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Reencontrámos Lu Yanan no passado dia 25 de Fevereiro. Desta vez, na Casa Comum, no âmbito do concerto levado a cabo pela antiga solista da...

Reencontrámos Lu Yanan no passado dia 25 de Fevereiro. Desta vez, na Casa Comum, no âmbito do concerto levado a cabo pela antiga solista da Orquestra Filarmónica da China, em Henan, promovido em parceria com o Instituto Confúcio da Universidade do Porto e a Casa Comum (Reitoria) da Universidade do Porto. O concerto de Lu Yanan abriu a janela da Casa Comum para se ouvir a paisagem sonora do extremo Oriente e da música tradicional da sua terra natal, a China. 

Muitas vezes pensa-se o mundo de acordo com a relação que temos com certa realidade. Mas há uma série de diferenças culturais cruciais para uma melhor compreensão do mundo.

Sobre o concerto de Lu Yanan
O concerto de Lu Yanan fez-se com intervalos mediados por um professor, cujo nome escapa-me, para descrever as diferenças da música tradicional chinesa da música ocidental, foi, por isso, sobretudo uma sessão de promoção à literacia musical do extremo oriente. 

Durante o concerto foram dadas explicações sobre as diferenças de como a música chinesa em relação à ocidental deve ser interpretada, destacar quais os instrumentos mais populares e que cuidados precisam, da mesma forma dar a sentir o espírito que habita em cada tema original ou versão tocados por Lu Yanan. A música chinesa em comparação com a europeia contém em si diferenças significativas, uma vez que a sua leitura deve desprender-se da concepção que se tem da música ocidental. Enquanto a música tradicional chinesa é dirigida a um público mais erudito, normalmente no ocidente é a clássica que tem esse enquadramento.
 

Formas e estéticas da música oriental e ocidental
Os tipos de música diferem no sistema tonal, escalas, instrumentos e desenvolvimento histórico. O sistema tonal da música chinesa usa um conjunto de números para representar as notas da escala, enquanto a ocidental suporta-se no solfejo orientado por sílabas para representar as notas da escala. Por outro lado, a música chinesa baseia-se na escala pentatónica, tal como o blues, cinco notas por oitava; enquanto o sistema europeu e ocidental sustentam-se na escala diatónica, sete notas por oitava. A música oriental também emprega glissandos, slides e vibratos para criar melodias expressivas. No que diz respeito à harmonia, a música clássica ocidental é regulada por harmonias complexas e uso de cordas com forma mais abstracta; ao passo que a música tradicional chinesa foca-se em linhas melódicas e harmonias simples. Quanto à estrutura, a música tradicional chinesa usa normalmente a cíclica com melodia e ritmos repetitivos, enquanto a música ocidental clássica orienta-se tipicamente por uma estrutura linear com secções e temas distintos. O estilo performativo da música tradicional chinesa enfatiza a improvisação e ornamentação, enquanto a ocidental segue a partitura. A música tradicional chinesa tem na sua roda de instrumentos o erhu, a pipá e o guzheng, cujos sons e técnicas diferem da europeia como o violino, o piano e o trompete. No geral, os dois estilos desenvolveram-se independentemente com um vocabulário único musical, técnica e estética, contudo, podem obter influência uma da outra - colaborações têm sido levadas a cabo entre músicos orientais e ocidentais para a criação de novos géneros, um desses exemplos pode ser ouvido a partir do lançamento da Antologia da música experimental da China ou a partir do artigo Black Metal Oriental. Apesar de não serem chineses, os Jambinai também podem ser incluídos nesse grupo.

A música tradicional chinesa tem uma longa história que remonta a milhares de anos, com as suas raízes na música tradicional e música de corte. É dirigida para uma elite, como a música clássica europeia que remonta a vários séculos e é marcada por vários estilos e períodos: a clássica, a barroca, romântica e música moderna. A música oriental é mais visual e tende a contar uma história.


Guzheng e Pipá
Lu Yanan dividiu o concerto em duas partes, sendo que a primeira foi tocada ao som do guzheng, considerado um dos mais antigos instrumentos chineses da familia das cítaras, instrumento muito popular no folclore chinês do povo étnico Han. Apresenta uma forma oblonga em que as cordas (entre 21 e 26), presas nas extremidades da caixa de ressonância, passam por um cavalete que determina a altura da nota. Também é conhecido como o piano oriental devido à amplitude de notas, o timbre, e a poderosa expressividade que possui. O tema "Vendendo Flores", um original de Lu Yanan, retrata a história de uma mulher que acorda de manhã para entregar flores numa determinada região. A cítara chinesa não converge nem pertence à mesma família indiana, mas emite a mesma beleza. Muitas vezes a forma como é tocada pode aproximar-se da cítara indiana e reverberar melodias próximas do raga.

Lu Yanan foi afinando a pipá ao longo da segunda parte, por ser um instrumento que desafina com muita facilidade. O primeiro tema "Cisne" emanou pleno encantamento e ilustra dois cisnes enamorados a brincar num lago, enquanto esvoaçam demonstrando contentamento. O segundo tema, um original de Lu Yanan, retrata uma noite passada em Portugal com saudades da sua terra natal. A música chinesa tenta captar sensações espirituais e que se atribuem à natureza. O traço de Lu Yanan é marcadamente calmo, ficando mais intenso e voltando à lentidão inicial.

Pode considerar-se a pipá como o rei dos instrumentos chineses e provém da família do alaúde. O som é mais agressivo em comparação com o guzheng e permite estabelecer paralelos com a expressão musical contemporânea ocidental. As composições dividem-se em dois grandes grupos, peças mais líricas de alusão a observações da natureza e estados de espírito, ou descritivas relacionadas a acontecimentos militares e eventos históricos. A forma de exposição da música remete para a composição ocidental em que a expressão transita para a exploração de sons fora das normas. Os trastes são elevados em relação ao cabo, permitindo menor grau na modelação das notas e mais limitação das notas. Outra peça tocada com ritmo solto e sem acordes regulares pela artista oriental retrata um evento na China no século III A.C. e narra a batalha entre dois exércitos. O rei do batalhão vencido suicida-se junto ao rio a pensar na mulher que deixa, esta alusão lembra parte de um poema de Agustina Bessa-Luís: 

Se eu fosse poeta,
enforcava-me num salgueiro à beira da água,
para ver-me refletido no rio
e sentir na morte companhia.

