
Nunca fui particularmente fascinada por filmes-musicais. Depois de obras-primas como Holy Motors, dificilmente esperaria ver um musical capaz de me impressionar, mas Leos Carax, apesar de ter mais experiência em curtas-metragens do que em longas, tem vindo a criar um culto cinematográfico. A sua identidade marca um passo progressista no cinema contemporâneo, e em Annette isso torna-se evidente: o filme é cantado em som directo, o que lhe confere uma intensidade dramática rara.
A génese de Annette nasce de uma chamada telefónica dos irmãos Ron Mael e Russell Mael, da banda Sparks, a Carax, para agradecer a inclusão de uma das suas músicas em Holy Motors. A partir daí, o projecto evoluiu: os Sparks tinham planeado originalmente o álbum como uma apresentação ao vivo, adaptando-o para o cinema apenas se Carax mostrasse interesse — e ele mostrou.
O filme inicia-se com a metáfora das pálpebras que se abrem, como cortinas, e mergulha o espectador num espectáculo de ópera-rock romântica, onde a meta-linguagem confunde e fascina. É um universo ao mesmo tempo fantástico, dramático, cómico e surrealista. Por trás da exuberância, há também intimidade e subtileza. A primeira fala do filme pertence ao próprio Carax, dirigindo-se à filha Nastya, lembrando-nos que o espectáculo está para começar. A musa e parceira de Carax, Yekaterina Golubeva, figura como espectro da narrativa — perda, culpa e tristeza alimentam o drama, mas também a força da criação.
Annette apresenta personagens e situações que atravessam géneros. A criança-boneco, que mais tarde se transforma numa criança real, lembra Pinóquio e levanta questões sobre exploração infantil e ego parental. A montagem em capítulos estrutura a narrativa clássica de uma tragédia: o casal célebre Henry (Adam Driver) e Anne Defrasnoux (Marion Cotillard) vive uma paixão interrompida pela chegada da filha, refletindo o paradoxo da fama, do amor e do ego.

Musicalmente, o filme percorre diferentes estilos, sempre com uma abordagem contemporânea e vanguardista. Carax manipula o drama e o humor de forma a criar tensão e alívio, alternando entre o íntimo e o grandioso. Referências como The Square ou Bo Burnham: Inside, remetem para a ironia e crítica social subjacentes à obra.
Anne previsualiza no palco a tragédia iminente, enquanto Henry antecipa os seus próprios actos de destruição. O filme explora a dinâmica de género, revelando um macho alfa com traços de sadismo e frieza calculista, e uma mulher marcada pela fragilidade, drama e tragédia. Adam Driver equilibra cinema mainstream e independente, trazendo autenticidade e intensidade ao papel.
Além do romance e do drama familiar, Annette faz uma crítica ao mediatismo: a mesma sociedade que endeusa as celebridades rapidamente as condena após uma tragédia. É uma reflexão sobre a viralização, a fama e a moral pública, tornando o filme muito mais do que um musical — é uma análise da cultura contemporânea e do comportamento humano.


Em síntese, Annette ultrapassa as fronteiras do género. Tal como Dancer in the Dark ou La La Land, é um musical que transcende as convenções, desafia o espectador a sentir, a pensar e a ser confrontado com a complexidade da vida e das relações humanas.

Texto: Priscilla Fontoura