entanto, na Escandinávia, pelo contrá...



O nome de Mette Rasmussen é ainda desconhecido em Portugal, assim como o é em toda a Europa do Sul. No entanto, na Escandinávia, pelo contrário, já conquistou um estatuto especial.

A plateia sentada, ainda sem o sol se pôr, à frente do palco aguarda o Mette Rasmussen Trio North. Até a flora e fauna que habitam Serralves o aguardava. Mette Rasmussen é a atracção desta tarde do Jazz no Parque em Serralves, que celebra a sua 31ª edição. A loirinha, já com os cabelos mais curtos, tem vindo a colaborar com nomes de referência da cena mais alternativa, tanto do jazz como outros géneros. É membro do Trio Riot, uma banda de jazz punk. Em 2013 formou um dueto de saxofone e bateria com o baterista americano Chris Corsano, com quem tem feito digressões. Toca com o novo trio de Alan Silva e Ståle Liavik Solberg, a Trondheim Jazz Orchestra e a Fire! Orchestra, Godspeed You Black Emperor!, colaborando ainda com músicos como Rudi Mahall, Steve Noble, Axel Dörner, John Edwards, Pat Thomas, Craig Taborn.

A saxofonista dinamarquesa sediada na Noruega tem chamado a atenção dos meios que tendem a lidar com o jazz de improvisação e os seus frequentadores. Foi com Up Down Fish que deu as boas-vindas à audiência, dizendo que não poderia começar melhor o concerto senão com o tema que ilustra o país do peixe.

Durante a pandemia, a improvisadora dedicou grande parte do seu tempo ao estudo de composição, momento que deu início ao Trio North para materializar as suas ideias mais vibrantes. Dos assuntos mais abordados inclui-se a política, destacado no segundo tema com o sample em repetição com voz gravada que repete: "industrialismo, consumismo, natureza humana, mudanças climáticas, nós somos o planeta, lutar contra o racismo, contra o colonialismo, ricos/pobres, nós somos o planeta, revolução, evolucionismo, ao contrário, estacionário, hashtag sem conteúdo.". Ouve-se assim o jazz crítico e activista que confronta as práticas do mundo actual, Mette preocupa-se em criticar o modo como temos vindo a tratar o planeta.


O trio, que se divide em contrabaixista, baterista e saxofonista, comunica sem demonstrar qualquer dificuldade em executar contratempos ou tempos difíceis de encaixar, e Mette atinge, sem dificuldade, quase no mesmo instante, notas agudas e graves com sensibilidade singular. Movimenta o corpo para dar força ao sopro e às notas que consegue atingir, dobra e contorce-o para exprimir o que lhe vai na alma. Uma alma complexa que olha, provavelmente, para a realidade com a complexidade que contempla o jazz de improviso e fusão. A conversa entre os três instrumentos exprime a sensibilidade feminina no tema Feminine Nature. Mette fala sobre o tempo que viaja sobre nós. Musicalmente é como se o trio quisesse dar uma lição de tempo ao tempo. Domina tempos difíceis que um leigo não consegue acompanhar. Andam à volta para chegar ao início de Repeated Statement e explica que o tema aborda a tendência da História, uma ciência que tem vindo a repetir-se e indica que as acções dos Homens continuam iguais.

Parecia ser o último tema, cujo título em norueguês não tem tradução para outras línguas, acompanhado a baixo eléctrico com pedal de distorção, mas não. O tema mais pesado traduz a algazarra que acontece nos bares, aquando do momento da digressão das bandas, com garrafas por todo o lado enquanto se ouve punk mesclado em todo o tipo de paisagem sonora, própria desses locais.

Rendido ao público e ao verão quente de Serralves, o trio cedeu às palmas das pessoas que pediam por mais. Os pássaros também pareciam pedir o mesmo e Mette respondeu-lhes no mesma dialecto, recorrendo ao apito.

Ao nível técnico e ao nível da inventividade, Mette transparece um largo espectro de influências. Desde o free jazz dos anos 50 do século passado a trabalhos de um som “textural”. Explora a crueza natural do seu instrumento, experimentando também o som e o timbre do saxofone em novas direções. Começou a tocar música livremente improvisada numa fase muito inicial da sua carreira. Trabalhou tanto a improvisação livre como a composição com a banda dinamarquesa Saft. Nos últimos anos tem participado em diversos grupos e em formações ocasionais e toca sobretudo na Europa, em especial na Escandinávia.


