
Para muitos brasileiros, Laerte Coutinho é um dos nomes incontornáveis quando se fala da história das tiras e dos quadradinhos no Brasil. Com humor mordaz, existencialismo, crítica política e reflexão sobre sexualidade e identidade, a sua obra sintetiza inquietações profundas de forma aparentemente leve.
O documentário Laerte-se, co-realizado por Eliane Brum e Lygia Barbosa, acompanha a artista num momento decisivo da sua vida: a vivência pública da sua identidade de género e as interrogações que acompanham esse processo. Depois de ter vivido durante décadas sob uma identidade masculina, Laerte passa a afirmar-se no feminino e a questionar os limites — e as pressões — de uma eventual transição física. Como ela própria sugere: pode-se fazer, mas deve-se fazer? Entre o impulso e a ponderação, escolhe dar tempo ao tempo.
O filme revela uma personalidade intelectualmente inquieta, mas emocionalmente serena. Mesmo quando aborda episódios dolorosos da sua vida, Laerte evita o dramatismo. Prefere o humor e a ironia como ferramentas de lucidez. O documentário torna-se, assim, não apenas retrato íntimo, mas manifesto de autenticidade.
Um dos aspectos mais interessantes é a reflexão sobre a própria comunidade trans: haverá hierarquias implícitas entre quem realiza intervenções corporais e quem opta por não as fazer? Laerte desmonta essa lógica competitiva, questionando a necessidade de legitimação externa. A identidade, sugere, não se mede por procedimentos, mas pela coerência interior.
O filme inicia-se com a troca de emails entre Laerte e uma das realizadoras, onde a artista manifesta hesitação em avançar com o projecto. Avessa à exposição da vida privada, teme tornar-se objecto de análise. A negociação que se segue é delicada e honesta — e essa honestidade atravessa todo o documentário. Fala da infância, da relação com os pais, da irmã, dos filhos, da carreira artística e do Brasil que viveu desde a ditadura até às polarizações contemporâneas.
É inevitável recordar a série Transparent, criada por Joey Soloway, onde um progenitor assume tardiamente a sua identidade feminina. Contudo, em Laerte-se, a dimensão não é ficcional: é vivida, pensada, debatida em tempo real.
Mais do que um documentário sobre transição de género, trata-se de uma meditação sobre identidade, pertença e liberdade. A “transgeneridade” aqui pode ser entendida também como metáfora da própria condição humana: não saber exactamente onde se encaixa, a que lugar pertence, ou se pertence a algum. Essa aparente deslocação pode transformar-se em potência criativa — mais possibilidades de existir, de imaginar, de reinventar.
Laerte-se deixa no ar uma das reflexões mais fortes: a identidade não é um destino fechado, mas um processo contínuo. E talvez seja nesse movimento — entre dúvida e afirmação — que reside a maior forma de liberdade.
Texto: Priscilla Fontoura
Numa Relação Séria com a Netflix: Laerte-se (2017)




