Palavras-chave: activismo, música, alternativo, revolução Introdução A música tem um papel preponderante quando manifesta um ideal...

Bandas alternativas da contemporaneidade, politicamente activistas, que realizaram rupturas tácticas

Palavras-chave: activismo, música, alternativo, revolução

Introdução
A música tem um papel preponderante quando manifesta um ideal, por mais abstracto ou mais literal que seja. Não se deve afirmar que foi a música de intervenção a impulsionadora de oposições políticas, outros músicos de outros géneros deram, anteriormente, o seu cunho contracultura e político; os spirituals são um desses exemplos. Por conseguinte, não terão, também, Odetta e Nina Simone representado o pulso feminino da música?

Muitos países sofreram ditaduras, genocídios, massacres em massa; infelizmente, ainda hoje, prevalecem abusos de poder em países liderados por governos que desprezam a liberdade dos cidadãos com ditadores que preferem vingar em detrimento do povo. 

Rosa Parks bateu o pé ao não sentar-se na última fila do autocarro, contrapondo assim o que a lei vigente ditava; Gandhi impediu que os seus conterrâneos lançassem pólvora contra os ingleses, e Mandela viveu mais de duas décadas em cativeiro por se afirmar opositor político, lutando destemidamente a favor do povo sul-africano. Há mais exemplos pacíficos de contestação que a história reporta, Malala leva hoje as marcas na sua face por apelar à educação das mulheres, aqui, apesar de não ter sido pacifista, temos exemplos históricos tal como a Padeira de Aljubarrota a dar pauladas nos castelhanos - não deixando este ser uma situação cartoonesca. A ser verdade ou mito, o interessante é existirem pessoas com convicções que mexem com as sociedades à conta das críticas sociais, não se deixando intimidar pelos "gordos" hierárquicos. Como diz Roger Waters, não é só sobre política, mas trata-se de nos importarmos - é esse um dos motivos que nos faz humanos.

À procura de bandas alternativas da contemporaneidade nomeamos algumas que agitaram as cabeças das multidões, pondo-as em tumulto e em união a favor dos direitos humanos. Hoje, já que se celebra o dia da revolução, podemos afirmar livremente: ainda bem que o botas caiu da cadeira. De facto, aqui em Portugal a lei da rolha poderá não existir, mas eventualmente encontramos o lápis azul em vários sectores, por essa razão há ainda muitas lutas a travar. Assim, encontramos um dos maiores veículos com poder, capaz de mobilizar uma multidão ou sociedade, referimo-nos, claro, à música. 

Beastie Boys

© Beastie Boys

Os nova iorquinos passaram por uma primeira fase em que retratavam as mulheres de uma maneira machista. Em concertos apresentavam-nas a dançar em gaiolas, as líricas incluíam-nas a lavar loiça e a tratar da lavanderia. Da primeira fase transitaram para uma segunda em que passaram a defender veemente a luta do Tibete contra a China, a condenar preconceitos contra os muçulmanos, a violência e abuso contra as mulheres, e outras mais causas. Um dos exemplos manifestamente a favor do feminismo, e que na primeira fase foi mal interpretado por ter sido uma estratégia satírica, reside no tema Sure Shot
I want to say a little something that's long overdue
The disrespect to women has got to be through
To all the mothers and the sisters and the wives and friends
I want to offer my love and respect to the end.

Embora grande parte do comportamento exageradamente desagradável dos Beastie tenha começado em tom quase anedótico, acabou por tornar-se uma auto-paródia no final de 1987, por isso não foi uma surpresa que o grupo decidisse reformular o seu som e a imagem durante os próximos dois anos. A banda foi atacada por várias facções, tanto à esquerda quanto à direita, que alegavam que as letras dos Beastie eram de cariz violento e sexista. Durante a digressão de 1987, foram detidos e alvo de acções judiciais sob a acusação ​​de incitarem crimes. Prova de que tudo seria apenas uma encenação satírica é que Ad- Rock é casado com Kathleen Hanna


© Rage Against the Machine

É preciso coragem estar diante de um palco e declarar o que o nosso coração sente. Mas nem por isso os Rage Against the Machine se deixaram intimidar. São quatro - cada um num registo muito próprio - a manifestar com os seus instrumentos a revolta que os faz pulsar a raiva que sentem face às injustiças. Surgem a partir da desesperança encontrada na chamada geração X, designada pelo romancista Douglas Copeland no seu best seller, Generation X: Tales For An Accelerated Culture. Uma geração emergente considerada, pelos opinion makers, apática, egocêntrica, no desemprego e com excesso de escolaridade, desiludida e privada dos seus direitos políticos e como se não bastasse... que ouvia Nirvana.

Eis que surgem quatro jovens de Los Angeles, sem tretas e caprichos, e lançam o álbum mais confrontador, provocador, politizado e apaixonado da década; explodiram com todos os preguiçosos mentais, com os clichés e preconceitos sobre a sua geração. Zach de la Rocha num jeito spoken word rockeiro vibra com o seu coração dilacerado e cospe letras sobre justiça, como se fosse o líder de um movimento guerrilheiro, causando a anarquia num país dividido. Sem concessões, cheios de raiva e para sempre envolvidos, os RATM deixam uma marca indelével na música.

Como célula de guerrilha musical, Zack de la Rocha, Tom Morello, Tim Commerford e Brad Wilk estariam assim determinados a fazer a diferença. Um colectivo multi-racial, honesto cheio de combustível. Na realidade, os RATM não foram a primeira banda a tentar fundir os mundos do hard rock, punk e hip-hop, mas a assimilar influências de Led Zeppelin (riffs, dinâmica) Public Enemy (polémica, produção), The Clash (imagens, integridade) e Gil Scott-Heron (rimas, radicalismo), o quarteto criou um cocktail explosivo, gerando ondas de choque que seriam sentidas em todo o mundo. Lançado seis meses após os tumultos ferozes que tomaram conta da sua cidade natal, o álbum de estreia homónimo é incendiário e revolucionário às armas, incentivou o pensamento independente e acções radicais. O artwork do álbum apresenta a fotografia vencedora do Prémio Pulitzer da auto-imolação de um monge budista vietnamita, em Saigon em 1963, e o álbum contém 10 faixas cuja temática retrata a violência no centro da cidade, pobreza, racismo, negligência corporativa, abuso de poder, discriminação institucionalizada, mentiras, injustiça e opressão. E enquanto lia como um epitáfio para o sonho americano, parecia emocionantemente um manifesto para a nova desordem mundial. Aqui, finalmente, havia uma banda na qual se poderia depositar alguma esperança. "All of which are American dreams..."

System of a Down

© System of a Down

Ontem lembrou-se o genocídio arménio que aconteceu há 105 anos. 
Irónico... Um americano com raízes arménias faz do palco o púlpito para dar vida e poder às palavras que se insurgem contra o genocídio arménio, ainda hoje não assumido pelo país que o causou, a Turquia. E aqui coincide uma coerência urgente e emergente que nos faz gostar ainda mais de System of a Down. Serj Tankian, o vocalista, auto-declara-se activista desde a sua infância. Este é um bom exemplo de como as capacidades afectivas da música popular realizam rupturas tácticas e às vezes violentas no pensamento convencional, especialmente quando essas capacidades são orientadas ao activismo político. A fusão da estética disruptiva do heavy metal com letras socialmente conscientes e discussões sobre a memória histórica, especificamente o reconhecimento do genocídio arménio, potencializa a música para sinalizar maneiras novas e diferentes de (re)pensar a história e investigar as questões que surgem dessa estratégia. Attack e Holy Mountains (Hypnotize, 2005) são dois temas da banda de heavy metal, a primeira é uma canção de raiva e fúria que descreve uma justiça recíproca provocativa que revisita sobre os opressores toda a violência que eles mesmos perpetraram. Holy Mountains coloca em primeiro plano a geografia do rio Aras, que para os arménios tem significado histórico e religioso. Das planícies circundantes, nasce o Monte Ararat, conhecido como o "lar dos deuses" na mitologia arménia e na crença cristã, talvez mais conhecido como o local de descanso pós-diluviano da Arca de Noé. O Aras também tem significado geográfico contemporâneo, pois faz parte das fronteiras internacionais da Arménia com a Turquia e o Irão. Holy Mountains é acusatório e mostra uma imagem do genocídio arménio como um momento histórico sombrio que persiste, como observa a letra, através da "presença assustadora" das vidas que foram tiradas. I am Not Alone, é o documentário que aborda a revolução arménia, e foi vencedor do prémio The Grolsch People's Choice, depois da sua estreia mundial no festival internacional de Toronto, realizado por Garin Hovannisian e produzido pelo músico Serj Tankian. Um dos momentos mais célebres e jamais inolvidáveis é o concerto em plena Praça da República em Erevan em 2015. 

Amanda Palmer

© Amanda Palmer

Poderá dizer-se que Amanda Palmer é uma mulher calejada e sem tretas. Podemos mesmo afirmar que no polo contemporâneo ocidental, a americana é congruente às suas convicções. Apesar de enfrentar o público com garra e força, não deixa para trás o seu lado mais emocional que enaltece o mais humano e autêntico de pensar. É conhecida pelos Dresden Dolls que serviu de bandeira para exibir e manifestar os seus ideais feministas, mesmo que isso significasse atacar as normas de beleza da indústria do entretenimento. Destemidamente nunca teve problemas em dar concertos despida, mostrar as suas axilas com pêlos, ou revelar histórias pessoais traumatizantes. As que mais impressionam são: ter sido vitima de violação e ex-stripper. 

Kathleen Hanna

© Kathleen Hanna

Kathleen Hanna foi chamada de feminazi mais vezes do que poderia contar. A líder dos Bikini Kill, Le Tigre e agora The Julie Ruin passou os anos 90 a consumir tudo que fosse punk feminista, e toda a sua influência ajudou a dar início ao movimento riot grrrl, que misturava mensagens políticas progressivas e punk emocional. No que concerne ao feminismo, Kathleen nunca foi fechada a respeito de outras ramificações do movimento, é aberta às mudanças sem estereotipar ou julgar outras feministas. 


© Frank Zappa

Nunca o levaram muito a sério por todo o sarcasmo que sempre caracterizou Frank Zappa, mas sempre foi um dos músicos na linha da frente com visões políticas honestas que não se incluíam apenas à música que criava, mas também ao seu lado mais pessoal e interventivo. Uma das causas pelas quais Zappa lutou mais fortemente foi pela liberdade de expressão e pela a abolição da censura. Embora já fosse artista e produtor na indústria da música há vinte anos, e fosse uma lenda estabelecida, muitas gerações mais jovens, da geração X e posteriores, o lembrarão pelos seus pontos de vista francos em oposição ao movimento, para censurar grande parte do rock do dia e os músicos do n 'roll em meados dos anos 80. Ele foi um dos três músicos mais conhecidos que deram o seu testemunho no Senado envolvendoParents Music Resource Center (PMRC) - o que mais tarde ficou conhecido como "Porn Rock". Rotulado como um defensor franco da liberdade de expressão, como se fosse uma escolha negativa, foi alvo do PMRC e dos outros opositores das suas opiniões. Contra a adição de etiquetas de aviso nos álbuns, lançou um álbum chamado Porn Wars, onde incluía trechos das gravações das audiências e conversas com Fritz Hollings, Slade Gorton, Al Gore e com a senadora da Flórida Paula Hawkins que o questionaram sobre quais os brinquedos que os filhos de Zappa brincavam. Zappa em forma de protesto, criou de seguida um álbum instrumental, sem palavras, rotulado com o adesivo Explicit Lyrics, mesmo que nenhuma palavra tenha sido dita em todo o álbum. Depois que a batalha de censura arrefeceu, nos finais dos anos 80, Zappa continuou a envolver-se politicamente. Durante a digressão de 1988 incentivou regularmente os seus fãs a recensearem-se para poderem votar e até teve cabines de registo de eleitores nos seus concertos. Embora Zappa tenha morrido em 1993, as suas palavras e acções em apoio ao direito de liberdade de expressão de cantores e compositores ainda são elogiadas e ainda referenciadas sempre que as limitações de liberdade de expressão e a indústria musical colidem.

Fugazi

© Fugazi

A política dos Fugazi continua presente ainda hoje. As previsões de Ian MacKaye para o futuro tornaram-se uma realidade, a gentrificação à agressão sexual nos campus universitários foram temas abordados pelo vocalista. Durante o percurso de Fugazi, os concertos que davam tinham baixo custo, eram marcados em lugares incomuns e era sempre expectável e pedido que a plateia fosse tratada com respeito. O último ano de concertos da banda foi disponibilizado pela banda - Fugazi Live Series - um repositório on-line com mais de 800 concertos apenas por 5 dólares cada - serviu tanto como um crescimento quanto como um vislumbre tentador de como a banda poderia ter evoluído se não tivessem entrado em hiato indefinido a partir de 2003. Os álbuns da banda estão repletos de músicas políticas que ainda ressoam hoje: Suggestion (do primeiro EP), um tema sobre violação com implicações que tocam directamente na epidemia de agressão sexual nos campus universitários, a Five Corporation do End Hits de 1998, que aborda a crescente influência das empresas multinacionais. O álbum final da banda, The Argument, de 2001, foi lançado um mês após os ataques de 11 de setembro de 2001, e as performances que se seguiram em 2002 ocorreram durante aqueles meses estranhos antes da invasão do Iraque pelos EUA na primavera de 2003. MacKaye e Picciotto costumavam dedicar tempo entre as músicas para discutir questões como patriotismo, gentrificação e a crescente militarização dos departamentos de polícia da América - tópicos que permanecem tão cruciais hoje como em 2002. Os Fugazi protestaram contra o presidente Bush e deram um concerto icónico frente à Casa Branca. Onze anos depois, MacKaye em Asheville, Carolina do Norte, afirmou: "Enquanto isso, eles lançam enormes dispositivos explosivos de metal em todos os seres humanos, em todo o mundo. Enquanto isso, o debate continua. Enquanto isso, não há problema em dizer o seguinte: a guerra é contra a paz e contra os direitos humanos. E o patriotismo é uma qualidade repugnante, ser patriota significa apoiar a violência."
Se Fugazi retornará do hiato, a questão permanece tão tentadora como sempre.

Conclusão
Ficam muitas mais bandas por retratar: Jamila Woods, Joan Baez, Anni di Franco, Peaches, Patti Smith, Victor Jara, Fehla Kuti, Pete Seeger, MIA, Pennywise, Crass, Death Grips, Black Flag, Sex Pistols, Rita Lee, Bikini Kill, Napalm Death, Dead Kennedis, Propaghandi, Roger Waters, entre outras. Nesta altura de pandemia muitas especulações surgem e ninguém sabe quem é o verdadeiro inimigo, a existir não será apenas um. Somos constantemente vigiados, controlados, são poucos os que na verdade acreditam e defendem o bem comum que contribui para a harmonia colectiva. Orwell tinha razão, são dias que retrocedem e que não encontram grande esperança no futuro devido ao confronto directo com uma realidade distópica que traz insegurança e desconfiança. Por isso, mais do que trazer conforto e alguma esperança, a música tem o dever de abanar as mentes e consciências, não para lutar com armas e canhões, mas para mover individual ou colectivamente uma oposição activista contra o controle global e generalizado. Não façamos, portanto, o 25 de Abril de '74 uma memória perdida no passado, mas um arranque que se opõe a vários tipos de ditadura. 

Texto: Priscilla Fontoura
Imagens: Beastie Boys, Rage Against the Machine, System of a Down, Amanda Palmer, Kathleen Hanna, Frank Zappa, Fugazi