Palavras-chave: terror, suspense, banda sonora  Resumo: A atracção do ser humano pelo que mais o assusta sempre foi um poço de cr...

BANDAS SONORAS EM FILMES DE TERROR: o som do medo (primeira parte)

Palavras-chave: terror, suspense, banda sonora 

Resumo:
A atracção do ser humano pelo que mais o assusta sempre foi um poço de criatividade bem aproveitado na literatura, pintura e acima de tudo na sétima arte. O género de filmes de terror pode não agradar a todas as pessoas, mas é um reduto aconchegante para alguns cinéfilos e um género que tem vindo a desenvolver-se cada vez mais e a ganhar novos adeptos. O som e a música são elementos essenciais neste tipo de filmes, por isso, não é de admirar que muitos temas tenham ficado para sempre impressos no nosso consciente colectivo. Os homicídios elaborados de Hitchcock, forças sobrenaturais e paranormais, slashers ou retratos de realidades tortuosas, há todo um menu de medo e sombras que os espectadores podem escolher e apreciar.

1- Introdução a Psycho, Bernard Herrman (1960) 



Psycho é um dos filmes mais populares de Alfred Hitchcock e um dos grandes clássicos do cinema. A infame cena do homicídio no duche é uma das mais reconhecidas universalmente e a banda sonora/score composta por Bernard Herrman ajudou e muito para que este filme ficasse retido no imaginário do cinema mundial. O tema que se ouve na cena em que Marion Crane é brutalmente esfaqueada por um maníaco Norman Bates travestido é um clássico que será sempre utilizado para descrever cenas de profunda tensão e que culminam numa morte violenta. É um aglomerado de violinos agudos e violentos que preenchem a cena e dão ainda mais crueza e realismo ao assassinato. Esta banda sonora clássica para um clássico recai numa composição de género cromático em que vários motifs de tema são utilizados frequentemente. É uma banda sonora que também ajuda a ilustrar a configuração psicológica das personagens, especialmente a repressão sexual e confusão mental de Norman Bates. Personagem inspirada em Ed Gein num livro escrito por Richard Bloch que captou a atenção de Hitchcock para realizar Psycho. Um dos filmes mais icónicos do género de thriller e terror. Esta banda sonora é inteiramente tocada por instrumentos de cordas orquestrais e tanto é ameaçadora quanto “assombrada”, permanecendo como uma das peças composicionais mais complementares para filme e que continua a reter a mesma frescura nos dias de hoje.

2 Carrie, Pino Donaggio (1976)



Carrie é capaz de ser o filme perfeito para uma campanha anti-bullying. Rapariga problemática (Carrie) com mãe opressora e fanática religiosa tenta ser igual aos seus colegas, mas é bullied constantemente. Uma colega sente pena dela e tenta mudar a situação. As coisas correm mal e corta para: Carrie mata toda a gente. Este clássico do cinema de terror foi escrito por Stephen King num livro que agarra desde a primeira palavra e que foi transporto para o ecrã por Brian De Palma. A banda sonora era para ser composta por Bernard Herrman, mas o compositor acabou por falecer após completar a banda-sonora de Taxi Driver, sendo que a tarefa de compor a música do filme recaiu em Pino Donaggio (que também compôs a de Dressed to Kill realizado por De Palma) e que com algumas reminiscências do trabalho de Herrman (que constituiu uma homenagem) consegue transmitir inocência, pureza, raiva e melancolia. Existe também uma progressão na música que acompanha a narrativa, primeiramente a música é suave e inocente assim como Carrie que começa a acreditar que pode finalmente ser aceite pelos seus colegas, mas depois quando o incidente com o balde de sangue que leva ao massacre acontece, a música assim como o estado de espírito de Carrie muda completamente, havendo bastante tensão nos instrumentos e alguma dissonância. É uma banda sonora que anda lado a lado com o desenvolvimento psicológico da personagem.

3 - Halloween, John Carpenter (1978)


Michael Myers, serial-killer da saga Halloween é tanto uma figura de cultura popular quanto é o tema principal do filme. O tema composto por John Carpenter continua a ser um dos mais reconhecidos mundialmente e que nos remete automaticamente para o assassino de máscara branca, impassível e aparentemente calmo que assassina brutalmente as suas vítimas. A banda sonora composta por Carpenter assenta principalmente no uso de piano e sintetizadores que complementam e acentuam a atmosfera aterradora e tensa do filme. Há também o uso de alguns motifs sonoros que são mudados ligeiramente e usados para acentuar os momentos mais tensos do filme, antes e durante as execuções das vítimas por Michael Myers. Estes momentos de homicídio são sublinhados pela banda-sonora/score e ajudam a criar momentos de perfeita aflição no espectador, assim como o uso de notas em stacatto quando Michael Myers faz mais uma vítima. Essas técnicas minimalistas criadas por Carpenter ajudaram a fazer de Halloween um dos filmes mais bem conseguidos de terror e que gerou uma franchise bastante popular. A cena em que vemos Michael Myers em criança mascarado e com uma faca na mão à frente da sua casa é também uma das imagens mais marcantes do cinema de terror. Imagens fantásticas, um vilão enigmático e uma banda sonora assombrosa são alguns dos elementos que fazem deste filme um clássico do cinema de terror e para sempre distinto de todos os outros slashers. Os Secret Chiefs 3 registaram uma versão do tema muito interessante. 

