Género: alternativo, indie pop
Autor: Catarina Branco
Disco: Acordava Cansada
Lançamento: 10 de Abril, 2026
Ser directa às vezes é melhor do que andar em preliminares. Onde Eu Me Escondo é um tema que agarra à primeira escuta e vem despertar mais um sorriso no panorama da música portuguesa contemporânea. Volto a dizer: há um pré e um pós da geração B Fachada — acho que os músicos começaram a olhar para a métrica e o ritmo das palavras de forma diferente, apesar de o rock dos anos 80 ter ensinado a gostar mais de cantar e criar em português.
Há algo shoegaze nesta melancolia sonora, e há muita poesia em pedir a alguém para nos encontrar onde nos escondemos. Catarina Branco não tem uma voz fora do padrão, mas sabe envolver o ouvinte. A capa do álbum remete para a estética de Engine of Hell (2021), de Emma Ruth Rundle, mas fica-se por aí; a inspiração de certeza que vem de outro lugar. O destaque vai para os arranjos: minimalistas, mas ao mesmo tempo absolutamente necessários ao tipo de disco que este é.
Vinda do Oeste, Catarina Branco faz a música que lhe apetece fazer. Não há cálculo de mercado nem ansiedade de género. Há quem a chame de queer-pop-fofinho — e pior não fica.
Catarina Branco estreou-se no início de 2019 com "Tá Sol", um EP de canções sobre amizade, amor e enamoramento — e tudo o que fica nas margens e zonas cinzentas desses afectos, num exercício de síntese musical. Gravado em casa, de forma autónoma, foi posteriormente pós-produzido e misturado por Luís Severo, com quem viria a trabalhar no seu primeiro LP. Cresceu no Oeste, em São Martinho do Porto, desde cedo ligada à música — passou pelo Grupo Coral Popular do Hospital das Caldas da Rainha e pelo conservatório da mesma cidade. Enquanto estudante de Artes Plásticas, começou a escrever canções e a experimentar a composição. Nos últimos anos integrou a banda de Luís Severo e colaborou com artistas como Chica, Orca e Luís Catorze.
Em 2022 lança o seu primeiro disco, Vida Plena.
| "Acordava Cansada", 2026 |
Acordava Cansada é o lado mais exaustivo de uma sombra que se cola ao corpo e da qual muitas vezes não conseguimos libertar-nos. A maquilhagem do mimo surge num dia de neura específica — há aqui uma certa tragicomédia na capa, como um corpse paint de alguém que quer parecer um mimo triste, um Charlie Chaplin que entretém os outros mas está sozinho e triste. Há, nesse encontro entre a estética de Engine of Hell e Acordava Cansada, uma coerência perturbadora: a máscara que tenta esconder estados de espírito acaba por revelar exactamente aquilo que encobre. É o paradoxo do palhaço — e também do Joker, que dança sozinho numa escada porque finalmente aceitou que ninguém o vai encontrar. O corpse paint dos metaleiros serve para intimidar; o desta capa serve para chorar sem que ninguém veja as lágrimas. Mas o Joker quer ser visto. Catarina também. A maquilhagem é simultaneamente escudo e grito. Onde Catarina Branco se esconde é onde também se encontra: no silêncio.
O disco foi concebido numa residência na Casa de Gigante, no Vale do Pereiro, Sertã. Num tempo retirado do tempo, no interior do país, em contacto com esse processo de escuta e recolhimento. Catarina procurava precisamente isso: um período suspenso onde pudesse escrever e compor com outras pessoas em residência.
O que está mesmo muito bem são os arranjos e algumas letras. A nível técnico, também, há um cuidado claro com volumes, espaço e dinâmica.
O disco nasceu de fragmentos escritos no meio da multidão, de frases anotadas em pausas do trabalho, num caderno — uma colecção de peças de um puzzle que só depois se encaixaram:
"Não sou feita de pedra apesar do disfarce." | "Às vezes sou um fantasma noutro corpo / e acabo por ficar calada / eu jogo às escondidas, mas ninguém me ouve / nunca vou ser encontrada."
Mas algures no metro, alguém a viu chorar. Também não teve coragem. Também se escondeu.
Texto: Priscilla Fontoura