A escolha de Lu Yanan para esta peça simboliza a separação de um líder que entra numa roda viva de agressividade, cuja representação pode ser aplicada aos tempos actuais na Europa que enfrenta momentos de conflito armado de um líder que age com motivos expansionistas. Muitos dos temas tocados por Lu Yanan poderiam ser acompanhados por imagens projectadas de um dos filmes mais relevantes do cinema moderno chinês, Herói dirigido por Yimou Zhang, pois, além de uma beleza estética e poética singular, retrata tanto cenas de amor como de guerra.

Lu Yanan tem divulgado ao longo de quase duas décadas a tradição musical de uma das civilizações que persiste mais antiga, com mais de 5000 anos de existência. A China integra 56 grupos étnicos que se espalham por um território com mais de 9 milhões de km2, o tempo histórico e a dimensão geográfica deram espaço para o estreitamento ou alargamento da cultura rica em tradições, que contém ligeiras variações ou diferenças dramáticas. A Casa Comum tem vindo a dinamizar iniciativas culturais de entrada livre para trazer literacia cultural à sociedade. Lu Yanan está radicada em Portugal há quase 20 anos e continua a promover a cultura musical do seu país para alargar o horizonte musical das comunidades.



Texto: 
Priscilla Fontoura | Imagens e Vídeos com recurso a telemóvel: Emanuel R. Marques | Concerto: Casa Comum

Do Porto a Braga, são os Sereias o motivo que nos leva à Roma portuguesa, à cidade de António Pedro Ribeiro e da sua mãe. Com o pé no acele...


Do Porto a Braga, são os
Sereias o motivo que nos leva à Roma portuguesa, à cidade de António Pedro Ribeiro e da sua mãe. Com o pé no acelerador, tenta-se cumprir a lei, mas, também, chegar a tempo do concerto. Sair do tédio, após a semana de trabalho, é a agenda. Há uma porta que separa o auditório pequeno do corredor de um dos andares subterrâneos do Theatro Circo. 

Todo o imaginário acontece nas nossas mentes permeado pelas letras vociferadas pelo vocalista de Sereias e pelos instrumentos que acompanham o cenário dantesco que nos leva ao inferno de Bosch. Nunca se transita para o purgatório ou para o paraíso.

APR representa, aqui, a voz da revolta e da consciência sobre o estado de um país em queda moral e ética, que se reflecte nas notícias que nos são transmitidas em loop: a TAP, o Governo, a dona de casa que vai presa porque em desespero mata o marido que a tortura à paulada todos os dias, o senhor que nunca consegue a reforma antecipada com desculpas esfarrapadas mascaradas de decretos-lei comunicadas pela Segurança Social. Os Sereias lembram a reunião de tipos inadaptados que andaram numa escola artística e juntaram-se para a catarse. Já que as cartas registadas à Assembleia não têm resposta, que seja o microfone e a amplificação a ecoar toda a corrosão de estados de alma.

Todos os Sereias transmitem tanto visual como musicalmente o estado de um país, da cultura à ciência, da economia ao direito, a caminhar para o abismo. Todos os dias lê-se desinformação vinda dos média, dos tipos imorais que apontam o dedo, que nos dão fake news, cometem plágio, são até agressores que falam de violência doméstica e da p# da TV que instrumentalizam o feminismo, sendo as primeiras a praticar bullying contra as mulheres e a pactuar com os opressores. Precisamos destes Sereias frente à Assembleia da República a representar o povo inerte à constante hipocrisia perpetrada pelos governantes deste país e seus empresários, e a dar um abanão aos políticos que fazem música. Este país que mais parece um poço defecado pelo diabo educa uma sociedade zombificada. Os Sereias nadam no fundo do mar à espera da erupção de um vulcão adormecido que dá sinais pelos seus tremores de terra. O canto dos Sereias não chegou a todos os ouvidos durante o concerto de ontem. Uma sala bem composta mas um público um tanto adormecido e pouco reactivo.



Depois do excelente País a Arder, temos o disco homónimo lançado em Abril do ano passado, gravado pelo teclista da banda Nils Meisel, na sala 304 do Stop, excepto o tema "A Depressão", gravado na Associação Luz & Vida, produzido por João Pires, Sérgio Rocha e Tommy Hughes, misturado por Nils Meisel e masterizado por Chris Hardman na CH Sound. A belíssima capa “Ódio e Amor” foi executada por João Alves e pelo designer gráfico Sérgio Couto. A formação mantém-se, e conta com a participação de Arianna Casellas na voz e de Ra-Yacov nos sopros.

Só há uma afirmação de APR com a qual não posso concordar, o mal não é o dinheiro, são as pessoas. Quando se acabam as folhas, terá o poeta APR algo mais a dizer?

Esperamos que sim!

Texto: Priscilla Fontoura
Imagem: Sandra Correia, telemóvel
Concerto: Theatro Circo - Pequeno Auditório, Sereias, 20 de Janeiro, 2023

Hermeto Pascoal veio trazer a Ílhavo, a convite do Festim, o samba, o forró e toda a fusão que só um mestre do jazz vanguardista consegue. A...

Hermeto Pascoal veio trazer a Ílhavo, a convite do Festim, o samba, o forró e toda a fusão que só um mestre do jazz vanguardista consegue. Após 13 anos, regressa ao festival acompanhado pelo Grupo. Hermeto merece o nosso respeito, pois tem vindo a transformar o conceito da música improvisada, como também tem vindo a desconstruir os cânones mais tradicionais do jazz, dirigindo o género para outra ramificação mais experimental. Compositor compulsivo com mais de 10 mil músicas escritas, apelidado (carinhosamente) de "Bruxo dos Sons", toca como se brincasse com a sonoridade de cada um dos instrumentos que domina: teclado, piano, flauta, baixo, melódica, sanfona, chaleira, berrante, etc. 


