"TENTOS - INVENÇÕES E ENCANTAMENTOS" QUE ENCANTAM Luzes baixas. Há um silêncio que traduz a relação de respeito criada com quem ...

Luís Martins encanta em noite de Six Organs of Admittance a meio gás

"TENTOS - INVENÇÕES E ENCANTAMENTOS" QUE ENCANTAM
Luzes baixas. Há um silêncio que traduz a relação de respeito criada com quem naquela altura é dono do palco. De cá debaixo vislumbra-se um vulto. Mais do que perceptível é o contorno da guitarra apoiada na perna esquerda e dos gongos que o circundam. Adensa-se o mistério. "Tentos - Invenções e Encantamentos", editado pela Shhpuma, é a materialização dessa incógnita. Tem este enigma um responsável: Luís Martins - acompanhado pela Loop Station. 

Há uma base electrónica de vários sons que se repetem que serve de apoio para que a guitarra clássica se lance para outros mundos. Do Barroco ao Flamenco, são várias as influências. Já os harmónicos cristalinos são uma constante. 

O CV de Luís faz-se de bandas como "Bicho de 7 cabeças", "Powertrio" e "Deolinda". Esta é a primeira experiência a solo. Estar no palco sozinho, onde os silêncios metem medo e o cenário parece despido, não é tarefa fácil. É aqui que a sua identidade floresce e se torna mais próxima do público. Ponham os ouvidos nele, é sem dúvida uma revelação daquelas. 

BURNING THE THRESHOLD - BEN CHASNY E UM ANJO NO LIMBO


Há pressa. Alguma pressa. O concerto acaba de começar. Ouve-se um Mi grave solto, desafinado e que distorce. Talvez seja outra nota. Fica a dúvida. Certo é que se toca St. Eustace, aqui tocada em compasso mais forte que a original. Ben Chasny diz que não viu em lado algum de Portugal sinal de Santo Eustáquio. Qual mártir cristão com a coragem de um general romano, enfrenta o público sem esconder algum nervosismo, que vai desaparecendo com o decorrer da actuação. Não será a experiência de palco que faz de um músico menos ansioso. 

O membro dos Comets on Fire, banda que está a passar por um hiato, é um dos guitarristas mais relevantes da actualidade. Descendente dos pais do american primitive guitar, Fahey e Jack Rose, e do raga a quem Robbie Basho deu cor, veio apresentar o seu último registo Burning the Threshold sob a designação Six Organs of Admittance. Desta vez Ben Chasny está acompanhado por Elisa Ambrogio, frontwoman dos Magik Markers. E há momentos em que mais vale estar só do que mal acompanhado. A voz tímida e frágil da vocalista não enriquece "Adoration Song", mas como diz Chasny "fala subtilmente". "Taken by Ascent", que conta com a participação de Elisa, deixa um tanto a desejar nas alturas em que a convidada tenta preencher os espaços em branco da canção com o apoio da guitarra eléctrica. Denota nesta tentativa alguma dificuldade rítmica. 

Neste caso, fica a sensação de que nem todos os anjos são necessários, ao contrário do que é dito em "Things as They are", música sobre Wallace Stevens. Algumas vezes os intervalos entre as canções dão tempo para afinar cordas que se desafinam e para Chasny soltar uma palavrinha.


Uma primeira parte com Elisa e uma segunda sem ela. Quando sozinho no palco tudo pareceu fluir. Ouvimos uma guitarra gasta com horas de composições e exercícios, por um Chasny dividido entre o Ocidente e Oriente. Uma guitarra com base folk e muitas vezes transformada em cítara, esses sons mais agudos que nos abrem a porta ao seu mundo bipolar e existencial. Algum do intimismo de Burning the Threshold ficou perdido no ar. Todavia, fica o desejo de voltar a repetir a experiência, mas de uma outra forma.


Texto: Priscilla Fontoura
Imagem: Rui Mota Pinto
Local: gnration, Braga
Data: 24 de Fevereiro, 2018

Bootleg (início do concerto):
- St Eustace
- Things as They Are
- Adoration Song
- Taken by Ascent