No primeiro dia de setembro, uma visita ao RCA Club, a principal casa de concertos de Lisboa dedicada ao metal e ao que de mais pesad...

A DOCE BARBÁRIE: A Place To Bury Strangers + Numb.er no RCA Club


No primeiro dia de setembro, uma visita ao RCA Club, a principal casa de concertos de Lisboa dedicada ao metal e ao que de mais pesado o rock produz. Foi uma viagem de Costa a Costa dos EUA, primeiro com os californianos Numb.er e depois com os nova-iorquinos A Place To Bury Strangers.

Os Numb.er, projeto sediado em Los Angeles liderado pelo músico e fotógrafo Jeff Fribourg, estão em digressão para promoção do seu primeiro longa-duração, “Goodbye”, lançado no passado mês de Maio. Gostei do disco e tinha boas expectativas para o concerto. Essas expectativas vieram a ser confirmadas. O quinteto entrou em cena pontualmente às 22h e tocou durante 45 minutos. Acompanhando Jeff Fribourg, cantando debruçado sobre os sintetizadores, estiveram Laena Geronimo no baixo e voz, Nick Ventura e Kaz Mirblouk nas guitarras e Cameron Allen na bateria. A boa impressão que tinha do disco confirmou-se em palco. Sem aparato cénico, os Numb.er deram um bom concerto, com um som que remete para influências de um punk tardio e do pós-punk da década de 80 (Wire, Buzzcocks, Magazine, Joy Division, The cure, …). “Numerical Depression”, “State Lines” e “A Memory Stained” foram, para mim, os destaques da noite. Uma banda a seguir em disco e ao vivo.


Às 23h, entraram em cena os cabeças de cartaz A Place to Bury Strangers (APTBS). A banda nova-iorquina de noise rock prometia arruinar os ouvidos da audiência e uma ou duas guitarras. Com o seu quinto álbum na bagagem, “Pinned”, lançado em Abril deste ano, Oliver Ackermann (guitarra e voz), Dion Lunadon (baixo) e Lia Simone Braswell (bateria, voz e auto-harpa) prometiam a barbárie. Num cenário escuro e sombrio, como a sua música, com fumos, muitos fumos e períodos prolongados de luzes estroboscópicas, o trio que persiste em manter o som de Nova Iorque que teve nos Suicide e nos Sonic Youth possivelmente a sua maior expressão, entrou forte com “We’ve come so Far” do álbum de 2015 “Transfixiation”. Distorções, “noise” e uma guitarra escavada. John Hiatt, esquece lá o que escreveste:

Oh, it breaks my heart to see those stars
Smashing a perfectly good guitar
I don't know who they think they are
Smashing a perfectly good guitar

(…) 

There ought to be a law with no bail
Smash a guitar, and you go to jail
With no chance for early parole
You don't get out till you get some soul


E alma é o que me parece faltar na música de APTBS. Também aqui o pós-punk reina com as influências de Joy Division, Jesus and the Mary Chain, My Bloody Valentine e, sobretudo, Swans, Pouco depois de meio do concerto, as distorções deram lugar a uma “Harp Song” apenas cantada por Lia tocando uma auto-harpa. Foi a preparação para Ackermann e Lunadon fazerem uma jam no meio do público. Momento para as fotos e vídeos da praxe por parte da audiência com telemóveis em punho. Regresso ao palco para mais meia hora de música, com especial destaque para uma excelente “There’s Only One of Us”, e concerto terminado sem direito a encore. Foi um concerto aceitável, mas esta banda de Brooklyn está ainda distante de Sonic Youth, Swans ou Lightning Bolt. Gostaria de os rever já que, não trazendo nada de novo, os APTBS insistem em manter o noise rock ativo e isso pode ser a sua maior virtude.


TEXTO: JOSÉ MARQUES
IMAGENS e VÍDEO: JOSÉ MARQUES
LOCAL: RCA CLUB, Lisboa
DATA: 1 de Setembro, 2018
CONCERTOS: A Place To Bury Strangers + Numb.er