Há coisas curiosas, relações diferentes que se vão travando ao longo da vida em fases distintas. Embora não me sinta muito confortável a esc...

O clássico nunca esteve fora de moda, Jean Rondeau e Thomas Dunford comunicam através das cordas no 47.º Festival Internacional de Música de Espinho


Há coisas curiosas, relações diferentes que se vão travando ao longo da vida em fases distintas. Embora não me sinta muito confortável a escrever sobre música de câmara e barroca, é cada vez mais em concertos a que não estou acostumada a frequentar que me sinto satisfeita. Por todos os factores: público neutro, faixas-etárias díspares, novas propostas de pensar a música — assim se recolhe da vida a intensidade profunda, para quem dela  necessita para subsistir culturalmente, enquanto se respira novos ares.


Ao longo destes anos, o Auditório de Música de Espinho tem sido palco para músicos, fortes em conteúdo e simples em forma, apresentarem, ao público, temas ensaiados por horas que não se sentem passar. Consequência desse treino, no âmbito do 47.º Festival Internacional de Música de Espinho, incluem-se extravagâncias que atravessam várias fases do barroco francês, um tempo esquecido por nós, mas definido pelo tique-taque do relógio que parou por momentos contagiado pelo som reverberado da dupla Jean Rondeau (cravo) e Thomas Dunford (alaúde). Os ponteiros do relógio pararam para ouvirmos as reminiscências do barroco francês. Eu pergunto: como dois jovens deste século conhecem tão bem um tempo longínquo passado? A viagem ao passado levada a cabo pela dupla espanta qualquer músico experiente. Estes dois jovens criativos poderiam dominar qualquer género contemporâneo da música, mas escolheram o barroco francês para fazer renascer um género à partida datado. Jean Rondeau e Thomas Dunford são duas ondas que se encontram no mesmo ponto, dois ilusionistas mestres do tempo, peritos a criar multiversos, tal como Sofia Coppola com Maria Antonieta. Com a ópera inicia-se o barroco musical e é dada importância ao instrumental em detrimento da vocal, as novas formas da música instrumental desenvolveram-se a partir da música criada para a ópera e para outras artes que dela provinham, a dança por exemplo. Era completamente nova a ideia de uma música instrumental independente, composta para ser ouvida. Na ópera havia uma história; na dança, a música ditava o tempo; e uma das bases da música barroca suportava-se na doutrina das emoções já patente na literatura. 

Neste concerto, que aconteceu numa noite que findou com lua cheia, 25 de Junho de 2021, coube o encantamento de Jean Rondeau, descrito pelo Washington Post como "um dos intérpretes mais espontâneos que alguém provavelmente ouvirá num palco de música clássica nos dias de hoje". O jovem francês, apaixonado pelo cravo — por sinal muito bem afinado, remetendo para o tempo de ouro do barroco, os séculos XVI/XVIII, decorado com estética do estilo —, encontra-se dividido entre dois espaço-tempo: o século XV e XXI. Verdade seja dita, se a história da música não tivesse evoluído com mais instrumentos criados, jamais comparar-se-ia um cravo a um sintetizador, tampouco deixar-nos-íamos confundir pela destreza e ritmo rápido com que o músico francês toca as teclas parecendo, por vezes, temas de jogos de computador. Não poderia ser mais assertiva a descrição daquele que escreveu acerca do músico francês no The Washington Post: "Rondeau, com 24 anos," (hoje com 30), "é um dos performers mais autênticos que poderá ouvir na música clássica actualmente. A artificialidade e ostentação não fazem parte da sua composição, assim que se senta ao seu instrumento, ele e o cravo se tornam num só. A partir daí, tudo é criação musical que se sente masculina, directa e absolutamente humana. Rondeau é um mestre do seu instrumento com um conjunto de dons comunicacionais que normalmente só se encontram em artistas com o dobro da sua idade. Ele interioriza a música que toca de forma tão completa que qualquer ambivalência interpretativa ou erro de cálculo é impensável. A sinceridade e a modéstia da sua entrega são os pontos-chave do seu poder.".

Ao longo do repertório o nosso coração viveu dinâmicas diferentes, às vezes passeia-se pelos jardins românticos ao lado da cara metade, ou nos salões nobres ao sabor da dança francesa num possível Palácio de Versalhes durante os reinados de Luís XIV e Luís XV. Não foi neste tempo que músicos proeminentes foram atraídos para a corte desenvolvendo uma actividade marcante? Este concerto foi pontuado por momentos de sofrimento, causado por uma paixão avassaladora, como também pequenas risotas motivadas pelos festejos. Este auditório exalou romantismo provindo de um jardim burlesco musicado também pelo canto dos pássaros. Afinal como se deu este casamento entre Jean e Thomas? A aura luminosa que deles resplandece transmite respeito na relação entre estes dois músicos, que se deixam permear pela dinâmica que tanto aufere independência criativa, quanto potencializa a comunicação conjunta.



A plateia vibrou de emoção e não se calou enquanto pedia por mais celebrações em nome do barroco. Quatro encores encerraram o espectáculo, um deles ao som do embalo "Les Baricades Mïstérieuses" de François Couperin, e o último, o único tema cantado por Thomas Dunford.


Falámos um pouco com Jean e Thomas e perguntámos, se tivessem que escolher um tema contemporâneo para uma versão qual seria, Thomas, entre várias opções, ressaltou The Long And Winding Road dos Beatles. Que dimensão unificadora seria esta, onde se fariam vibrar as cordas de um cravo e de um alaúde? 

Podem visualizar, através deste link (aqui), Thomas Dunford tocar no seu alaúde o tema Blackbird de Beatles. 

Os dois músicos têm já um vasto currículo no que respeita ao universo da música, formação, lançamento de discos, ensino, prémios e espectáculos.

Texto: Priscilla Fontoura
Imagens: Emanuel R. Marques