Género: acústico, american primitive, finger style Autor: Ben McLeod Disco: Pronounced 'Mick Loud' Lançamento: 12 de Junho, 2025 Há ...

Pronounced Mick Loud: Ben McLeod e as cordas que não precisam de palavras

Género: acústico, american primitive, finger style
Autor: Ben McLeod
Disco: Pronounced 'Mick Loud'
Lançamento: 12 de Junho, 2025


Há coisas que ficam gravadas não pela sua grandiosidade, mas pela sua exacta qualidade de surpresa e generosidade. Em 2016, no Sonicblast Moledo, entrevistei os All Them Witches — Parks e Van Cleave foram simpáticos e interessantes, uma conversa memorável. Depois veio o concerto. E depois, no meio de um terreno aberto, numa multidão, Parks foi ter comigo. Falámos. Parecíamos kindred spirits. Não sei bem como me encontrou, nem precisei de perceber.

Ben McLeod não esteve nessa conversa. Mas esteve na música que a tornou possível.

É curioso como o destino dos guitarristas excepcionais se divide, às vezes, em dois tempos: o que tocam com os outros e o que tocam quando finalmente ficam sozinhos. McLeod é um dos cérebros criativos dos All Them Witches, um dos guitarristas mais eclécticos da sua geração — capaz de pesar e de flutuar, de construir paisagens eléctricas que não pedem licença. Mas há algures nele, ao que parece desde há muito tempo, um outro impulso: o da guitarra acústica, despida, directa, americana no sentido mais primitivo da palavra.



Pronounced 'Mick Loud' é esse impulso finalmente em forma de álbum. Gravado de forma intermitente entre 2019 e 2024, com várias guitarras acústicas e gravadores de cassete de quatro pistas, o disco leva a impressão digital de uma prática solitária e honesta. McLeod cita Jack Rose, John Fahey, Joseph Allred como referências — o chamado American primitive style, aquele filão da guitarra solo americana que não pede audiência, mas inevitavelmente a conquista. A guitarra que usou em palco com os King Buffalo, a mesma Martin com que gravou o álbum, tem história nas suas mãos.

Este é um universo com os seus próprios sacerdotes. Há uns dias vi Sir Richard Bishop (Sun City Girls) em palco — trabalho que dispensa apresentação longa, apenas a nota de que tocou Eustathius, tema que os Grails também gravaram na sua versão, e que Ben Chasney, com quem Bishop já partilhou trabalho, tem igualmente um tema homónimo mas musicalmente distinto, original seu (St. Eustace). São esses cruzamentos subtis que confirmam a coesão desta tradição: guitarristas que se reconhecem pelo espírito, que habitam o mesmo silêncio entre notas, sem que isso precise de ser proclamado.

O que o American primitive faz — e aqui está o seu mistério — é suprimir o tempo sem o abolir. Há pulsação, há ritmo, mas os ponteiros param de girar de forma reconhecível. As mesmas cordas que acalmam um bebé podem trazer contemplação a um adulto, podem fazer um cão levantar a cabeça da sonolência. Não é magia. É simplesmente música que fala antes de pensar.

Good Dad poderá ser dedicado ao seu pai ou ao momento em que ele próprio se tornou pai — não importa muito, porque a música diz o que tem a dizer sem precisar de legenda. Through the Meadow é impossível de ouvir sem que qualquer pessoa sensível sinta qualquer coisa apertar. Two Finger Blues começa com sons ambientais, drones, loops — Parks Jr. e Edmond Villa assinam essa textura — e o álbum vai revelando, ao longo das faixas, um Ben McLeod mais íntimo do que aquele que conhecemos nos palcos.

Obrigada, Ben, por poderes estar connosco quando quisermos ouvir-te tocar.

Texto: Priscilla Fontoura