Hermeto dá espaço ao Grupo formado por Itiberê Zwarg (baixo), Jota P. (saxofones e flautas), Fábio Pascoal (percussão), André Marques (piano) e Ajurinã Zwarg (bateria), que vai ocupando a maior parte do concerto com ritmos e tempos que parecem não fazer parte do mesmo tema, mas, durante o desenrolar de cada um, apercebemo-nos que afinal situa-se no mesmo lugar, só deu a volta ao Brasil em muitos minutos para regressar à origem. O multi-instrumentista e autodidata já sente o peso da idade. Enquanto, sentado, observa os seus colegas em palco, levanta-se pontualmente para comunicar com eles, ora toca teclas, ora brinca aos sopros. Mas é o nome de Hermeto que leva os seus colegas além fronteiras, a "Nave Mãe" tem vindo a impulsionar a carreira de instrumentistas talentosos da música brasileira. O espírito livre é considerado um dos maiores génios do Brasil em atividade na música mundial. Nascido em Alagoas em 1936, hoje contempla 86 anos. Não se esquece das suas raízes, nem se auto-limita quando o assunto passa por experimentar novos sons. Desde tenra idade que o músico se sentiu fascinado em experimentar os sons da natureza, a partir de um cano de mamona de jerimum fazia um pífano. Gostava de conversar com os pássaros por tempo indeterminado e de ir para a lagoa, onde passava horas a tocar com a água. As abelhas também foram, com ele, outro Grupo com quem veio a compor. Foi a experimentar o acordeão de 8 baixos do seu pai que ganhou o gosto pelo instrumento e passou a tocar com o seu irmão em forrós e festas de casamento, revezando-se no acordeão e no pandeiro com ele.


Ver ao vivo Hermeto Pascoal e o Grupo é, sem sombra de dúvida, uma experiência sensorial indescritível, inesquecível e sem contra-indicações.

Tive o prazer de o ver minutos antes de chegar ao palco, a preparar-se para entrar no carro que o levaria até ao recinto do concerto, o Jardim Henriqueta Maia. Cabelos longos brancos, olhos escondidos por detrás de óculos com lentes espessas, corpo avantajado, chapéu à Indiana Jones com temas pintados e camisa havaiana são elementos icónicos que tornam Hermeto a figura singular que é: o expoente máximo do jazz experimental brasileiro, ao lado de Naná Vasconcelos. Hermeto consegue tanto falar aos elitistas do jazz, como aos mais leigos. Certamente, todos saíram deste concerto com um sorriso nos lábios pela boa disposição que Hermeto e o seu Grupo causaram na audiência.

Premiado no Brasil e no exterior, ganhou prémios como o Ary Barroso (1996), o APCA (1973), o Grammy Latino (2019), entre outros. Produziu dezenas de trabalhos ao lado de Airto Moreira e Flora Purim, além de nomes como Sivuca, Edu Lobo e até Miles Davis.


Texto: Priscilla Fontoura

O nome de Mette Rasmussen é ainda desconhecido em Portugal, assim como o é em toda a Europa do Sul. No entanto, na Escandinávia, pelo contrá...



O nome de Mette Rasmussen é ainda desconhecido em Portugal, assim como o é em toda a Europa do Sul. No entanto, na Escandinávia, pelo contrário, já conquistou um estatuto especial.

A plateia sentada, ainda sem o sol se pôr, à frente do palco aguarda o Mette Rasmussen Trio North. Até a flora e fauna que habitam Serralves o aguardava. Mette Rasmussen é a atracção desta tarde do Jazz no Parque em Serralves, que celebra a sua 31ª edição. A loirinha, já com os cabelos mais curtos, tem vindo a colaborar com nomes de referência da cena mais alternativa, tanto do jazz como outros géneros. É membro do Trio Riot, uma banda de jazz punk. Em 2013 formou um dueto de saxofone e bateria com o baterista americano Chris Corsano, com quem tem feito digressões. Toca com o novo trio de Alan Silva e Ståle Liavik Solberg, a Trondheim Jazz Orchestra e a Fire! Orchestra, Godspeed You Black Emperor!, colaborando ainda com músicos como Rudi Mahall, Steve Noble, Axel Dörner, John Edwards, Pat Thomas, Craig Taborn.

A saxofonista dinamarquesa sediada na Noruega tem chamado a atenção dos meios que tendem a lidar com o jazz de improvisação e os seus frequentadores. Foi com Up Down Fish que deu as boas-vindas à audiência, dizendo que não poderia começar melhor o concerto senão com o tema que ilustra o país do peixe.

Durante a pandemia, a improvisadora dedicou grande parte do seu tempo ao estudo de composição, momento que deu início ao Trio North para materializar as suas ideias mais vibrantes. Dos assuntos mais abordados inclui-se a política, destacado no segundo tema com o sample em repetição com voz gravada que repete: "industrialismo, consumismo, natureza humana, mudanças climáticas, nós somos o planeta, lutar contra o racismo, contra o colonialismo, ricos/pobres, nós somos o planeta, revolução, evolucionismo, ao contrário, estacionário, hashtag sem conteúdo.". Ouve-se assim o jazz crítico e activista que confronta as práticas do mundo actual, Mette preocupa-se em criticar o modo como temos vindo a tratar o planeta.


O trio, que se divide em contrabaixista, baterista e saxofonista, comunica sem demonstrar qualquer dificuldade em executar contratempos ou tempos difíceis de encaixar, e Mette atinge, sem dificuldade, quase no mesmo instante, notas agudas e graves com sensibilidade singular. Movimenta o corpo para dar força ao sopro e às notas que consegue atingir, dobra e contorce-o para exprimir o que lhe vai na alma. Uma alma complexa que olha, provavelmente, para a realidade com a complexidade que contempla o jazz de improviso e fusão. A conversa entre os três instrumentos exprime a sensibilidade feminina no tema Feminine Nature. Mette fala sobre o tempo que viaja sobre nós. Musicalmente é como se o trio quisesse dar uma lição de tempo ao tempo. Domina tempos difíceis que um leigo não consegue acompanhar. Andam à volta para chegar ao início de Repeated Statement e explica que o tema aborda a tendência da História, uma ciência que tem vindo a repetir-se e indica que as acções dos Homens continuam iguais.

Parecia ser o último tema, cujo título em norueguês não tem tradução para outras línguas, acompanhado a baixo eléctrico com pedal de distorção, mas não. O tema mais pesado traduz a algazarra que acontece nos bares, aquando do momento da digressão das bandas, com garrafas por todo o lado enquanto se ouve punk mesclado em todo o tipo de paisagem sonora, própria desses locais.

Rendido ao público e ao verão quente de Serralves, o trio cedeu às palmas das pessoas que pediam por mais. Os pássaros também pareciam pedir o mesmo e Mette respondeu-lhes no mesma dialecto, recorrendo ao apito.

