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Nem tudo que reluz é ouro: da mesma forma uma imagem que apresenta comida com bom aspecto suscita apetite para quem a observa, a publicidade...


Nem tudo que reluz é ouro: da mesma forma uma imagem que apresenta comida com bom aspecto suscita apetite para quem a observa, a publicidade que se faz de um festival de luxo com modelos e conforto VIP convence a quem procura na experiência materialista a resposta para um momento clímax de entretenimento.

Fyre foi - um pouco à imagem do festival de Woodstock - o circo promissor onde tudo pode acontecer. O festival de música Fyre nas Bahamas, vendido como a ilha de Pablo Escobar, foi promovido com vídeos de alta qualidade e comunicação misteriosa muito utilizada nos dias de hoje para criar expectativas nas pessoas; toda esta promoção convenceu-as a viajar até às Bahamas para um festival onde só cabem pessoas com dinheiro e/ou influência. O plano do festival Fyre não difere muito da estrutura de outros festivais ou plataformas desta era nas quais vinga o mediatismo que se viraliza num abrir e fechar de olhos, neste caso com a ajuda de 400 dos maiores influenciadores mundiais (incluindo as modelos Kendal Jenner, Bella Hadid e Hailey Baldwin e a atriz Emily Ratajkowski), no Instagram. A publicidade de um quadrado cor de laranja nos perfis de centenas de figuras públicas, e o link para um vídeo onde vários modelos passeavam na ilha paradisíaca, gerou o efeito dominó nos seguidores que começaram em pouco tempo a comprar os bilhetes para o festival que esgotou num ápice. O programa do festival era tão diverso, quanto apelativo: yoga na praia, trampolins dentro de água, passeios de iate, comida feita por chefs de renome ou até uma caça ao tesouro na ilha.

Toda a arquitectura para Fyre começou com a mente do sociopata operacional de Billy McFarland, o rapper Ja Rule (cuja ausência não é explicada no documentário) e a sua plebe (nada inocente). Esta máquina que inclui promotores, assessores, programadores e designers criou o festival de música com promessas fora de qualquer lógica possível, esse grande flop originou um documentário na Netflix intitulado Fyre: The Greatest Party That Never Happened, realizado pelo documentarista Chris Smith, responsável por “American Movie” (1999).


A grande fraude orquestrada pelos mentores levou o festival ao fiasco - o evento divulgado como a "experiência cultural da década", com ingressos a custar entre 830 e 10 mil euros em troca de alojamento de luxo, comida gourmet, concertos com os artistas mais célebres e até convidados VIP. O que parecia ser o paraíso na Terra (para alguns) virou o inferno nas Bahamas, as acomodações acabaram por ser tendas destinadas a desalojados em situações de catástrofe e uma das refeições consistia em duas fatias de pão de forma com queijo e uma salada a acompanhar; e, como se não bastasse, os concertos também não aconteceram. Até a água potável para banhos teve de ser abastecida com recurso às águas Evian distribuídas em três camiões e cujas cisternas ficaram bloqueadas na alfândega. “Viver como estrelas de cinema, festejar como estrelas de rock e fornicar como estrelas de pornografia”, assim brindou a equipa ao fracasso inesperado.


Apenas 5 meses seria o tempo que os organizadores teriam para montar o festival de luxo, e é nesse tique-taque que assistimos ao desenrolar dos acontecimentos, como se fosse um filme de terror que se inicia com boas paisagens. A visão que Billy McFarland tinha para o festival era megalómana, o lunático arrastou consigo colegas de trabalho e parceiros de negócios, ficou a dever resmas de dinheiro a colaboradores e investidores, manipulou e roubou milhares de pessoas que compraram bilhetes para algo que não era o que tinha sido prometido e que nem chegou a acontecer.

O empresário mafioso com ares de nerd era descrito como "carismático e confiável" pela sua equipa, o mentiroso compulsivo ao lado da máquina que consigo trabalhava tentava vender o festival aos investidores como uma aposta certa suportada numa estratégia de marketing macabra, tal como garantir a presença de músicos cabeça de cartaz (por exemplo Drake) no festival; quando os bilhetes foram colocados à venda, na verdade, ainda não havia nomes pesados confirmados.

"Fyre" não é um documentário brilhante, o que o torna cativante são os testemunhos das pessoas que trabalharam com McFarland e que tentam desmontar a estrutura de uma mente manipuladora. No fim fica-se a saber que McFarland criou com o diretor criativo MDavid Low uma outra plataforma de booking de talento chamada ICONN -, surreal no mínimo para quem tinha saído da prisão sob fiança e estava a ser investigado pelo FBI. A dado momento, quando se percebe que a compulsão e falta de noção de McFarland embate de frente contra todos os avisos que lhe foram feitos ao longo dos meses, conclui-se que o diagnóstico possível para um sujeito alienado seria o de um louco sem qualquer noção da realidade. Billy McFarland foi sentenciado a seis anos de prisão e nunca mais poderá exercer cargos de direcção numa empresa. Pena que a equipa tenha lavado as mãos e também não tenha sido condenada, porque de certeza que não agiu com inocência. Há espertos que conseguem sais incólumes, por um tempo...

Texto: Priscilla Fontoura
* Texto escrito sem o novo acordo ortográfico 

Os estereótipos muitas vezes conduzem as pessoas a pensamentos errados. Só mesmo uma ficção para mostrar que o inesperado é também possível ...


Os estereótipos muitas vezes conduzem as pessoas a pensamentos errados. Só mesmo uma ficção para mostrar que o inesperado é também possível e o cliché desmontado pelos cérebros mais desafiantes, neste caso o de Özgür Önurme que partilha a realização com Ozer Feyzioglu. A série produzida por Basak Abacigil Sozeri não ditaria que uma discreta empregada de limpeza, proveniente de uma aldeia, sujeita a uma vida difícil, seria uma justiceira pronta a ajustar contas com os que foram encolhendo as possibilidades de ter uma vida mais feliz. 


