9 - Padre progressista Francisco Fanhais nasce em 1941. A sua importância na música interventiva e de protesto ganhou um valor a...

O 25 de Abril: uma Revolução Cantada e os Poetas de Intervenção (parte 3)

9 - Padre progressista


Francisco Fanhais nasce em 1941. A sua importância na música interventiva e de protesto ganhou um valor acrescido de ordem social, visto ser padre e ter editado em 1970 sob o nome Padre Fanhais um disco de longa duração intitulado CANÇÕES DA CIDADE NOVA que se compõe de doze canções de cariz interventivo. Na realidade social, esteve activo em movimentos de consciencialização anti-regime e investido na educação e progressão de mentalidades. Essa devoção foi transmitida através da música e da sua voz. 


O tema que inicia o disco, Meu Povo que Jaz, é uma balada bastante melancólica que expressa o pesar e dor de um povo oprimido. No tema que se segue, Corpo Renascido, há uma mudança de atmosfera, persiste na melodia e na letra uma certa esperança. Uma chama que depois de acesa não se extingue mais.

Corpo renascido
Canção
Toco-te e respiras
Sangue do meu sangue
Cantando é como se dissesses
Estou aqui
Na multidão
Que está dentro de mim
Recuso a morte 
Cantando
Recuso a solidão
Cantando


Em Os Labirintos, há a presença de uma orquestração suave que acompanha a voz sentida e límpida de Padre Fanhais. Estes labirintos que a existência semeia no nosso caminho, fazem com que por vezes, as miragens da liberdade nos pareçam mais longínquas do que realmente estão. O tema que se segue, Porque oferece uma melodia mais festiva para acompanhar o poema de Sophia de Mello Breyner. 



Porque os outros se mascaram mas tu não 
Porque os outros usam a virtude 
Para comprar o que não tem perdão 
Porque os outros têm medo mas tu não 
Porque os outros são os túmulos caiados 
Onde germina calada a podridão. 
Porque os outros se calam mas tu não. 
Porque os outros se compram e se vendem 
E os seus gestos dão sempre dividendo. 
Porque os outros são hábeis mas tu não. 
Porque os outros vão à sombra dos abrigos 
E tu vais de mãos dadas com os perigos. 
Porque os outros calculam mas tu não.



O tema Canto do Ceifeiro é também um poema interpretado por Padre Fanhais. O poema, da autoria de Eduardo Fonseca, incita à luta e resistência dos trabalhadores do campo. É uma homenagem ao heroísmo do trabalhador. É outra vez com um poema de Sophia de Mello Breyner, Cantata da Paz, com acordes descontraídos mas melódicos e com coros que se constrói um autêntico hino à paz e consciencialização social. 

Leonor, poema de António Cabral, é mais um poema que retrata uma mulher corajosa mas que sofre agruras. As Pobres Solteiras pinta também um retrato de mulheres solitárias, feitas assim pela vida, mas que sonham e almejam algo mais. 
A penúltima canção é um poema de António Aleixo, Quadras do Poeta Aleixo que com quadras em rimas certeiras nos oferecem sabedoria de um homem do povo que escolheu os versos e as rimas como um dos seus ofícios. 

embora os meus olhos 
sejam os mais pequenos do mundo 
o que importa é que eles vejam 
os que os homens são no fundo 
pra mentira ser segura 
e atingir profundidade 
tem que trazer à mistura 
qualquer coisa de verdade 
vós que lá do vosso império 
prometeis um mundo novo 
calai-vos que pode o povo
querer um mundo novo a sério 
Que importa perder a vida 
na luta contra a traição 
se a razão mesmo vencida 
não deixa de ser razão 
Eu não tenho vistas largas 
nem grande sabedoria 
mas dão-me as horas amargas lições de filosofia

A canção derradeira do disco, Canção da Cidade Nova, é uma peregrinação em direcção à paz prometida, representada simbolicamente por Jerusálem. É um melodia tranquila e apaziguadora. 