Ao nível técnico e ao nível da inventividade, Mette transparece um largo espectro de influências. Desde o free jazz dos anos 50 do século passado a trabalhos de um som “textural”. Explora a crueza natural do seu instrumento, experimentando também o som e o timbre do saxofone em novas direções. Começou a tocar música livremente improvisada numa fase muito inicial da sua carreira. Trabalhou tanto a improvisação livre como a composição com a banda dinamarquesa Saft. Nos últimos anos tem participado em diversos grupos e em formações ocasionais e toca sobretudo na Europa, em especial na Escandinávia.


Texto: Priscilla Fontoura

Não é a primeira vez que Emma Ruth Rundle visita Portugal. Certo é que poderia escrever sobre o seu espírito criativo, pois sigo o seu percu...



Não é a primeira vez que Emma Ruth Rundle visita Portugal. Certo é que poderia escrever sobre o seu espírito criativo, pois sigo o seu percurso desde a altura de Red Sparrowes, Marriages e Nocturnes, mas é agora, na fase de maturidade do seu projecto a solo, que faço alusão ao trabalho da artista folk - o qual tenho mantido no resguardo das minhas preferências musicais.

A Casa da Música começa a compor-se com o público que cedo viria a esgotar a Sala 2 para o concerto que deveria ter acontecido em Fevereiro, mas que foi forçosamente adiado para Julho, por causa da indefinição que a pandemia causou nos vários aspectos da vida "normal". Alguns humanos com toques de síndrome de imortalidade pensam que o tempo pode ser controlado por eles mesmos. Enganam-se. E ainda bem. Continuamos a ser migalhas num universo desconhecido. E é isso que Engine of Hell realça, as agruras da vida face à realidade construída por esta mulher da Califórnia a viver em Portland. Neste disco sente-se a reabilitação do corpo e do espírito de Emma, que foi realizada num acto de isolamento em Wales, enquanto ia definindo o disco. Hoje, vemo-la fisicamente mais frágil, amparada para chegar ao palco — ou será representação? A artista já tinha sido avistada no Roadburn com recurso a uma bengala para pessoas invisuais e consta, numa das entrevistas cedidas, que o seu pai perdeu quase por completo a visão. 

A adultez madura chegou com toda a crueldade, ainda que tente, com toda a força que lhe resta, deixar o passado sujeito ao seu tempo verbal. Emma olha para trás sem se tornar estátua de sal, porque não o faz com saudade. Apesar de todas as contradições com que se foi deparando ao longo da sua trajectória, resultado de toda a negligência em nome do álcool e das drogas (substâncias que lhe destruíram a saúde física e mental, levando-a a ficar internada num hospital psiquiátrico por 8 dias), enfrenta neste presente a realidade, abraçando a catarse que a fez sair do inferno em transição rumo à leveza de viver. À imagem da simplicidade com pormenores subtis incluídos no seu disco, tenta refazer a via da destruição direccionando-a à da edificação. É tempo para ir limpando o lixo e lidar com o peso das suas memórias. O que lhe interessa é ser verdadeira no que faz e com o que faz, ainda que corra o risco de expor os seus traumas: There's no need to check the weather as my winter's never over (...) Numbing out the nightmare but I just keep grinning.

A música e a arte que faz foram tábua de salvação para a estrada hostil que percorreu. A arte cura e foi o que constatou aquando do seu internamento. E segreda-nos tudo num cenário minimalista e intimista. Ouvem-se bem as palavras com mais ou menos reverberação. Emma não deixa a interpretação para segundo plano, assume estar ali para apresentar o seu último disco, mas não invalida o toque humano que um concerto tão orgânico propicia. Um momento autêntico com imperfeições e com qualidade emocional, onde há falhas técnicas que não tiram valor à magia. 

A ruiva de tez clara foi deixando palavras no ar em jeito de interlúdio, não esquecendo que o objectivo daquele concerto seria apresentar Engine of Hell, uma viagem carregada de introspecção com líricas honestas que passam pelo tormento terrestre e cuja esperança se assenta na busca da libertação presente num outro lugar.

Venho a considerar Emma uma das talentosas guitarristas vivas da actualidade, comparativamente a Kaki King e Adrianne Lenker. O modo e a sensibilidade com que dedilha as cordas da guitarra, as intensidades que alterna ao piano, bem como a sua voz, revelam, sem qualquer dúvida, uma artista inteligente que se exprime com alma e com gosto apurado. "Return" preenche aquela sala remetendo a Tori Amos.

Todo o percurso que é feito ao longo deste álbum vive do imaginário de uma alma que voa sobre um céu negro enquanto aguarda o último sopro, como se fosse um anjo de "As Asas do Desejo", de Wim Wenders. "Razor's Edge" é aguardado com alguma ansiedade pelo cariz folk e pela melodia mais leve. Bem tocado, com passagens entre acordes mais subtis que o do registo, os dedos de Emma e a voz reflectem segurança alcançada com os ensaios, o que nos remete, por vezes, para o timbre de Alanis Morissette, acompanhada pela guitarra acústica que tira partido das madeiras. Nos intervalos vai afinando as cordas - substituídas naquele dia - que mudam pontualmente de tom de acordo com a afinação de cada tema. Segue-se "Citadel" com a respiração e o bater do pé a marcar o ritmo. Todo o corpo de Emma tira partido da acústica da sala. Entre guitarra e piano, volta ao instrumento protagonista de "In My Afterlife", um tema com reminiscências de Nine Inch Nails e com a nudez vocal de Sibylle Baier. Admite que, de todos os pianos que já tocou, aquele foi nomeado o melhor. Para não regressar ao palco, tocará os temas que se esperariam depois do encore. O concerto foi encerrado com "Marked for Death" e com a canção de amor "Pump Organ Song" que faz parte do EP Orpheus Looking Back, saído a 25 de Março, com selo da Sargent House. I took a love there / And he took my hand / But I spoke a language he could not understand / And how does it end?

Este foi o trajecto que a plateia percorreu a seu lado sentindo a sua dor. Não obstante a carga emocional presente em Engine of Hell, Emma pediu para que todos fôssemos, acima de tudo, livres! Pois encontrar o sentido da vida é o que nos torna humanos, não se trata de sermos felizes, mas de vivermos livres.