Fatma inspira, sem saber, um dos seus patrões a escrever um thriller tornando-a protagonista do seu próximo livro. Esta mulher atravessa a pior fase da sua vida: o luto de um ente muito querido. À conta de tal tragédia, Fatma procura vingar-se da forma mais fria e inimaginável, enquanto tenta encontrar o marido Zafer que desapareceu sem deixar rasto; ao mesmo tempo é invadida por memórias em flashbacks de traumas da sua infância. 

Esta série mostra o paradoxo de uma Turquia rural e urbana, e como o garante de muitos influentes e poderosos é conseguido através de "negócios" duvidosos, os abonados das grandes cidades intimidam os mais economicamente vulneráveis, provenientes de aldeias, para vassalos das suas agendas. Há quem tenha chamado à personagem principal de serial cleaner, nome mal empregado pois Fatma age legitimamente - as actividades criminosas a que foi submetida não poderiam deixar quem as praticou impunes, uma vez que a falida "Justiça" se deixa corromper pelo poder, penaliza a vítima e protege o criminoso, como tantas vezes acontece.

Fatma é uma série bem construída e mostra como uma trama um pouco à Promising Young Lady coloca a mulher como eixo central, uma que não se verga e está pronta a fazer justiça pelas suas próprias mãos, por ser vítima da própria Justiça que tanto deixa a desejar e, infelizmente, não actua de forma imparcial. 

Burcu Biricik é Fatma, e o resto do elenco composto por: Ugur Yucel, Mehmet Yilmaz Ak, Hazal Turesan, Olgun Toker, Gulcin Kultur Sahin, Deniz Hamzaoglu e Cagdas Onur Ozturk. O último episódio deixa no ar a possibilidade de uma segunda temporada, no entanto a resposta ainda é ambígua. 


Texto: Priscilla Fontoura

Cartaz de Shtisel Tentar perceber uma realidade diferente da nossa pode ser, para alguns, um exercício difícil, caso contrário o mundo seria...

Cartaz de Shtisel

Tentar perceber uma realidade diferente da nossa pode ser, para alguns, um exercício difícil, caso contrário o mundo seria um lugar mais empático. Quanto mais fechados em nós mesmos, acomodados à simples rotina e sujeitos a uma educação redutora, mais difícil fica sair dos limites de uma realidade limítrofe. É necessário respeitar a diferença. Não saber entrar ou não saber colocar-se nos sapatos do outro gera preconceitos e pontos de vista muitas vezes injustos que em vez de aproximar povos, só os afasta e distancia.

O judaísmo, enquanto cultura e religião, no decorrer das épocas, dos sincretismos e influências que foi adquirindo - por força das perseguições de outros impérios e conquistas - tem na sua génese a pretensão da conservação dos valores e conceitos que definem a sua essência. O judaísmo tem, semelhantemente, como base, manter a raiz original da sua origem ainda que, no que à religião diz respeito, esteja em crescimento um remanescente com vontade de renovar-se e aceitar o que se considera como pensamento pós-moderno, sem conduzir as comunidades à segregação em pequenos bairros ou manter as realidades fechadas; pelo contrário, aumenta a vontade de ter como perspectiva fazer das sinagogas templos para o encontro entre judeus e não judeus com aspirações reformadoras e progressistas.

Essa ramificação defende a introdução de novos conceitos das práticas judaicas, convergindo a sua realidade ao mundo secular - uma vez que o judaísmo reformista não separa judeu de "goy | goyim" (se é que essa palavra é permitida na visão reformista), o objectivo premente tem como ponto principal a espiritualização de toda a Humanidade, independente de crenças, nações ou etnias - o respeito, a autonomia individual, a liberdade no uso das vestimentas e a igualdade de género são alíneas sujeitas à visão mais progressista.


A série Shtisel, que já acompanhava há mais tempo que Unorthodox, tem como eixo uma família haredi que vive num bairro ultra-ortodoxo de Jerusalém. Em 2021, a terceira temporada veio acalentar os seguidores da série que mostra, pelo menos, três gerações diferentes que lidam com a vida fechada de um grupo segregado à sua própria instituição e conserva o legado dos seus ancestrais patriarcas como conduta para as suas realidades. Os rapazes sujeitam-se aos estudos nas yeshivas da Torá e do Talmude, e as jovens mulheres têm como objectivo casar-se segundo a lei e tradição judaicas. No entanto, o protagonista Akiva “Kive” Shtisel, apesar de ter crescido nesta tradição, mostra-se como peça fora do baralho, é um artista sonhador cheio de bondade e inocência. Ao contrário do enredo de "Unorthodox", em que Haas 'Esty está determinada a escapar do que é retratado como uma comunidade opressora, este não é o foco de "Shtisel". Em vez disso, as personagens estão profundamente enraizadas e comprometidas em ser e pertencer à comunidade que amam - mantendo inclusivamente o Iídiche* como vernáculo principal. Além do mais, a série está carregada de doses de humor, tão característico da comunidade judaica. Nunca pararam, por exemplo, para pensar porque é que os judeus têm Cinofobia? Aqui têm a resposta

O drama Shitsel, tal como Unorthodox, permite criar empatia por aquelas personagens que lidam, tal como qualquer pessoa, seja na vida secular ou religiosa, com problemas da vida real, personagens essas que vivenciam o peso que a tradição passada carrega, são problemas sérios que podem criar constrangimentos e frustrações, tal como a infertilidade que desde os primórdios da cultura judaica é encarada como maldição - veja-se o patriarca Abraão cuja obediência foi quebrada seguindo a vontade da sua mulher, até então infértil, Sarai tendo fecundado com Agar. No judaísmo religioso esta questão é um problema que causa vergonha, uma vez que a descendência é muito importante para a cultura judaica.

A série criada por Ori Elon e Yenonatan Indursky, ambos educados em famílias de origens religiosas, o primeiro ortodoxo moderno e o segundo ultraortodoxo respectivamente. Os criadores nunca pensaram conseguir continuar a primeira temporada que foi conquistando vários fãs. A série tem como elenco Doval'e Glickman, Michael Aloni, Neta Riskin e a talentosa Shira Haas, também presente em Unorthodox.


As comunidades judaicas de várias origens e cujas divisões se dão na época moderna (asquenazes, sefarditas, mihzarim, etc) continuam a ser um factor de estudo para quem tem interesse e curiosidade em perceber a miríade de influências tão ampla nestas culturas pertencentes ao grupo mãe que é o judaísmo, conquanto tão particular nas subdivisões que fez muito motivadas pelas diásporas. 

No contexto desta série são os Haredi o subgrupo exposto da comunidade judaica, a etimologia de origem hebraica diz respeito a temente ou temeroso e refere-se ao judeu praticante do judaísmo mais convencional, o ultraortodoxo - que é resistente à mudança das leis judaicas. Entre os demais conflitos, um que se mantém entre as comunidades judaicas e os seculares que trabalham para sustentar estes pequenos grupos religiosos cujo tempo é passado maioritariamente nas yeshivas, reside precisamente nessa dinâmica laboral e no pagamento de impostos, em detrimento dos seculares contribuintes. No entanto, encontram-se também correntes contra a existência do Estado de Israel e contra o sionismo, ainda que muito pequena, os Neturei Karta, que confiam nas promessas das escrituras sagradas e só vislumbram o estado de Israel com a vinda do Messias.

Contudo, Shitsel não trata de conflitos políticos e sociais. A série lida muito com as próprias personagens e os mundos em que vivem, acima de tudo, as histórias são histórias muito humanas. Um dado muito relevante é que a série tenta ser o mais específica possível a representar a língua e a comida dos traços da comunidade, mas não aborda os conflitos usuais de que se ouve falar; talvez seja por isso que as pessoas revêem-se naquelas personagens, incluindo as que não são judias. 

Texto: Priscilla Fontoura


* O Iídiche é a língua dos judeus asquenazes desde há nove ou dez séculos, nascido de uma combinação única de dialectos falados nas cidades da Alemanha medieval, integrou, modificando-os, vários elementos linguísticos importados (hebraico, aramaico, romance, eslavo) dando provas de um notável génio inventivo que sempre lhe permitiu renovar-se do interior. Inicialmente chamado loshn Ashkenaz («língua da Alemanha») ou taitsh (Deutsch), seguiu os movimentos migratórios das populações judaicas muito para além das terras germanófobas que o viram nascer. No contacto com línguas e culturas, multiplicou os dialectos, os vocabulários, as formas gramaticais; mas apesar da sua infinita diversidade, ele será o traço de união e o principal distintivo de todas as comunidades asquenazes em todo o mundo, e ao mesmo tempo um instrumento cultural eficaz. - em a História Universal dos Judeus, sob a direcção de Élie Barnavi, 1992.

Para quem acompanha séries compreende o sentimento de afeição que os espectadores criam com as personagens. Firefly Lane , estreada a 3 de F...


Para quem acompanha séries compreende o sentimento de afeição que os espectadores criam com as personagens. Firefly Lane, estreada a 3 de Fevereiro deste ano, é mais um desses exemplos. Tully Hart e Kate Malarkey retratam duas mulheres na década de 70, do século passado, à procura dos seus lugares enquanto profissionais numa área ocupada em grande parte pelos homens.

A série distribuída pela plataforma, e tem sido companhia em tempos de confinamento, é baseada no livro homónimo escrito por Kristin Hannah. Para quem leu o livro poderá tirar algumas pistas, mas também é possível ver a série independente do livro e descobrir o que a versão tem para oferecer.

Cartaz de Firefly Lane

O enredo conta a história de Kate Mularkey (Sarah Chalke) e Tully Hart (Katherine Heigl). Em Firefly Lane é traçada a linha temporal das três fases da vida das duas protagonistas, iniciando-se em 1970 e encerrando-se em 2000.

As duas amigas vão criando um laço de amizade muito profundo ao longo dos anos, primeiro são vizinhas, colegas de escola e o pacto de amizade mantém-se em idade madura. Apesar de serem muito diferentes uma da outra, a união e a protecção inerentes mostram que na imperfeição reside o sentimento de afecto e lealdade nesta amizade.

Frame: Firefly Lane

Tully é ousada e extrovertida, Kate mais recatada e tímida. Kate é suporte para Tully, uma vez que esta teve que aprender a ser autodeterminada e independente por ser filha de uma mulher com problemas de abuso de drogas. As duas representam a dicotomia da mulher que se quer emancipar da que sente que a criação de um lar e de uma família são indispensáveis para a sua felicidade.

Frames: Firefly Lane

Altos e baixos fazem parte da desenvoltura de uma amizade profunda que passa por tragédias, decepções, vitórias e alegrias. Um triângulo amoroso afecta a amizade iniciada na adolescência e as ambições distintas de cada uma contrastam as dinâmicas presentes na vida de cada uma. Ao longo das décadas, o vínculo permanece, até que é interrompido por uma razão que se desconhece para quem não leu o livro; para quem o leu, o mesmo motivo presente no livro poderá servir de justificação para o que se encerra em aberto.

Firefly Lane colmata as saudades da nostalgia que representa a identidade das décadas de 70, 80 e 90. Katherine Heigl é amplamente conhecida pelo seu papel meritório em Grey’s Anatomy. Todo o elenco foi escolhido a dedo por uma direcção de casting que soube encontrar coerência entre as actrizes escolhidas para representarem as três fases temporais traçadas da narrativa. A série criada por Maggie Friedman é ansiosamente aguardada pelos fãs que acompanharam a primeira temporada.

Texto: Priscilla Fontoura
Série: Firefly Lane (2021-)

Quem se lembra da Ana dos Cabelos Ruivos ? Aquela menina que cresce devagarinho.  Assim começa o voice over da animação, dirigida por Isao T...



Quem se lembra da Ana dos Cabelos Ruivos? Aquela menina que cresce devagarinho. 

Assim começa o voice over da animação, dirigida por Isao Takahata:
"Era o ano de 1870, no mês de Junho, um Junho invulgarmente quente e bonito, pois nesta altura do ano costumava estar ainda muito frio aqui na ilha do Principe Eduardo, no Canadá. A menina que atravessava de barco do continente para a ilha deliciava-se com o sol quente, o seu nome era Ana." 

Ana com A, ou Anne with an E em inglês, tem toda a magia necessária para fazer qualquer pessoa de qualquer idade sonhar. Filmada de uma maneira que parecem canções folk, todo o enredo torna esta série um tempo bem passado quer sozinho, quer acompanhado. Saltam à vista as personagens, os décors, a banda-sonora, todo o imaginário presente na adaptação de Anne of Green Gables, escrita pela canadiana Lucy Maud Montgomery. Nos finais dos anos 70 foi também realizada uma animação exibida no canal japonês Fuji Television. 


Anne é uma menina orfã adoptada por um dois irmãos que vivem num meio rural. Anne tem toda a tenacidade, drama, vigor, paixão pela vida, loucura saudável de uma criança que não pára de dar vida às suas histórias com alma e cor, uma menina de longos cabelos ruivos que contagia toda a comunidade onde vive. 

A série distribuída pela Netflix, escrita por Moira Walley-Becket, serve para dias mais intimistas passados com a família em casa. Uma série que convida à ligação intergeracional mediada pelo ecrã, principalmente durante esta época de confinamento. 

Texto: Priscilla Fontoura
Numa relação série com a Netflix: Anne with an E

Para muitos brasileiros, Laerte Coutinho é um dos nomes incontornáveis quando se fala da história das tiras e dos quadradinhos no Brasil. Co...


Para muitos brasileiros, Laerte Coutinho é um dos nomes incontornáveis quando se fala da história das tiras e dos quadradinhos no Brasil. Com humor mordaz, existencialismo, crítica política e reflexão sobre sexualidade e identidade, a sua obra sintetiza inquietações profundas de forma aparentemente leve.

O documentário Laerte-se, co-realizado por Eliane Brum e Lygia Barbosa, acompanha a artista num momento decisivo da sua vida: a vivência pública da sua identidade de género e as interrogações que acompanham esse processo. Depois de ter vivido durante décadas sob uma identidade masculina, Laerte passa a afirmar-se no feminino e a questionar os limites — e as pressões — de uma eventual transição física. Como ela própria sugere: pode-se fazer, mas deve-se fazer? Entre o impulso e a ponderação, escolhe dar tempo ao tempo.

Cartaz do documentário Laerte-se (2017)

O filme revela uma personalidade intelectualmente inquieta, mas emocionalmente serena. Mesmo quando aborda episódios dolorosos da sua vida, Laerte evita o dramatismo. Prefere o humor e a ironia como ferramentas de lucidez. O documentário torna-se, assim, não apenas retrato íntimo, mas manifesto de autenticidade.

Um dos aspectos mais interessantes é a reflexão sobre a própria comunidade trans: haverá hierarquias implícitas entre quem realiza intervenções corporais e quem opta por não as fazer? Laerte desmonta essa lógica competitiva, questionando a necessidade de legitimação externa. A identidade, sugere, não se mede por procedimentos, mas pela coerência interior.


O filme inicia-se com a troca de emails entre Laerte e uma das realizadoras, onde a artista manifesta hesitação em avançar com o projecto. Avessa à exposição da vida privada, teme tornar-se objecto de análise. A negociação que se segue é delicada e honesta — e essa honestidade atravessa todo o documentário. Fala da infância, da relação com os pais, da irmã, dos filhos, da carreira artística e do Brasil que viveu desde a ditadura até às polarizações contemporâneas.

É inevitável recordar a série Transparent, criada por Joey Soloway, onde um progenitor assume tardiamente a sua identidade feminina. Contudo, em Laerte-se, a dimensão não é ficcional: é vivida, pensada, debatida em tempo real.

Mais do que um documentário sobre transição de género, trata-se de uma meditação sobre identidade, pertença e liberdade. A “transgeneridade” aqui pode ser entendida também como metáfora da própria condição humana: não saber exactamente onde se encaixa, a que lugar pertence, ou se pertence a algum. Essa aparente deslocação pode transformar-se em potência criativa — mais possibilidades de existir, de imaginar, de reinventar.

Laerte-se deixa no ar uma das reflexões mais fortes: a identidade não é um destino fechado, mas um processo contínuo. E talvez seja nesse movimento — entre dúvida e afirmação — que reside a maior forma de liberdade.


Texto: Priscilla Fontoura
Numa Relação Séria com a Netflix: Laerte-se (2017)

As séries nórdicas têm ocupado um espaço de destaque na Netflix, pelo menos quem as segue sabe que ainda tem algumas por onde escolher. Love...


As séries nórdicas têm ocupado um espaço de destaque na Netflix, pelo menos quem as segue sabe que ainda tem algumas por onde escolher. Love and Anarchy não aborda nenhuma temática profunda e complexa sobre a vida, no entanto tem a capacidade de entreter quem precisa de uma hora ou duas de despreocupação. Uma série que se agarra ao humor, a algum surrealismo e drama. 


Cartaz, Love and Anarchy


No que respeita à sinopse, Sofie divide-se entre duas ocupações primordiais, ser mãe e consultora. Esta personagem vive ainda o sonho de uma adolescente que criou um livro e cujo género prende-se a uma narrativa que é motivo de troça para as cenas de convívio social do seu marido. Este passa a vida a negligenciar constantemente o lado criativo e sonhador do seu cônjuge. Mas o que a série criada por Lisa Langseth tem de catchy é a relação e jogo de sedução que Sofie desenvolve com o seu colega de trabalho Max. Este jovem, apesar de ser muito mais novo que Sofie e ao contrário do seu marido, valoriza a alma adolescente e idealista desta mulher. Do elenco incluem-se personagens com as quais nos podemos identificar e "gargalhar". 

O estilo de filmagem influencia-se no Dogma 95, o zoom é assumido para criar momentos mais realistas e intimistas. 

Fica aqui a sugestão para quem quiser relaxar um pouco, após um dia de muita preocupação.


Texto: Priscilla Fontoura

É um pouco injusto não dar continuidade à visualização de uma série por causa de um primeiro episódio que não pareça promissor. Não sei se s...


É um pouco injusto não dar continuidade à visualização de uma série por causa de um primeiro episódio que não pareça promissor. Não sei se será bem o caso da série de produção brasileira
Bom Dia, Verônica, criada por Raphael Montes, uma adaptação do livro da dupla Llana Casoy e Raphael Montes publicado sob o pseudónimo Andrea Killmore, mas, à primeira vista, a série pode não inspirar à visualização de episódios posteriores.


Tainá Muller representa a escrivã Verônica que protagoniza a trama trágico-dramática. A segurança de Verônica, durante toda a temporada, é posta em causa pela história que vai sendo descortinada ao longo da temporada que desvenda o laço enredado por toda uma trama que gira à volta da corrupção presente no corpo policial e na justiça. Bom Dia, Verônica não descura o alto nível de produção. A intencionalidade visual reside em destacar os momentos mais gráficos e marcantes ao estilo fotográfico dos filmes neo noir.


A trama acompanha a complexa jornada da escrivã que, a todo o custo, tenta encontrar um criminoso manipulador e psicopata que aprisiona a vida da sua namorada, a verdadeira vítima de violência doméstica. Como costuma ser habitual nas histórias de abusos e de violência doméstica, o abusador detenta algum poder e manobra todo o jogo de acordo com a sua influência, as suas mentiras e manipulações, cometendo Gaslighting contra a vítima culpando-a de todos os seus comportamentos, ao ponto de a adoecer e fazê-la duvidar das suas faculdades psíquicas. Próprio de um inescrupuloso egoísta que não olha a meios para atingir os seus fins. Além de procurar justiça mediante os abusos diários que Janete (Camila Morgado) sofre às mãos de Brandão (Eduardo Moscovis), agressor com tendências assassinas, Verônica é perseguida pelos seus colegas de trabalho que vivem da sede e da ambição, e tais comportamentos implicam a sabotagem do caminho da agente de investigação cujo objectivo persiste apenas na busca pela justiça e verdade.


A história leva o espectador a sentir as suas vísceras em contínuo estado de convulsão provocado pelo género suspense policial que carrega twists a todo o momento e que são difíceis de serem digeridos. Um tema que é trabalhado com delicadeza sem banalizá-lo, principalmente quando se é emergido pelo arco de Janete que é reflectido quando vai demonstrando amiúde as suas dores e opressões constantes provocadas pelo seu namorado com quem coabita, porque tais violências levam também a momentos de dúvida motivados pela constante manipulação e persuasão. As violências às quais Janete é submetida constantemente são expostas de forma gradual, revelando a linha crescente de acontecimentos que vão ficando mais intensos e mais impactantes.

O elenco vive da naturalidade muito presente nas personagens Janete, (Camila Morgado) e Brandão, (Eduardo Moscovis), o arco mais complexo de toda a trama. Camila Morgado representa bem a vulnerabilidade de alguém que tem vivido abusos psicológicos e físicos do agressor Eduardo Moscovis, que manipula constantemente a sua namorada com palavras elogiosas, tornando-a exclusiva e única no seu mundo patológico e doentio, iludindo-a a manter a relação com mentiras de uma possível mudança de comportamento, quadro que não acontece e só tende a piorar.

Verônica é empática e insurge-se durante toda a série quanto às injustiças cometidas, até no escritório de onde se esperaria a presença de valores ético-morais dos especialistas: protecção, transparência, neutralidade, segurança e rectidão. De facto, Verônica é das poucas personagens que se constrói dos valores com que cresceu, vivendo cercada qual iguana que foge para se proteger de serpentes astutas que a podem ferrar a qualquer instante. O seu chefe Wilson Carvana (Antonio Grassi) só se concentra na ansiedade da entrada para a reforma, mantendo, desta forma, o circuito corrupto que vai ficando suspenso ao ritmo do pêndulo da dúvida, não sabemos ao certo se o seu chefe protege-a ou se trabalha ocultamente no declínio da sua "afilhada". Como se não bastasse, Verônica tem, de lidar com Anita (Elisa Volpatto), sua superior e promovida a delegada, que se mostra hostil face ao envolvimento de Verônica na investigação. No seu todo Bom Dia, Verônica agarra o espectador à trama e quase que o vicia para consumir a temporada de uma só vez. Uma série que pede por uma nova temporada. O tema retratado em Bom Dia, Verônica merece ser exposto cada vez mais, a luta contra a violência doméstica cujos trâmites, apesar de partilharem linhas gerais muito clássicas, manifestam acontecimentos muito próprios e maquiavélicos, principalmente por quem pensa ter algum poder, seja na esfera política, social, e/ou económica.

Resta elogiar a banda-sonora. A temporada encerra com o clássico "Índios" de Legião Urbana, trazendo a superfície a nostalgia dos anos 80 que se sente quando se ouve a voz de Renato Russo

Quem me dera ao menos uma vez
Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem
Conseguiu me convencer que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha

Quem me dera ao menos uma vez
Esquecer que acreditei que era por brincadeira
Que se cortava sempre um pano de chão
De linho nobre e pura seda

Quem me dera ao menos uma vez
Explicar o que ninguém consegue entender
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente

Quem me dera ao menos uma vez
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
Fala demais por não ter nada a dizer

Quem me dera ao menos uma vez
Que o mais simples fosse visto
Como o mais importante
Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente

Quem me dera ao menos uma vez
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês
Sua maldade, então, deixaram Deus tão triste

(...)

Quem me dera ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente


Numa Relação Séria com a Netflix: Série: Bom Dia, Verônica
Texto: Priscilla Fontoura

O género documental nem sempre foi muito bem "tolerado" pelos espectadores de cinema mais comercial e de entretenimento, talvez po...


O género documental nem sempre foi muito bem "tolerado" pelos espectadores de cinema mais comercial e de entretenimento, talvez porque uma das suas raízes fundamenta-se, (embora a multiplicidade das formas de fazer documentário dificulta uma definição clara sobre o mesmo e as suas fronteiras não são estanques), no princípio da reflexão e de uma realidade que visa dar a conhecer as coisas do mundo e do seu funcionamento.

O documentário distribuído pela Netflix, Have you Seen the Listers?, traça a história de vida do artista australiano Anthony Lister nascido em Brisbane, a capital do estado de Queensland, e mostra os episódios que o levaram a passar de artista local a artista com projecção internacional, como também toca em vários episódios da sua vida pessoal. Os seus trabalhos de street art e outros projectos comissariados mais vanguardistas, as suas dependências aditivas por drogas e álcool, e a sua vida familiar, que passou por altos e baixos, torna a narrativa deste documentário um navio que parte de uma bela aventura ingénua e idealista para um naufrágio cáustico.

Have you Seen the Listers, cartaz

Eddie Martin realiza o documentário muito suportado em imagens de arquivo registadas pela família Lister. A narrativa revela os momentos mais criativos e obsessivos de Anthony, a sua dinâmica familiar e as fases por que passaram. Um documentário muito intimista que não esconde os dramas vividos pelo casal e pelos filhos, as resiliências que o fizeram ir à busca do seu reconhecimento. Anthony durante a fase de expansão do seu trabalho artístico contou com o apoio da sua mulher que o convenceu a ir para Nova Iorque firmar o seu espaço internacional, ao ponto de abnegar a sua própria vida também de artista para cuidar da família que ia crescendo rapidamente. Com 3 filhos, uma casa para gerir e uma vida familiar para cuidar, Anthony, embora relacionando-se com muita cumplicidade com a sua mulher e (até à época em que estiveram casados) melhor amiga, traiu-a e colocou em causa qualquer estrutura que poderia manter a família unida, situação que arruinou o elo tão interessante e bonito.

Have you Seen the Listers? é um conto angustiante da ascensão à fama artística do artista nascido em Brisbane, de uma linha que atravessa os primeiros momentos familiares felizes a um estilo de vida muito instável, crises, drogas e uma separação esmagadora.

Have you Seen the Listers? não se esconde atrás da superficialidade de uma biografia que se pretende bonita, traz à superfície os traumas presentes na vida do artista de rua, que veio de uma família desestruturada com carências afectivas causadas pela ausência do pai. Trata-se tanto de paternidade e vida familiar, assim como de explorar a sua ascensão de artista que passa da conservadora Austrália para Nova Iorque, desafiando os códigos da arte e deixando a sua marca nas galerias e na rua. Anthony mostra a sua liberdade criativa, frenética, alheia à realidade muito focada nos seus desenhos, mas exibe também a sua incapacidade em manter uma vida familiar saudável sujeita a colapsos graves que jamais podem ser superados. Um artista ligado intimimamente ao gesto da arte, mas sujeito à própria condenação corrompida pela ascensão. 

O documentário leva-nos à reflexão sobre a importância da vida, insurge-se então a questão: será apenas importante o que fizemos com a vida, ou será, sobretudo, o que fizemos com quem se sacrificou por nós?

Texto: Priscilla Fontoura
Numa Relação Séria com a Netflix: Have you Seen the Listers? (2017)

Felizmente há sociedades que estão na linha da frente no que respeita a lidar com as vicissitudes das realidades existentes. A série nórdica...


Felizmente há sociedades que estão na linha da frente no que respeita a lidar com as vicissitudes das realidades existentes. A série nórdica Bonus Family, criada por Clara Herngren, Felix Herngren, Moa Herngren e Calle Marthin, tem como eixo central um casal que pretende constituir uma nova família que depende ainda das responsabilidades anteriores de outros casamentos para se auto-gerir da melhor maneira. Os filhos de outros matrimónios têm problemas de adaptação a uma nova família, nesse sentido a narrativa atravessa desafios emocionais e logísticos difíceis de administrar. 


Bonus Family é uma "dramedy" que partilha semelhanças com as questões existenciais presentes na série norte-americana This is Us. Este exemplo de família alargada desprende-se do conceito de família nuclear. Não obstante esta transição assumir pontos negativos, tais como a falta de privacidade que criam momentos caricatos e coloca, por sua vez, em contacto directo pessoas com quem não se tem afinidade à primeira vista; traz, por outro lado, à superfície uma das vantagens que reside na capacidade de sociabilização que uma família alargada tem, consegue, por isso, lidar gradualmente com a noção de diferença que quebra as barreiras da separação e do preconceito. Este tipo de família abre-se, portanto, mais facilmente à diferença.

Bonus Family, cartaz

Bonus Family, apesar de passar uma estrutura leve e fácil de acompanhar, sobrevive também dos contornos mais complexos das histórias das personagens, levando-nos a questionar certas situações sob o ponto de vista ético e moral. 

Uma série para ver durante a quadra natalícia para quem não segue um regime mais tradicional programático. Pessoalmente, uma série que depois de vista deixou muitas saudades, por provocar um sentido de pertença e identificação. 


Texto: Priscila Fontoura

Na Arménia as crianças aprendem desde a sua entrada para a escola a matemática do xadrez. Muitos cidadãos do Leste europeu procuram também n...



Na Arménia as crianças aprendem desde a sua entrada para a escola a matemática do xadrez. Muitos cidadãos do Leste europeu procuram também na destreza deste jogo a satisfação da passagem do tempo que coloca em combustão os neurónios e apura o sentido estratégico.


Claro que quando se aproxima a quadra natalícia as séries, filmes e outras distracções televisivas e cinematográficas fazem-nos passar grande parte do tempo a actualizar o que temos na lista para ver, o momento atípico que ficará marcado na história do planeta Terra ajuda também a essa missão. O que a série The Queen's Gambit tem de atraente é o facto de escolher para protagonista uma mulher que domina o xadrez, numa altura em que o mundo era completamente dominado pelos homens. A série distribuída pela Netflix faz do xadrez um jogo mágico e misterioso, levando os espectadores mais curiosos a descarregarem aplicações do jogo de tabuleiro e traz, também, à superfície a discussão sobre a competitividade presente nesse meio ainda tão sexista. 



Elizabeth Harmon (Anya Taylor-Joy) é uma orfã prodígio do xadrez que com a ajuda dos "comprimidos verdes" e do seu mentor Sr. Shaibel não resiste a participar e a competir num submundo ocupado por homens. Embora muitos dos apelidos dos seus contra-estrategas serem judeus, a série mostra toda a ambiência evidente nos EUA dos anos 60, das cores garridas e da vaidade de mulheres bem vestidas que idealizavam o seu mundo profissional nos mesmos lugares dos homens. A obsessão de Beth em tornar-se num prodígio, que vai-se assumindo num compasso rápido graças à sua inteligência espacial e ao consumo de tranquilizantes que alteram a mente, acaba por concretizar-se não só devido à sua sobredotação, mas também ao tempo que dedica a conhecer todas as possibilidades deste jogo tão complexo.


A série de drama desenvolvida por Scott Frank e Allan Scott é baseada no livro homónimo, escrito por Walter Tevis lançado em 1983.


Texto: Priscilla Fontoura
Numa Relação Séria com a Netflix: The Queen's Gambit (2020-)

O documentário de longa duração Joan Didion: The Center Will Not Hold  atravessa a viagem que se faz à volta da vida da escritora. O retrato...


O documentário de longa duração Joan Didion: The Center Will Not Hold atravessa a viagem que se faz à volta da vida da escritora. O retrato biográfico realizado pelo seu sobrinho Griffin Dunne põe a descoberto as vontades e o caminho que a escritora traçou ao firmar-se no contexto da literatura e do jornalismo.

No desenrolar do documentário percebe-se a ligação entre ambos, um trabalho expositivo que mostra o lugar de Didion no mundo e as tragédias com que, inevitavelmente, se deparou. Ao longo da narrativa vamos percebendo a ligação e o à vontade implícito na relação entre os dois familiares, que, a não existir o laço que os une, não passaria a fronteira do politicamente correcto e não traria à tona os momentos mais sensíveis inerentes à vida de Joan Didion.


Joan Didion: The Center Will Not Hold é montado sem descurar a poética da bolha analítica e reflexiva onde sempre habitou Joan Didion, o espectador é levado a mergulhar nos momentos mais emocionalmente stressantes, passado e presente, com interrupções da sequência cronológica narrativa pela interpolação de eventos ocorridos anteriormente.

Joan Didion cresceu num seio familiar onde ler, aprender e trabalhar em torno da literatura seria o treino obrigatório para um futuro bem sucedido. Facto é que Joan Didion destacou-se com as palavras que colocava nas folhas consideradas refresco em dias que os homens assumiam a escrita nas redacções.

(...) tinha sido treinada, desde criança, a ler, a aprender, a trabalhar, a ir em busca da literatura. Informação era controlo. 
- O Ano do Pensamento Mágico -

Nascida em Sacramento, Didion estaria interessada em histórias peculiares, tratava-as sem igual, olhava para as mesmas sob a perspectiva mais neutra e imparcial possível, quando aplicadas em artigos ou reportagens jornalísticas.

Após adquirir o grau de bacharel, a sua mãe encorajou-a a inscrever-se num concurso que acabou por vencer e cujo prémio seria trabalhar na Vogue de Nova Iorque. Não vislumbrava o seu futuro casada, mas a evolução natural da vida adulta trouxe-lhe o que era normal naquela altura, um casamento. Tanto John, também jornalista e um apaixonado pela escrita, quanto Joan queriam muito ter filhos, a dificuldade de Joan para engravidar impeliu o casal a adoptar Quintana Roo Dunne. Não obstante algumas crises por que passaram ao longo do matrimónio, o elo que os mantinha seria a paixão pela escrita, a cumplicidade que os tornara parceiros de caneta.

Sempre a precisar de mudanças geográficas, São Francisco, Califórnia (Malibu), Nova Iorque, essas variações territoriais tornavam-se apoio para os quebra-cabeças dos acontecimentos trágicos que acompanhava enquanto jornalista, como o caso de Charles Manson que seguiu com proximidade. Dias antes tinha almoçado com uma “das discípulas de Charles Manson” que teria passado diante da casa de Didion, talvez mais uma possível vítima do tão conhecido acto de homicídio colectivo Tate-LaBianca.

Apesar do seu olhar analítico e às vezes distanciado, a identidade de Didion sempre se caracterizou pelo carácter introspectivo e pensativo. Na literatura nunca deixou de parte o seu toque mais emocional. Sempre num tom sincero e honesto, Didion admite que o relacionamento com John não era fácil, tinha mau feitio e estava sempre chateado. Quando John falece, talvez por não ter conseguido lidar com a notícia de que Quintana, a filha de ambos, estava hospitalizada por motivos graves de saúde, o seu mundo desabou. Na mesma altura Didion perdeu de vez o seu chão quando o seu marido e filha falecem. Das muitas publicações de Didion, talvez a mais visceral terá sido O Ano do Pensamento Mágico. Ainda que “se escondendo” por detrás de um discurso neutro, Didion não se separa do tom confessional que a faz buscar razões que desconhece e para as quais nunca se está preparado, o luto.

“A dor da perda acaba por ser um lugar que nenhum de nós conhece até o alcançarmos. (…) Podemos esperar a frustração, ficar inconsoláveis (…) Não esperamos ficar literalmente loucos ou ser ‘a mulher calma’ que acredita que o marido está prestes a regressar dos mortos” E conclui: “Nem podemos conhecer, de antemão (e aqui está o cerne da diferença entre a dor como a imaginamos e a dor como ela é) a infindável ausência que se segue, o vazio, o preciso oposto de sentido”.

Didion viveu os loucos belos anos 60 e 70, altura em que o movimento hippie evidenciava-se da cultura ocidental, conviveu com muitas figuras públicas, entre elas: Jim Morrison, Janis Joplin, Harrison Ford, Steven Spielberg e outros realizadores. No entanto a escritora distanciava-se paulatinamente daquela realidade e do próprio mundo, interrogava-se e vivia em constante estado de alerta por não se sentir em parte nenhuma. Entre os percursos profissional e pessoal, o documentário Joan Didion: The Center Will Not Hold reflecte sobre uma notável carreira que nunca ignorou a característica mais importante da sua vida, a honestidade da escrita que a liga aos outros e a si mesma.

Texto: Priscilla Fontoura
Numa Relação Séria com a Netflix: Joan Didion: The Center will not Hold (2017)

Quando Fidel Castro assumiu o poder após a derrota de Fulgêncio Baptista, em 1959, tornou-se primeiro-ministro de Cuba, cargo que ocupou até...


Quando Fidel Castro assumiu o poder após a derrota de Fulgêncio Baptista, em 1959, tornou-se primeiro-ministro de Cuba, cargo que ocupou até 1976, ano em que passou a Presidente do Conselho de Estado e de Ministros. Muitos cubanos depositaram confiança naquele que prometia romper com a dependência dos Estados Unidos e estreitar relações com a União Soviética. Algumas transformações sociais foram implementadas com o objectivo de melhorar as condições de vida da população e consolidar o novo regime.

Adoptando um modelo marxista-leninista de desenvolvimento, Castro converteu Cuba num Estado socialista unipartidário sob a direcção do Partido Comunista, o primeiro do género no hemisfério ocidental. A aproximação à União Soviética agravou as tensões com os Estados Unidos, culminando num período de forte hostilidade entre os dois países. A indústria e os negócios foram nacionalizados e reformas socialistas foram aplicadas em toda a sociedade.

Em 1962, a instalação de mísseis soviéticos na ilha desencadeou a Crise dos Mísseis de Cuba, um dos momentos mais críticos da Guerra Fria.

A ascensão de Castro trouxe profundas alterações sociais: bairros degradados deram lugar a habitações estruturadas e o ideal de igualdade social tornou-se uma bandeira do regime. Contudo, quando a União Soviética se desmembrou, no início da década de 1990, Cuba perdeu o seu principal parceiro económico. A dependência financeira revelou-se frágil e o país entrou num período de grave crise, conhecido como “Período Especial”, marcado por escassez alimentar e racionamento severo.

As reformas do planeamento económico central permitiram alcançar indicadores sociais relevantes, como a erradicação do analfabetismo e uma das mais baixas taxas de mortalidade infantil da América Latina. No entanto, estes avanços coexistiram com um controlo estatal rigoroso, a limitação da liberdade de imprensa e a repressão da dissidência interna.

Os materiais com que os médicos trabalhavam eram frequentemente rudimentares, e o salário de um médico podia ser inferior ao de um taxista. A sociedade cubana dividiu-se entre os que permaneceram fiéis ao regime e os que emigraram em busca de liberdade e melhores condições de vida.

Cuba and the Cameraman
Cuba and the Cameraman

Cuba and the Cameraman foi filmado ao longo de 40 anos. O realizador John Alpert construiu uma relação de proximidade com os seus interlocutores, fazendo de Cuba uma segunda casa. O documentário revela também a relação singular que conseguiu estabelecer com Fidel Castro. Se inicialmente essa ligação parecia próxima e exclusiva, à medida que os problemas sociais se tornam mais evidentes, percebe-se um progressivo distanciamento.

Vencedor de 15 prémios Emmy, John Alpert acompanha o percurso de três famílias cubanas ao longo de quatro décadas conturbadas. A sua abordagem é participativa e directa, combinando imagens de arquivo com entrevistas e momentos de forte envolvimento pessoal.


  


Fidel Castro foi uma figura mundial profundamente controversa. Condecorado com vários prémios internacionais, é elogiado pelos seus partidários como defensor do socialismo, do anti-imperialismo e da soberania nacional. Para os críticos, foi um ditador cuja governação implicou violações dos direitos humanos, repressão política e um êxodo significativo de cubanos. Um homem paradoxal que continua a influenciar mentalidades.

Texto: Priscilla Fontoura