Cartaz de The Marvelous Mrs. Maisel The Marvelous Mrs. Maisel, série escrita pela talentosa Amy Sherman-Palladino, também autora de Gilmore ...

Breaking the Fourth Wall: The Marvelous Mrs. Maisel (2017-)

Cartaz de The Marvelous Mrs. Maisel


The Marvelous Mrs. Maisel, série escrita pela talentosa Amy Sherman-Palladino, também autora de Gilmore Girls, acontece nos anos 50 e é distribuída pela Amazon Prime Video. Dois judeus casam-se. Ele, Joel (Michael Zegen), acha-se engraçado, mas não passa de um machista que objectifica a mulher para atingir os seus propósitos. Vive obcecado com a alienada vontade de poder vir a ser um comediante famoso. De facto, não são precisos muitos episódios para verificarmos a sua falta de talento. E como é natural nesse tipo de pessoas, utiliza-se da estratégia indigna que serve de trampolim para gamar textos de outros comediantes - algo que é inconcebível para Midge e Susie (já vão saber quem são), sendo que Midge é o radar que detecta tal mediocridade. A única vantagem que Joel tem é a de ser um homem nos anos 50 a viver num contexto sobretudo machista. No entanto, ao longo da série, vai tentando procurar a sua identidade e vivendo um conflito interior permeado pelo que se quer ser e do que na verdade se é.

Ela, Midge (Rachel Elizabeth Brosnahan), desde que se casou, tentou agarrar o marido pelo perfeccionismo. Nem uma migalha no chão seria vista no apartamento no Upper West Side para agradá-lo, e nem um sinal de desmazelo da sua imagem estaria estampado. Midge é a sua "buddy", aponta e avalia a performance do marido sem talento durante as actuações nos "dive bars" no seu caderno de capa cor-de-rosa - tentando, sempre, que a sua performance melhore de dia para dia. Quando Joel diz que se quer separar de forma abrupta, por estar envolvido com a sua secretária em plena véspera de Yom Kippur, ela, Midge, que já vinha a dar indícios de puro humor autêntico, torna-se numa aspirante comediante irreverente cheia de piada honesta, capaz de mexer com as estruturas da época. No palco, Midge despeja a sua revolta, é a Lorelai Gilmore a viver nos anos 50, época em que o machismo era predominante na sociedade americana. Esta série é caracterizada por padrões que marcaram a época, um homem sem talento a querer singrar na comédia e a ter o foco de luz virado para ele quando a mulher é a verdadeira luz. 

Na década de 1950, as mulheres sentiam pressão social para concentrar as suas aspirações na aliança de casamento. A taxa de casamento nos EUA estava em alta e os mais novos casavam-se, em média, mais cedo do que nunca. Casar-se após o ensino médio ou durante a faculdade era considerado a norma. Um estereótipo comum era que as mulheres iam para a faculdade para conseguir o título de "Sra." (M.R.S.), ou seja, mulher casada. Embora as mulheres tivessem outras aspirações na vida, o tema dominante promovido na cultura e nos média da época era que um marido tinha mais importância para uma jovem do que um diploma universitário. Apesar do facto de que as taxas de emprego também aumentaram para as mulheres durante esse período, os média tendiam a concentrar-se no papel da mulher em casa. Se uma mulher não estivesse noiva ou casada aos vinte e poucos anos, corria o risco de se tornar uma "solteirona", nos dias de hoje uma "encalhada" (infelizmente esse construto continua a prevalecer).

O machismo latente na época é sem dúvida um ponto que leva Midge (Mrs. Maisel) a confrontar as ideias dos seus pares comediantes que continuam, maioritariamente, a perpetuar a estereotipagem da mulher bonita mas burra, cómica mas feia. Porém, o comediante Lenny Bruce (Luke Kirby) encontra em Midge tudo o que é necessário para seguir este tipo de vida: o amor, a vocação, a autenticidade e a coragem. Tal como ele diz: foram os comediantes que tiraram a tristeza das pessoas durante a Grande Depressão. Midge quebra com todos os preceitos de como a mulher era vista na sociedade americana. É multifacetada: bonita, engraçada, corajosa, mãe de 2 filhos e foi detida, pelo menos duas vezes, por desenhar guiões politicamente subversivos. Quando pisa o palco, seja no pequeno bar chamado "Gaslight", cujo lugar é mesmo real em Manhattan (The Gaslight Cafe), seja num evento elitista, não deixa de ser genuína e sem filtros. Mas que mulher corajosa!

