Cartaz "O Estrangeiro" (2025)
Meursault não é um homem sem alma. É um homem sem mentiras.
A mais recente adaptação de François Ozon ao romance de Albert Camus chega filmada a preto e branco, com a contenção estética que o tema exige. E acerta: porque O Estrangeiro é exactamente isso — um filme que recusa o ornamento, como o seu protagonista recusa o artifício social.
Meursault vive no presente com uma honestidade que a sociedade não sabe como punir. Tem empatia pelo cão maltratado pelo dono, mas não consegue simular dor pela morte da mãe. Tem uma relação com Marie — amor ou carnalidade, ele próprio não distingue, nem sente necessidade de o fazer. Não é indiferença. É recusa do rodeio.
O filme mostra a Argélia colonial de várias formas, e há algo de paradoxal nessa Argélia dos anos trinta: apesar do colonialismo visível, da segregação que empurrava os árabes para fora do espaço público, havia uma certa porosidade no ar — uma liberdade informal que contrasta com a Argélia de hoje, voltada para dentro das muralhas do que o colonialismo francês deixou como herança.
Meursault acaba por ser julgado menos pelo assassinato que cometeu do que pela forma como se comportou no funeral da mãe. A sociedade não o condena pelo crime — condena-o por não fingir. E é no final, na cela, diante do capelão que lhe oferece arrependimento, que o filme encontra o seu único momento de calor humano genuíno: uma raiva limpa, sem hipocrisia, que resolve tudo o que ficou por dizer.
O Estrangeiro é o retrato de um homem que vive o absurdo sem o tematizar — alheio às convenções sociais que exigem que se simule sentido onde ele não existe. Mas soube, melhor do que ninguém, como estar no mundo. E isso, numa sociedade construída sobre a mentira do luto performativo, foi crime suficiente.
Texto: Priscilla Fontoura