Cartaz Hamnet , (2025) O teatro grego ensinou-nos, com Aristóteles, que os sentimentos são universais: muitos vivem-nos de forma semelhante,...

Breaking the Fourth Wall: Hamnet (2025)

Cartaz Hamnet, (2025)

O teatro grego ensinou-nos, com Aristóteles, que os sentimentos são universais: muitos vivem-nos de forma semelhante, e poucos conseguem permanecer verdadeiramente indiferentes. É essa universalidade que reconheceu como catarse — o momento em que a dor individual se converte em experiência colectiva, permite purificação e compreensão emocional. O teatro inglês, com William Shakespeare, intensificou essa experiência, expôs a dimensão íntima e particular do sofrimento sem perder a sua universalidade.

Em Hamnet (2025), essa catarse manifesta-se no palco que expõe o luto, a perda e a partilha silenciosa do sofrimento, revela que a dor, o amor e a ausência pertencem a todos. O filme é, acima de tudo, sobre a entrega absoluta de uma mãe aos seus filhos — uma mulher que perdeu cedo a própria mãe, cuja presença persiste mesmo na ausência. É também sobre a ausência de um homem apaixonado, uma ausência que não nasce da perda, mas que a antecede e nela se expõe.

Hamnet é um filme sobre transferência: sobre dar a vida para que outro viva; sobre obedecer a um pedido de um pai; sobre esgrimir para proteger uma família. É um filme sobre a forma como o amor e a dedicação atravessam ausências e dores, independentemente da idade, e sobre a capacidade de transformar a perda em presença e continuidade.



Costuma imaginar-se Shakespeare como um jovem sonhador, perdido na extravagância de uma fuga à realidade doméstica. O filme propõe algo mais inquietante: a distância já existia. Shakespeare encontrava-se dividido entre a casa e o mundo, entre a presença física e a vida imaginada. A morte do filho não inaugura a ausência — revela-a, torna-a incontornável, obriga-a a assumir forma.

A sua ausência não deve, por isso, ser lida como simples escolha, nem como confiança plena no poder redentor das palavras. Trata-se antes de uma incapacidade antiga de habitar o espaço familiar do silêncio, onde a dor exige presença sem mediação. O teatro surge não como fuga posterior, mas como continuidade de um movimento já existente: o único lugar onde a experiência encontra forma e se torna suportável.

Ainda assim, essa mediação tem limites. A catarse do palco não resolve, não consola, não repara. A arte organiza a dor, mas não a dissolve. E é precisamente quando a linguagem se esgota — quando o teatro deixa de bastar — que o regresso se impõe. Não como redenção, nem como reconciliação plena, mas como necessidade nua. A perda não o afasta; obriga-o a regressar a um lugar onde nunca esteve por inteiro. O corpo volta à casa quando já não existe outro lugar onde sustente a distância.

Não há resposta possível para a morte de um filho. Não há consolo nem explicação. Há silêncio — um silêncio denso, quase físico — e apenas a esperança frágil de que exista outro céu: um lugar onde se acredita que um falcão surge e rasga os vazios com o seu voo, como um gesto mínimo de fé de que algo permanece para além da perda, para além da saída do quarto escuro.


Mas Shakespeare precisava de fazer o luto de outra forma: através de uma obra de arte que tornasse a dor plural, que a transformasse em experiência partilhável. Este Shakespeare fala-nos de fantasmas — não como figuras literais, mas como presenças da ausência. E, como em Hamlet, o espectro não exige apenas vingança; exige memória. Também aqui o fantasma não é um só: é o filho perdido, é a dor sem linguagem, é o silêncio que insiste em permanecer, é a relação com o próprio pai — uma herança de ausências que atravessa gerações. Ao transformar-se em arte, tudo isto encontra finalmente voz no palco.

As interpretações da bela Jessie Buckley e Paul Mescal são exímias e profundamente contidas. Buckley constrói uma dor que nunca se exibe; existe apenas, e por isso fere. A realização de Chloé Zhao, por vezes evoca a sensibilidade de Terrence Malick, impõe um rigor silencioso: a câmara respira com as personagens, escuta a luz, o vento e o gesto mínimo, e faz do luto um espaço de respeito e permanência.

A música de Max Richter prolonga esse silêncio, eleva a experiência do filme: não ilustra a dor, sustém-na, e abre ao espectador um espaço interior onde o luto pode, por instantes, respirar.

Por: Priscilla Fontoura