Se calhar já os confundiram ou disseram que seriam uma espécie de The White Stripes portugueses. Ela, Susie Filipe , é baterista e vocali...

Siricaia levantam lentamente o véu de Família Fandango

Se calhar já os confundiram ou disseram que seriam uma espécie de The White Stripes portugueses. Ela, Susie Filipe, é baterista e vocalista, Ele, Vítor Hugo, vocalista e guitarrista, e formam os Siricaia.

O duo aveirense Susie Filipe e Vítor Hugo surge em 2019 e projecta para 2020 o disco Família Fandango, cujo objectivo passa por cruzar o antepassado com as sonoridades contemporâneas. Ritmos tradicionais portugueses ao jingle swing, guitarras eléctricas, cavaquinho são géneros e instrumentos que farão de Família Fandango um compêndio onde estarão reunidas as histórias de família de quatro gerações.

© Imagem João Roldão

- Como tem sido viver nesta imprevisibilidade causada pela pandemia?
Não tem sido fácil sobreviver à pandemia mantendo uma atitude positiva, já que todos nos sentimos ameaçados e confusos, sem saber o que nos espera. Pensamos que faz parte da condição humana estarmos sempre à prova, e, por isso, talvez devamos encarar esta nova fase com calma e tolerância, ainda que seja difícil, especialmente na nossa área, altamente lesada em termos profissionais. Para este ano, tínhamos programado a gravação do nosso 1º álbum, “Família Fandango”, e, por isso, desde Março, que tentamos investir todo o nosso tempo no trabalho de estúdio, nas gravações e misturas deste novo disco, em conjunto com o produtor, Quiné Teles. Paralelamente, temos estado a preparar o lançamento e digressão do "Família Fandango", tendo em conta estes tempos novos e incertos. Serão certamente tempos difíceis os que se avizinham, mas também de novas rotas, ciclos e direções. Esperamos, de qualquer maneira, conseguir levar esta família a várias cidades do nosso país.

- Susie e Vítor podem falar um pouco sobre o vosso background criativo?
A Susie, tendo passado por várias artes cénicas, como o ballet, o rancho e a ginástica artística, escolheu dedicar-se especialmente ao teatro, ao cinema e à música. Há 10 anos que vive entre estas três artes e tenta conjugá-las sempre que possível. O Vítor Hugo começou a aprender guitarra aos 10 anos e em 2009 ingressou no London Center of Contemporary Music. Desde então, tem-se dedicado unicamente ao ofício da música em vários projetos. A título colectivo, o nosso background criativo advém essencialmente da nossa convivência, dos livros que partilhamos, das sessões pipoca que fazemos, da música que ouvimos, das viagens que fazemos, dos amigos que vamos ganhando, etc.


- Têm conjecturado o lançamento de Família Fandango para este ano, podem falar como tem sido construído o conceito e em que estado se encontra o disco?
Temos conjecturado o lançamento oficial do disco para o início de 2021, no entanto, temos vindo a levantar o véu lentamente, como aconteceu, nomeadamente, com o lançamento recente do vídeo-clip da "Yé-Yé", uma música baseada numa viagem frenética nas clássicas pasteleiras, que fará parte do disco "Família Fandango. A nossa ideia é irmos partilhando as músicas que constituem este álbum com o público, culminando no lançamento do LP na íntegra em vinil e digitalmente através do filme "Família Fandango", rodado no CAA (Centro de Artes de Águeda). Como bem descrevem na vossa introdução, este álbum baseia-se na história parcialmente verídica, parcialmente fictícia, de uma família tipicamente portuguesa, recorrendo a instrumentos do nosso imaginário lusitano, assim como a elementos mais contemporâneos. O álbum já se encontra todo gravado e em fase de mistura e masterização.

- Têm alguma formação musical? Nota-se um modo de tocar mais “disciplinado”. 
Sim, temos alguma formação musical, no entanto, sentimos que as nossas principais disciplinas são a estrada e a música que ouvimos.

- A mistura entre raízes portuguesas e outras mais contemporâneas, progressivas e jazzísticas cria o fandango de fusão que também encontra noutras possibilidades, como a inclusão de sons de bicicleta (buga), meio de transporte tão característico da vossa cidade, a oportunidade para poderem contar, pelos sons, as histórias de família dividida por quatro gerações. Quais são as histórias que querem contar, se é que podem avançar?
Claro que podemos e queremos, aliás, estamos bastante desejosos de partilhar este álbum com o público. "Família Fandango" é constituído por 11 temas, que se entrelaçam e em conjunto criam a narrativa do álbum, que será completada pelas ilustrações do pintor João Fino. A ideia mãe do disco é uma viagem no tempo, desde a segunda metade do século passado até aos dias de hoje. Assim sendo, em termos de sonoridades, decidimos incluir sons que fazem parte da nossa identidade (sons das Yé-Yé, dobre a finados, toques de mensagem, choros de bebés, sirenes de polícia, etc). O álbum relata discussões conjugais, viagens de pasteleira, devaneios de uma avó, noites fandangueiras de um avô fanfarrão, jantares de família, entre muitas outras coisas típicas da nossa cultura.

- Têm em perspectiva juntar vários músicos para trazer ao álbum elementos mais populares e tradicionais da música portuguesa e assim cruzar essa memória passada à contemporaneidade, um desses exemplos é o single Yé-Yé com o Jorge Loura. Já tinham pensado em convidar estes músicos em particular ou foi acontecendo no decorrer das gravações?
Sim, temos vindo a convidar vários músicos de diferentes quadrantes musicais para participar neste álbum, desde cavaquinhos e concertinas até sintetizadores e saxofones. No entanto, estes instrumentos não estavam previamente pensados. Basicamente, fomos criando as músicas e decidindo que instrumentos e músicos poderiam contribuir para esta construção. Acima de tudo, foi sempre vontade nossa que este álbum, apesar de ser pensado a dois, tivesse algo de coletivo e familiar, como o próprio título sugere.

- Após esta pandemia como prevêem a apresentação do vosso disco ao vivo, já têm datas marcadas?
Prevemos uma apresentação convencional, obviamente seguindo as normas da DGS. Uma vez que não conseguiremos levar esta família de músicos amigos para a estrada, este espectáculo terá uma forte componente de vídeo, possibilitando a presença virtual deste naipe de artistas. Em breve, anunciaremos a digressão de apresentação.

- Temos uma rubrica intitulada Bagagem, onde pedimos 5 livros, 5 discos, 5 filmes/séries. Neste tempo de maior confinamento, em paralelo com as vossas gravações, se calhar também vos restou algum tempo para colocar a vossa “Bagagem” em dia. Quais são as vossas últimas actualizações?
Livros: "Lady Chatterley's Over", D. H. Lawrence; "A última Porta", Manuel de Freitas; "Contos da Montanha", Miguel Torga; "Manifesto Surrealista", André Breton; "A morte de um Apicultor", Lars Gustafsson;
Discos: "A voz, o violão, a música de Djavan", Djavan; "High-Flying", Hirosama Suzuki; "Look to the Rainbow", Al Jarreau; "Rough and Rowdy Ways", Bob Dylan; "Véspera", Clã
Filmes: "Mucize", Mahsun Kirmizigül ; "Umberto D." Vittorio de Sica; "Breaking the Waves", Lars Von Trier.
Séries: "Unorthodox", Maria Schrader; "Sara", Bruno Nogueira e Marco Martins.

Texto e entrevista: Priscilla Fontoura
Entrevistados: Siricaia, Susie Filipe e Vítor Hugo
Imagem: João Roldão