Texto: Priscilla Fontoura

No ano passado, os campos dos festivais de Verão "voltaram à sua origem" e os únicos concertos que lá aconteceram foi ao sabor da ...


No ano passado, os campos dos festivais de Verão "voltaram à sua origem" e os únicos concertos que lá aconteceram foi ao sabor da sonorização ecoada pelos insectos e demais bichos, não se avistando registo de pegada humana. Este ano, embora alguns organizadores tenham desistido da ideia de dar continuidade a eventos de música que merecem toda uma logística elegível para acontecimentos de maior dimensão, os de menor escala ocorreram mediante as regras de cumprimento de ajuntamento de modo a tornar a cultura um lugar seguro.

Esta edição do festival Rodellus em Braga, Ruílhe, devido ao pequeno número de pessoas permitidas no festival, decidiu transmitir em streaming os concertos que aconteceram em três sessões diferentes e cujo fundo tem como destino a União Audiovisual para apoiar os profissionais da cultura que viram os seus trabalhos parados por causa da pandemia. 

O Rodellus 2021 encerrou no passado dia 7 de Agosto com os portuenses Krypto e os barcelenses Black Bombaim numa atmosfera mais contida e controlada, com cadeiras de plástico, frente ao palco modesto, que acabaram por causar no público uma espécie de refreamento. Como ouvir rock pesado sentados em cadeiras como se fosse um auditório ao ar livre? Tal como o ambiente sem precedentes que todos vivemos no início da pandemia: "Primeiro estranha-se. Depois entranha-se.". É claro que não se compara à liberdade de outra altura que não causava desconfiança noutros festivaleiros, a realidade é que a Covid-19 mudou o estilo de vida e alterou também os comportamentos da vida social que deixa saudades de como era vivida. 

Nós, disfarçados de agricultores, estávamos a precisar de rock, rock pesado e feroz. Chegam ao palco os Krypto com temáticas que assentam em alienação, corrupção, vazio consumista perpetuado pela tecnologia e cultura empresarial, como também o desenvolvimento da inteligência artificial, construídas pelo trio portuense (que alegoricamente poderia ser um cão a fugir com a língua de fora de toda a disrupção) formado pela voz de Ruizinho, o frontman frenético que desde os finais dos 90 enfrenta palcos sem timidez, pelo groove do baixo de Martelo que se mistura com guitarra tocada com power chords, e pela bateria punk-hardcore de Chaka. A banda — que lançou durante a pandemia Eye 18 com uma BD da Chili com Carne —, ressoou com garra Spitwater fazendo jus à gravação. O trio ao longo do concerto foi libertando toda a sua tensão e a plateia que só queria corresponder à medida, mas tinha como obrigação acatar as regras. Um concerto rápido que cumpriu os requisitos daquela tarde. 

A pausa para Black Bombaim permitiu mais um tempo de convívio comedido entre os festivaleiros, que não demorou muito a ser interrompido pelos seguidores do rock psicadélico californiano. Ricardo Miranda desbundou a stratocaster com o som transformado pelos pedais como se não houvesse amanhã; para quem esteve sob o efeito de alucinogénicos de certeza que fez a viagem sem qualquer dificuldade, os mais sóbrios contemplaram a paisagem bucólica crepuscular, enquanto se ouvia Africa II de Far Out.

O festival rural de pequena escala tem como foco dinamizar a força local e comunitária, uma vez que segue a matriz que valoriza a importância da sustentabilidade e da consciência local. A edição deste ano teve como surpresa duas lembranças, uma resposta empática da organização para quem é mais sensível à exposição ao sol, chapéus de palha e plantas que passam uma mensagem verde: levar o campo para casa. A pandemia não é o único alerta para a mudança de paradigma dos modos de vida permeados por uma mais stressante e agitada, os efeitos irreversíveis das alterações climáticas devem ser levados a sério para que a mudança seja efectiva, global e muito mais consciente. A pandemia veio desacelerar o que degenera a todo o gás. Será que ainda vamos a tempo? O trabalho que a associação cultural Rodellus tem desenvolvido pode ser uma gota no oceano, mas tem desbravado terrenos e desenterrado costumes que muitos têm vindo a negligenciar. Entenda-se; dar valor ao campo não deve ser só para os que não têm medo da vida rural, mas para quem realmente almeja um futuro melhor para todos! Que seja a música o motor de arranque para os mais incautos. 


Texto: Priscilla Fontoura
Imagens: Emanuel R. Marques e Priscilla Fontoura
O texto não foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico 

Não se pode ignorar os cenários que compõem os quadros dos passeios que se fazem. Pode ser que os olhos, retidos pela curiosidade, parem num...


Não se pode ignorar os cenários que compõem os quadros dos passeios que se fazem. Pode ser que os olhos, retidos pela curiosidade, parem num jardim para o contemplar, seja pela sua imensidão, seja pelos detalhes que guarda: um pássaro pousado num ramo, uma folha que permanece no chão, deixada a secar passivamente ao calor do sol ou a dançar ao sabor do vento, ou ainda uma figueira prestes a dar fruto. Toda essa riqueza de um jardim pode existir. De igual modo, dentro de uma casa cuja fachada não revela mais do que aquilo que está à vista, pode estar um tesouro — ou mais. Não se deve avaliar uma casa pela sua fachada, assim como não se avalia um livro pela sua capa; na realidade, são muitas as casas que nos surpreendem pelo recheio que escondem, ou seja, pelas riquezas histórico-culturais que as convertem em legado.

Ninguém pensaria, à primeira vista, que a VIC Aveiro Arts House seria um núcleo e ponto de encontro para valências artísticas. Combina traços de casa-museu, alojamento local e residência artística. A casa pertenceu ao ceramista, cineasta, pintor e escritor Vasco Branco, que seguiu, durante a sua vida, uma via artística e um activismo político que se opunha à corrente dominante da época. Hoje, além de casa-museu, ali se realizam actividades que continuam a interessar a quem procura propostas não ortodoxas.


Na noite de 9 de julho de 2021, encontra-se presente o músico que tem dinamizado a cultura da cidade do Porto com uma visão fora do comum, pouco preocupada com o gosto das massas. O baterista Gustavo Costa — nome já consolidado na cena da música experimental e da improvisação — apresenta-se a solo na VIC para estrear o seu novo álbum. Atrás de si, faixas e esculturas metalizadas; à sua frente, uma bateria com um set up separado.

