Na licenciatura, numa disciplina de Semiótica ou Comunicação Visual (já não lembro), escolhi a icónica fotografia "A Menina Afegã"...

Sharbat Gula: O Preço dos Olhos Verdes

Na licenciatura, numa disciplina de Semiótica ou Comunicação Visual (já não lembro), escolhi a icónica fotografia "A Menina Afegã" de Steve McCurry. Na altura via nela o poder da imagem para despertar o mundo. Hoje vejo também o lado mais duro. O oportunismo de quem precisa de uma “vítima” para se tornar estrela. 

Sharbat Gula, fotografada por Steve McCurry em 1984, num campo de refugiados afegãos no Paquistão.
A fotografia tornou-se um ícone mundial após a publicação na capa da National Geographic, em junho de 1985.

Sharbat Gula, a menina dos olhos verdes que sugam qualquer espectador para o cosmos que os desenham, tornou-se ícone mundial da National Geographic em 1985. Depois de décadas a viver como refugiada no Paquistão (desde a invasão soviética do Afeganistão nos anos 80), Sharbat e a família continuavam em situação irregular. Como tantos outros refugiados afegãos, recorreu a documentos falsos para conseguir viver, trabalhar e ter acesso a serviços básicos.

Em 2016, a polícia paquistanesa, numa operação contra imigração ilegal e documentos falsificados, identificou e prendeu Sharbat Gula. Foi condenada a até 14 anos de prisão por posse de bilhete de identidade paquistanês falsificado. Na prática, cumpriu apenas 15 dias na cadeia, pagou uma multa elevada e foi deportada para o Afeganistão.

Regressada a Cabul, o presidente Ashraf Ghani recebeu-a no palácio presidencial, chamou-lhe “símbolo do sofrimento dos refugiados” e ofereceu-lhe um apartamento e subsídio mensal. Quando os talibãs tomaram o poder em Agosto de 2021, a mesma visibilidade que a celebrizou tornou-a novamente um alvo. Foi evacuada de urgência para Itália, onde vive hoje no exílio.

Steve McCurry, o autor da fotografia que o tornou mundialmente famoso, nunca lhe pagou qualquer royalty.

Uma criança vulnerável. Um fotógrafo ocidental transformado em lenda. Décadas de pobreza, perseguição, exploração mediática, prisão e exílio forçado para ela.

A história do fotojornalismo conhece outros episódios que nos obrigam a refletir sobre os limites éticos da profissão. Em 1993, o fotógrafo sul-africano Kevin Carter captou a imagem de uma criança sudanesa gravemente desnutrida, enquanto um abutre aguardava a poucos metros. A fotografia venceu o Prémio Pulitzer e tornou-se um símbolo mundial da fome em África, mas também desencadeou um intenso debate sobre o dever do fotógrafo perante o sofrimento humano. Carter foi alvo de duras críticas e, embora as razões da sua morte fossem complexas — envolvendo depressão, trauma acumulado pela cobertura de conflitos e dificuldades pessoais —, a polémica em torno daquela imagem marcou profundamente a sua vida. Em 1994, poucos meses depois de receber o Pulitzer, suicidou-se.

Casos como o de Kevin Carter e o de Sharbat Gula mostram que uma grande fotografia pode mudar a forma como o mundo vê uma tragédia. A questão é outra: quem muda a vida das pessoas fotografadas?
Não confundamos fotojornalismo com colonial gaze. O primeiro procura documentar a realidade; o segundo transforma vidas humanas em objetos de contemplação, fama e lucro, sem alterar a condição de quem é retratado.

Steve McCurry continua activo como fotógrafo, embora com menos exposição mediática do que no auge. Ainda viaja ocasionalmente para projectos pessoais e exposições.
Dá palestras e workshops de fotografia pelo mundo. Mantém um estúdio e presença profissional nos EUA. 

Enquanto Steve McCurry continua a ser celebrado como lenda pela National Geographic e por grande parte do establishment da fotografia, Sharbat Gula pagou com décadas de pobreza, prisão, exploração e exílio.

É isto o que muita gente faz: olha, não pensa, ou boicota o que é tendência. Aqueles que alegadamente lutam por direitos humanos são muitas vezes os primeiros a aproveitar-se deles para manipular toda uma geração: transformando sofrimento real em conteúdo, fama e lucro.

Uma criança vulnerável. Um fotógrafo ocidental transformado em lenda. O colonial gaze na sua forma mais pura.

Steve McCurry
Texto: Priscilla Fontoura