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STOP: se tens olhos, pára! Aqui pode estar uma solução para o Centro (Cultural) Stop

Fonte: Pinterest


Desabafo de alguém que gostaria de ver as coisas a avançar, ainda com desesperança -, resultante da constante falta de visão dos órgãos responsáveis que deveriam assegurar políticas de transformação e desenvolvimento cultural neste país. 

Sobre o estado do Centro Comercial Stop, no Porto:
Eu pergunto se não há no seio do Stop pessoas a trabalhar no sentido de levar a cabo uma investigação que se insurja contra a visão (que tende a perdurar) subordinada a uma só face de cultura homogeneizada virada para massas. Julgo que, ao longo de pelo menos uma década, é premente levar à discussão um programa sustentado e fundamentado, desenhado por especialistas, para que se encontre junto do pelouro da cultura da Câmara Municipal do Porto uma solução viável que seja perdurável, sustentável e saudável, tanto para a cidade como para os músicos. Tentar tapar o sol com a peneira, para dar a entender que o assunto foi resolvido, não trará qualquer satisfação tanto a curto como a longo prazo para ninguém.

É certo que há particularidades difíceis de colmatar para que o Stop continue a existir com a identidade que lhe é inerente, mas a "solução" que a Câmara do Porto oferece também não parece viável. Segundo o JN, a 
Câmara do Porto encontra-se disponível para adaptar Silo Auto para acolher músicos do Stop. Talvez não seja a geografia de Portugal que se encontra na cauda da Europa e em contacto directo com a aquacultura, é mesmo a mentalidade que prevê o comodismo sustentado num pensamento de "um dura para sempre". Julgo que foi isso que aconteceu de ambas as partes. Por um lado, a Câmara não agiu em tempo certo para tentar encontrar uma solução que exige tempo mas que iria prever um plano exequível, por outro lado, as bandas acomodaram-se, não se organizaram e não encontraram representatividade para prevenir problemas de segurança que já colocaram em causa o bom funcionamento do espaço por pelo menos duas ou três vezes. Se o presidente da Câmara do Porto afirma que o Stop não pode funcionar como está, uma vez que as condições representam perigo para a segurança pública, por que não agiu em tempo certo? Os planos que o presidente tem para zonas da cidade e para a cultura não devem ser adaptados a outros grupos com outras vontades e necessidades.  


Lembro que a Câmara do Porto (com Rui Moreira) demonstrou preocupação com a cultura local, e quando pode faz disso bandeira promovendo iniciativas para a dinamizar. Dá-se o mais recente exemplo do Cinema Batalha. Mas e a cultura local do Stop, que tem em si características singulares que foram sendo construídas num ecossistema próprio, mesmo que o edifício não esteja sob tutela da câmara? O porta voz (que o Stop não tem) deveria criar uma estrutura viável para se auto-sustentar, um organismo independente, que resulte através de um plano inteligente que sirva de modelo para outros. Vivemos num tempo com exigências diferentes. Saber agir com equidade e contemplar todas as partes, sempre de mãos dadas com a comunidade que deveria configurar-se em aliança e não em paredes egomaníacas, é também outra característica importante para que egos não falem em nome de um grupo.

Nesse contexto, fui pesquisar intervenções ou planos estratégicos que pudessem responder à situação vigente. A instituição Musicboard Berlin (MbB) concebeu um modelo para responder a um fosso presente na cidade e julgo que poderia servir de modelo para o Porto.

O MbB é uma instituição única na Alemanha que financia a música pop de maneiras novas e criativas e mantém um discurso dinâmico sobre a música pop em Berlim. Defende uma abordagem respeitosa à diversidade e ao financiamento musical baseado em conteúdo, enfatizando as posições dos músicos. É baseado na colaboração e inovação de criadores de música, nas suas comunidades e colectivos. Por meio da comunicação e intermediação entre criadores de música, redes, administração, política e negócios dentro do diversificado cenário da música pop de Berlim, o MbB visa criar transparência, oferecer orientação e fornecer uma visão geral: de consultoria relevante e oportunidades de networking, fontes de financiamento públicas e privadas e opções para espaços de ensaio e qualificação em Berlim.

A instituição realizou uma pesquisa durante o mês de Maio de 2020, para dar resposta à falta de oferta de espaços de ensaio em Berlim. Para determinar a oferta e demanda de espaços de ensaio, principalmente os de música pop, foi feito um levantamento para documentar a quantidade desses espaços, e apelar tanto à protecção como à criação de espaços adicionais, fornecendo mais dados sobre as condições actuais e necessidades futuras. Os resultados desta pesquisa, quantitativa e qualitativa, serviram como base para tomar as medidas necessárias com o intuito de melhorar a situação dos espaços de ensaio dentro do sector cultural pop.

Através da mailing list e com a ajuda da rede de contactos, associações locais, colectivos e um número alargado de operadores de espaços de ensaio, o MbB circulou o questionário Berlin Rehearsal Space a larga escala, entre músicos que vivem em Berlim.

Devido à pandemia de Covid-19, a pesquisa foi distribuída exclusivamente via digital pelos canais. De Maio a Junho de 2020, um total de 948 músicos de Berlim participaram no questionário. Embora o foco estivesse nas necessidades da cena da cultura pop berlinense, músicos de todos os géneros foram convidados a participar. O público-alvo assegurou que músicos que trabalham na interseção de géneros fossem incluídos no questionário, enquanto também permitiu fazer comparações entre géneros específicos para espaços de ensaio.

O MbB considerou a música pop para incluir todos os géneros e variedades de música popular que não podem ser claramente classificados como jazz, música clássica ou nova. A pesquisa foi realizada em nome do MbB por Samuel Bergmann (músico e graduado pela Berlin School of Popular Arts) e Prof. Dr. Clemens Schwender. A avaliação qualitativa dos resultados foi realizada pela MbB. Com o questionário, a organização continua a ser um apoio activo da cena musical pop-cultural de Berlim, um papel que a instituição financiadora pública tem vindo a cumprir desde a sua fundação em 2013.

As conclusões tiradas a partir do questionário e as recomendações futuras apresentadas nesta pesquisa são prementes, para que se possa tentar solucionar uma vontade de uma camada que faz da cidade um centro cultural heterogéneo e que merece ser ouvida. Mas não de qualquer forma. Ainda que não seja uma obrigação da autarquia, penso que é falta de visão da mesma e é um dever quando se pretende que a cidade viva uma cidadania activa, uma vez que as minorias também ajudam a tornar a cidade um espaço com as suas especificidades.

As conclusões desta pesquisa partem de 5 pilares:
- a protecção dos espaços;
- a criação de espaços;
- financiamento de estruturas independentes;
- arquivo que documente a existência desses espaços e as suas actividades;
- salas de ensaio para todos.

Agora não digam que pensaram no mesmo, aquando do ruído gerado sobre este assunto. É preciso agir mediante as exigências do tempo de hoje. Não me parece que o Silo Auto, em modelo de "open space" para os músicos, seja o espaço para resolver o problema do Stop. Facto é que o Stop não reúne condições para se manter aberto, pois qualquer alternativa que se pretenda dar é efectivamente incomportável, por mais que se sinta a boa fé da parte dos músicos. Construir sobre um modelo que responda às necessidades plurais e particulares, mas sustentado no conceito de comunidade - que é o que deveria determinar a força dos grupos desvinculados dos grandes meios -, parece ser o caminho e a vontade de ter uma humanização da cidade contemporânea que prevê microintervenções. 

Falta cidadania cultural e literacia artística para saber como agir quando cenários destes acontecem; afinal não são os músicos também agentes directos e criadores de cultura? Não deveriam igualmente ser porta-vozes na defesa de uma causa que depende deles, e que deve ser sustentada em diálogo articulado e estruturado com os organismos competentes? Se não é possível a apresentação de um projeto de especialidades no processo de licenciamento do Stop, então que seja feito um levantamento de espaços disponíveis para cedência da parte da autarquia com enquadramento semelhante ao do Stop, no que diz respeito à capacidade de acolhimento para cerca de 500 utilizadores de salas de ensaio. 

Não basta o peso da memória do espaço para atenuar a necessidade urgente de segurança e salubridade face às condições actuais. No entanto, é de assinalar que até hoje nada de grave aconteceu ao espaço e, se assim o é, é graças aos músicos que lá estão, aos bombeiros e a todos os intervenientes que estiveram despertos quanto à vulnerabilidade do espaço. Porém, não são feitos estudos nem levantamentos apropriados para arquitectar e desenhar soluções que visem o estudo adequado às exigências que as salas de ensaio requerem, como o tamanho da sala, a acústica, as condições de segurança, não é porque se cria música "alternativa" que tem que se morrer electrocutado.... A música não vive de remendos! Não basta pedir a deputados para dialogar com a câmara sobre o assunto, é preciso que a força venha da parte de quem fez do Stop o centro de memória que é.

Em tom de conclusão, pergunto, qual deverá ser o papel das instituições associadas à promoção e apoio da dinamização cultural, aqui, neste contexto? E refiro-me por exemplo à SPA, GDA, AMEI, APORFEST, associações culturais, etc. Ainda há luz ao fundo do túnel quando vemos Casas da Juventude com espaços próprios para quem quiser ensaiar ou quando observa-se, em Guimarães, o Teatro Jordão a ser convertido em salas de ensaios para bandas de garagem. É preciso saber fazer, sem negligenciar as especificidades do público-alvo e sem instrumentalizar esta problemática para fins turísticos para as massas. O STOP é, acima de tudo, um ponto de encontro para os músicos e para quem sente identificação.

A quem possa interessar, aqui deixo o estudo:

Priscilla Fontoura, Acordes de Quinta (2006-), Lula Gigante (2010-), Milkshake It (1997-1999), Puk (2001-2004), Outros projectos 
Este texto é escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

Referências: