Cartaz: This is not a Film, de Jafar Panahi This Is Not a Film (Isto Não É um Filme), de Jafar Panahi, realizado em colaboração com Mojtaba ...

Breaking the Fourth Wall: This is not a Film (2011) - uma declaração de resistência criativa em face à tirania e um documento de liberdade intelectual sob a coação política

Cartaz: This is not a Film, de Jafar Panahi

This Is Not a Film (Isto Não É um Filme), de Jafar Panahi, realizado em colaboração com Mojtaba Mirtahmasb, é um exercício radical de resistência artística. Confinado ao seu apartamento em Teerão, sob prisão domiciliária e proibido de filmar durante vinte anos pelo regime iraniano, Panahi transforma a impossibilidade em matéria criativa.

Privado de rodagem formal, de equipa e de autorização oficial, decide registar o quotidiano com os meios ao seu alcance: uma câmara doméstica e um iPhone. O tapete da sala converte-se em cenário; o próprio realizador, em personagem; o espaço doméstico, em palco político. Se não pode fazer um filme, faz um “não filme”.

O iraniano realizador Jafar Panahi na sua sala de estar da sua casa em Teerão

A obra aponta para dois eixos centrais: confinamento e censura. Desde a Revolução Islâmica de 1979, o Irão tem vivido sob um regime que restringe severamente a liberdade de expressão, artística e política. Panahi, condenado em 2010 a seis anos de prisão e proibido de realizar filmes, tornou-se símbolo dessa repressão. No entanto, o que sobressai neste ensaio audiovisual não é apenas a denúncia, mas o humor subtil com que expõe o absurdo da situação.

Ao longo de cerca de 75 minutos, acompanhamos um homem de meia-idade num apartamento luminoso e repleto de livros, objectos de arte e memórias de um percurso cinematográfico interrompido. Fala ao telefone com a advogada, comenta projectos que não pode filmar, lê excertos de guiões, revisita cenas de obras anteriores e cuida da iguana de estimação da filha. A banalidade do quotidiano contrasta com o peso da interdição.

Panahi obedece formalmente à sentença — não escreve um novo argumento, não dirige uma produção convencional — mas, ao fazê-lo, revela a fragilidade do próprio acto censório. A pergunta que ecoa é simples e inquietante: quem são, afinal, os maiores censores? O Estado que proíbe ou o medo que paralisa?

O filme dialoga com a tradição do cinema iraniano das décadas de 1990 e 2000, marcado por figuras como Abbas Kiarostami e Mohsen Makhmalbaf, que cruzaram realismo social, metalinguagem e poesia visual. Panahi, antigo colaborador de Kiarostami, radicaliza essa herança ao reduzir o cinema à sua condição mínima: um olhar e uma intenção.

Não há enredo convencional — afinal, “não é um filme”. Ainda assim, existe progressão dramática e até uma inesperada tensão final, quando a realidade exterior invade o espaço privado. O espectador percebe então que o confinamento físico nunca é absoluto enquanto subsistir liberdade interior.

Jafar Panahi com a sua iguana na sala de estar da sua casa em Teerão

This Is Not a Film é simultaneamente diário íntimo, manifesto político e reflexão metacinematográfica. Mostra que a criatividade não depende da autorização do poder; depende da necessidade de expressão. Num tempo em que diferentes formas de coacção se manifestam em várias geografias, esta obra recorda que resistir pode começar com um gesto simples: ligar a câmara — mesmo que seja apenas a do telemóvel.

Texto: Priscilla Fontoura
Breaking the Fourth Wall: This is not a Film, de Jafar Panahi