Texto: Priscilla Fontoura

Não é a primeira vez que Emma Ruth Rundle visita Portugal. Certo é que poderia escrever sobre o seu espírito criativo, pois sigo o seu percu...



Não é a primeira vez que Emma Ruth Rundle visita Portugal. Certo é que poderia escrever sobre o seu espírito criativo, pois sigo o seu percurso desde a altura de Red Sparrowes, Marriages e Nocturnes, mas é agora, na fase de maturidade do seu projecto a solo, que faço alusão ao trabalho da artista folk, o qual tenho mantido no resguardo das minhas preferências musicais.

Parte da Casa da Música vai-se compondo com o número que cedo viria a esgotar a Sala 2 para o concerto que deveria ter acontecido em Fevereiro, mas que foi forçosamente adiado para Julho, por causa da indefinição que a pandemia causou nos vários aspectos da vida "normal". Alguns humanos com toques de síndrome de imortalidade pensam que o tempo pode ser controlado por eles mesmos. Enganam-se. E ainda bem. Continuamos a ser migalhas num universo desconhecido. E é isso que Engine of Hell realça, as agruras da vida face à realidade construída por esta mulher da California a viver em Portland. Neste disco sente-se a reabilitação do corpo e do espírito de Emma, que foi realizada num acto de isolamento em Wales, enquanto ia definindo o disco. Hoje, encontramo-la fisicamente mais frágil, a precisar de um braço de apoio para chegar ao palco, (ou será representação?). A artista já tinha sido avistada no Roadburn com recurso a uma bengala para pessoas invisuais e consta, numa das entrevistas cedidas, que o seu pai perdeu quase por completo a visão. 

A adultez madura chegou com toda a crueldade, ainda que tente, com toda a força que lhe resta, deixar o passado sujeito ao seu tempo verbal. Emma olha para trás sem se tornar estátua de sal, porque não o faz com saudade. Apesar de todas as contradições com que se foi deparando ao longo da sua trajectória, resultado de toda a negligência em nome do álcool e drogas (substâncias que deram cabo da sua saúde tanto física como mental e que a levaram a ficar internada num hospital psiquiátrico por 8 dias), enfrenta neste presente a realidade, abraçando a catarse que a fez sair do inferno em transição rumo à leveza de viver. À imagem da simplicidade com pormenores subtis incluídos no seu disco, tenta refazer a via da destruição direccionando-a à da edificação. É tempo para ir limpando o lixo e lidar com o peso das suas memórias. O que lhe interessa é ser verdadeira no que faz e com o que faz, ainda que corra o risco de expor os seus traumas: There's no need to check the weather as my winter's never over (...) Numbing out the nightmare but I just keep grinning.

A música e a arte que faz foram tábua de salvação para a estrada hostil que percorreu. A arte cura e foi o que constatou aquando da sua internação. E segreda-nos tudo num cenário minimalista e intimista. Ouvem-se bem as palavras com mais ou menos reverberação. Emma não deixa a interpretação para segundo plano, assume estar ali para apresentar o seu último disco, mas não invalida o toque humano que um concerto tão orgânico requer. Um momento autêntico com imperfeições e com qualidade emocional onde há falhas técnicas que não tiram valor à magia. 

A ruiva de tez clara foi deixando palavras no ar em jeito de interlúdio, não esquecendo que o objectivo daquele concerto seria apresentar Engine of Hell, uma viagem carregada de introspecção com líricas honestas que passam pelo tormento terrestre e cuja esperança se assenta na busca da libertação presente num outro lugar.

Venho a considerar Emma uma das talentosas guitarristas vivas da actualidade, comparativamente a Kaki King e Adrianne Lenker. O modo e sensibilidade com que dedilha as cordas da guitarra, as intensidades alternadas ao piano, como também a sua voz, revelam, sem qualquer dúvida, uma artista inteligente que se exprime com alma e com gosto apurado. "Return" preenche aquela sala remetendo a Tori Amos.