Virá o pobre do mundo inteiro 
Há pão que sobre e sem dinheiro 
Há pão e vinho em abundância 
E o seu caminho é sem distância 
Não tem distância esta cidade 
Senão o medo que nos invade 
Cantai comigo que o sol já vem 
Eu já alcanço Jerusalém

É neste registo de paz que o disco termina. No entanto, nem tudo é paz e quando se tem tanto amor pela liberdade, não se tem receio de a cantar e musicar num país que se encontra dominado pelo regime, há sempre a nuvem negra de ameaça do cárcere ou do assassinato. No caso de Francisco Fanhais, a pena foi ser proibido de leccionar e exercer o sacerdócio, sendo obrigado a partir para França em 1971. 

Após a revolução de Abril, volta a Portugal e colabora com José Afonso. Um exemplo de um homem com fé que sempre lutou por ideais justos e fraternos, sendo um exemplo do que um homem religioso deve ser, um veículo, uma ponte de comunicação entre o céu e a terra. Um mensageiro para os homens. 

10 - Voz Solitária e Solidária 


José Almada nasceu em 1951 e foi em 1972 que editou HOMENAGEM composto por doze temas bastante ricos nas melodias e letras. Dotado de uma voz com um timbre peculiar e interessante, José Almada abre o seu disco LP de estreia com o tema que dá também nome ao disco. Homenagem é uma boa música de início de disco. Conta com uma orquestração que entra nos momentos certos e que apoia a voz do cantautor. 

No tema que se segue, Vento Irado, somos conduzidos pela voz de José Almada, pelos acordes suaves e meditativos da guitarra. Há também intromissões delicadas de piano. Este tema é liricamente muito forte e foi proibido pela censura. 

Vento 
Vento gelado
Trazes-me o fel do passado
A taça que vou bebendo
Arrepiam-se os caminhos 

Em Os Anjos Cantam, há um acompanhamento de violino que surge em intervalos melodicamente oportunos, assim como um delicado acompanhamento em piano. Já a letra anda de mão dada com a guitarra. A música que se segue, Hóspede, conta com a letra de Fausto José e é uma narrativa breve sobre partilhar o pouco que se tem com o próximo, porque o que para nós é pouco pode ser muito para outrem. 

Em E a Ovelha Bale, Bale / Pobre Mendigo / Ao Som dum Sol e Dó há acordes corridos que acompanham a métrica da letra e alguns apontamentos interessantes de piano que precedem o tema Cala os Olhos Vagabundo cuja letra é da autoria de José Gomes Ferreira. É um tema curto mas com um rendilhado de acordes que evocam saudade e alguma melancolia. 

Não me tentes, Vagabundo
Não quero ver o mundo
Prefiro imaginá-lo

A toada melancólica persiste no tema seguinte, Prece, com letra da autoria de Fausto José. Um tema que começa de forma tradicional mas que é revestido por um surpreendente trabalho de órgão que acompanha até ao final a voz de José Almada. 

O tema da errância e pobreza é abordado novamente em Mendigo com letra escrita por Luís Corte-Real Guedes Machado, pai do cantautor. É um tema comovente que relata uma errância com uma meta, sendo esta o amor. Em Olha as Ovelhas como são há espaço para arranjos de ordem mais experimental, com notas de piano lançadas que acentuam o poder da letra escrita por José Gomes Ferreira. 

A abordagem de balada é recuperada em Jaiminho com letra de Fausto José. É um retrato de um homem que parece ter tudo mas a quem o destino lhe troca as voltas, retirando-lhe o que tem. 

É novamente musicado um poema de José Gomes Ferreira, intitulado Oh Pastor que Choras que na primeira camada parece ser somente uma súplica cantada a um pastor que perdeu parte do seu rebanho, mas que por baixo dessa camada inocente abriga um interessante subtexto político e de crítica social.

