Nos tempos que correm, convém ser imparcial, sobretudo na publicação de textos, uma vez que o politicamente correcto costuma ser uma porta larga e facilitista para “convencer” meio mundo de algo que resvala sempre no imediatismo. É inevitável, porém, que exista, em todos e todas, uma tendência — política, ideológica, filosófica ou humanista —, pois somos humanos e forçados a fazer constantes escolhas.
A investigação rizomática começou a integrar o modus operandi das secções intelectuais da sociedade no século XX — em detrimento da profundidade e da pesquisa necessárias para a formulação de opiniões mais fundamentadas. Esse modo de funcionamento altera o poder e a mentalidade colectivas, podendo enfraquecer o pensamento crítico, mesmo com maior acesso à informação. Além disso, nem sempre quem pesquisa verifica a fidedignidade dos dados obtidos.
Off Frame AKA Revolution Until Victory, de Mohanad Yaqubi
Off Frame AKA Revolution Until Victory, de Mohanad Yaqubi, recorre a arquivos de imagem entre 1960 e 1980 sobre o período da revolução palestiniana, mostrando um lado pouco conhecido. Segundo o realizador, o filme é mais sobre sentir do que ver. Realizado em 2015, a partir de arquivos cedidos por inúmeras pessoas, o documentário surge mesmo quando Yaqubi, nascido na Palestina, pouco sabia sobre o conflito israelo-palestiniano e a história do seu país após o Tratado de Paz entre a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e Israel.
Ao sair da Palestina para estudar no estrangeiro, Yaqubi foi abordado por um professor interessado na existência de um famoso combatente palestiniano. A curiosidade levou-o a aprofundar os estudos sobre a história da Palestina. Em Londres, pesquisou sobre o conflito e constatou que existiam poucos filmes disponíveis online, apenas dois. À medida que investigava, mais pessoas se voluntariaram a ceder imagens. A versão exibida do filme é o sexto corte de montagem, resultado de três anos de recolha e selecção de material.
Em 1948, com a declaração de independência de Israel, surge o conflito israelo-palestiniano, gerando problemas na partilha de territórios. Duas décadas depois, inicia-se a revolução palestiniana. O documentário narra a identidade de um povo que se constrói também a partir do registo que faz de si mesmo. Na realidade, existem poucos arquivos da identidade palestiniana; os que existem estão dispersos pelo mundo, e a identidade apresentada no filme é sobretudo de guerrilha, e não cultural, segundo o realizador.
Nas escolas palestinianas, o hino nacional continua a ser cantado, e discute-se o direito à libertação e o direito ao retorno — inspirando-se na luta cubana cheguevarista, de esquerda. O realizador questiona como se transmite a memória de guerrilha a uma sociedade que precisa de se reconstruir. O filme aborda também o lado traumático, muitas vezes rejeitado, já que os palestinianos se envolvem mais na questão política do que nos traumas pessoais.
Recuperação do arquivo palestiniano
Vários estudos discutem a existência de materiais e arquivos palestinianos, visuais e de outro tipo, apreendidos ou saqueados por soldados israelitas desde as primeiras décadas do século XX. Para pressionar o desbloqueio desses arquivos, surgem projectos que visam recuperar os dados e revelar a identidade palestiniana. Algumas iniciativas procuram ainda requerer a devolução do material aos legítimos proprietários.
Um dos casos de pilhagem ocorreu em Beirute, em 1982, quando filmes palestinianos foram saqueados pelas forças militares israelitas. A sua recuperação permite compreender contextos históricos da época e aproxima cineastas do terceiro movimento do cinema palestiniano e das instituições da revolução da década de 1970, com destaque para a secção de Artes Culturais dirigida por Ismail Shammout.
As projecções de filme de Jerusalem in my Heart mostram como performances ao vivo promovem a identidade visual de contextos históricos esquecidos. A dupla Radwan Ghazi Moumneh e o cineasta Charles-André Coderre utilizam imagens de arquivo da Arab Image Foundation nos concertos. Outros documentários, como Looted and Hidden – Palestinian Archives in Israel, abordam a responsabilidade ética na devolução de arquivos: “O material deve ser devolvido. Tal como Israel luta para recuperar o material saqueado aos judeus pelos nazis”, afirma a curadora Rona Sela, investigadora de história visual e cultura na Universidade de Tel Aviv.
Sobre o realizador Mohanad Yaqubi
Mohanad Yaqubi construiu o seu percurso na realização e produção de filmes e é um dos fundadores da produtora Idioms Films, em Ramallah. É também co-fundador do centro de pesquisa e curadoria do colectivo Subversive Films, focado em práticas de cinema militante. Atualmente, é investigador residente na Royal Academy of Fine Arts (KASK), em Gante, Bélgica.
O seu primeiro filme, Off Frame AKA Revolution Until Victory, foi exibido em festivais internacionais, incluindo TIFF e Berlinale.
Mohanad Yaqubi construiu o seu percurso na realização e produção de filmes e é um dos fundadores da produtora Idioms Films, em Ramallah. É também co-fundador do centro de pesquisa e curadoria do colectivo Subversive Films, focado em práticas de cinema militante. Atualmente, é investigador residente na Royal Academy of Fine Arts (KASK), em Gante, Bélgica.
O seu primeiro filme, Off Frame AKA Revolution Until Victory, foi exibido em festivais internacionais, incluindo TIFF e Berlinale.
Texto: Priscilla Fontoura
Documentário: Off Frame AKA Revolution Until Victory, de Mohanad Yaqubi. Exibição no Porto/Post/Doc
Mais informação: Haaretz