Todo o percurso que é feito ao longo deste álbum vive do imaginário de uma alma que voa sobre um céu negro enquanto aguarda o último sopro, como se fosse um anjo de "As Asas do Desejo", de Wim Wenders. "Razor's Edge" é aguardado com alguma ansiedade pelo cariz folk e pela melodia mais leve. Bem tocado, com passagens entre acordes mais subtis que o do registo, os dedos de Emma e a voz reflectem segurança alcançada com os ensaios, essa que nos leva algumas vezes ao timbre de Alanis Morissette, acompanhada pela guitarra acústica que tira partido das madeiras. Nos intervalos vai afinando as cordas - substituídas naquele dia - que mudam pontualmente de tom de acordo com a afinação de cada tema. Segue-se "Citadel" com a respiração e o bater do pé a marcarem o ritmo. Toda a Emma é um corpo que tira partido da acústica da sala. Entre guitarra e piano, volta ao instrumento protagonista de "In My Afterlife", esse tema com reminiscências de Nine Inch Nails e com a nudez vocal de Sibylle Baier. Admite que, de todos os pianos que já tocou, aquele foi nomeado o melhor. Para não regressar ao palco, tocará os temas que se esperariam depois do encore. O concerto foi encerrado com "Marked for Death" e com a canção de amor "Pump Organ Song" que faz parte do EP Orpheus Looking Back, saído a 25 de Março, com selo da Sargent House. I took a love there / And he took my hand / But I spoke a language he could not understand / And how does it end?

Este foi o trajecto que a plateia percorreu a seu lado sentindo a sua dor. Não obstante a carga emocional presente em Engine of Hell, Emma pediu para que todos fôssemos, acima de tudo, livres! Pois encontrar o sentido da vida é o que nos torna humanos, não se trata de sermos felizes, mas de vivermos livres.


Texto: Priscilla Fontoura

Passamos por lugares e, na maior parte das vezes, não fazemos ideia do que existe no interior de cada construção. As fachadas enganam. Então...

Passamos por lugares e, na maior parte das vezes, não fazemos ideia do que existe no interior de cada construção. As fachadas enganam. Então por que não sair da rotina e ir à descoberta do inesperado?

Descentralizar deveria ser prática comum de qualquer pessoa que dá valor à identidade das localidades. O potencial criativo está à vista tanto nas cidades maiores como nas mais pequenas. O estúdio Pré Palco faz parte de uma dessas estruturas culturais cuja capacidade permite aos residentes da Gafanha da Nazaré e região de Aveiro a criação e a produção musical/audiovisual com meios próprios e com recurso ao apoio dos técnicos profissionais.

A equipa PrePalco preocupa-se, essencialmente, com a actividade diária que presta às bandas. O espaço tem como foco a dinamização cultural, disponibilizando estúdios de áudio e vídeo com técnicos que dominam o motion graphics, a criação de conteúdos e o video mapping. O projecto alicerça-se num investimento substancial concebido com salas de gravação e captura audiovisual com tecnologia Chroma Key. Surge como alternativa a profissionais e amadores artísticos que pretendam levar os seus projectos musicais e audiovisuais avante. Da lista de serviços disponíveis poderão encontrar: salas de ensaio, gravação e aluguer de estúdio para trabalhos de vídeo, captação, encaminhamento de sinal e gravação live com técnicos em todas as áreas com reforço de equipas de espectáculo e acompanhamento de bandas, técnicos de luz, som, vídeo e auxiliares de montagem, aluguer de estúdios para Chroma Key, edição de vídeo, animação 2D, motion graphics e video mapping.

É possível encontrar, não só nas grandes cidades mas também nas mais pequenas, alternativas de produção audiovisual para quem procura produções profissionais.


PrePalco lda
Rua Camilo Castelo Branco 335-B, Gafanha da Nazaré
prepalco@gmail.com
contacto: 234361862 | 912156078

Texto: Priscilla Fontoura
Imagens: Rui Mota Pinto

Depois do excelente Misinterpretations (2021) de KAADA , eis que nos bate à porta uma não tão menos formidável notícia. O disco  And If In ...


Depois do excelente Misinterpretations (2021) de KAADA, eis que nos bate à porta uma não tão menos formidável notícia. O disco And If In A Thousand Years está preparado para navegar novos mares com o primeiro single intitulado Destroyer and Preserver - já disponível para escuta e lançado a 17 de Junho deste ano. Diferente em textura do seu antecessor, este contém uma aura rítmica com fome de descoberta, de esperança e paixão pela liberdade. KAADA deslumbra sempre com uma tendência cinematográfica. Destroyer and Preserver tece uma nova fase mais leve e renovada, contempla a beleza das melodias, a riqueza dos tons e a vitalidade dos ritmos. 

