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Texto: Priscilla Fontoura | Imagens e Vídeos com recurso a telemóvel: Emanuel R. Marques | Concerto: Casa Comum
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Do Porto a Braga, são os Sereias o motivo que nos leva à Roma portuguesa, à cidade de António Pedro Ribeiro e da sua mãe. Com o pé no acelerador, tenta-se cumprir a lei, mas, também, chegar a tempo do concerto. Sair do tédio, após a semana de trabalho, é a agenda. Há uma porta que separa o auditório pequeno do corredor de um dos andares subterrâneos do Theatro Circo.
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No ano passado, os campos dos festivais de Verão "voltaram à sua origem" e os únicos concertos que lá aconteceram foi ao sabor da ...

No ano passado, os campos dos festivais de Verão "voltaram à sua origem" e os únicos concertos que lá aconteceram foi ao sabor da sonorização ecoada pelos insectos e demais bichos, não se avistando registo de pegada humana. Este ano, embora alguns organizadores tenham desistido da ideia de dar continuidade a eventos de música que merecem toda uma logística elegível para acontecimentos de maior dimensão, os de menor escala ocorreram mediante as regras de cumprimento de ajuntamento de modo a tornar a cultura um lugar seguro.
Esta edição do festival Rodellus em Braga, Ruílhe, devido ao pequeno número de pessoas permitidas no festival, decidiu transmitir em streaming os concertos que aconteceram em três sessões diferentes e cujo fundo tem como destino a União Audiovisual para apoiar os profissionais da cultura que viram os seus trabalhos parados por causa da pandemia.



O Rodellus 2021 encerrou no passado dia 7 de Agosto com os portuenses Krypto e os barcelenses Black Bombaim numa atmosfera mais contida e controlada, com cadeiras de plástico, frente ao palco modesto, que acabaram por causar no público uma espécie de refreamento. Como ouvir rock pesado sentados em cadeiras como se fosse um auditório ao ar livre? Tal como o ambiente sem precedentes que todos vivemos no início da pandemia: "Primeiro estranha-se. Depois entranha-se.". É claro que não se compara à liberdade de outra altura que não causava desconfiança noutros festivaleiros, a realidade é que a Covid-19 mudou o estilo de vida e alterou também os comportamentos da vida social que deixa saudades de como era vivida.
Nós, disfarçados de agricultores, estávamos a precisar de rock, rock pesado e feroz. Chegam ao palco os Krypto com temáticas que assentam em alienação, corrupção, vazio consumista perpetuado pela tecnologia e cultura empresarial, como também o desenvolvimento da inteligência artificial, construídas pelo trio portuense (que alegoricamente poderia ser um cão a fugir com a língua de fora de toda a disrupção) formado pela voz de Ruizinho, o frontman frenético que desde os finais dos 90 enfrenta palcos sem timidez, pelo groove do baixo de Martelo que se mistura com guitarra tocada com power chords, e pela bateria punk-hardcore de Chaka. A banda — que lançou durante a pandemia Eye 18 com uma BD da Chili com Carne —, ressoou com garra Spitwater fazendo jus à gravação. O trio ao longo do concerto foi libertando toda a sua tensão e a plateia que só queria corresponder à medida, mas tinha como obrigação acatar as regras. Um concerto rápido que cumpriu os requisitos daquela tarde.












A pausa para Black Bombaim permitiu mais um tempo de convívio comedido entre os festivaleiros, que não demorou muito a ser interrompido pelos seguidores do rock psicadélico californiano. Ricardo Miranda desbundou a stratocaster com o som transformado pelos pedais como se não houvesse amanhã; para quem esteve sob o efeito de alucinogénicos de certeza que fez a viagem sem qualquer dificuldade, os mais sóbrios contemplaram a paisagem bucólica crepuscular, enquanto se ouvia Africa II de Far Out.
O festival rural de pequena escala tem como foco dinamizar a força local e comunitária, uma vez que segue a matriz que valoriza a importância da sustentabilidade e da consciência local. A edição deste ano teve como surpresa duas lembranças, uma resposta empática da organização para quem é mais sensível à exposição ao sol, chapéus de palha e plantas que passam uma mensagem verde: levar o campo para casa. A pandemia não é o único alerta para a mudança de paradigma dos modos de vida permeados por uma mais stressante e agitada, os efeitos irreversíveis das alterações climáticas devem ser levados a sério para que a mudança seja efectiva, global e muito mais consciente. A pandemia veio desacelerar o que degenera a todo o gás. Será que ainda vamos a tempo? O trabalho que a associação cultural Rodellus tem desenvolvido pode ser uma gota no oceano, mas tem desbravado terrenos e desenterrado costumes que muitos têm vindo a negligenciar. Entenda-se; dar valor ao campo não deve ser só para os que não têm medo da vida rural, mas para quem realmente almeja um futuro melhor para todos! Que seja a música o motor de arranque para os mais incautos.