Deita as mágoas fora
Carneiros
É o que mais há 

É com letra escrita novamente por José Gomes Ferreira que embarcamos na melodia embalada de Eh! Vizinho Porco com contribuição preciosa de um violino e um baixo saltitão e interventivo. É uma música que apesar de curta, possui uma composição muito interessante. Segue-se Vento Suão que descreve a pobreza e desolação que reinava em Portugal. Este clima de desolação é reavivado no tema que encerra o disco, Anda Madraço. No entanto, é oferecido um canto de esperança e que motiva à luta e à resistência face as intempéries naturais e sociais. Foi assim feito um disco de elevada sensibilidade poética, sabedoria popular, com orquestrações e arranjos fantásticos que se presenteou a Portugal nos anos 70 mas que, infelizmente, não tem hoje em dia a rotação que merece. 


Já depois da revolução de Abril, José Almada lançou NÃO, NÃO ME ESTENDAS A MÃO em 1975 e SENTIMENTO IMORTAL em 2011. É um cantautor que munido de uma grande sensibilidade para versos, consegue transmitir a alma de todas as palavras que canta e com a sua guitarra recria a melancolia de um povo que ainda sonha e almeja por algo mais. 

11 - Cantar militante 


Pedro Barroso nasceu em 1950 em Lisboa e editou nove discos de longa-duração. O primeiro LUTAS VELHAS CANTO NOVO, foi editado pós-revolução, decorrido o ano de 1977. O LP abre com o tema que dá nome ao disco. Ladeado por acordes de guitarra portuguesa, Pedro Barroso discorre versos em rima de índole contestatária política. 

Lutas velhas, canto novo
Que a resistência de um povo
Também se cria a cantar

O tema que se segue, Autobiocanção é menos corrido e mais ponderado. É uma autobiografia cantada, extremamente pessoal e com sensibilidade de poeta mas militante. 
A toada acelera em Canção da ti Angelina, com um coração francamente popular e acompanhamento de acordeão. A música roça a canção tradicional mas a letra é altamente conscienciosa e usa vocabulário algo popular para transmitir uma mensagem de crítica política. Segue-se então uma balada, O 25 de Novembro, que faz um retrato de Portugal e do seu povo. Da sua capacidade de resiliência e de luta pela continuação de um futuro melhor. O capital tem mil caras acolhe uma letra com características panfletárias e com um elevado sentido satírico e irónico. As guitarras acompanham o discurso cantado de Pedro Barroso, havendo espaço para interlúdios cómicos. 

Não percebo a preferência de agora
Pelo encarnado

Há sempre um subtexto político, por vezes directo ou através de metáforas mas sempre com elevado sentido cómico e satírico. Revisitamos a cantiga infantil As pombinhas da Cat’rina mas com uma letra recriada com metáforas por vezes brincalhonas, por vezes mais mordazes e sempre com uma mensagem de cariz social e/ou político. Em Sai um voto Puladinho há uma clara mensagem política e de consciência de voto. 

Vota vermelho bem vivo
Não votes alaranjado
Não votes verde e azul
Que para aqui não é chamado

O discurso mordaz predomina em Os Caciques e o Povo Trabalhador que acentua o poder latente dos trabalhadores e a emancipação do povo. Estimula e incentiva também o pensamento próprio e a organização popular. Esta sensibilidade que se foca na mente e coração do trabalhador é explorada longamente em Hino dos Explorados que com arranjos poderosos enfatizam a letra de cariz resistente. Esta resistência continua em Longe que ilustra um homem renascido com verdade na consciência limpa e com o conceito de liberdade. É um dos discos icónicos de um Portugal pós-revolução e que sublinha que apesar de se ter dado a revolução, nunca se deverá baixar os braços e extinguir o sentimento de resistência. 