"Os meus instrumentos são intencionalmente ovais em comparação com os instrumentos das tradições clássicas. Estou à procura de universos sonoros crus, sem artifícios. Espero que ao tornar a minha colecção de instrumentos disponíveis para outros compositores e músicos, inspirarei mais pessoas a fazer música. Criar instrumentos sampler é uma disciplina que auto-imponho para ampliar a minha paleta. Descobri que fazer instrumentos de amostragem rompe com hábitos preguiçosos desenvolvidos ao longo do tempo na criação de instrumentos tradicionais”, afirma KAADA.


Texto: Priscilla Fontoura

Tal como prometido, regressamos em 2022 com novas propostas e descobertas. Este dia - 17 de Junho de 2022 - é marcado pelo nosso regresso co...

Tal como prometido, regressamos em 2022 com novas propostas e descobertas.

Este dia - 17 de Junho de 2022 - é marcado pelo nosso regresso com publicações novas, mas a nossa actividade não irá ser tão regular como anteriormente, uma vez que neste emaranhado da vida fomos conduzidos para outros projectos e actividades que muita satisfação nos têm dado. Não nos esqueçamos que há vida além do digital... e ainda bem!

Adiantamos que ficámos espantados com as visitas ao nosso site que decorreram durante este interregno e gostaríamos de agradecer a todos que nos têm acompanhado ao longo desta mais de uma década.

O Emanuel R. Marques regressa com o programa que veste o título "Olha Lá Quem eu Encontrei...".



“Olha lá quem eu encontrei…” vai em busca de encontros inesperados e situações imprevistas com figuras do panorama musical e artístico. Episódios breves que descrevem cruzamentos do quotidiano narrados na primeira pessoa.

Pedro Tovar, funcionário de longa data na Castanheira - Sómusica de Aveiro, teve a visita do músico e poeta Benjamin Clementine, que procurava um tipo específico de guitarra.

Ideia e execução: Emanuel R. Marques

 

 


A Voz Humana de Pedro Almodóvar vem dar um passo à frente no que à distribuição do cinema diz respeito. A média-metragem, adaptada livreme...


A Voz Humana de Pedro Almodóvar vem dar um passo à frente no que à distribuição do cinema diz respeito. A média-metragem, adaptada livremente de um texto de Jean Cocteau, de 1930, parte apenas do seu esqueleto e adiciona outros órgãos a um projecto que Almodóvar mantinha na gaveta há alguns anos. A Lei do Desejo, interpretado pela actriz encarnada por Carmen Maura, e Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988) servem de exemplos de como o realizador já tinha como referência marcante o texto de Cocteau. Almodóvar pegou de empréstimo certos elementos dessa estrutura para materializar o monólogo de um antigo projecto, protagonizado por uma mulher — a produção foi realizada em tempos de pandemia. A mesma peça de Cocteau influenciou também para a construção de obras em que participam Ingrid Bergman, Simone Signoret, e Anna Magnani na primeira adaptação cinematográfica: L’Amore de Rossellini (1948).

O filme protagonizado por Tilda Swindon teve a sua estreia no Festival de Veneza e vem abrir o leque de possibilidades para as médias-metragens que não eram projectadas nas grandes telas das salas de cinema, lugares que se viram de portas fechadas ao grande público devido às obrigações inerentes ao confinamento.

Tilda Swinton, diminutivo de Matilde, é a nova musa dos filmes do cineasta espanhol e nunca tinha realizado um filme em que o inglês é a língua matriz. Nesta média-metragem, com duração de 30 minutos, o teatro e o cinema cometem matrimónio, em termos narrativos o de Tilda é interrompido, tal como no texto de Jean Cocteau, pois centra-se numa mulher desesperada que se serve do telefone para desabafar com o seu amante os danos que lhe causou. “A situação daquela mulher abandonada, sozinha e à beira da loucura, junto a um cão com quem compartilha o luto e um monte de malas feitas, é uma situação dramática que sempre me estimulou”, disse o cineasta espanhol, reconhecendo que esse contexto também tocou-o no sentido pessoal. “Eu também vivi essa situação. Também esperei em vão, embora sem ter que fazer a mala, porque seria generoso demais da minha parte.” — refere Almodóvar na conversa online que se segue após a visualização do filme, entre o realizador e Swinton, apresentada pelo crítico britânico Mark Kermode


