Género: folk experimental Autor: Nic T Disco:  The Use Lançamento: 28 de Novembro, 2025 Editora: Hora Records Desenhos por Nicola Traversa; ...

The Use, de Nic T: para que serve tudo isto?

Género: folk experimental
Autor: Nic T
Disco: The Use
Lançamento: 28 de Novembro, 2025
Editora: Hora Records

Desenhos por Nicola Traversa; Design Gráfico por Stefania D’Eri

Vivemos um mundo em que se diz que a geração Z perdeu o brilho — aquele olhar inexpressivo, frio, desinteressado, que parece fixo em nada, como quem está desligado por dentro: o corpo presente, a mente algures. Será? Mas há esperança. Há quem chegue do outro lado e me chame pelo nome, com algo genuíno para dizer. Isso não me parece o retrato de um mundo que perdeu o pulso. Ainda.

Nic T é de Itália, de Vicenza, e lança The Use. Ouço com phones e na primeira escuta consigo já decifrar os arranjos e o detalhe por detrás da aparente simplicidade que este disco irradia — mas nota-se que foi pensado ao pormenor. Nota-se que Nic não o quis lançar de qualquer forma. Há batidas electrónicas, experimentação a guitarra, ritmos rápidos em métricas onde se esperaria a previsibilidade da lentidão — e lentidão onde não se esperava nenhuma. Não há tema que possa destacar, porque neste trabalho em particular parece não haver um princípio e um fim: há uma linearidade que se completa, como um filme.

Há uma intimidade que treme nas fendas do som, uma verdade que se revela apenas quando a imperfeição tem licença para ser gravada. É aí que vive The Use — o segundo álbum do compositor e cantor. Depois de The Saint, regressa com um disco mais denso e maduro, mas ainda profundamente instintivo. Um subtil sopro sonoro que se move entre o Canterbury sound, o freak folk e uma psicadelia lúdica e cósmica. Escrito e maioritariamente gravado no seu estúdio-garagem, entre cabos, fitas e microfones improvisados, The Use é um trabalho moldado com a paciência e a vulnerabilidade de um artesão do som. Um mosaico de 13 canções nascidas em tempos e lugares diferentes, mas unidas por um mesmo sopro — música que procura mais do que declara, que acolhe em vez de impor.


Em torno da voz de Nic T redemoinha uma constelação de sons: guitarras preparadas, vocais distorcidos, texturas granuladas de cassete, pequenos acidentes sonoros que se tornam matéria viva. Para quem gravou o álbum maioritamente sozinho, o resultado é notável — e talvez tenha sido precisamente essa colagem de recortes, essa construção fragmentada e paciente, a torná-lo tão especial. Alguns temas contam com contribuições da sua banda — Luca Sguera, Nicolò Masetto e Ed Bernez — que trazem pulso e energia coral, amplificando um sentido de comunidade dentro de um disco intrinsecamente solitário.

Nicola Traversa

O título, The Use, sugere uma pergunta mais do que uma resposta: para que serve tudo isto? Que sentido damos às coisas, às acções, às relações? Nesta exploração coexistem cinismo e romantismo, concretude e deriva onírica. Há o medo da perda e a ternura do apego, a distância e o seu oposto. Como em Full Grown Sun, o primeiro single do álbum, onde a fragilidade humana se torna um gesto de amor — um toque suave oferecido à beira do desastre. Não é difícil perceber de onde vem esta sensibilidade: Nic T remete, em certos momentos, para Nick Drake, Justin Vernon, Fleet Foxes, Arthur Russell.

Obrigada, Nic T, por teres chegado a nós. Obrigada por teres pintado o meu mundo com vários efeitos, sendo um deles um bom estar. Então meti os dedos no teclado e escrevi com pressa — porque o texto condizia com o que ouvi. Um dia destes, escrevo-te.

Texto: Priscilla Fontoura