12 - O Poder do Colectivo 


Grupo de Acção Cultural formou-se em 1974 para acolher músicos como José Mário Branco, José Jorge Letria, Fausto, Vitorino, Sérgio Godinho, José Niza, Luís Cília, Manuel Alegre, João Lóio e outros nomes como Luís Pedro Faro, Fernando Laranjeira, Afonso Dias, Tóinas, Carlos Guerreiro, Rui Vaz, Eduardo Paes Mamede, Luísa Vasconcelos, João Lisboa e Nuno Ribeiro da Silva. Foi um autêntico super-grupo de intervenção e de música folk portuguesa que em 1975 editou o icónico A CANTIGA É UMA ARMA. O disco arranca em força com o tema que dá nome ao disco e que com coros poderosos e orquestração trabalhada ilumina a letra e alguns dos seus motes fortes.

O faduncho choradinho de taberna e salões
Semeia só desalento, misticismo e desilusões
Canto mole em pedra dura nunca fez revoluções

O tema que se segue, A luta do Jornal do Comércio, relata uma greve feita por trabalhadores do jornal e a tentativa de expurgação dos infiltrados de ideologia fascista que persistiram pós-revolução de Abril. Tanto este tema como o seguinte, A luta dos bairros camarários, principiam com uma narração que explica o contexto social em que as letras se inserem. Já o contexto na canção, Alerta, é claro. Trata-se de uma música de resistência que impele o povo a abrir os olhos e a fazer face aos exploradores sociais.Em Aos soldados e marinheiros, é recitada uma carta aberta que retrata assuntos como colonialismo e fascismo. A Ronda do Soldadinho é talvez uma das canções mais melódicas e assentes em acordes de música tradicional, narra a história de um menino inocente que cresce e é feito soldado, mandado para a guerra. É uma coming-of-age cantada. Os ritmos africanos sentem-se em Viva Guiné-Bissau, livre e independente. Uma música que conta com coros que apoiam a vocalização principal. É um canto de exaltação de liberdade para a Guiné-Bissau. O tema que fecha o disco, Em Vermelho, em Multidão, é um autêntico hino de resistência e apelo à luta contra uma classe burguesa travestida de pseudo ideais democráticos mas que ainda acalenta e faz germinar os ideias fascistas do passado.


No ano seguinte, GAC edita POIS CANTÉ!!. O disco começa com a triunfante Pois Canté! com letra e música de José Mário Branco e que musicalmente conta com instrumentos de sopro e uma agradável voz feminina que acompanha a voz masculina. 
É em Cantiga sem Maneiras que temos, finalmente, o foco e luz numa voz principal feminina. É a voz de Toinas (Maria Antónia Vasconcelos) que se destaca com uma letra revolucionária, a passo entre o cantado e o falado, com uma textura de suporte suave de música tradicional de Trás-os-Montes. 
Em A Herdade do Val Fanado, temos mais uma vez a presença de coros numa melodia de fortes traços alentejanos. É também uma cantiga de resistência. 
É em Cantiga do Trabalho que nos deixamos flutuar numa corrente quase hipnótica proporcionada pela melodia e pela vocalização suave, de registo baixo quase como se de segredos se tratassem. Partimos para o campo do popular em Coro das Maçadeiras, uma melodia de cariz extremamente popular em que de forma melódica ouvimos um cantar de um povo que não se deixa enganar mais por falsas promessas.

Não nos venham os doutores
Com promessas para votar
Nós queremos democracia
Mas com o povo a mandar

Em Maria temos a denúncia da desigualdade de salários entre homem e mulher. É um retrato de uma mulher trabalhadora que é explorada pelo patrão e que ainda acarta por si a responsabilidade de cuidar dos filhos. Uma sincera e tocante homenagem a muitas mulheres da época que lutaram e sonharam pela emancipação das mulheres.
O Sol a Pôr é uma melodia carregada em vozes de coros femininos acompanhadas por adufes. As mãos dos trabalhadores conta com música e letra de José Júlio Gonçalves. É uma ode aos trabalhadores deste mundo que realça o seu lado sensível mas consciente e activo. É uma música reforçada pelos toques delicados de flauta. A composição e letra ficam a cargo de José Mário Branco. Em Coro dos trabalhadores emigrados conta com coros de inspiração de cantar alentejano que ocupam os espaços em que não há instrumentalização. 