Por força da pandemia, que provocou o cancelamento de vários eventos, a sessão Ressonância, organizada pela VIC, esteve parada cerca de um ano e meio devido às restrições que exigem adaptações constantes. No entanto, Gustavo contactou a VIC para saber se poderia estrear o álbum a solo no espaço, intitulado Entropies and Mimetic Patterns, cujo lançamento marca a primeira colaboração entre a Sonoscopia — associação também gerida pelo músico — e a editora Lovers & Lollypops.

Ao contrário das propostas anteriores, como Most People Have Been Trained to be Bored, este novo Entropies and Mimetic Patterns busca uma abordagem diferente, anulando sons sintéticos e plásticos para desenhar uma estrutura acústica mais fiel, sem distorcer as propriedades e potencialidades “naturais” do instrumento. Nessas repetições padronizadas, caminham-se círculos, formando geometrias que desenham triângulos e outras figuras. Nesta dança de ritmos primitivos, não se anda rígido nem em linha recta — só se a Terra fosse plana, como alguns afirmam veementemente... Fugindo à comicidade dessa crença moderna dos terraplanistas, o facto é que este disco representa um regresso às origens da percussão, um fechar de ciclo num número palíndromo que o ouvinte descobrirá. Nessas batidas que se transformam em mandalas, acrescentam-se detalhes aqui e ali em repetição, sem jamais fugir ao tempo — talvez numa tentativa de elevar o corpo a um estado meditativo, libertando-o da razão que tantas vezes o aprisiona.

Com o passar do tempo, Gustavo Costa tem adoptado uma abordagem exploratória e independente, menos sujeita a dispositivos electrónicos. Regressa cada vez mais ao início da sua caminhada musical, explorando o instrumento em toda a sua potencialidade orgânica e acústica.

A vida é marcada por renascimentos que trazem desafios estimulados por novas fases e experiências. Quando se pensa estar a ser levado a algo nunca vivido, somos surpreendidos pelo que sempre esteve ali, escondido sob um pano — fala-se do primitivismo, das raízes e bases, momentos que potencializam o que foi experimentado na infância. Regressar ao primitivismo permite retomar uma inocência libertadora, desprendida da lógica e da razão, para que o corpo ultrapasse as suas barreiras.

Neste concerto, alguns fecharam os olhos para se concentrar apenas no som das baquetas nas peles dos timbalões e da tarola, nas faixas metalizadas, nos pratos e pratinhos. Sentiu-se a exploração sonora que Gustavo retirou da bateria acústica afinada e montada para produzir uma estética orgânica. A performance remete ao lado mais selvagem de nós (que nos julgamos civilizados), e evoca personagens de uma história colonialista que retrata o confronto entre indígenas e ocupantes; mas o tempo é outro, e hoje nos enchemos de questões e dúvidas, fruto do pluralismo de visões e do desgaste causado pelo afastamento das origens — uma ligação contra-natura ligada linearmente às eras industrial e tecnológica. No fundo, a urgência do presente aponta para o regresso ao simples: reconciliação com a espiritualidade, a relação entre Homem e Natureza, a importância da biologia, a compleição.

Músico introvertido, mas versátil em várias disciplinas — pedagogia, criação de sons, esculturas sonoras e programação — Gustavo concentra a sua vida profissional em estimular as pessoas a educar o ouvido para novas possibilidades sonoras, sempre com uma atitude generosa e humilde. Anos de experiência musical levaram-no a caminhos mais complexos. Hoje, a sua trajectória é pacífica e curiosa, como a de uma criança que explora sons em repetição, numa antropologia sonora que examina cada som com precisão, explorando-o com o que tem à mão — e se se colocam esses pratinhos sobre cada timbalão, que som sairá dali? Este disco encaixaria perfeitamente como banda-sonora de um documentário filmado na Amazónia, sob direcção de Cláudia Andujar, ou numa ficção de Apichatpong Weerasethakul.

O título do álbum une paradoxos: entropia, que significa desordem, e padrões miméticos, cuja representação transmite paciência, emoção e proximidade a um instrumento que expressa a comunhão com o músico. É assim que Gustavo organiza o caos do seu universo sonoro singular. O álbum inclui temas curtos, alguns com menos de 2 minutos, começa com Entropy e prepara um "ritual" que alterna minimalismo percussivo e batidas primitivas, às vezes polirrítmicas. Destaca-se Crass, um tema curioso que provoca pulsão e liberdade física. Ao longo do disco percebe-se a intenção do explorador sonoro, que compartilha com o ouvinte o seu imaginário: uma selva cheia de acontecimentos inesperados. Mimesis Natura eleva o espírito à transcendência em camadas multiverso. Gustavo não tocou a faixa que encerra o disco, Allegorial Dream Vision, uma faixa de 15 minutos com batidas profundas que soam como reverberações ilusórias, imergindo o ouvinte no ritual inicial.

Entropies and Mimetic Patterns abre o quadro geral e transita para os detalhes mais ínfimos. No quadro, tanto existe uma selva cheia de biodiversidade imperceptível ao olho humano, quanto um figo cheio de sementes e propriedades nutricionais, como mostrado no vídeo de Augusto Lado para o tema Circles and Time I.

Além da apresentação do disco na VIC, o novo álbum foi apresentado num ciclo de concertos: 10 de Julho no Salão Brazil em Coimbra, 11 de Julho na Sonoscopia no Porto, e no dia 28 de Julho no Colapsolexias, em Santiago de Compostela.


Texto: Priscilla Fontoura
Fotos tiradas por Emanuel R. Marques (que tinha no bolso um telemóvel com câmara)

Há coisas curiosas, relações diferentes que se vão estabelecendo ao longo da vida, em fases distintas. Embora não me sinta muito confortável...


Há coisas curiosas, relações diferentes que se vão estabelecendo ao longo da vida, em fases distintas. Embora não me sinta muito confortável a escrever sobre música de câmara e barroca, é cada vez mais em concertos que não estou habituada a frequentar que me sinto satisfeita. Por todos os factores: público neutro, faixas etárias díspares, novas propostas para pensar a música — assim se recolhe da vida a intensidade profunda, para quem dela necessita para subsistir culturalmente, enquanto se respiram novos ares.