4 - Suspiria, Goblin (1977)


Suspiria realizado por Dario Argento é um dos filmes mais populares do sub-género de terror, giallo, criado em Itália. Os filmes Giallo são uma espécie de variante europeia do filme slasher e dependem bastante da estética visual e também sonora. A música é normalmente de género progressivo e bastante expressiva. O trabalho de câmara é sofisticado e em termos narrativos há sempre um grande elemento de mistério. Há também a presença de alguma nudez e bastante gore, sendo que os assassinatos neste tipo de filme são bastante detalhados e gráficos.
Tendo em conta a importância da expressividade neste género de filmes é adequado que a tarefa da banda sonora tenha recaído na banda Goblin que são exímios em criar atmosferas de ameaça e suspense. Esta ameaça está presente no tema principal do filme que dá ao ouvinte uma espécie de desconforto que traduz essencialmente a génese do filme. Suspiria é um filme que mistura elementos sobrenaturais, terror gótico e as técnicas narrativas do giallo da melhor forma.
Goblin é uma banda com um som totalmente próprio e que apesar de ser considerado rock progressivo com alguns laivos de electrónica, são autores de um som que é absolutamente uma marca registada.

5 - The Shining, Wendy Carlos (1980) 



The Shining realizado por Stanley Kubrick é um dos clássicos do cinema mundial e não é de estranhar que a banda sonora também seja considerada uma das mais icónicas e importantes no universo da música feita para cinema. A banda sonora composta por Wendy Carlos pode ser ouvida independentemente do filme tal é a sua magia e força.
No filme, existe imediatamente um clima de algum suspense gerado essencialmente pela música nas cenas iniciais do filme. O que acontecerá a seguir? Já ficamos com a ideia que não será nada de bom. Também há o uso de peças clássicas de Penderecki e Ligeti que servem para acentuar os momentos de tensão extrema. A música de cariz religioso é utilizada para fins com intuitos mais sinistros e que pretendem acentuar as cenas de terror mais extremo. A Requiem Mass de Ligeti é reproduzida ao longo da cena climática do filme, dando resultados satisfatórios pela orquestração dos coros que originalmente seriam utilizados para fins religiosos. Para além da música, há também um elemento essencial nos filmes de terror: o grito. E este é utilizado de forma perfeita no momento em que Jack Torrance (Jack Nicholson) tenta entrar na casa-de-banho quebrando a porta com um machado e onde uma Wendy está completamente aterrorizada. O grito de Wendy (Shelley Duvall) é um dos mais aterradores da história do cinema e sai do ecrã entrando directamente na nossa consciência. Os temas originais complementam as peças clássicas que parece que foram compostas a pensar neste filme, tal é a perfeição da sua adaptação.

6 A Dark Song, Ray Harman (2016)


A Dark Song é um filme realizado por Liam Gavin que sobressai pelo carácter de tensão e suspense. Boa interpretação pela actriz principal, Catherine Walker que encarna o papel de uma mulher atormentada pelo passado e que procura vingança. No entanto, não há acção nem o uso de sangue exagerado, mas sim um crescendo de tensão com diálogos inteligentes e que reflectem bons conhecimentos de conceitos esotéricos do ocidente. Os rituais, encantamentos e palavras que definem certas tradições do oculto são aqui representados de forma realista e sem apetrechos sobrenaturais. É tudo demasiado realista e cru. A banda sonora ajuda a criar a tensão e o desmoronamento da personagem principal que se vê cada vez mais afectada (física e psicologicamente) pelos rituais que vai praticando dias a fio. A banda sonora é uma mistura de folk com algum experimentalismo e foi composta por Ray Harman, um compositor de origem irlandesa. A banda sonora é efectiva na criação de ambiente e ajuda a sublinhar a tensão e suspense deste interessante e original filme de terror. Pode também ser ouvida independentemente do filme tal é a sua capacidade musical a nível criativo.