Ir e Vir é a música que se segue. Inicia-se com uma teia densa de violoncelos que acompanham a música nos momentos oportunos. É constituída por um melódico entrançado de guitarras que seguem e complementam a voz que também, numa cadência de ir e vir, nos entrega o relato da vida e trabalho de um pescador. É uma das músicas mais poderosas do disco e foi composta por João Lóio. Segue-se Canção da Jorna, também ela composta por João Lóio. É um tema que acarreta uma forte natureza popular e que se quebra num refrão de onomatopeias que solidificam uma letra de crítica social. 


O tema que termina o disco, Casas sim! Barracas não! Inicia-se com um coro típico de GAC e que depois segue a solo com uma voz masculina que narra a realidade de um trabalho que constrói casas mas que vive em condições bastante precárias.
É um disco de intensa crítica social e imerso em melodias de música com uma génese muito portuguesa. GAC editou mais dois discos nos anos seguintes. …E VIRA BOM em 1977 que revisita canções tradicionais e populares portuguesas e …RONDA DE ALEGRIA em 1978. Um ano que marcou a dissolução desta banda. Com respeito pelas raízes da música tradicional portuguesa mas revisitando-a e recriando-a com temas da sua actualidade social, GAC foi um importante grupo e voz colectiva na psique de um povo que após uma ditadura, ansiava por uma reformulação de mentalidades e ideias. 

13 - A Intervenção da Pop 


Shila nasceu em 1949 no Canadá mas foi em Portugal e em 1977 que editou DOCE DE SHILA. Conta com os arranjos do então esposo, Sérgio Godinho e com as colaborações de Carlos Zíngaro e Fausto. É notória a escassez de mulheres na dita música interventiva. A presença de Shila não colmata de todo esse vazio mas foi uma voz activa que com alguns floreados de ordem mais pop soube interpretar alguns dos temas, compostos maioritariamente por Sérgio Godinho. 

O disco conta com dez temas. Espectáculo é a primeira canção, os arranjos são cuidados e refletem as tendências da actualidade na altura. Em Chula, o registo muda para algo mais tradicional com a voz de Shila a destacar-se por entre a melodia. No tema seguinte, Doce de Shila, volta-se a seguir por uma corrente um pouco mais pop setentista acompanhado por uma letra agri-doce. 


Mas em Mais um Filho, voltamos ao som tradicional com uma letra que reflecte as condições das mulheres na época e com um refrão certeiro que é cantado em coro. 

Mais um filho
Isto aqui é só miséria
Mais um filho
E a mulher que o carregue

É o tom confessional e introspectivo que caracteriza Flor e a Enxada com uma orquestração algo clássica. 

Eu gostava de viver
Onde a minha voz tem vida
Onde a voz tem dimensão
Como a vida tem razão
Entre a flor e a enxada
Entre a calma e o vento

Um dos temas mais interessantes é mesmo Rapa, Tira, Deixa e Põe que se deixa conduzir por notas de um violino carismático, acompanhado pela divertida métrica e interpretação da voz. 

Rapa, rapa o prato 
E põe-te a lutar
Tira, tira, tira
Tudo do seu lugar

Em Rosie, é musicado um poema de Reinaldo Ferreira com guitarras ligeiras a arriscar algum funk. É um poema fluído e que evoca alguma atmosfera de boémia subtil. 

E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une – é estar ausentes.

Gente assim, é o tema que finaliza o disco. É uma música que une ao tradicional ao moderno e que conta com coros melódicos. A letra é simples mas é uma dedicatória a quem luta e nunca desiste. 