Ao longo destes anos, o Auditório de Música de Espinho tem sido palco para músicos, fortes em conteúdo e simples em forma, apresentarem ao público temas ensaiados por horas que não se sentem passar. Consequência desse treino, no âmbito do 47.º Festival Internacional de Música de Espinho, incluem-se extravagâncias que atravessam várias fases do barroco francês, um tempo esquecido por nós, mas definido pelo tique-taque do relógio que parou por momentos, contagiado pelo som reverberado da dupla Jean Rondeau (cravo) e Thomas Dunford (alaúde). Os ponteiros do relógio pararam para ouvirmos as reminiscências do barroco francês. Pergunto-me: como dois jovens deste século conhecem tão bem um tempo longínquo passado? A viagem ao passado levada a cabo pela dupla espanta qualquer músico experiente. Estes dois jovens criativos poderiam dominar qualquer género contemporâneo da música, mas escolheram o barroco francês para fazer renascer um género, à partida, datado. Jean Rondeau e Thomas Dunford são duas ondas que se encontram no mesmo ponto, dois ilusionistas mestres do tempo, peritos a criar multiversos, tal como Sofia Coppola com Maria Antonieta. Com a ópera inicia-se o barroco musical e é dada importância ao instrumental em detrimento do vocal; as novas formas da música instrumental desenvolveram-se a partir da música criada para a ópera e para outras artes que dela provinham, como a dança, por exemplo. Era completamente nova a ideia de uma música instrumental independente, composta para ser ouvida. Na ópera havia uma história; na dança, a música ditava o tempo; e uma das bases da música barroca suportava-se na doutrina das emoções, já patente na literatura.


Neste concerto, que aconteceu numa noite que findou com lua cheia, a 25 de Junho de 2021, coube o encantamento de Jean Rondeau, descrito pelo Washington Post como "um dos intérpretes mais espontâneos que alguém provavelmente ouvirá num palco de música clássica nos dias de hoje". O jovem francês, apaixonado pelo cravo — por sinal muito bem afinado, remetendo para o tempo de ouro do barroco, os séculos XVI a XVIII, decorado com estética do estilo —, encontra-se dividido entre dois espaço-tempo: o século XV e o XXI. Verdade seja dita, se a história da música não tivesse evoluído com mais instrumentos criados, jamais se compararia um cravo a um sintetizador, tampouco nos deixaríamos confundir pela destreza e ritmo rápido com que o músico francês toca as teclas, parecendo, por vezes, temas de jogos de computador. Não poderia ser mais assertiva a descrição daquele que escreveu acerca do músico francês no The Washington Post: "Rondeau, com 24 anos" (hoje com 30), "é um dos performers mais autênticos que poderá ouvir na música clássica actualmente. A artificialidade e ostentação não fazem parte da sua composição, assim que se senta ao seu instrumento, ele e o cravo tornam-se num só. A partir daí, tudo é criação musical que se sente masculina, directa e absolutamente humana. Rondeau é um mestre do seu instrumento com um conjunto de dons comunicacionais que normalmente só se encontram em artistas com o dobro da sua idade. Ele interioriza a música que toca de forma tão completa que qualquer ambivalência interpretativa ou erro de cálculo é impensável. A sinceridade e a modéstia da sua entrega são os pontos-chave do seu poder."


Ao longo do repertório, o nosso coração viveu dinâmicas diferentes; por vezes, passeava-se pelos jardins românticos ao lado da cara-metade, ou nos salões nobres ao sabor da dança francesa num possível Palácio de Versalhes durante os reinados de Luís XIV e Luís XV. Não foi nesse tempo que músicos proeminentes foram atraídos para a corte, desenvolvendo uma actividade marcante? Este concerto foi pontuado por momentos de sofrimento, causados por uma paixão avassaladora, como também por pequenas risotas motivadas pelos festejos. Este auditório exalou romantismo, proveniente de um jardim burlesco, musicado também pelo canto dos pássaros. Afinal, como se deu este casamento entre Jean e Thomas? A aura luminosa que deles resplandece transmite respeito na relação entre estes dois músicos, que se deixam permear pela dinâmica que tanto aufere independência criativa quanto potencializa a comunicação conjunta.




A plateia vibrou de emoção e não se calou enquanto pedia por mais celebrações em nome do barroco. Quatro encores encerraram o espectáculo, um deles ao som do embalo "Les Baricades Mïstérieuses" de François Couperin, e o último, o único tema cantado por Thomas Dunford.



Falámos um pouco com Jean e Thomas e perguntámos, se tivessem que escolher um tema contemporâneo para uma versão, qual seria, Thomas, entre várias opções, ressaltou The Long And Winding Road dos Beatles. Que dimensão unificadora seria esta, onde se fariam vibrar as cordas de um cravo e de um alaúde? 

Podem visualizar, através deste link (aqui), Thomas Dunford a tocar no seu alaúde o tema Blackbird de Beatles. 

Os dois músicos têm já um vasto currículo no que respeita ao universo da música, formação, lançamento de discos, ensino, prémios e espectáculos.

Texto: Priscilla Fontoura
Imagens: Emanuel R. Marques

Do extremo norte de Portugal, Monção, viaja o baixista Daniel Fernandes até Aveiro para a cidade dos moliceiros e das bugas para ali se fix...


Do extremo norte de Portugal, Monção, viaja o baixista Daniel Fernandes até Aveiro para a cidade dos moliceiros e das bugas para ali se fixar. Levou consigo um dos seus sonhos, o de criar uma banda e baptizá-la com a expressão nortenha Sopa d'Urso, cujo termo significa tareia.

Numa Casa da Música sujeita às contenções da Covid e com menos de meia sala preenchida, os Sopa d’Urso entram em palco com toda a energia própria de quem já ressacava por concertos, ainda assim não faz tanto tempo em que viveram um dos momentos mais felizes este ano no Festival dos Canais em Aveiro.

Entram no palco para apresentar temas do primeiro álbum, Colher de Pau, um repertório com mais de oito temas e que, a grosso modo, reporta para o rock dos anos 80 e sobretudo dos 90. Uma viagem de Jorge Palma a Ornatos Violeta.


A balada Momento é dirigida aos mais sensíveis e é o tema, segundo o vocalista Luís Baptista, com mais feedback da parte do público. Raiva remete para as baladas Ornatos Violeta, Conflito de Interesses e Latim quebram momentos mais introspectivos e o último sai dos lugares comuns para revelar uma identidade musical que deveria persistir. A composição é feita de uma forma democrática e todos participam no processo criativo.

