Quando pensei que as canções já não conseguiam comunicar comigo, eis que surge uma que não consigo deixar de ouvir, quase disciplinadamente. Chama-se "Billy", e é de Stephen Wilson Jr. — foi ele que fez renascer em mim essa esperança. Não apenas porque se recusa a ficar congelado numa única maneira de ser, mas pela forma como funde a complexidade da sua existência em canção, em álbum, em visão.
Filho de um lutador de boxe com boa pontaria, crente em D-us, mas cansado das pentecostadas que tantas vezes fazem da fé uma alternativa ao pensamento, foi procurar na razão algum equilíbrio. Estudou microbiologia e química e trabalhou como cientista de alimentos na Mars, na investigação e desenvolvimento de comida para cães; participou, inclusivamente, na criação dos Dentastix.
Mas foi a morte do pai que lhe deslocou o centro de gravidade. O momento mais marcante da sua vida tornou-se também o impulso deste álbum. O luto obrigou-o a regressar às origens, às perguntas, à fé, à memória e a tudo aquilo que nenhuma explicação científica consegue verdadeiramente arrumar. Talvez tenha precisado do microscópio para voltar a olhar para o céu.
Hoje, na sua música, cabem os dois: razão e revelação. Não são incompatíveis. Há coisas que a razão explica; há outras que a revelação não explica; revela. E talvez a revelação comece, tantas vezes, precisamente onde a explicação racional deixa de chegar. Wilson não parece interessado em resolver essa contradição. Faz melhor: transforma-a em música. E é no som, mais do que no argumento, que essa ideia se torna audível.
É o número 1 da minha playlist há uns dois meses. Tirar aquele som de uma guitarra de cordas de nylon é coisa de mestre (bela Takamine, diga-se). E o slide de Scotty Murray, na lap steel e na pedal steel, é uma espécie de segunda voz dentro das canções — dos melhores que conheço.
Ainda há Freida, a sua amiga de quatro patas, companheira de estrada, que por vezes também sobe ao palco. De cientista de comida para cães a músico em digressão com a amiga: há biografias que parecem escritas antes de se tornarem canções.
E, já agora, uma daquelas curiosidades que fecham o círculo musical: Stephen Wilson Jr. é casado com Leigh Nash, a voz dos Sixpence None the Richer. Na canção "You", escrita para a mulher, canta "You know where the bodies are buried / And you don't think a skeleton's scary": ela conhece o pior dele, os esqueletos que ele mesmo mal suporta olhar, e não se assusta. É a forma mais desarmada de dizer que se é inteiramente conhecido — e, ainda assim, amado.
Vão lá ouvir este douto de experiência feita, que aprendeu as canções mais pela vida do que pela teoria e anda entre o country, o blues, o grunge, o rock e o que mais lhe vier. Um homem que conhece por dentro aquela América rural e profunda onde a fé, a família, a perda, o trabalho, a terra e a estrada não são temas para canções; são a matéria de que elas nascem. E, felizmente, não parece muito interessado em escolher apenas uma delas.
Texto: Priscilla Fontoura

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