O Cavalo de Turim (2011), de Béla Tarr e Ágnes Hranitzky O Cavalo de Turim (2011), de Béla Tarr e Ágnes Hranitzky, é um filme sobre o esgot...

Béla Tarr (1955 - 2025)

O Cavalo de Turim (2011), de Béla Tarr e Ágnes Hranitzky
O Cavalo de Turim (2011), de Béla Tarr e Ágnes Hranitzky

O Cavalo de Turim (2011), de Béla Tarr e Ágnes Hranitzky, é um filme sobre o esgotamento do mundo, do corpo, da linguagem e do sentido, mais do que sobre uma narrativa tradicional. Parte do episódio lendário do colapso de Nietzsche em Turim, quando este teria presenciado um cocheiro a açoitar o seu cavalo e, após o abraçar, entrado no colapso mental que encerrou a sua vida intelectual. Tarr não filma Nietzsche, filma o que vem depois, como se perguntasse que mundo continua a existir após a falência do pensamento, da moral e da esperança. Embora O Cavalo de Turim não seja a adaptação directa de uma obra literária específica, o filme foi escrito em estreita colaboração com László Krasznahorkai, escritor cuja obra Tarr já havia transposto para o cinema em Sátántangó (1994), a partir do romance homónimo, e em As Harmonias de Werckmeister (2000), inspirado em A Melancolia da Resistência. Essa parceria prolongada confere ao filme uma densidade filosófica e uma visão do mundo marcadas por um pessimismo radical, onde a história parece avançar não por progresso, mas por exaustão.

O filme impõe-se como uma das experiências mais perturbadoras e exigentes do cinema contemporâneo, observando com rigor austero a exaustão física e simbólica de um cavalo submetido à obediência e ao desgaste, o que permite expor a forma como o sofrimento animal é historicamente naturalizado pela autoridade humana. A duração, a repetição e a lentidão não romantizam essa violência silenciosa, mas funcionam como uma acusação ética dirigida também ao espectador. Esta abordagem convoca uma reflexão raramente problematizada sobre a instrumentalização dos cavalos ao longo da história do cinema, não apenas como símbolos narrativos ou forças de trabalho, mas como corpos reais submetidos a regimes de exaustão.

Tive a oportunidade de ver Béla Tarr no FEST e de trocar algumas palavras com ele. A sua forma de olhar o cinema correspondia claramente à sua forma de estar no mundo: um realismo severo e pessimista, não como gesto estilístico, mas como consequência de um contexto histórico e social marcado pela repressão política, pela estagnação económica e por sucessivas fraturas sociais na Hungria do pós-guerra.

O Cavalo de Turim não se limita a retratar a decadência de um mundo ou o colapso de uma possibilidade humana; propõe antes uma reflexão radical sobre a persistência da exploração — humana e não humana — e afirma o cinema como um espaço de resistência desconfortável, onde olhar implica aceitar a fadiga, a lentidão e a recusa de qualquer redenção fácil.

Obrigada, Tarr.