Nick Cave é um dos nomes que ocupa o templo da música popular, ao lado de nomes como Leonard Cohen e Tom Waits – até David Eugene Edwards o ...

O acto de criar: a possível via da superação. A ‘Carta para Cynthia’ uma confissão sobre o luto feita por Nick Cave


Nick Cave é um dos nomes que ocupa o templo da música popular, ao lado de nomes como Leonard Cohen e Tom Waits – até David Eugene Edwards o tem como influência para as suas composições. O músico australiano é um dos maiores ícones do rock‘n'roll da actualidade e, cada vez mais, esquece o estado de euforia e enlaça-se, harmoniosamente, nos assuntos da metafísica e da espiritualidade.

Nesta apresentação, Nick Cave é o expoente máximo do processo criativo que atravessa o luto e a perda de um ente querido, e cujo trabalho exprime, através da música e da arte contemporânea, todos os fantasmas, medos e anseios vindos desse momento tão traumático. A análise que se faz do trabalho criativo de Nick Cave identifica um autor que sempre se preocupou com a existência, inicialmente numa perspectiva mais caótica e agora mais reconciliada consequente da maturidade alcançada pela experiência, talvez; mas, sem dúvida alguma, desde a tragédia que traçou uma ruptura abrupta na sua vida, que o mote fulcral e a temática em que ultimamente se debruça tem sido a perda, a morte e o luto - a travessia no deserto que tem feito, consequência do falecimento inesperado do seu filho Arthur. 

Poderiam ser levantados mais exemplos, tal como David Bowie que antes de morrer encarou a morte de frente com o seu "Lazarus", a documentarista Petra Costa que fez a sua via dolorosa à procura da sua irmã que morreu em Nova Iorque no documentário "Elena", ou o nórdico Karl Ove Knausgård que escreveu a sua autobiografia dividida em volumes sendo "A Morte do Pai" o que descreve os sentimentos que o falecimento do seu pai lhe trouxe. Muitos artistas tiveram como temática a morte e o sofrimento de perda que daí advém, Munch (e tantos outros artistas) representada em quadros, filmes, músicas. Mas hoje destaca-se Nick Cave como o autor que nos conduz sem grandes rodeios ao tema da perda vivida na primeira pessoa. Quem já a viveu sabe que, apesar do sentimento singular, há uma objectividade transversal a todos que passam por este momento.

A verdade é que a morte e o luto envolvem paradoxos e alegorias, não se pode falar de morte sem se falar de vida, não se pode falar de tragédia sem arte, nem de filosofia sem existência, nem de arte sem criação, todos estes antónimos são sinónimos também; por mais que as nossas vivências sejam reflexos também do meio social em que nos incluímos, existe também um sentir e olhar para a vida de uma forma muito individual e singular. Por mais que certa cultura tenha como tradição realizar um funeral com uma festa, isso não significa que na essência da perda, e quem a sente intensamente, não a viva de uma forma muito particular com significado.



A presente apresentação parte de uma canção que, na realidade, é uma carta inspirada na fã Cynthia, que dirigiu uma pergunta ao músico australiano em Outubro de 2018  no site The Red Hand Files, plataforma onde Cave responde às questões colocadas pelo seu público. O novo trabalho de Nick Cave, aparece originalmente no 7″ de Nick Cave e Warren Ellis intitulado “Grief”, foi composto e gravado depois de "Carnage" (registado na altura do confinamento), e é assinado a meias com o companheiro de longa data Warren Ellis. Esta canção "A Letter to Cynthia" surge como resposta à fã que perguntou a Cave se sentia que o seu filho se comunicava com ele por sonhos. Como resposta, Nick Cave exprime, nesta canção, sem rodeios e sem artifícios todos os pensamentos que cabem no discurso de quem passa pelas várias fases que uma perda desta escala acarreta. Como Cave explicita – quando amamos, sofremos. No vídeo realizado para o tema observa-se um pássaro que abana as asas mas não sai do mesmo lugar. Essa representação visual reflecte bem o estado desse congelamento próprio da apatia.


Após este drama todos os álbuns que sucederam à discografia do músico tiveram como inspiração criativa a morte do filho do casal Nick e Susie Cave. Todos esses processos criativos reflectem muito directa e profundamente todas as fases de luto do músico: Skeleton Tree, Ghosteen, no âmbito Nick Cave and the Bad Seeds, banda que tem sido suporte para a sua catarse criativa, e agora, com o seu companheiro e pilar da vida artística, Warren Ellis, também membro dos Bad Seeds.

Sabemos que o processo criativo de Nick sempre se baseou muito na palavra, numa intenção diarística que não foge às confissões existenciais da sua realidade, muitas vezes poética e imaginativa, mas com uma boa dose de realidade.


Toma-se então de exemplo o processo criativo de Nick Cave, em especial o tema A Letter to Cynthia (Uma carta para Cynthia), este desabafo é um exemplo vivo de todas as fases que o sentimento de perda contempla: silêncio, distanciamento, apatia, contradição, protecção, dúvida, questionamentos, medo e queremos acreditar uma possível superação.

O músico vai transparecendo em todo o processo a necessidade que se lhe impõe: ajudar a família para que não se perca na escuridão que pode trazer muitas mais perdas, por exemplo, um possível divórcio, por se obrigar a dar suporte familiar ainda que esteja a passar por um processo penoso; distanciamento familiar, quando também tem que ter forças para apoiar o seu outro filho, o irmão-gémeo de Arthur – uma família com dor a precisar de cuidados e a precisar de encontrar refúgio nela mesma, porque a dor, apesar de colectiva, é vivida e sentida no núcleo familiar por cada membro de forma muito particular. O exercício catártico feito sozinho, em estúdio e no palco condu-lo a uma resiliência e à superação que, talvez, nem o músico algum dia acredite alcançar.


Ainda que a sofrer, Nick permite passar esta mensagem ao mundo e traça esta linha de identificação: muito importante neste processo, pois quem vive uma tragédia pública consegue tocar na alma de quem a vive ou viveu anonimamente, nesta relação entre músico e fã encontram-se também os fantasmas que conduzem à superação recíproca de feridas profundas.


O processo criativo é portanto um mecanismo muito importante para o processo de cura, passa por fases necessárias com vista à superação e a obra artística realizada deixa de pertencer ao autor para passar a pertencer ao mundo independentemente, segundo Deleuze, o mergulho nunca faz o artista voltar à superfície igual.


Em última análise, o acto criativo termina numa mensagem que passa de emissor para receptor, ela não é egoísta e não se permite a sofrer sozinha, é pois uma partilha que se alia à identificação e à reciprocidade.

Um emissor que sofre para um receptor que também sofre, uma ligação que procura e vislumbra a redenção, a empatia e a cura: aqui sente-se a transcendência. Talvez, seja esse um dos sentidos da vida, nem sempre explicados pelo raciocínio lógico, tão enfatizados por Viktor Frankl, que passando pela via dolorosa não ocultou a sua dor e ajudou outros a continuar a vida com os olhos virados para o sentido e importância da vida. A alegoria visual mostra um pássaro que bate as asas que não sai do mesmo lugar, assim se metaforiza o estado de luto - mas chegará o dia em que alcançará o voo se mantiver as asas em movimento.

Esta canção ensina também o amor ao próximo, Nick Cave não se reserva a lidar com a dor sozinho, é nobre, partilha com os outros anónimos o sentimento transversal que afecta tantas pessoas, especialmente agora, todavia, ainda que se encontre a abanar as asas, o voo um dia virá. 


Texto e Slides: Priscilla Fontoura
Vídeo: Nick Cave