Género: jazz, progressivo, improvisação
Autor: Francesca Remigi
Disco: Witchess
Lançamento: 7 de Novembro, 2025
Editora: Hora Records
Há discos que chegam como manifestos. E há discos que chegam como feitiços — que trabalham por dentro, que demoram, que ficam. WITCHESS é das duas coisas ao mesmo tempo.
Francesca Remigi é baterista. Mas o que faz aqui é outra coisa: constrói um espaço. Em torno dela orbitam Andrea Giordano, Silvia Cignoli, Naomi Nakanishi e a bailarina Clotilde Cappelletti — vozes, cordas, movimento, silêncios que falam. O projecto nasce interdisciplinar e assim permanece: literatura, dança e música num mesmo corpo que recusa ser catalogado.
O que a bruxa sabia
Angela Davis. Silvia Federici. Chimamanda Ngozi Adichie. Não são referências decorativas — são a fundação. Caccia alle Streghe declara-o sem rodeios: a caça às bruxas não foi superstição. Foi política. Foi a produção sistemática de um modelo de mulher — assexuada, obediente, útil. O capitalismo precisava de corpos disciplinados, e a pira foi uma das ferramentas. Dito assim, em 2025, sobre bateria e guitarra elétrica, o texto de Federici ressoa de forma perturbadoramente atual. A ironia é lúcida. O ritmo, implacável.
Roots of Gender Violence começa em velocidade — bateria acelerada, guitarra que percorre o instrumento de ponta a ponta, berros, sons que recusam interpretação. E depois, subitamente, um groove onde o corpo quer entrar. É essa oscilação — entre o colapso e a dança — que é propriamente política. Não a mensagem. O movimento.
O transe como método
Liberation I e II não se explicam. Repetem. E é na repetição que acontece qualquer coisa que se assemelha à catarse — um estado de suspensão onde a urgência cede lugar a qualquer coisa mais vasta. A improvisação aqui não é ornamento: é estrutura. É o instinto a organizar-se.
Loghaven é onde o disco toca algo próximo do universo de Maudlin of the Well — a bateria magnética, a flauta que a segue como sombra, a guitarra que brinca nos intervalos. Não há hierarquias. Há conversa.
O que fica
Blueberry Picking é a mais melódica, a que oferece o menor grau de resistência à escuta. Mas também leva o ouvido a prestar atenção ao que se diz — e o que se diz importa. A acessibilidade não é concessão: é outra forma de chegar.
| Por Elisa Caldana |
O que atravessa WITCHESS do início ao fim é a coexistência entre o instintivo e o pensado — entre a urgência política e a liberdade formal. A voz feminina — individual, coral, sobreposta — não é temática. É o próprio meio. Francesca Remigi, vencedora do Nuova Generazione Jazz 2021 e do Top Jazz 2022, com passagens pelo London Jazz Festival, Melbourne Jazz Festival e Panama Jazz Festival, não faz um disco com uma tese. Faz um disco que age — na recusa da hierarquia, na aposta na colectividade, na improvisação como acto político.
A Hora Records confirma ser uma editora com critério. E a Itália, pelo que aqui se ouve, está num momento criativo que vale a pena acompanhar.
Texto: Priscilla Fontoura