Gente assim
Não desiste à primeira
Gente assim
Quer se queira quer não queira
É bela


Conclui-se assim um disco que traz uma leveza pop à resistência e intervenção mas sabendo harmonizá-las e não retirando delas o rigor que as eleva. 
Em 1979 muda um pouco o seu rumo musical e edita LENGA-LENGAS E SEGREDOS. Um disco mais maduro que o anterior e rico na sua diversidade de influências. O tema escolhido para começar o disco foi Teresinha com letra e música de Chico Buarque. A música combina na perfeição uma guitarra portuguesa com a atmosfera algo jazz da composição. 
O tradicional é revitalizado no tema seguinte, Gôta da Meadela. É uma deliciosa canção popular. O pézinho de dança pode ser estimulado por Pulga, tema composto por Sérgio Godinho. Uma fábula com um subtexto interessante. Continua a dançar-se em Valsa, tema escrito por João Lóio. O baile continua com Sempre foi Assim, que arranca de forma bastante forte e que depois suaviza um pouco até chegar novamente ao refrão. 

Antes lá por onde andares
Escolhe bem o teu irmão

O baile termina para dar lugar a uma canção confessional em Eu não tenho a Certeza, música composta por José Mário Branco. É uma música de composição progressiva mas delicada e que faz uma análise ponderada ao amor. Contém bastantes interlúdios instrumentais suportados pela voz de Shila. Segue-se um tour de force em Invejo, logo Existo. É uma música composta por Sérgio Godinho e aborda de forma divertida mas mordaz, o sentimento verde, a inveja. Um caso típico de “A galinha do vizinho é sempre melhor que a minha” mas invariavelmente, quem assim pensa e sente, dará por si a assaltar todos os galinheiros da vizinhança e mesmo assim não se dará por satisfeito. 

Invejo logo porque existo
Com um misto de despeito e de desejo.
E quando um dia formos viver no cemitério
Dos velhos semi-mortos
No mesmo cemitério
Será que já estarás mais morto do que eu
Será que o teu caixão é melhor do que o meu

Em Cabecinha fria com música de Sérgio Godinho, embarcamos numa viagem de cariz um pouco mais melancólico. O registo de voz é confessional e narra uma viagem de auto-descoberta. É com um corridinho tradicional e popular que encerra o disco. Já passei a roupa a Ferro, tem uma letra assumidamente popular que é embelezada por instrumentos tradicionais. Uma canção popular que enriquece o imaginário musical português. 
Foram estes dois discos que marcaram a carreira musical de Shila que com mestria uniu a sensibilidade pop anglo-saxónica com a alma tradicional portuguesa. 

14 - Fado resistente 


O fado sempre foi considerado como um género musical aliado e complacente com o regime fascista. No entanto, a vida não é feita de apenas preto e branco, havendo nuances de outras cores. Amália Rodrigues foi e é considerada como a voz mais importante deste género musical assumidamente português, no entanto, muitos dos seus sucessos foram obra de um homem, Alain Oulman, que arrebatado pela voz e personalidade de Amália escreveu os temas do disco de 1962, BUSTO. É um disco clássico do fado que prova que a poesia cantada continuava viva em pleno regime ditatorial fascista. 


Alain Oulman acabou por ser perseguido pela PIDE e deportado para França, apesar dos esforços de Amália. Feita a revolução de Abril, foi a vez de Alain Oulman defender Amália Rodrigues dos que a acusaram de ser aliada do regime fascista. 

Amália Rodrigues pode não ter sido interventiva ou abertamente activa na causa pela liberdade, mas expressou os desejos, emoções e sentimentos de um povo através da sua voz que permanecerá intemporal. 

Conclusão: 
Seja através de analogias, metáforas ou até fábulas, a música interventiva para além da sua importância social e política, serviu também para enriquecer e revitalizar a música tradicional portuguesa. Partindo da sabedoria popular mas enfortecendo-se com cultura, poesia e consciência, soube oferecer ao povo a voz que era precisa. Uma voz que o povo merece. 


TEXTO: CLÁUDIA ZAFRE