A série envolve e causa um grave problema a qualquer espectador. Vicia quem a vê e desregula horários. Mrs. Maisel, além disto tudo, faz-nos querer viver naquele tempo. Numa Manhattan habitada por espaços sui generis, desde a loja de geeks que tem um arquivo raríssimo, onde é capaz de se encontrar o comediante mais desconhecido de sempre, ao diner tidos como a casa dos comediantes, artistas e agentes de todas as classes. A construção de personagem da agente Susie Myerson (Alex Borstein) é como reviver um Danny DeVito em The Kominsky Method - uma aspirante a agente que quer sair a todo custo da miséria financeira e uma sidekick leal e comprometida com a sua pérola Midge. Susie também desconstrói a figura da mulher americana dos anos 50. E quem diria que iria encontrar o grande "inconceivable" Vizzini (Wallace Shawn)...

Mrs. Maisel abunda em humor judaico como se passeámos numa rua de pastelarias que preparam bolos a toda a hora. A química que tem com o seu colega extremamente inteligente, cáustico e atraente Lenny Bruce (Leonard Alfred Schneider), leva-nos a acreditar no amor. Mrs. Maisel é inspirada na comediante e actriz Joan Rivers e Lenny Bruce é uma adaptação do famoso comediante norte-americano que viveu os anos 1950 e 1960 a mudar as estruturas morais norte-americanas. Bruce não se deixava normalizar pelas regras da altura, foi julgado e condenado por obscenidade em 1964, foi dispensado do serviço naval e preso em Miami por se fazer passar por padre, com o intuito de arrecadar dinheiro para uma colónia de leprosos na Guiana Inglesa, conseguindo arrecadar 8 mil dólares, dos quais 2500 foram enviados para a colónia. Quando Bruce começou a ser influência no meio, foi sendo controlado pela polícia e acabou preso por diversas vezes - uma delas por posse de drogas e muitas por atentado à moral. Foi com Bruce que o Estado de Nova Iorque concedeu o primeiro perdão póstumo da História para defender a Primeira Emenda, com o governador George Pataki, de Nova Iorque, em 2003, uma vez que Bruce foi condenado por atentado à moral, ainda que celebridades como Woody Allen, Bob Dylan, Allen Ginsberg, James Baldwin e muitos mais se insurgissem a favor de Bruce. Pouco tempo depois, veio a falecer na altura em que aguardava o recurso para viver em liberdade; contudo foi um dos precursores da liberdade de expressão na comédia e artística nos EUA, abriu caminho para a liberdade de expressão expansiva na comédia que desfrutamos hoje, inspirando outros comediantes a desafiar os costumes e limites sociais.

O pai de Midge, Abe Weissman (Tony Shalhoub), tal como todas as outras personagens, é hilariante e é o estereótipo do judeu americano cientista reconhecido na academia, guiado por uma conduta exemplar, em contraposição com outro estereótipo, o pai de Joel, Moishe Maisel (Kevin Pollak), um judeu comerciante e trambiqueiro, que ajudou judeus a sair da Alemanha nazi e faz disso o seu grande feito, quando de facto explora-os na fábrica que chefia. Um retrato de Seinfeld, no que aos diálogos diz respeito, mas nos anos 50. O ritmo, os planos, os diálogos, as personagens, a atenção aos detalhes, a reprodução da época, e a banda-sonora são tratados com toda a mestria, vencendo 20 Emmys em 66 nomeações. Tal como a série Dickinson, também aqui é incluída música contemporânea numa série de época. A música adaptada ajuda a revelar a série como não tradicionalista com as suas escolhas musicais modernas, um lembrete de que o público está a assistir a uma história novelística sustentada por sentimentos modernos.

Midge vive o mundo das mulheres requintadas, é ingénua, tem um grande sentido estético e bom gosto, mas é, igualmente, artista e genuína. Apesar de ter crescido no seio de uma família de classe alta, representa as mulheres da época e é a porta voz de todas as suas lutas. Tal como tantos outros homens que tentaram viver à sombra do talento das suas mulheres, como o caso de Rodin com Camille Claudel, esta série é mais um exemplo disso. Mulheres com personalidade, mesmo a viver contextos impeditivos para a sua emancipação, não deixaram de definir o seu caminho pelos tropeços da estrada. Mais haveria para dizer, mas já spoilei demasiado...

E como diria Mrs. Maisel: "Thank You and Good Night!"


Para apreciadores de: Seinfeld, The Kominsky Method, Curb Your Enthusiasm, Gilmore Girls, Broad City, Almost Famous, Arrested Development, Shtisel. 

Texto: Priscilla Fontoura