Não se pode ignorar os cenários que compõem os quadros dos passeios que se fazem. Pode ser que os olhos, retidos pela curiosidade, parem num...
Há coisas curiosas, relações diferentes que se vão estabelecendo ao longo da vida, em fases distintas. Embora não me sinta muito confortável...


Ao longo destes anos, o Auditório de Música de Espinho tem sido palco para músicos, fortes em conteúdo e simples em forma, apresentarem ao público temas ensaiados por horas que não se sentem passar. Consequência desse treino, no âmbito do 47.º Festival Internacional de Música de Espinho, incluem-se extravagâncias que atravessam várias fases do barroco francês, um tempo esquecido por nós, mas definido pelo tique-taque do relógio que parou por momentos, contagiado pelo som reverberado da dupla Jean Rondeau (cravo) e Thomas Dunford (alaúde). Os ponteiros do relógio pararam para ouvirmos as reminiscências do barroco francês. Pergunto-me: como dois jovens deste século conhecem tão bem um tempo longínquo passado? A viagem ao passado levada a cabo pela dupla espanta qualquer músico experiente. Estes dois jovens criativos poderiam dominar qualquer género contemporâneo da música, mas escolheram o barroco francês para fazer renascer um género, à partida, datado. Jean Rondeau e Thomas Dunford são duas ondas que se encontram no mesmo ponto, dois ilusionistas mestres do tempo, peritos a criar multiversos, tal como Sofia Coppola com Maria Antonieta. Com a ópera inicia-se o barroco musical e é dada importância ao instrumental em detrimento do vocal; as novas formas da música instrumental desenvolveram-se a partir da música criada para a ópera e para outras artes que dela provinham, como a dança, por exemplo. Era completamente nova a ideia de uma música instrumental independente, composta para ser ouvida. Na ópera havia uma história; na dança, a música ditava o tempo; e uma das bases da música barroca suportava-se na doutrina das emoções, já patente na literatura.
Neste concerto, que aconteceu numa noite que findou com lua cheia, a 25 de Junho de 2021, coube o encantamento de Jean Rondeau, descrito pelo Washington Post como "um dos intérpretes mais espontâneos que alguém provavelmente ouvirá num palco de música clássica nos dias de hoje". O jovem francês, apaixonado pelo cravo — por sinal muito bem afinado, remetendo para o tempo de ouro do barroco, os séculos XVI a XVIII, decorado com estética do estilo —, encontra-se dividido entre dois espaço-tempo: o século XV e o XXI. Verdade seja dita, se a história da música não tivesse evoluído com mais instrumentos criados, jamais se compararia um cravo a um sintetizador, tampouco nos deixaríamos confundir pela destreza e ritmo rápido com que o músico francês toca as teclas, parecendo, por vezes, temas de jogos de computador. Não poderia ser mais assertiva a descrição daquele que escreveu acerca do músico francês no The Washington Post: "Rondeau, com 24 anos" (hoje com 30), "é um dos performers mais autênticos que poderá ouvir na música clássica actualmente. A artificialidade e ostentação não fazem parte da sua composição, assim que se senta ao seu instrumento, ele e o cravo tornam-se num só. A partir daí, tudo é criação musical que se sente masculina, directa e absolutamente humana. Rondeau é um mestre do seu instrumento com um conjunto de dons comunicacionais que normalmente só se encontram em artistas com o dobro da sua idade. Ele interioriza a música que toca de forma tão completa que qualquer ambivalência interpretativa ou erro de cálculo é impensável. A sinceridade e a modéstia da sua entrega são os pontos-chave do seu poder."
Ao longo do repertório, o nosso coração viveu dinâmicas diferentes; por vezes, passeava-se pelos jardins românticos ao lado da cara-metade, ou nos salões nobres ao sabor da dança francesa num possível Palácio de Versalhes durante os reinados de Luís XIV e Luís XV. Não foi nesse tempo que músicos proeminentes foram atraídos para a corte, desenvolvendo uma actividade marcante? Este concerto foi pontuado por momentos de sofrimento, causados por uma paixão avassaladora, como também por pequenas risotas motivadas pelos festejos. Este auditório exalou romantismo, proveniente de um jardim burlesco, musicado também pelo canto dos pássaros. Afinal, como se deu este casamento entre Jean e Thomas? A aura luminosa que deles resplandece transmite respeito na relação entre estes dois músicos, que se deixam permear pela dinâmica que tanto aufere independência criativa quanto potencializa a comunicação conjunta.



A plateia vibrou de emoção e não se calou enquanto pedia por mais celebrações em nome do barroco. Quatro encores encerraram o espectáculo, um deles ao som do embalo "Les Baricades Mïstérieuses" de François Couperin, e o último, o único tema cantado por Thomas Dunford.
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Acordes de Quinta - Música para ver e ouvir