7 - Hellraiser, Christopher Young (1987)



Hellraiser nasceu da imaginação de Clive Barker e tomou forma nos ecrãs em 1987 quando Clive Barker transportou Pinhead e a sua legião de cenobitas para a tela. Assim como Halloween também detém uma franchise bastante popular e frutífera, no entanto, é no original que encontramos um dos melhores exemplos de filme de terror com elementos do sobrenatural. Tudo começa a correr mal quando o ganancioso e depravado Frank Cotton decide abrir a caixa intitulada The Lament Configuration. É aí que tem contacto com os piores castigos e torturas do inferno e nós como espectadores também. É um dos filmes mais brutais da sua época e continua a sê-lo hoje em dia, inspirando nalguns espectadores um terror genuíno.
A banda sonora teria de estar igualmente no mesmo patamar e é o que acontece ao longo dos temas compostos por Christopher Young. Há uma grande variedade de instrumentos e produção orquestral que começa inocentemente e que vai mudando de toada à medida que o filme avança e somos apresentados aos demónios liderados pelo mítico Pinhead. A tensão que se sente é reforçada pelos ritmos acelerados e a urgência das composições. É uma banda sonora que ouvida aparte do filme, tem a qualidade de evocar imediatamente as cenas mais icónicas e memoráveis do filme. Por vezes um pouco melancólica e por outras tão perfurante quanto os espigões de metal que decoram o rosto de Pinhead.

8 - Rosemary’s Baby, Christopher Komeda (1968)


Realizado por Roman Polanski e adaptado do romance de Ira Levin, Rosemary’s Baby é um dos filmes de terror mais efectivos e aterradores do final dos anos 60. Lida de forma absolutamente realista com o oculto, nomeadamente uma variante de satanismo, ao mesmo tempo que nos faz duvidar da própria sanidade da personagem principal interpretada por Mia Farrow, dúvidas essas que se vão dissipando à medida que a narrativa avança. O tema principal usa de lullabies para criar uma atmosfera aterradora e foi trazido novamente à ribalta com a versão feita pelos Fântomas para o seu disco, DIRECTOR’S CUT. Há o uso de teclas, coros e entoação de cantigas de adormecer que favorecem a atmosfera claustrofóbica do filme e que ilustram a angústia e terror da personagem principal feminina à medida que se vê cada vez mais oprimida e aprisionada pelos vizinhos aparentemente simpáticos, mas que apenas a estão a usar para dar à luz o anticristo.
Na banda sonora há também momentos mais relaxados e ausentes de tensão como as passagens algo jazzísticas que complementam as mais atmosféricas que prenunciam uma ameaça grave. É uma banda sonora perfeita para complementar o filme, tanto a sua atmosfera como a própria época em que a narrativa decorre. Também retém a sua independência sendo passível de ser ouvida fora do universo das imagens. Há trechos das invocações do oculto ditas em modo quase de segredo que contribuem para a atmosfera desconcertante da banda sonora. É um disco que assim como o filme, é também um clássico das bandas-sonoras.
Há várias coisas que este filme nos ensina e uma delas é não usar pendentes com um cheiro de ervas estranhas. Tenham cuidado, isso e mousse com um sabor esquisito.

9 - The Innocents, Georges Auric (1961)


The Innocents é um filme realizado por Jack Clayton em 1961 e que é um bom exemplo de terror gótico de grande sofisticação e cuja tensão vai escalando devagar e deixa ao espectador muito espaço para as suas reflexões pessoais e para definir as suas próprias conclusões. A actriz principal do filme, Deborah Kerr interpreta uma governanta contratada para tomar conta de duas crianças, no entanto, coisas estranhas começam a acontecer e a suposta inocência das duas crianças começa a ser questionada. É um dos primeiros filmes a caracterizar a criança como possível vilão. Esta atmosfera de desconforto é construída bem devagarinho e parte de um princípio totalmente idílico. A banda-sonora composta por Georges Auric sublinha essa atmosfera misteriosa e de prenúncio da descoberta de segredos. Georges Auric foi também responsável pela banda-sonora de outros clássicos do cinema como Roman Holiday (1953), Le Salaire de la Peur (1953), La Belle et la Bête (1946) e Le Sang d’un Poète (1932) entre muitos outras. É uma banda sonora misteriosa e por vezes de uma inocência absoluta que transcreve na perfeição a atmosfera do filme.

10 - Carnival of Souls, Gene Moore (reissue 1998)



Carnival of Souls é um filme de 1962 realizado por Herk Harvey e é uma das primeiras grandes conquistas no campo do terror psicológico, onde há uma subtil e ténue linha que separa a realidade da irrealidade, a sanidade da insanidade e a lucidez das alucinações. Candace Hiligoss encarna o papel de Mary Henry que tem um acidente de carro e a partir daí o mundo parece-lhe completamente diferente, sendo-lhe impossível distinguir o que é real e o que é alucinatório.
A banda-sonora composta por Gene Moore reflecte o estado de espírito interior da personagem que se sente completamente confusa e num permanente delírio que a afasta cada vez mais da realidade. Para esse efeito, Gene Moore utiliza várias camadas de órgãos que dão um som fantasmagórico e ajudam a sublinhar a atmosfera onírica do filme. A banda-sonora também tem excertos sonoros do filme em que constam diálogos importantes entre a personagem principal e as outras que permeiam a sua aparente realidade.
A banda-sonora não diegética assume uma função essencial de complemento para o terror deste filme low-budget que quebrou bastantes barreiras na altura e que hoje em dia, é considerado um filme de culto.

(CONTINUA...)

TEXTO: CLÁUDIA ZAFRE
IMAGENS: Frames dos filmes