Os Sopa d'Urso são cinco amigos que se juntaram em 2019, Luís Batista na voz, Xavier Santos na guitarra, Catarina Sequeira nos teclados, Daniel Fernandes no baixo e Pedro Coelho na bateria, mas, nesta noite, é Daniel quem anima o palco beijando o vocalista na cara, metendo-se com o baterista e com o guitarrista sempre que lhe dava na gana. Acaba por saltar do palco para o chão daquela sala para findar o capítulo musical.


Devido à pandemia, o grupo não pôde expor o disco em palco como desejaria, pelo que o concerto na Casa da Música, no Domingo passado, 18 de Outubro, foi, para os cinco elementos, um momento de grande significado. O concerto foi registado com polaroids, não fosse a autenticidade do momento um bom final para ficar na memória.


Texto: Priscilla Fontoura
Polaroids: Emanuel R. Marques

© Woodstock '69 Há concertos... e concertos. Hoje falamos sobre os que representaram mais do que uma performance e tornaram-s...

© Woodstock '69

Há concertos... e concertos. Hoje falamos sobre os que representaram mais do que uma performance e tornaram-se um protesto activista em locais com conotação histórica. Ficam outros por nomear. 

- Rage Against the Machine - São Francisco, Causa da independência do Tibete (1996) -
Os Rage Against the Machine desde o início tiveram o poder de mover gerações. Um dos concertos mais míticos dos activistas políticos ocorreu em São Francisco, intitulado Tibetan Freedom Concert - criado para apoiar a causa da independência tibetana. Foram originalmente organizados pelos Beastie Boys e pelo Milarepa Fund. Os concertos ajudaram a estimular o crescimento de Estudantes pelo Tibete Livre em todo o mundo.


- System of a Down - Arménia, Erevan, Praça da República (2015) -
O concerto dos System of a Down, na praça da República na capital da Arménia, é mais do que um concerto. É um apelo internacional ao reconhecimento do genocídio arménio, porque só é possível sentir paz colectiva quando as atrocidades cometidas pelos perpetradores forem assumidas, assim é possível construir um futuro melhor, tanto para os arménios quanto para os turcos - não apagando um passado que é reconstruído no futuro suportado na verdade e na justiça. Este esforço internacional - que aponta para um movimento pacifista e global - é conduzido por turcos que destemidamente apelam ao seu país para que reconheça o genocídio arménio - reparar o passado é reconhecer a mancha deixada.


- Metallica - Rússia, Moscovo (1991), Monsters of Rock -
A 28 de setembro de 1991, o concerto Monsters of Rock aconteceu no aeródromo de Tushino, em Moscovo, na Rússia. Apenas um mês após a tentativa do golpe soviético de 1991, este vídeo mostra um concerto com uma multidão entusiasmada, apesar dos mil militares que vigiavam o palco. O concerto colossal de um dia foi patrocinado pela Time Warner Inc. e contou com AC / DC, Metallica, Motley Crue, Queensrÿche e Black Crowes.


- Fugazi - concerto frente à Casa Branca (1991) -
Concerto gravado há mais de 20 anos dos Fugazi frente à Casa Branca - um protesto contra a guerra do Golfo arquitectada pelo ex-presidente Bush. 



- The Wall - Pink Floyd, Roger Waters (Scorpions) - Berlim (1990) -
Sabemos que Roger Waters é um activista convicto que aplica às suas letras uma carga política e interventiva.
Este concerto ocorreu em Berlim e foi realizado em terreno vago entre Potsdamer Platz e o Portão de Brandenburgo, um local que fazia parte da antiga "terra de ninguém" do Muro de Berlim.

The Wall - Live in Berlin foi uma apresentação ao vivo de Roger Waters e de vários artistas convidados, do álbum de estúdio The Wall, em grande parte escrito por Waters durante o seu tempo na banda. O concerto foi realizado em Berlim em 21 de Julho de 1990, para comemorar a queda do Muro de Berlim oito meses antes. Um álbum ao vivo foi lançado em 21 de agosto de 1990.



- Woodstock '69 - Santana - Soul Sacrifice -
Nas imediações de Bethel, uma cidade nos EUA, um dos maiores festivais de música da história aconteceu e tornou-se referência para tantos outros devido às suas características originais. Ficou emblemático e reconhecido como um dos maiores momentos na história da música popular. A Guerra do Vietname tornou-se um dos principais alvos do movimento hippie que se desenvolveu exponencialmente nos anos '50 e '60 - fruto da contestação dos jovens ao clima de rivalidade fomentado pela Guerra Fria. As formas de protestos encontradas pelos jovens desse período eram a música, sobretudo o Rock n' Roll, e as drogas – principalmente as sintéticas, como o LSD e a mescalina. Por meio do som e das letras do rock e também das performances de palco, a contracultura começou a penetrar a sociedade como um todo e o Woodstock representou o ápice dessa era. Paralelamente, o mundo estava no auge da bipolaridade geopolítica. No contexto da Guerra Fria crescia nos EUA o modo de vida americano, "American Way of Life", que se tornava um modelo a ser replicado em todo o mundo ocidental. O modo de vida americano trouxe também a era dos electrodomésticos, um modo de vida social ligado ao consumo, na mesma altura em que os EUA se viam envolvidos num dos confrontos mais dispendiosos desse período, a guerra do Vietname.

O projecto de um grande festival que reunisse os principais representantes do rock daquele período partiu de quatro jovens: JohnRoberts, Joel Rosenman, Artie Kornfeld e Michael Lag. Alguns autores que estudaram a história do festival dizem que a declaração dos organizadores de que era esperado um público de 60 mil pessoas não corresponde à verdade, há dados que confirmam a venda de mais de 180 mil bilhetes antes da realização do festival. De qualquer forma, o evento contou com mais do dobro de pessoas que tinham garantido a sua presença antecipadamente.


Conclusão:
Há quem afirme que a música nunca travou confrontos ou guerras, no entanto, apesar da música ter um papel pacificador e regenerador, é também agente activo na educação das pessoas. Quando a música nutre um efeito reconciliador e consegue unir dois ou mais opositores, não há nada que se equipare. 

Texto: Priscilla Fontoura