A partir de duas imagens de Robert Johnson constrói-se a narrativa visual do documentário expositivo Devil at the Crossroads, realiza...

Breaking the fourth wall: «Devil at the Crossroads» (2019)


A partir de duas imagens de Robert Johnson constrói-se a narrativa visual do documentário expositivo Devil at the Crossroads, realizado por Brian Oakes, que procura contar a história — em parte inevitavelmente especulativa, dada a escassez de registos — da vida daquele que viria a tornar-se uma das figuras mais míticas do Delta Blues.

Contrariamente a algumas interpretações que sublinham sobretudo a influência dos hinos das igrejas evangélicas do Mississippi na génese do blues, este género musical resulta de uma confluência de tradições: os cânticos religiosos, os spirituals, os work songs e os field hollers entoados nos campos de algodão pelos escravos afro-americanos, bem como heranças musicais africanas. A música terá funcionado como forma de resistência simbólica e catarse colectiva, um meio de expressão do sofrimento imposto pelo sistema escravocrata e pela segregação racial que se lhe seguiu.


Apesar das limitações sociais impostas pelo contexto do Delta do Mississippi, Johnson contrariou o destino que lhe parecia traçado e fez da guitarra o seu instrumento de afirmação artística. Num dos primeiros momentos em que tentou apresentar-se publicamente, terá sido ridicularizado por um público conhecedor de blues, que o considerou um guitarrista medíocre, apesar de já demonstrar competência como tocador de harmónica. Após esse episódio, desapareceu da região durante cerca de um ano e meio.

O documentário reúne diversos testemunhos, entre os quais o de Steven Johnson, que se identifica como seu descendente e que apenas na idade adulta terá descoberto essa ligação familiar. Independentemente das zonas de incerteza biográfica, a influência de Johnson é inegável: músicos como Bob Dylan, Keith Richards, Eric Clapton e Robert Plant reconheceram o impacto decisivo da sua obra na história do rock e do blues.


Poderia pensar-se que, no filme O Brother, Where Art Thou?, dos Coen Brothers, a personagem Tommy Johnson constitui uma referência directa a Robert Johnson. No entanto, trata-se de outro músico de blues, também associado ao mito da encruzilhada. Segundo a tradição popular, um guitarrista chamado Tommy Johnson — sem parentesco com Robert Johnson, mas oriundo igualmente do Mississippi — teria vendido a alma ao diabo numa encruzilhada em troca de talento musical excecional. A lenda, transmitida oralmente e registada em relatos familiares, contribuiu para alimentar o imaginário em torno da figura do músico possuído por uma técnica quase sobrenatural.

Dos 29 temas que Robert Johnson gravou antes da sua morte prematura, destacam-se "Terraplane Blues", "Cross Road Blues", "Come On in My Kitchen" e "Walking Blues", composições que se tornaram referências incontornáveis do repertório blues.

A vida de Johnson foi marcada por dificuldades. Viveu com a mãe e o padrasto numa casa modesta no estado do Arkansas. Ainda muito jovem, casou-se com Virginia Travis, proveniente de uma família profundamente religiosa. Durante uma das suas deslocações musicais, Virginia morreu no parto, juntamente com o filho do casal — um acontecimento que terá marcado profundamente o músico.

Após o desaparecimento de Johnson, surgiram muitos mitos criados pela comunidade. Depois de um ano e meio, o transformado Johnson reapareceu com a sua guitarra de 7 cordas para tocar frente ao público que outrora o tinha vexado. Este novo Johnson dominava a guitarra como ninguém; baixos e solos eram tocados simultaneamente ao ritmo da mesma mão, enquanto as línguas do público espalhavam que o músico teria feito um pacto com o diabo, por tocar com tanta mestria num tão curto espaço de tempo. Diziam que teria vendido a alma ao diabo em troca de talento e fama. Mas... quando se faz um contrato com o diabo, há um preço a pagar. E assim aconteceu... Verdade ou mito, a lenda consolidou-se.

Robert Johnson morreu em 1938, aos 27 anos, alegadamente envenenado, integrando assim o chamado “Clube dos 27” — grupo informal de músicos cuja morte precoce contribuiu para a construção de um estatuto mítico.


Texto: Priscilla Fontoura
Imagens: Frames do doc. Devil at the Crossroads, Brian Oakes