Para quem está familiarizado com o cinema Almodovariano as protagonistas dos seus filmes são muitas vezes mulheres fortes. E esta adaptação não prescinde da parte mais ruidosa do texto. A conversa entre os dois amantes transcorre por um telefone sem fio, e a sua protagonista é uma mulher actual. “No original há muita submissão. Eu queria transformá-lo num acto de vingança”, afirmou Almodóvar, que reescreveu o texto com liberdade. Swinton definiu a sua relação com Almodóvar como “um novo amor”, revelando que, desde que se conhece como actriz, teve muita estima pelo trabalho do cineasta, por isso teve sempre muita vontade de participar num filme seu, nem que fosse como personagem muda. Apesar de não dominar o espanhol, a colaboração entre os dois não precisou de dialectos para se entenderem, bastou a linguagem do cinema para que a relação fosse harmoniosa e recíproca. 

Enquanto que em Paris, Texas (1984), realizado por Wim Wenders, observamos o maltrapilho Travis Henderson separado por um vidro a dialogar com Jane, a sua mulher, que já não via há muitos anos; neste monólogo somos conduzidos a um onirismo que nos faz questionar se Tilda está realmente a falar com alguém do outro lado, ou se tudo é fruto da sua imaginação. O cão, mais apegado ao amante que abandonou aquela mulher desesperada, é quem a leva a encontrar a luz numa passagem difícil, esse mesmo cão é também abandonado pelo seu dono; estes dois seres abandonados no final acabam por sentir identificação um com o outro pelo sentimento denominador de abandono. 

No início do filme vemos Tilda como se fosse a própria morte, entregue ao peso do infortúnio que a incomoda. O décor é um ambiente garrido, de luxo, e são vários os ícones presentes nesta narrativa visual, um vestido Balenciaga, Chanel e o mítico perfume Número 5, Loewe e Vénus e Cupido no misterioso quadro de Artemisia Gentileschi. Como Almodóvar nos tem acostumado, há requinte visual e um olhar detalhista que nos leva à plasticidade cuidada do realizador. O cenário é brechtiano: Swinton perambula entre esse apartamento e o estúdio onde o apartamento colorido foi construído, e que, a julgar pela fachada do restaurante wok Costa Buena e a lagosta gigante que aparecem num plano, encontra-se em Fuenlabrada, na região de Madrid. 


A Voz Humana conjuga o teatro e o cinema, reporta-nos à importância de cada um de uma maneira unificadora, a essas salas em que desconhecidos soltam risos e choros em conjunto, nesse mesmo espaço onde acontece a viagem entre a normalidade e a anormalidade, entre o real e o onírico. Este drama encerra-se com final feliz — como mensagem optimista de que o fim nunca pode ser o término de uma relação, nem esta pandemia que atacou o mundo inteiro. No final, Almodóvar altera ligeiramente os planos de Cocteau para pôr em cena uma purificação: quem quer seguir em frente precisa deixar que as suas partes velhas morram. Uma ideia que coincide com a mutação vivida no cinema de Almodóvar, disposto a entrar num período de maior “contenção”. Como seria de esperar, as mulheres de Almodóvar não podem morrer nem enterrar-se a si mesmas. Neste filme estão presentes várias vozes de mulheres que se viram abandonadas, que mostraram sem filtros as suas vulnerabilidades e sentimentos contraditórios causados por um drama deste tamanho, mas, tal como Almodóvar mostra nos seus filmes, essas mulheres são como fénix, renascem das próprias cinzas para regenerarem-se. Neste filme cada um ouve a sua própria voz. A Voz Humana é o exemplo vivo da quarta parede quebrada, a trama encoraja o espectador a assistir esta obra de forma mais crítica.

Ver cinema durante a pandemia trouxe novas possibilidades aos programadores das salas de cinema, pois, segundo o realizador, não é a pressão da durabilidade do filme que o faz uma grande obra, Almodóvar afirma que esta aceitação limitadora da durabilidade das obras (se curtas e longas) nos festivais tem que terminar, pois a pressão de as manter curtas ou longas não deve ser factor para as estratégias da sua distribuição, as obras devem respirar livremente, devem ter o tempo que tiverem de ter sem qualquer tipo de imposição.

Texto: Priscilla Fontoura

No ano passado, os campos dos festivais de Verão "voltaram à sua origem" e os únicos concertos que lá aconteceram foi ao sabor da ...


No ano passado, os campos dos festivais de Verão "voltaram à sua origem" e os únicos concertos que lá aconteceram foi ao sabor da sonorização ecoada pelos insectos e demais bichos, não se avistando registo de pegada humana. Este ano, embora alguns organizadores tenham desistido da ideia de dar continuidade a eventos de música que merecem toda uma logística elegível para acontecimentos de maior dimensão, os de menor escala ocorreram mediante as regras de cumprimento de ajuntamento de modo a tornar a cultura um lugar seguro.


Esta edição do festival Rodellus em Braga, Ruílhe, devido ao pequeno número de pessoas permitidas no festival, decidiu transmitir em streaming os concertos que aconteceram em três sessões diferentes e cujo fundo tem como destino a União Audiovisual para apoiar os profissionais da cultura que viram os seus trabalhos parados por causa da pandemia. 



O Rodellus 2021 encerrou no passado dia 7 de Agosto com os portuenses Krypto e os barcelenses Black Bombaim numa atmosfera mais contida e controlada, com cadeiras de plástico, frente ao palco modesto, que acabaram por causar no público uma espécie de refreamento. Como ouvir rock pesado sentados em cadeiras como se fosse um auditório ao ar livre? Tal como o ambiente sem precedentes que todos vivemos no início da pandemia: "Primeiro estranha-se. Depois entranha-se.". É claro que não se compara à liberdade de outra altura que não causava desconfiança noutros festivaleiros, a realidade é que a Covid-19 mudou o estilo de vida e alterou também os comportamentos da vida social que deixa saudades de como era vivida. 


Nós, disfarçados de agricultores, estávamos a precisar de rock, rock pesado e feroz. Chegam ao palco os Krypto com temáticas que assentam em alienação, corrupção, vazio consumista perpetuado pela tecnologia e cultura empresarial, como também o desenvolvimento da inteligência artificial, construídas pelo trio portuense (que alegoricamente poderia ser um cão a fugir com a língua de fora de toda a disrupção) formado pela voz de Ruizinho, o frontman frenético que desde os finais dos 90 enfrenta palcos sem timidez, pelo groove do baixo de Martelo que se mistura com guitarra tocada com power chords, e pela bateria punk-hardcore de Chaka. A banda — que lançou durante a pandemia Eye 18 com uma BD da Chili com Carne —, ressoou com garra Spitwater fazendo jus à gravação. O trio ao longo do concerto foi libertando toda a sua tensão e a da plateia que só queria corresponder à medida, mas tinha como obrigação acatar as regras. Um concerto rápido que cumpriu os requisitos daquela tarde. 



A pausa para Black Bombaim permitiu mais um tempo de convívio comedido entre os festivaleiros, que não demorou muito a ser interrompido pelos seguidores do rock psicadélico californiano. Ricardo Miranda desbundou a stratocaster com o som transformado pelos pedais como se não houvesse amanhã; para quem esteve sob o efeito de alucinogénicos de certeza que fez a viagem sem qualquer dificuldade, os mais sóbrios contemplaram a paisagem bucólica crepuscular, enquanto se ouvia Africa II de Far Out.


O festival rural de pequena escala tem como foco dinamizar a força local e comunitária, uma vez que segue a matriz que valoriza a importância da sustentabilidade e da consciência local. A edição deste ano teve como surpresa duas lembranças, uma resposta empática da organização para quem é mais sensível à exposição ao sol, chapéus de palha e plantas que passam uma mensagem verde: levar o campo para casa. A pandemia não é o único alerta para a mudança de paradigma dos modos de vida permeados por uma mais stressante e agitada, os efeitos irreversíveis das alterações climáticas devem ser levados a sério para que a mudança seja efectiva, global e muito mais consciente, a pandemia veio desacelerar o que degenera a todo o gás. Será que ainda vamos a tempo? O trabalho que a associação cultural Rodellus tem desenvolvido pode ser uma gota no oceano, mas tem desbravado terrenos e desenterrado costumes que muitos têm vindo a negligenciar. Entenda-se; dar valor ao campo não deve ser só para os que não têm medo da vida rural, mas para quem realmente almeja um futuro melhor para todos! Que seja a música o motor de arranque para os mais incautos. 



Texto: Priscilla Fontoura
Imagens: Emanuel R. Marques e Priscilla Fontoura
O texto não foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico