Noite quente, um carro  amolgado e empoeirado,  com a janela do condutor aberta, percorre uma estrada deserta,  iluminada pelos farói...

Por mais metamorfoses que o seu imaginário possua, o submundo selvagem, melancólico e semi-macabro de Mark Lanegan perdura


Noite quente, um carro amolgado e empoeirado, com a janela do condutor aberta, percorre uma estrada deserta, iluminada pelos faróis. Quem conduz o carro tem apenas uma garrafa de whiskey como companhia. Esta introdução poderia ser a abertura para um filme sobre a vida de Mark Lanegan. Detentor de uma voz que poderia narrar os livros de Jack Kerouac — autor que não deixou a moral intimidar o relato das suas experiências —, Lanegan regressa a Portugal, acompanhado pela sua banda, para apresentar o mais recente "Somebody's Knocking".

No seu livro "Sleevenotes" faz a seguinte auto-descrição:
Ao crescer numa pequena cidade rural entre os sopés das montanhas Cascade e o alto deserto da zona oriental do estado de Washington, EUA, os meus interesses em criança eram a pornografia, o jogo, beber, fumar erva e cometer todo o tipo de pequenos delitos. Aos 14 anos, por pura providência, ouvi o tema "Anarchy in the UK" dos Sex Pistols que mudou a minha vida para sempre.

Neste regresso a Portugal, ainda que sempre carregando uma aura pesada, sentimos um Mark menos recluso e mais sociável; verdade seja dita, neste último trabalho, "Somebody's Knocking", apesar das letras conterem a constante carga soturna, instrumentalmente é um álbum mais leve e festivo. Lanegan tem ligações a Portugal. Na adolescência leu Fernando Pessoa, visitou os palcos do país umas quantas vezes e cimentou uma relação de amizade com os Dead Combo, banda que há pouco anunciou cessar actividade.

No concerto do Hard Club, Porto, numa noite de chuva em que se festejava o Halloween, desejou, nas passagens entre as primeiras canções, de maneira directa e seca, "Bom Halloween"; como se o próprio fosse o anfitrião da festa onde pessoas mascaradas rejubilaram ao som da guitarra de Jeff Fielder, moldada por efeitos, criando um ambiente fantasmagórico e macabro. O concerto discorreu, essencialmente, "Somebody's Knocking", álbum produzido por Alain Johannes, gravado em Los Angeles, numa sessão de estúdio que durou 11 dias e cuja temática tem as suas principais influências na Europa. Longe de ser o melhor trabalho de Lanegan, este último é, no entanto, uma surpresa, embora, tematicamente, não seja mais alegre - em comparação com grande parte do seu trabalho -, instrumentalmente, tem batidas catchy e temas orelhudos, capazes de entreter as pessoas mais tristes, entrando no género mais dark do gótico/rock e pós punk, ao estilo New Order e Joy Divison. Com a sua voz sedutora e cem porcento envolvente, as letras sobre mau comportamento e vidas desastrosas continuam a fazer parte da temática do músico, que vive continuamente em conflito existencial.


Lanegan é um nome incontornável do rock. Foi ex-vocalista dos Screeming Trees, participou em vários álbuns de Queens of The Stone Age, juntou-se a Isobel Campbell, ex-vocalista dos Belle & Sebastian para um projecto único e, pelo meio, editou mais de 9 álbuns e um EP a solo. Um músico criativo/autor/apaixonado e solitário, sempre honesto com as canções que escreve."Somebody's Knocking" reúne uma compilação de temas descomprometidos e sem preconceitos, passando por ambientes mais electrónicos, linhas limpas de teclado no compasso do beat electrónico. Apesar do tema Penthouse High tender para o género disco-house, a marca vocal de Lanegan reflecte o seu lado mais cru com infusão blues: Don't you come inside this house / There's a ghost inside this house. Um tema escrito pelo produtor Alain Johannes e título sugerido por Greg Dulli. Lanegan acrescenta, em Sleevenotes, que em toda a sua vida uma das suas ambições seria cantar um tema disco.



Temas como Disbelief Suspension, Night Flight to Kabul e Stitch It Up têm maior duração, são mais duros e mais orientados para o rock, levando qualquer misantropo a desperdiçar o seu dinheiro numa noite.


Certamente muitos fãs de longa data que acompanham a vida rockeira de Lanegan ficarão intrigados com a abertura e eclectismo em experimentar outros géneros, desligando-se um pouco do rock para explorar um lado mais new wave e electrónico; influências que o músico foi adicionando ao longo dos anos como Einsturzende Neubauten, Joy Division, Bauhaus, Coil,The Leather Nun, Kraftwerk. O lado sombrio de Lanegan perdura, no entanto, aqui observou-se um mais animado, desafiante de uma maneira que não se via há um tempo, pronto a ir parar à parte VIP de uma festa a abarrotar com luzes de disco a piscar. 


Hit the City, Bubblegum, Mark Lanegan Band

Mark Lanegan e a sua banda revisitaram outros álbuns: "Bubblegum" com Hit the City, desta vez suportado pela voz de Shelley Brien e One Hundred Days, e do álbum "Gargoyle" com Sister. Um dos momentos mais altos da noite foi a balada Bleeding Muddy Water de "Blues Funeral" e Harborview Hospital do mesmo álbum. Apesar de ser um dos temas mais nostálgicos, que aborda a sua mudança para a terra do grunge — termo a que o músico não gosta de ser conotado —, é também um dos mais impressionantes. Harborview Hospital refere-se ao tempo passado no seu pequeno apartamento em First Hill, mais comumente conhecido por "Pill Hill". O seu apartamento encontrava-se a um quarteirão do centro mais caótico da cidade, perto de três grandes hospitais, onde se ouviam constantemente o som das sirenes das ambulâncias, das buzinas dos táxis e o grasnar das gaivotas; a mistura sonora era tão presente que a certa altura tornou-se ensurdecedor. Já habituado à poluição sonora daquele centro, só se apercebeu do mesmo assim que recebia visitas em casa. Recorda que o tempo que lá passou foi o mais triste e o pior período da sua vida. O tema foi escrito depois de uma viagem que fez ao norte dos Estados Unidos, aquando de um passeio pelo velho quarteirão, depois de ter passado um longo tempo fora.

Após os vários aplausos da audiência que ansiava o retorno da banda, eis que tocam o belíssimo tema intimista Come to Me, originalmente cantado pela inconfundível voz de PJ Harvey, (como acontece com Hit the City), seguindo-se The Killing Season de "Phantom Radio".


Além da digressão, o músico prepara o seu próximo livro, “Sing Backwards and Weep”, uma autobiografia que é uma compilação de boas e más memórias a pedido do seu amigo Anthony Bourdain. O seu lançamento está marcado para abril do próximo ano. Lanegan observou e passou por várias tragédias, desde amigos que faleceram devido ao consumo de drogas (entre eles, Kurt Cobain e Layne Staley) a um casamento que se desfez e sobre o qual originou o tema mais honesto que escreveu Strange Religion, que aborda os momentos passados com a sua ex-mulher. 






De uma maneira muito honesta, detalha o método que segue para escrever canções:
Durante os meus primeiros anos na banda, eu simplesmente cantava as músicas escritas pelo guitarrista, enquanto tentava guiar as composições e as sensibilidades dele em direcção a algo vital. A música em si era crua e agressiva, influenciada pelo nosso amor pelo punk-rock mas as letras e a apresentação em palco do motor da nossa música - o guitarrista Gary Lee Conner - soava-me a algo muito falso, como as bandas de duração fugaz dos anos 60 do movimento de garagem e psicadelismo que voltou a ser popular durante breves tempos nos anos 80. Ainda assim, o meu input criativo era o ocasional e muito complicado processo de tentar substituir o psicadelismo das letras, as melodias e a fraseologia presentes na música, em uma outra coisa que encaixasse foneticamente, retivesse as mesmas rimas, mas que tivesse uma frescura e um significado pessoal para mim. 

Depois de me mudar para Seattle, tomei consciência e comprei uma guitarra quando me ofereceram um contrato para tocar a solo, a minha única motivação na altura, além do desejo de fazer música que conseguisse levar a sério, era a falta de dinheiro. O avanço para a primeira gravação foi a maior quantidade de dinheiro que tinha tido na minha vida e por fim, deixei de ser preguiçoso e comecei a compor temas com o meu próprio estilo, uma idiossincrasia ancestral de um neanderthal a tentar fazer fogo.

Uma canção não é a vida real, mas todas as minhas canções partem de uma forma de realidade e quase sempre rumam a um submundo semi-macabro que brota do meu imaginário selvagem e melancólico. A semente de uma canção pode ser uma experiência actual, um relacionamento, pensamento ou algo que ouvi, li ou vi algures. Algumas contam uma história ou são sobre uma pessoa real, mas em retrospectiva, apercebo-me que são todas essas coisas e nenhuma delas ao mesmo tempo. Elas nunca se passam numa localização precisa mas existem num lugar que recordo nebulosamente, um lugar completamente ficcional ou na maior parte das vezes, num mundo como eu desejo que ele seja e não como ele é realmente. Para mim, a localização é imaterial porque a sua verdadeira pertença é num estado de espírito, num sentimento, nos pedaços quebrados de sonhos e pesadelos fantasmagóricos. 

Exteriormente a algumas canções, raramente considero o que uma letra realmente representa enquanto a escrevo e em vez disso, concentro-me na fraseologia e no mapa da melodia em cima da progressão dos acordes gerados pelas guitarras, teclas, sintetizadores ou mesmo em cima de uma batida feita sem música numa caixa de ritmos depois deixo maturar por uns dias, revisito-a e se ainda achar a melodia aprazível, começo a formar palavras que acho instintivamente apropriadas para a melodia e para a canção. Elas surgem aparentemente do nada e fico sempre chocado se elas fazem sentido para mim e ainda mais quando fazem para as outras pessoas. Sinto-me feliz a dizer que nunca peguei em palavras já escritas para as forçar numa peça de música, de acordo com as minhas sensibilidades isso parece-me uma trapaça e em oposição directa com o que gosto de pensar que são formas de criação animalista ou sobrenatural, os meus dois diferentes mas usualmente interligados métodos de construção lírica.

Tenho quase toda a certeza que consigo distinguir quando ouço uma canção onde esse modo literado, intelectual, poético método de composição é empregue e nunca me soa a algo verdadeiro. Se não vem do etéreo ou da alma, então que se lixe porque não é para mim, e da mesma maneira, no meu mundo, o humor negro na música feito com bizarria e panache é fixe mas canções ditas cómicas já não o são. Eu gosto muito de comédia mas prefiro o estranho ou o sincero no que toca a música com a qual me identifico. Músicas com piadas e coisas do género podem chupar a minha pila ferida e massacrada. 

Durante o tempo, a minha composição passou a ser uma forma de terapia e uma obsessão em si mesma que permite muitas mais obsessões, houve alturas em que me sentia tão em baixo, tão destituído em espírito e alma que essas canções e ideias de canções eram tudo o que tinha e eram literalmente a única coisa que me permitia continuar. Houve alturas em que estava em palco a cantar a mesma música pela milésima vez, anos depois de a ter gravado, quando sou assolado pelo verdadeiro significado das letras, o que ou quem é que sobre eu estava realmente a cantar e foi um choque para o meu coração todas essas ocasiões. Eu deveria tirar um tempo um dia destes para agradecer a todos os homens que me ofereceram aquele tal dinheiro há muitos anos atrás, e aquele sombrio, transgressor habitual dos becos que disse "sim" a essas ofertas. Essa simples transacção colocou algo em movimento que não apenas me deu uma razão para viver, mas uma dádiva que me tem salvado durante todos estes anos. 


No final o músico autografou livros e álbuns comprados pelos fãs que o aguardavam com ansiedade. 

A confusão mental, a indecisão fazem parte dos dilemas da vida. O lado misterioso e auto-destrutivo de Lanegan, aproximam-no dos fãs que não se deixam enfadar pela sua voz rouca e serpenteante, porque o que faz é honesto. Haverá melhor renascimento que esse


(...) é sucinto e espectacular do princípio ao fim. Existe uma grande noção de espaço neste álbum que é fantástica, mas o que mais me atrai é a melancolia presente em algumas canções. Também tem uma qualidade cinemática. 

Os australianos surgiram em 1977 no auge do movimento punk. A banda durou apenas dois anos, mas, pouco tempo depois, Simon Bonney, mudou-se para Londres para perspectivar um melhor futuro para a banda.



Simon Bonney, acompanhado por Bronwyn Adams, passou pela noite de quinta-feira no Hard-Club. Bronwyn Adams fala do tema Time Machine criado em homenagem ao irmão que faleceu há 10 anos, "um grande homem", afirmou a violinista e vocalista. O concerto colmatou com a seguinte questão: "But I want to know what it feels like to be betrayed", temática que sempre marcou a identidade da banda; traição, amor, crise existencial e a transcendência.

Texto: Priscilla Fontoura
Imagens e Vídeo: Priscilla Fontoura e SP
Tradução de excertos do livro "Sleevenotes": Cláudia Zafre
Fonte: Livro "Sleevenotes", Mark Lanegan
Concerto: Mark Lanegan Band
Local: Hardclub, Porto, 31 de Outubro, 2019
Promotora: Lemon Entertainment